Proposta de Ante-projeto da Comissão Para Criação de Uma Escola de Educação Física na Uff

Por: Martha Lenora Q. Copolillo.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Apresentação

Esse é um pré projeto que deverá dar origem a um projeto de Escola de Educação Física a ser criada na Universidade Federal Fluminense.

No decorrer das discussões e mesmo durante a fase de redação do que foi discutido, em que lacunas foram preenchidas pelo redator, fomos percebendo a nossa incapacidade em solucionar os inúmeros problemas que iam surgindo. A denominação de pré- projeto em si, já indica que esse é um estudo inacabado que será complementado pelos demais professores do Departamento de Educação Física da Universidade Federal Fluminense, todavia, consideramos que a indicação de inacabado está para muito além do momento em que o projeto estará pronto para seguir os trâmites legais. Temos consciência das dificuldades que teremos para implantar o que idealizamos e sabemos que será experimentando, avaliando, e propondo novas alternativas, num processo continuo, que não deverá ser jamais interrompido, sob pena de nos tornarmos anacrônicos, que iremos aperfeiçoando a nossa proposta.

Pensar o Projeto deste Curso nos provoca a sensação de enorme ansiedade positiva, pois entendemos a oportunidade que temos de poder corrigir os erros que vimos identificando na formação dos professores de Educação Física. Entretanto, não ignoramos as dificuldades que enfrentaremos para concretizar essa tarefa. Os problemas são muitos mas nos dispomos a enfrenta-los. Entendemos não ter a solução ótima, entretanto, envidaremos todos os nossos esforços no sentido de construir a melhor alternativa possível. De uma coisa estamos certo não queremos repetir os erros já cometidos sem ao menos tentar sana-los.

A ordenação das idéias que ora descrevemos são fruto de leituras, de aplicação pratica do que foi lido, de reflexões sobre as leituras e as nossas praticas. Não, foi portanto, feita uma construção em etapas o conhecimento foi se avolumando e se misturando em nossas cabeças em nossas falas, nos textos que escrevemos e em nossas ações. A opção que fazemos pela maneira que ordenamos o projeto é apenas uma das possibilidades que para nós faz sentido. É possível, no entanto, que o leitor, habituado a uma organização de idéias que parte da teoria para a prática, estranhe essa nossa opção. Consideramos no entanto, que ao fim da leitura do projeto as idéias possam ser plenamente entendidas.

Optamos por escrever o texto na seguinte ordem: A Educação Física na Universidade Federal Fluminense, os princípios e conceitos que orientam a nossa análise(1), a história que nos marcou, a Educação Física e sua relação com o momento histórico, a conjuntura, a realidade brasileira, a proposta, e as disciplinas.

"A história da Educação Física na UFF", permitirá ao leitor fazer algumas inferências sobre quem somos nós. O item relativo aos "princípios e conceitos" fornecerá um indicador de porque fazemos as interpretações que fazemos e porque propomos determinadas soluções. A análise dos fatos registrados no item."A história que nos marcou" tem como objetivo nortear a compreensão do raciocínio realizado para chegar a determinadas soluções, como por exemplo, a da necessidade de aliarmos a teoria à prática. O item "A Educação Física e sua relação com os momentos históricos" indica a necessidade de se adequar os conceitos aos diferentes momentos históricos.

Os itens "Analise de conjuntura" e "A realidade brasileira" seguem uma ordem lógica que começou no item "A Educação Física e os diferentes momentos históricos." Se entendemos que a Educação Física esta historicamente situada, para entende-la, hoje, temos que conhecer a atual conjuntura e a realidade brasileira. Finalmente chegamos ao item "As propostas" que nada mais é do que um resumo do que foi discutido durante o corpo do projeto. O último item "As disciplinas" são os instrumentos através dos quais operacionalizaremos as nossas proposta.

A educação física na Universidade Federal Fluminense - um pouco de nós

A Universidade Federal Fluminense (UFF) implementou a Educação Física a partir de agosto de 1975, atendendo uma necessidade legal de oferecer, obrigatoriamente, prática desportiva a todos os alunos nela matriculados.
Essa atitude autoritária do governo ditatorial se baseava na compreensão de que a implantação da Educação Física desportiva na Universidade ajudaria a afastar os alunos dos diretórios e conseqüentemente da luta política. Alem da formação esportiva, um outro objetivo expresso na lei era o do desenvolvimento da aptidão física.

