Planejamento Coletivo do Trabalho Pedagógico (PCPT) em Educação Física: A Experiência de Uberlândia

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Blog do CEV - 2019

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Recentemente, um ex-aluno da Faculdade de Educação Física solicitou que fizesse a análise de um trabalho que enviaria a um congresso, tratando do tema do planejamento de ensino na Educação Física.

Nesse contexto, chamou a minha atenção o fato de que este limitou-se a considerar o planejamento como uma “ferramenta de trabalho” destinada, basicamente, a elaborar “Planos de Aula”, questão esta que, imediatamente me fez voltar ate os anos 1980 e 1990, quando orientados por uma perspectiva positivista da Educação Física era comum que os/as estudantes e professores/as de Educação Física adquirissem e reproduzissem essa visão sobre o planejamento de ensino.

Depois de perceber que na realidade vivida este tipo de visão encontrava-se relacionada com uma abordagem restrita-tecnicista da Educação Física, sentimos a necessidade de mudar isso partindo de uma experiência de formação continuada de professores/as desenvolvida inicialmente por um coletivo de docentes da Faculdade de Educação Física (FAEFI) e da Escola de Educação Básica (ESEBA) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Experiência esta, que terminou sendo transformada numa significativa sistemática de planejamento e intervenção político-pedagógica posteriormente conhecida com o nome de PLANEJAMENTO COLETIVO DO TRABALHO PEDAGÓGICO – PCTP/EF (MUÑOZ PALAFOX, 2001; 2002; 2004a; 2004b; AMARAL, 2004; TERRA, 2004; MUNIZ, 2019).

Fiel ao trabalho desenvolvido por esse coletivo, o qual ampliou as suas atividades a processos de formação continuada de professores das redes públicas de Uberlândia e outros municípios do país ao longo dos anos 2000, além de enviar material de estudo para o ex-aluno, deixei a sugestão de que ele refletisse sobre o fato de que o planejamento, longe de ser uma “ferramenta de trabalho”, trata-se de um complexo processo cognitivo/racional que utilizando-se da reflexão teórica  e da experiência, tem como finalidade contribuir com a construção e reconstrução sistemática daquilo que denominados didaticamente de “realidade intencionalizada” pelo pensamento e a escrita para intervir estrategicamente na realidade vivida, tendo em vista a sua transformação (MUÑOZ PALAFOX, 2002).

Em outras palavras, o ato de planejar,  longe de tratar-se de uma “ferramenta”, é, na verdade, um processo construído racionalmente ao longo da história da humanidade para compreender a realidade com a intenção de “projetar” esta para a sua transformação utilizando-se de estratégias de intervenção, essas sim, dotadas de um ou mais métodos de ensino e suas respectivas “ferramentas” e técnicas de utilização. E foi justamente por esse motivo que, do ponto de vista do PCTP/EF, a opção foi abandonar de vez essa ideia de construção de “planos de aula” e substituí-la pela construção sistemática de Estratégias de Ensino. Termo inventado no inicio dos anos 2000 no âmbito desta sistemática de planejamento e intervenção pedagógica.

Vale destacar aqui, que do ponto de vista ideológico, apreendemos que essa ideia de planejamento como “ferramenta de trabalho”, fez (e ainda continua a fazer) parte de uma concepção tecnicista-restrita de Educação Física que sempre primou por defender e fazer valer a ideia de que o trabalho do/a professor/a deveria “privilegiar” a prática partindo do pressuposto de que a teoria seria tudo aquilo que implicasse tanto em “estudar”, “pensar”, “refletir” os fundamentos da Educação Física, quanto “planejar” as suas atividades. Ideologia esta que nos permitiu constatar nas décadas de 1980 e 1990, a presença de uma terrível aversão por parte significativa de professores e professoras tecnicistas em relação à teoria. Isto, considerando que para nós, este problema encontrava-se relacionado, na verdade, com os conteúdos das faculdades de Educação Física da época, extremamente distantes do que acontecia na realidade vivida na educação pública do país.

Por outro lado, estas lembranças trouxeram a minha consciência outras nunca publicadas, mas que do meu ponto de vista contribuíram para influenciar a construção da sistemática PCTP/EF em Uberlândia, e estas tem uma relação especial com duas pessoas que tive oportunidade de conhecer logo depois que cheguei ao Brasil em 1985, as quais representam para mim, algo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz numa entrevista recente: que existem pessoas que você aprende a gostar delas independentemente de saber se elas gostam ou não de você.

Uma delas trata-se do professor Laércio Elias Pereira, não somente por ter-se tornado meu “compadre” por ser padrinho de casamento. Laércio é uma dessas pessoas que não consegui deixar de gostar e de admirar, nem mesmo quando decidiu apoiar e aderir à causa do CONFEF, da qual eu sempre fui um feroz crítico....

Diferenças a parte, depois de ter sido “cooptado” (ou convencido) por Laércio durante os anos 1980 para ministrar inúmeros cursos da então bastante desconhecida área de informática na Educação Física, assim como, também, de ser convencido por ele para cursar uma disciplina do mestrado na Universidade de São Paulo, que tratava sobre o futuro da tecnologia da informação onde eram discutidas coisas como “internet”, conviver com ele foi, sem dúvida, uma experiência inesquecível. Não somente pelo seu incrível bom-humor, cultura e enorme visão de futuro mas, também pelo fato dele sempre trazer na cabeça a necessidade de insistirmos na leitura de obras como aquela do professor Auguste Listello para aprender a pensar sistematicamente a Educação Física e coloca-la em prática como um processo de desenvolvimento integral dos sujeitos, mais generalista, do que especialista.

