Prática de Ensino em Educação Física: Vivências no Colégio de Aplicação da Ufrj

Por: Marcelo da Cunha Matos.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Ao longo da formação de um universitário, é de extrema importância para ele estagiar numa área de atuação compatível com seu objetivo profissional a fim de ganhar experiência e poder colocar em prática todos os aprendizados que foram passado durante o período na faculdade. A proposta de enfocar uma perspectiva diferenciada no aprendizado da Educação Física traz consigo inúmeras dificuldades importantes no processo de construção de professores preocupados com a qualidade de ensino.

A aprendizagem é um processo de reconstrução da experiência que o aluno faz ao descobrir o significado que essa tem para ele próprio e também para seus colegas. Nós, futuros professores de Educação Física, temos que estar atentos ao mundo do educando e para o fato de que o interesse e a curiosidade espontânea do aluno não motivarão e direcionarão por si próprios a sua capacidade de aprender. Há necessidade, além das atividades curriculares, programações bem pensadas que incluam o jogo, o lazer, a dança, a arte, a cultural nacional.

O dever da prática de ensino: suas funções pedagógicas

Momento fundamental no processo de formação de professores, a prática de ensino é responsável por situações de aprendizado de grande valor por oportunizar condições para a aplicação de todo o conteúdo teórico assimilado durante a graduação. Sendo assim, a qualidade da formação dos futuros docentes depende, em grande parte, de um aprendizado rico e bem estruturado.


A qualidade desta prática de ensino é resultado de um conjunto de fatores e deveres que dizem respeito aos diversos agentes deste processo educacional. Deste modo, todos possuem responsabilidades importantes que não podem ser ignoradas. Cabe a cada um cumprir suas funções de forma integrada com os deveres das outras partes, produzindo, assim, um ambiente equilibrado e propício a grandes avanços pedagógicos.

Através do que foi assimilado durante o curso, acreditamos que isso só será possível quando o tema a ser discutido e aprendido é contextualizado dentro do que podemos constatar no cotidiano através de exemplos práticos; quando há um engajamento entre as diversas disciplinas, determinando, desta forma, que o conhecimento não é estanque; que as diversas inteligências devem ser estimuladas e respeitadas, na medida em que cada ser humano é único e, portanto um universo de possibilidades e de desafios (GARDNER, 1995); e que esta aprendizagem valoriza o desenvolvimento da autonomia, a liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação para que o aluno desenvolva seus talentos e assuma a direção do seu próprio destino (FREIRE, 1996).

No que concerne à Educação Física, os licenciandos devem absorver este engajamento supracitado e pôr em prática, explorar a importância da disciplina no espaço escolar e fundamentar, em análises crítico-reflexivas, suas ações pedagógicas.

A prática de ensino vista pelos licenciandos

Ainda hoje, vemos muitos alunos na faculdade de Educação Física que ao ingressarem no curso escolhem como opção a licenciatura mesmo sem saber ao certo o que isto significa. Muitos, portanto, visam trabalhar no ramo do fitness, academias, clubes, treinamento de atletas etc e vêem a escola como uma opção complementar. Acreditamos que esta visão estereotipada de alguns graduandos gera uma aversão a prática escolar quando eles se deparam com esta área, sendo obrigados a trabalhar nela, como é o caso da Prática de Ensino.

Além disso, alguns problemas da disciplina como, por exemplo, a obrigação de estagiar no CAp/UFRJ que, para muitos é um local bastante longe, a carga horária restrita das aulas, faz com que muitos tenham grandes dificuldades em encaixar o horário da Prática de Ensino em sua vida diária.

É válido ressaltar que tal cadeira só pode ser cursada no último ano da faculdade por no mínimo dois semestres até completar trezentas horas de estágio supervisionado.

Assim, o que vemos são licenciandos desmotivados e, por conseqüência dessa falta de interesse, aplicam aulas de cunho tecnicistas, reducionistas, não privilegiando a autonomia e formação corporal do corpo discente. Além disso, o currículo da Educação Física no CAp/UFRJ possibilita este procedimento pelos alunos, pois a maioria dos professores da escola aparentam estar acomodados e sem reciclagem profissional.

Objetivos


Sendo assim, temos a intenção de analisar e pôr em discussão o verdadeiro papel da Educação Física no Colégio de Aplicação da UFRJ.

Através de nossas vivências, poderemos perceber suas virtudes e possíveis dificuldades que o colégio tem passado.