A imposição da Educação Física por força de lei, impediu que a sua implantação fosse fruto de discussões e reflexões enfim de uma decisão fundamentada que resultaria na criação do Setor e sua conseqüente integração à comunidade acadêmica da UFF.
Um outro problema gerado no momento da implantação foi a Educação Física ter sido considerada, administrativamente, como coordenação, enquanto todos os demais setores que se encarregavam do ensino tinham na sua menor célula o departamento e estavam reunidos em Institutos, Faculdades ou Escolas. Estar definido enquanto coordenação contrariava a norma de inserção na estrutura organizacional da Universidade não estando ligada aos Centros Universitários e não fazendo parte dos Conselhos Superiores, estando, portanto, excluída da vida da Universidade e das decisões.

Apesar dessa inserção equivocada da Coordenação de Educação Física dentro da estrutura administrativa da Universidade Federal Fluminense, e conseqüentemente das inúmeras dificuldades decorrentes da classificação burocrática que nos atribuíram os professores do setor, desde a fundação, entenderam-se como pertencentes à área acadêmica, desenvolvendo funções de ensino, pesquisa, e extensão.

Na área da docência, desde os primeiros semestres da criação da Coordenação de Educação Física, desenvolvemos a nossa função de ensino por intermédio da Sub-Coordenação Curricular, hoje denominada de Setor de graduação, através da qual viemos oferecendo créditos para os alunos de todos os cursos da Universidade(2). O que era compulsório até 1992 passou desde então a ser opcional. Fomos uma das primeiras Universidades a voluntariamente decidir que a Educação Física se tornasse uma disciplina eletiva.
Desde o início, desenvolvemos inúmeros projetos de extensão, dentre os principais, podemos citar: a Colônia de Férias de Pinheiral, Cursos de capacitação de professores em Óbidos e Oriximiná, e as Olimpíadas internas da UFF.

Não, nos descuidamos da pesquisa que até então era praticamente inexistente na nossa área. Criamos grupos de pesquisas e realizamos os nossos primeiros estudos. O envolvimento com a produção de conhecimento de forma sistemática e mais as discussões e reflexões que fazíamos sobre a nossa pratica nos levaram em 1976 a organizar um Encontro para discutir as propostas relativas a Educação Física Curricular, que estavam sendo desenvolvidas nas Universidades do Grande Rio.

Dessa forma, logo no primeiro semestre de sua implantação, demonstrávamos nossa determinação/tendência para a efetiva participação da vida universitária da UFF, considerando os objetivos que a norteiam que é do desenvolvimento do Ensino - Pesquisa - Extensão.
O Projeto de implantação dessa Coordenação de Educação Física e Desportos previa, prioritariamente, oferecer as aulas de prática desportiva, sob a forma de iniciação, aos alunos da universidade, sem todavia discriminar aqueles que queriam participar de competições esportivas. Portanto alem das aulas mantínhamos equipes de treinamento. No entanto, desenvolver esta atividade dentro de uma lógica do que considerávamos ser a de um esporte universitário, onde os participantes na sua maioria não eram atletas de nível, local, nacional ou internacional, muitos deles começavam a praticar o esporte na Universidade e por adquirirem o gosto pela atividade passavam a participar dos treinamentos.

Esse foi um período da nossa história em que se dava uma grande importância a formação de atletas em detrimento de uma Educação Física que não considerasse apenas os melhores dotados fisicamente, mas a todos em geral, independentemente de suas habilidades e qualidades. Fato este que foi comprovado por ocasião do Encontro que realizamos em 1976 com o objetivo de identificar o que era oferecido em termos de Educação Física para os alunos das demais Universidades do Grande Rio. Durante esse Encontro pudemos observar que a única dessas Universidades a dar importância aos alunos em geral e não apenas aos atletas era a UFF.

As demais Universidades seguiam uma lógica completamente diferente da nossa que era a da promoção da Universidade através da vitória dos atletas em competições esportivas. Para atender este objetivo elas contratavam através de bolsas de estudos os melhores atletas de cada modalidade para compor suas equipes. Como esse tipo de atitude era incompatível com o que pensávamos, optamos por não escrever nossos alunos em competições oficiais, e nossas equipes só participavam de eventos amistosos. Não participávamos dos encontros da Federação esportiva Universitária que na verdade reproduzia as competições das Federações esportivas não universitárias.

Aqueles atletas tardios que formávamos aqui na UFF não tinham a menor chance de competir com os atletas "profissionais" que compunham as equipes das demais Universidades. Sabemos que atletas de alto nível são formados com base numa preparação intensa e muitas horas de treinamento que começa na infância. Portanto, considerávamos aqueles eventos como uma farsa da qual não queríamos participar.

