Projeto Sou Feliz... Ensino Educação Física: Prática de Ensino,uma Vivência Fora da Escola

Por: Caroline Lins Rodrigues.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Projeto

O Projeto "Sou Feliz... Ensino Educação Física" objetiva difundir a Educação Física para as crianças desfavorecidas sócio-economicamente, de modo que a prática da atividade física de forma lúdica as ajude tanto na manutenção de sua saúde como na formação de cidadãos conscientes, com caráter, opinião própria, críticos e principalmente autônomos.

Desde março de 2001, o Projeto "Sou Feliz...Ensino Educação Física" tem desenvolvido trabalhos na área da Educação Física escolar por estudantes universitários de Faculdades de Educação Física da Cidade do Rio de Janeiro, em especial da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ. Objetiva, pela tríade Ensino - Pesquisa - Extensão, complementar a educação básica da Instituição que acolhe menores socialmente desfavorecidos - o Instituto Presbiteriano Álvaro Reis (INPAR) - através da Educação Física, de modo que a prática da atividade física da forma lúdica as ajude tanto na manutenção de sua saúde, seja ela física/mental ou social, como na formação de cidadãos conscientes, com caráter, críticos e principalmente autônomos.

Inicialmente, uma turma de 22 alunos (meninos e meninas) de 7 - 8 anos compreendia os atores. Este número foi ampliado e hoje todas as 320 crianças (3-12 anos) vem sendo atendidas. A partir da Pesquisa-Ação, é possível desenvolver a cultura corporal através de atividades lúdicas na forma de jogos cooperativos, jogos esportivos, jogos simbólicos, entre outros, e também, estimular o interesse das crianças na procura de novas formas de descobrir o mundo, de criar, de vivenciar, de relacionar-se consigo e com os outros e de iniciar-se com dignidade como cidadão brasileiro. As atividades compreendem encontros semanais, com duração de 2 horas, com a Educação Física, até 6 horas com a Iniciação Esportiva.

Essas crianças estão convivendo freqüentemente com a violência. Além disso, há casos em que são frutos da irresponsabilidade de seus pais (quando os têm) carentes de condições psicológicas e/ou financeiras. Assim, acabam tendo um comportamento agressivo, muitas vezes, decorrente de uma sociedade que o desamparou, desiludiu, abandonou e desumanizou.

A Educação Física atual tem como objeto de estudo o movimento humano, não só a ação dos músculos e tendões, fibras, força, resistência e velocidade, mas também o movimento global do ser humano, ou seja, sua ação cognitiva, afetiva, social e, naturalmente, motora. O professor de Educação Física deve trabalhar na criança todos esses aspectos, inserindo-a em situações onde ela deva pensar e planejar sua movimentação, vivendo cada movimento.

Os jogos educam e alargam o campo de ação, ampliam os movimentos; exigem o espírito de observação e do raciocínio; desenvolvem qualidades pessoais e sociais.

A criança, ao brincar, ao experimentar, ao manipular objetos e materiais dos mais variados, está utilizando toda sua energia psíquica, no sentido de desenvolver sua inteligência; está também vivendo situações nas quais a emoção está presente e onde a vida afetiva se expressa. Vive situações onde, em determinado momento, a expressão racional é mais relevante e em outro, é a expressão afetiva que domina.

O professor de Educação Física, pela natureza de seu trabalho, tem a oportunidade de desenvolver os educandos, pois durante o jogo, a criança se expande em toda sua plenitude, revelando suas tendências. Além disso, mais do que qualquer outro, o professor de Educação Física se relaciona afetivamente com seus alunos, pois é nesta aula que as crianças assumem seu lado mais verdadeiro.

