Parábola da Aula Final

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Boletim da Ufmg - 1993

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No primeiro minuto da aula final
Passou pela porta um aluno empurrando um carrinho de supermercado com três créditos de Educação Moral, disciplinas do ciclo básico, listas de chamadas e notas, perguntando onde era o caixa onde ele poderia trocar as mercadorias por um diploma.

No terceiro minuto da aula final
Pregaram no quadro os novos preços da matrícula, que incluíam suguro-desemprego, a taxa de filosofia do ensino pago e outra porcentagem não identificada, mas que era o resto de uma dívida contraída pelo governo durante a ocupação francesa.

No quinto minuto da aula final
Um aluno, usando camiseta com inscrição da Harvard University, perguntou se era prá copiar ou prestar atenção.

No décimo minuto da aula final
Uma aluna de nota baixa protestou, apresentando quatro atestados de óbito de parentes próximos e cinco atestados médicos, exigindo a nota máxima já que, alem da dor pela perda dos entes queridos, tinha ido ao psicanalista oito vezes só nesse bimestre.

No décimo-terceiro minuto da aula final
A chefia convocou, pelos alto-falantes, os velhos arapongas da extinta assessoria de informação da universidade, para checar uma inusitada aglomeração de mais de dois professores na biblioteca.

No décimo-oitavo minuto da aula final
O aluno usando o botton “I love Maluf” esbravejou que a Associação Profissional e o Diretório Acadêmico estavam infestados de subversivos e aproveitadores, e só não tinha, ainda, dado um corretivo em alguém da diretoria porque nunca tinha pago anuidades, assistido a debates ou reuniões, nem participado de qualquer grupo de trabalho.

No vigésimo minuto da aula final
O professor leu uma fichinha ensebada, com o tema da aula, e foi saudado por um visitante da turma de 1943, pela competência de repetir a aula igualzinha a do seu tempo, numa mostra de coerência e fidelidade de princípios.

No vigésimo-primeiro minuto da aula final
O professor explicou que, com a sua nova pedagogia, os alunos não precisavam mais perder tempo com livros e periódicos. Ele já havia executado a dolorosa tarefa de estudar e sintetizado o conhecimento universal numa apostila que estava sendo vendida a preços módicos na secretaria.

No vigésimo-quarto minuto da aula final
Um aluno do canto direito, disfarçado de agente secreto, perguntou – sob risos e insinuações maliciosas da turma – o que ele poderia fazer com o dedo indicador que tinha ficado enrijecido por mais de vinte anos.

No vigésimo-oitavo minuto da aula final
Um aluno de óculos de vidro grosso, fazendo relato de sua pesquisa de iniciação científica, comentou, com incontida alegria, que, apesar das crianças terem desmaiado de fome antes do final, os resultados de sociabilidade e obediência tinham garantido o pleno sucesso do trabalho.

No trigésimo-primeiro minuto da aula final
Uma secretária desastrada deixou cair sua enorme bolsa, espalhando o conteúdo pelo chão da classe. Sorrindo amarelo, ela explicou que bolsa de mulher é assim mesmo, cheia de apetrechos de uso exclusivamente pessoal, enquanto recolhia uma escova de dentes, um tubinho de batom, um telefone, três absorventes, um computador 386 e uma máquina de escrever elétrica com chapinha da universidade.

No trigésimo-quinto minuto da aula final
Um aluno da segunda fila, levantando a sobrancelha esquerda na tentativa de fazer uma expressão de esperteza, perguntou se era prá estudar o que o professor estava falando ou não ia cair na prova.

No quadragésimo-quinto minuto da aula final
Um funcionário da administração, visivelmente emocionado, ergueu um copinho de plástico branco, com café requentado de garrafa térmica, puxando um brinde “aos queridos companheiros alunos, professores e funcionários que, após muitos ofícios, memorandos, carimbos, processos, atas passadas a limpo e listas de chamada, tinham conseguido fazer do departamento uma imensa e inoperante repartição pública”.

No último minuto da aula final
Os alunos foram declarados formados e receberam, em vez de diplomas, uma tatuagem colorida no braço direito – conquista da luta pela modernização dos currículos – e saíram em fila indiana, cantando com entusiasmo uma música estridente e repetitiva, feita por computador, em que o verso principal exultava:
“Agora o conhecimento aqui jaz”.

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