O treinamento para nós era apenas uma etapa mais avançada do nível de aprendizado que desenvolvíamos na Educação Física curricular, e tinha como objetivo permitir que o aluno que gostava de competir e queria se aperfeiçoar tivesse essa oportunidade.

Na Educação Física curricular passamos a lidar com adultos que na sua grande maioria nunca haviam vivenciado, nenhuma pratica esportiva. Os programas elaborados para as diversas modalidades oferecidas indicavam como nos professores não fazíamos distinção entre aula e treinamento. Consciente ou inconscientemente programávamos um detalhado planejamento extremamente técnico para pessoas que jamais seriam atletas. Gradativamente fomos observando que aquela programação não era adequada para aqueles alunos. Todos se inscreviam na disciplina porque eram obrigados, a maioria ou não tinha tido nenhuma experiência anterior com Educação Física ou tinha tido uma experiência desagradável. Esse quadro nos fez refletir e fomos gradativamente mudando a nossa maneira de dar aulas, procurando reduzir o conteúdo técnico e tornar as aulas mais agradáveis. Ao cabo de alguns períodos entendemos que as técnicas a serem transmitidas aos alunos deveriam ser aquelas suficientes para permitir que eles participassem da atividade e dela tirassem prazer. Essa experiência com alunos adultos, além de nos ter permitido elaborar um método de ensino para aquela clientela nos fez refletir sobre a Educação Física em geral e em muito influenciou os nossos conceitos sobre a disciplina. Hoje, a nossa principal preocupação é em construir uma concepção de Educação Física que não seja excludente.

A meta referente à qualificação dos professores do nosso Departamento foi, inicialmente, bem sucedida, pois apesar da inexistência de cursos "stricto sensu" específicos na área de Educação Física no Brasil, os professores procuraram, realizar a capacitação nos mestrados de Educação, a outra alternativa foram os mestrados específicos da área no exterior. Os conhecimentos, principalmente aqueles advindos da área de Educação, muito contribuíram para melhorar a visão pedagógica que tínhamos da nossa área. Por outro lado, aqueles que buscaram sua capacitação no exterior, nos cursos "stricto sensu" na área específica da Educação Física, também contribuíram com novos conhecimentos e conseqüentemente para alimentar o debate sobre a profissão.

Apesar da falta de tradição em pesquisa, e da ausência de cursos na nossa área os professores procuraram se qualificar, entretanto, dado à falta de condições materiais e recursos para a pesquisa vários desses professores deixaram a UFF. Esse êxodo prejudicou em muito o nosso desenvolvimento, e das várias etapas que prevíamos construir do lato senso ao doutorado, ficamos na primeira, em virtude de número insuficiente de professores com a titulação de doutor.

A qualificação dos professores nos permitiu abrir um novo campo na área de ensino, e no ano de 1989 demos início às discussões com o objetivo de criamos um curso de pós-graduação "lato sensu" na área de Educação Física Escolar. Os cursos de pós-graduação, em Educação Física, privilegiam a área de performance, e raros são os que abordam a escolar. O curso foi efetivamente implantado em março de 1991, com a denominação de "Pesquisa em Sala de Aula" Nos primeiros cursos procuramos conciliar as questões do ensino aliada ao desenvolvimento da pesquisa. Esses cursos se propunham a instrumentalizar tanto os professores para trabalhar no cotidiano das escolas quanto ensinar os primeiros passos da pesquisa. Entendíamos que esses dois objetivos poderiam ser desenvolvidos num mesmo curso e para uma mesma clientela. Entretanto, com o passar dos anos observamos que embora alguns dos nossos alunos se definissem por continuar na escola, uma outra parcela bastante significativa optava por seguir carreira acadêmica. Na verdade, o curso havia se caracterizado mais como uma etapa na vida acadêmica e um trampolim para o mestrado, o que não eram nossos objetivos.

Fizemos adequações no curso que passou ser orientado para as questões do ensino. Tomamos essa decisão por entender que existe hoje, na nossa área, uma grande produção intelectual que não chega às quadras, pistas e piscinas. O desafio assumido era de discutir essa produção intelectual com os alunos do Curso procurando relacioná-la com suas práticas escolares numa tentativa de estreitar a distância entre a teoria e a prática. Após a reformulação, já realizamos onze (11) cursos, trabalhando com quatro (4) turmas por semestre, atendendo cerca de 60/80 profissionais no decorrer do ano. Se considerarmos o que vimos ouvindo regularmente o curso se tornou um referencial na área da Educação Física, especialmente no segmento escolar.