Só há aprendizado quando o assunto a ser aprendido é do interesse da criança, como diz Ferreiro & Teberosky (1986), "o homem se assume, cria e constrói o conhecimento em função de um meio que ao longo da vida lhe impõe necessidades, motivações, interesses e conflitos. É nessa dinâmica que as conquistas devem ser entendidas e respeitadas" (p.14). Os professores devem então abordar temas de interesse infantil ou possibilitar que o assunto seja remetido a essa espécie de necessidade, para isso é importante que os professores tenham bastante conhecimento e criatividade, a fim de melhorarem o processo de ensino-aprendizagem, tanto para a obtenção de conteúdo através da vivência, quanto para os alunos que recebem um melhor ensino.

É o movimento voluntário que deve ser trabalhado na aula de Educação Física, não devem ser meras repetições de movimentos tidos como ideais. Os movimentos dessa aula devem ser descobertos pela criança que buscando alcançar uma meta, vai a cada dia superando-se gradativamente, estabelecendo novas formas de conduta e transformando aquilo que já possuía. É a transformação do que é conhecido que gera a construção de novos conhecimentos. Como diz Kamii (1990), "o poder do adulto tem que ser reduzido porque a criança só pode construir regras morais e conhecimentos quando está livre para chegar às suas próprias conclusões de forma autônoma" (p.30-31).

Para a criança elaborar um conceito é preciso o contato com inúmeras vivências para que se dê a internalização de tal conceito. Segundo Piaget (1983), "as raízes do raciocínio lógico terão que se basear na coordenação das ações a partir do nível sensório-motor, cujos esquemas têm importância fundamental desde o início" (p.72). Assim, indicando alguns aspectos fundamentais para a compreensão da importância da ação como meio de construir o conhecimento.

Segundo Vigotsky (1989), "a atividade do sujeito é um importante aspecto da formação da consciência, admitindo igualmente que a imaginação, como todas as funções da consciência, surge originalmente da ação" (p.46). A interação do sujeito é valorizada, acreditando que são as ações deste sujeito que determinam a formação das funções psicológicas superiores.

É de reconhecimento geral que todo e qualquer processo educacional deve procurar atender adequadamente às necessidades biológicas, psicológicas, sociais e culturais da população a que se destina.

O crescente cerceamento à liberdade de brincar, principalmente nas grandes cidades, nas últimas décadas, é causado, dentre outros fatores, por questões de limitação de espaço, aumento de violência urbana, ou, ainda, por uma má compreensão do processo de alfabetização, que infelizmente, muitas vezes, suprime o lúdico da vida da criança.

Face a esta situação, criar condições para o brincar transfere-se cada vez mais da esfera exclusivamente familiar e escolar para a sócio-cultural-institucional, como um todo, onde entidades públicas e particulares necessitam de uma progressiva tomada de consciência da importância do lazer e, sobretudo, de suas estreitas relações com aspectos de saúde física/mental, e suas possíveis interações.

A Educação Física escolar, mesmo fora dos muros da escola, pode não apenas proporcionar possibilidades de brincar, mas também de complementar trabalhos visando o pleno desenvolvimento de crianças e, sobretudo, pelas questões referentes à cultura, permitir a inserção social de forma crítica e emancipadora, o que compreende o resgate à cidadania destas crianças.

Partindo deste princípio, também é preciso que haja professores capazes de atuarem junto a estas comunidades mais necessitadas de atenção. Devido a isso considera-se importante a Prática de Ensino da Licenciatura em Educação Física em locais como o INPAR para uma maior troca de experiências entre os graduandos, graduados e acima de tudo uma melhor qualidade de ensino para as crianças.

O Projeto "Sou Feliz... Ensino Educação Física" começou o ano de 2004 como um pólo da prática de ensino da Licenciatura em Educação Física pela UFRJ. Contando com sete professores e cinco estagiários vem atingindo plenamente seus objetivos, principalmente o de auxiliar na formação de professores capazes de planejar, criar e executar um programa de qualidade, mas especialmente de contribuírem para uma melhora na vida dessas crianças a fim de torná-las indivíduos autônomos.

A prática de ensino se dá em três etapas que constituem o período de observação, o período de co-participação e por fim o período de atuação como professor.