A dinâmica de funcionamento do CAp/UFRJ foi sempre pautada por um intenso engajamento político-pedagógico, voltado para os interesses maiores da Educação Pública, e para a formação de cidadãos críticos e atuantes, capazes de contribuir para a transformação do quadro cultural e social brasileiro.

Produzir no corpo discente autonomia corporal e senso crítico sobre questões sócio-culturais da sociedade brasileira, através dos conteúdos propostos pela disciplina educação física, seja através dos aspectos motores e/ou afetivos é o nosso maior objetivo como licenciandos, que temos a possibilidade de intervir pedagogicamente nas aulas de Educação Física.

Situação atual

O relato de experiência proposto pelo presente trabalho acadêmico descreve o estágio supervisionado obrigatório para a colação de grau, vivenciado por um grupo de licenciandos da UFRJ. Após a assimilação, nas aulas de didática especial I, de conceitos e conteúdos importantes para a confecção de um plano de curso, o grupo traçou estratégias, discutiu propostas e chegou a um objetivo comum: elaborar um plano de curso bimestral que fosse capaz de oferecer ricas situações de aprendizado.

Seguindo este contexto, surge a idéia de se aplicar uma prática interdisciplinar, o qual estimula a pesquisa, a curiosidade e a diversidade no aprendizado. Cavalcanti (2004) capta a importância desta prática, afirmando que a abordagem interdisciplinar permite que conteúdos os quais seriam dados convencionalmente, através do livro didático, sejam ensinados e aplicados na prática a partir de atividades que dão sentido ao estudo.

A interdisciplinaridade proposta recebe, em nosso estudo, dupla função: contribuir para a qualidade do ensino nas aulas de educação física e enriquecer o processo de formação de futuros professores.

A proposta escolhida pelo grupo foi de trabalhar o voleibol, conteúdo específico do segundo bimestre. A intenção de ensinar o voleibol em associação com conteúdos específicos da matemática mostrou-se um desafio para a totalidade do grupo. Afinal, ensinar voleibol a partir da matemática e, ainda, de forma prazerosa para alunos de sétima série exige coragem, conhecimento, criatividade e obstinação.

A aplicação do planejamento de curso se deu, basicamente, através de atividades que visassem ensinar os fundamentos básicos do voleibol. Em tais atividades, a aplicação da matemática acontece a partir das operações fundamentais, expressões e equações matemáticas, geometria plana e problemas de lógica. Na maioria das aulas pelos menos um destes conteúdos estava presente, influenciando diretamente na execução das atividades propostas.

Problemas enfrentados

As dificuldades enfrentadas contribuem para o aprendizado e permitem que novas estratégias sejam lançadas a partir da percepção de erros e falhas que tenham causado prejuízo nas estratégias escolhidas durante o período de prática de ensino. Sendo assim, pode-se dizer que os entraves podem ser divididos em dois grupos distintos: um, referente a prática de ensino em si e outro que diz respeito aos aspectos da interdisciplinaridade e as conseqüências de seu emprego.

Relacionam-se ao primeiro grupo alguns entraves mais importantes que tornaram a prática de ensino mais complicada. Destacamos o limitado tempo de observação de aula prática antes do processo de comparticipação; reduzidas orientações e intervenções do professor titular; desmotivação dos licenciandos relacionadas a tais empecilhos e resistência do corpo discente frente a nós.

Conclusão

Acreditamos que os licenciandos não podem abrir mão de suas obrigações e devem exercer papel preponderante durante todo o processo de prática de ensino. Cabe a nós buscar soluções para problemas de ensino, efetuar planejamentos de curso estruturados e fundamentados teoricamente, aplicar atividades com rigor metodológico, ser criativos, flexíveis, críticos, curiosos e comprometidos com as funções a nós delegadas. Não podemos nos esquecer que os licenciandos e o corpo discente representam a essência deste processo de ensino e que, mesmo se as condições apresentadas pela instituição de ensino e pelos professores titulares não são adequadas, cabe a nós buscar soluções para que a prática de ensino seja a melhor possível.

Obs. Os autores, geógrafo Marcelo da Cunha Matos (marcelocmatos@globo.com) Igor Peçanha Freitas são, ambos, acadêmicos de educação física da UFRJ.

Referências bibliográficas

  • Cavalcanti, Meire; Interdisciplinaridade: um avanço na educação. Revista Nova Escola, São Paulo, edição 174, p. 52 - 55, Agosto, 2004.
  • Freire, Paulo; Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa; São Paulo: Paz e terra S.A, 1996.
  • Gardner, Howard. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artes médicas, 1995.

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