Práticas Corporais Diversas na Educação Física Escolar

Por: Andrea Desiderio.

60 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

Sabe-se que a EF foi inserida na escola, por volta do século XVIII e XIX, por motivos relacionados a área médica e militar, que unidas fortaleceram a questão do nacionalismo, fortificando, educando, endireitando corpos, tornando-os servis á pátria. Após essa ligação direta da EF com a área da saúde e da "ordem" federal o esporte ganhou força devido ao envolvimento com princípios capitalistas de rendimento e concorrência. Muito do imaginário coletivo da sociedade que vivemos apresenta quatro esportes coletivos como sendo os objetos de "estudo" da educação física escolar ainda hoje. Pode-se dizer que esta concepção está sendo modificada desde a década de 1990 devido a pesquisas sobre a cultura corporal. Contudo, pretende-se aqui apresentar a experiência da "ressignificação" do estudo das práticas corporais na aula de EF realizado em uma escola do interior do estado de São Paulo. A proposta de EF que esta escola aborda para as turmas jardim, 1º, 2º, 3º e 4º ano, baseia-se fundamentalmente na pedagogia histórico-crítica (Dermeval Saviani), sendo conhecida na área pelo nome de crítico-superadora e que tem, nos diferentes temas da cultura corporal (ginástica, jogos, lutas, esporte, dança entre outros), seu objeto de estudo. O objetivo principal da pesquisa foi apresentar práticas corporais diversificadas para a "escola" como um todo, buscando legitimar tal abordagem da área. A relevância desta pesquisa está na apresentação de tal proposta e também na iniciativa da "ressignificação" do estudo do corpo na escola.


METODOLOGIA:

Esta pesquisa foi desenvolvida durante dois anos (2006 e 2007), nas aulas de Educação Física (EF) de cinco turmas diferentes da Escola do Sítio, instituição particular de ensino infantil e fundamental, situada na cidade de Campinas, estado de São Paulo. Os participantes tinham idade entre 4 e 10 anos e estavam divididos nas seguintes turmas: jardim, 1º, 2º, 3º e 4º ano. As aulas de EF nesta escola acontecem duas vezes por semana com duração de 50 minutos em locais bastante variados, pois a escola possui grande área verde, com muitas árvores, locais com areia, quadra poli esportiva entre outros. Esta foi uma pesquisa qualitativa com técnica de levantamento de dados direta (levantamento de dados no próprio local onde ocorreram as aulas) e indireta (pesquisa bibliográfica). O levantamento de dados no local foi realizado por meio de observação e registros (escritos da autora e participantes e fotográficos). Para este foi necessário uma máquina fotográfica digital. A proposta de estudo sobre corpo fora planejada pensando que esta deve ser fruto de uma reflexão: diagnóstica, judicativa e teológica. As aulas ocorriam contemplando aspectos históricos, lúdicos e sociais (da interferência das pessoas na transformação do gesto). Devido a um currículo "espiralado" os temas da cultura corporal se repetem anualmente possibilitando aprofundamentos e/ou expansão de conhecimento.


 RESULTADOS:

Pode-se dizer que tal pesquisa atingiu seu principal objetivo com mérito e conseguiu outros ganhos para a área dentro da Escola do Sítio. Optou-se por criar um CD com todas as imagens e depoimentos dos alunos participantes para acervo da professora e escola e que também foi utilizado em encontros com os pais. Este fato deu início ao processo de modificação de "conceitos", por parte das crianças, pais e "escola" sobre o objeto de estudo da Educação Física. Nota-se que atualmente a escola valoriza esta abordagem e está em processo de aprofundamento neste conhecimento. A Escola do Sitio é uma instituição que sempre buscou uma formação diferenciada das demais escolas fazendo-se valer de pedagogias chamadas de "não-tradicionais", sendo assim pareceu ser, e foi realmente, local ideal para a aplicação desta proposta. Os alunos que participaram desta pesquisa e estavam nas turmas mais velhas, os que já haviam vivenciado outra forma de EF inicialmente estranharam e questionavam muito a mudança, solicitando no início o retorno às antigas práticas, ao final da pesquisa foi interessante ouvir os relatos dessas mesmas crianças que gostariam de continuar a EF como fizeram nos últimos dois anos. Os alunos mais novos aderiram à proposta e identificam atualmente a EF como área que estuda a ginástica, a capoeira, o circo, o esporte, as lutas, a dança entre outros. Tal fato nos faz repensar sobre argumentos de professores da área que alegam a não utilização de proposta diferente porque "os alunos não sabem" ou "não gostam".


CONCLUSÕES:

De certa forma buscou-se nesta pesquisa identificar a aceitação, por parte dos participantes e da "escola", de propostas nem tanto convencionais para as aulas de EF e além disso mostrar que há espaço fértil na área para discussões sobre corpo na escola também, não somente nos centros de produção de conhecimento. Além do reconhecimento da direção da escola e corpo docente envolvido as discussões vivenciadas com os alunos participantes foram fundamentais não só na valorização como também na continuidade da pesquisa e também no entendimento do nosso papel na sociedade, afinal "somos corpo". Sendo assim ao identificar mudança significativa da postura da "escola" em relação ao estudo do corpo em movimento, pode-se concluir que conhecendo o projeto pedagógico da escola a implantação de diferentes abordagens será certamente facilitada. Esta mudança também fortaleceu a questão da legitimidade da EF em tal local e para o público envolvido.

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