No primeiro período onde se observa as aulas ministradas por um professor, dando ao estagiário a oportunidade de perceber o comportamento das crianças diante das atividades propostas e também o próprio relacionamento entre elas e delas com o professor.
No segundo período que é o de co-participação começa então a interação do estagiário com a turma onde auxilia o professor durante a aula, o que proporciona uma maior ganho de experiência para depois atuar como professor.

No terceiro período onde o estagiário atua como professor, tendo que lidar com todas as dificuldades de uma turma, e sempre sendo observado e avaliado pelo professor.

O conteúdo ministrado segue um planejamento anual para cada turma separada por idade, com temas relativo à cultura corporal. Dentro do conteúdo a ser abordado aos alunos também é oferecida a oportunidade de expressar o que querem aprender, funcionando como uma via de mão dupla onde aprendizagem não se dá apenas no sentido professor- aluno.

Acontece ainda uma vez a cada mês "conselhos", os quais se discute textos relacionados à Educação, Educação Física e afins, comentam-se as aulas, dificuldades, soluções, opiniões, planejamentos, entre outros assuntos de interesse coletivo.

Além de serem realizados para os universitários questionários e solicitados relatórios acerca de sua vivência dentro das atividades realizadas no Projeto, aonde foram salientados o aprimoramento profissional decorrente de interação teoria-prática e trocas com outros profissionais e estímulo à pesquisa. Como ganhos pessoais, a responsabilidade social decorrente do relacionamento com crianças de classes populares: "pude presenciar diversas situações do cotidiano docente, como montagem do planejamento e discussão, seleção de material para a aula e adequação do espaço para a execução da mesma, trazendo grandes benefícios para minha formação", ou ainda: "o projeto, particularmente, contribui de forma positiva para minha vida profissional onde aprendo a cada aula a lidar com situações inesperadas, e com crianças que apresentam os mais variados comportamentos" e: "Acredito ser o projeto importante para nossa formação já que adquirimos vivências que nos possibilitam ter uma maior sensibilidade para construir relações interpessoais e lidar com situações adversas, além de nos proporcionar uma prática pedagógica que não encontramos dentro da faculdade e que em outras escolas em que realizamos a Prática de Ensino não é possível".

Uma educação física escolar comprometida com a questão social da educação se dá através de atividades específicas que possibilitam ao aluno a tomada de consciência de seu corpo nas diversas dimensões: culturais, sociais, políticas e biopsicológicas.

Os autores, Caroline Lins Rodrigues, Diogo Hersen Monteiro, Fábio Cantizano dos Santos Barcellos, Flávia Palhaes Vidal, Giselle Kicia de Almeida, Luciana Bernardes Vieira de Rezende, Luzia Helena Machado Camargo são acadêmicos da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ e foram orientados pelos professores Alex Pina e Tonia Costa

Referências bibliográficas

  •  Ferreiro, E. e Teberosky, A. Psicogênese da língua escrita. Rio Grande do Sul: Artes Médicas, 1998.
  • Gil, A.C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999.
  • Kamii, C. A criança e o número. São Paulo: Papirus, 1990.
  • Ludorf, S. M. A. Metodologia da Pesquisa em Educação Física: conversando sobre a pesquisa e o projeto de monografia. Rio de Janeiro: Edição da Autora, 2003.
  • Medina, J. P. S. A Educação Física cuida do corpo... e "mente". São Paulo: Papirus, 1986.
  • Moyles, J.R. Só brincar?. Artmed, São Paulo: 1989.
  • Piaget, J. Problemas da Psicologia Genética. Lisboa: 1983.
  • Santos, C. A. Jogos e atividades lúdicas na alfabetização. Rio de Janeiro: Sprint, 1998.
  • Taffarel, C.N.Z. Criatividade nas aulas de Educação Física. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1985.
  • Thiolent, M. Metodologia da Pesquisa-Ação. São Paulo: Cortez, 1985.
  • Vigotsky, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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