Lembrando que Laércio reclamava demais por entender que o pessoal parecia não gostar muito de ler a obra deste professor francês, ocorre que a leitura do livro “Educação pelas Atividades Físicas, Esportivas e de Lazer” (LISTELLO, 1979) me permitiu perceber uma questão da qual não lembro se já estava em discussão na época. Trata-se do fato de que, independentemente da aproximação da obra desse autor a uma abordagem “esportivista”, sempre pensei que este tentava nos dizer que a Educação Física não poderia ser vista unicamente como um conjunto de métodos e técnicas de ensino relativos à aprendizagem escolar, mas que seria necessário desenvolver toda uma sistemática de organização e de planejamento institucional capaz de dar sustentação ao ensino e às vivências proporcionadas pela Educação Física ao longo da vida dos estudantes, aspecto este que, dada a minha formação no campo do Currículo, tornou-se alvo de parte da minha práxis acadêmica.   

           Por outro lado, também tive a oportunidade de conhecer e conviver na mesma época que conheci a Laércio, outra pessoa admirável pelo seu enorme espírito de luta, coerência política e conhecimento a respeito da história deste país e particularmente da Educação Física. Trata-se do professor Lino Castelhani Filho.

Além da relevante contribuição que, sem sombra de dúvidas, Lino trouxe para a formação crítica dos professores e das professoras que sempre lutaram pela democratização do país e da Educação Física no meio escolar - dentro dos quais eu me incluo -, ocorre que depois dele presenciar a minha apresentação numa conferência realizada no IX Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte  de 1995 na cidade de Vitória, ele fez uma série de ponderações e terminou sugerindo a utilização do nome de PLANEJAMENTO COLETIVO DO TRABALHO PEDAGÓGICO para designar a experiência interdisciplinar de formação continuada de professores/as em serviço que estávamos vivenciando em Uberlândia, tal como relatado anteriormente.

Ao voltar a Uberlândia, contei este fato e a sugestão de Lino foi avaliada e aprovada por unanimidade pelos/as integrantes de nosso grupo, sendo denominada carinhosamente como PCTP/Educação Física.  

Graças a pessoas como Laércio, Lino dentre outros/as colegas de profissão que sempre contribuíram com a nossa práxis, hoje sabemos que o ato de planejar exige de todo profissional da Educação Física Escolar, a necessidade de apreender a pensar a realidade em suas múltiplas contradições e condicionantes, derivando disso a construção de princípios ético-filosóficos, diretrizes pedagógicas, objetivos e ações, necessários para “visualizar” e “intencionalizar”, pela via do “pensamento e a escrita” as nossas reais intenções político-pedagógicas no meio escolar, incluindo aqui, não somente a organização do tempo escolar, mas também dos espaços, dos materiais escolares e do próprio trabalho coletivo necessário à construção de uma escola e uma Educação Física com pretensões democráticas, inclusivas e multiculturais, destinada a contribuir, de fato, com o desenvolvimento integral dos sujeitos.

Referências

AMARAL, G. A. A. Planejamento de currículo na Educação Física: possibilidades de um projeto coletivo para as escolas públicas de Uberlândia/Minas Gerais. Revista movimento V. 10, número 1. Janeiro – abril, 2004. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.2828. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2829>. Acesso em 16 Ago. 2019.

LISTELLO, A. Educação pelas Atividades Físicas, Esportivas e de Lazer (1979) São Paulo: EPU, Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.

MUNIZ, L. S. Projeto político pedagógico: um exemplo para você elaborar o seu. Revista Gestão Escolar (Digital). Julho, 2019. Disponível em:

<https://gestaoescolar.org.br/conteudo/2206/projeto-politico-pedagogico-um-exemplo-para-voce-elaborar-o-seu>. Acesso em 23 Jul. 2019.

MUÑOZ PALAFOX, G.H. Intervenção e Conhecimento: A necessidade do Planejamento e da Formação Continuada para a transformação da prática pedagógica. 2001. Tese (Doutorado em Educação – Currículo). Programa de Pós-graduação em Educação, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2001. Disponível em: <https://tede2.pucsp.br/handle/handle/21999#preview-link0>.

MUNOZ PALAFOX, G.H. (ORG.). Planejamento Coletivo do Trabalho Pedagógico: A Experiência de Uberlândia: (Primeira Edição) Edigraf/Casa do Livro, 2002.

MUNOZ PALAFOX, G.H. Planejamento Coletivo do Trabalho Pedagógico da Educação Física – PCTP/EF como Sistemática de Formação continuada de Professores: A Experiência de Uberlândia. Revista movimento V. 10, número 1. Janeiro – abril, 2004b. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.2828. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2828>. Acesso em 16 Ago. 2019.

TERRA, D. V. Orientação do trabalho colaborativo na construção do saber docente: a perspectiva do planejamento coletivo do trabalho pedagógico (PCTP). Revista movimento V. 10, número 1. Janeiro – abril, 2004. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.2828. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2831/1444>. Acesso em 16 Ago. 2019.

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