A cada ano desde de 1996 vimos também realizando o Encontro Fluminense de Educação Física Escolar (EnFEFE). Nesse Encontro vários alunos e ex-alunos vêm apresentando seus estudos muitos deles são relatos de experiência o que vem cumprir um dos nossos objetivos que é o estreitamento entre teoria e prática. Alem de permitir a discussão de temas atuais da área, permitindo a atualização dos professores, não só de nossos alunos e ex-alunos como da Educação Física em geral.

A procura por vagas para o EnFEFE vem aumentando a cada ano e as vagas ofertadas chegaram ao limite máximo das instalações disponíveis que é de 600 participantes.

Uma terceira atividade que realizamos, também abordando a Educação Física escolar é um periódico que denominamos de "Perspectivas em Educação Física Escolar" que teve as suas primeiras edições em papel, e que embora indexado no MEC, devido a um custo que não pudemos arcar está sendo transformado numa versão digital.

O curso, o EnFEFE e a revista, são três iniciativas que abordam a Escola, contribuindo para um setor de extrema importância social que vem sendo ignorado em detrimento do mercado. Cabe também mencionar que essas três iniciativas, em especial o Curso e o EnFEFE fecham um ciclo pois os alunos do curso se envolvem no EnFEFE quer seja como participantes quer seja na apresentação de estudos. O EnFEFE é também um momento de encontro entre os ex-alunos do curso e de oportunidade de atualização permanente sobre os temas mais em voga.

A nossa produção cientifica pode, sem dúvida, ser melhorada, e está em nossos planos faze-lo, ainda esse ano. No momento temos um grupo de pesquisa organizado que é o projeto de prevenção de quedas ("Prev quedas") que começou a funcionar em 2001. Outras pesquisas são realizadas por professores isoladamente.

O Prev quedas é desenvolvido em associação com um projeto de extensão. A nossa concepção de extensão é que ela se caracteriza por uma clientela e que deve ser beneficiada pelo conhecimento que produzimos, recebendo ensino e colaborando enquanto sujeitos das nossas pesquisas, numa simbiose em que elas são beneficiadas mas que também possibilitam a nossa produção acadêmica. Seguindo essa lógica temos a 4 anos um grupo de Extensão que se ocupa da prevenção de quedas e já produziu inúmeros estudos publicados e apresentados em eventos científicos.

A nossa condição esdrúxula de coordenação diretamente ligada ao gabinete do Reitor foi sem dúvida um dos empecilhos ao nosso desenvolvimento. Um passo foi dado quando em 1986 passamos a condição de Departamento ligado ao CEG. Embora, a situação ainda não fosse satisfatória pois a nossa participação não vai alem do Centro, consideramos essa nova etapa um avanço pois nos possibilitou, ainda que parcialmente, a nossa inserção na estrutura administrativa da Universidade. Porém, com o tempo, mesmo, a nova situação que assumimos mostrou-se insuficiente para responder a nossa necessidade de participar dos conselhos superiores e conseqüentemente dos centros de decisões da Universidade e verdadeiramente da vida universitária e da educação brasileira mais efetivamente.

Com base no conhecimento acumulado em todos esses anos os professores do nosso Departamento entenderam que era chegada a hora de criarmos uma Escola de Educação Física. Para cumprir este objetivo elegemos uma comissão que ora elabora uma proposta preliminar que será posteriormente discutida por todos os membros do Departamento e resultará de um documento definitivo.


A capacitação individual dos docentes, as discussões e reflexões fundamentadas na prática que desenvolvemos tanto na Educação Física curricular quanto no setor de treinamentos e competições nos deram muitos subsídios que ora nos fazem desejar criar esta escola. Entretanto, um fator fundamental que veio complementar todo esse conhecimento anterior foi o contato que tivemos com os professores que freqüentam os nossos curso de pós-graduação. Percebemos que estes professores têm uma serie de lacunas nas suas formações que poderiam ter sido preenchidas durante a graduação e que acabamos por faze-lo no nosso curso de pós-graduação. O argumento final é que Niterói não tem uma Faculdade de Educação Física numa Universidade pública.

Fundamentação teórica geral

Fundamentos, concepções e princípios do Curso de Educação Física

Estamos procurando situar a proposta que ora construímos, nas nossas concepções, no atual contexto, sócio-político e educacional fundamentado nos caminhos e descaminhos da Educação Física na UFF, a história da Educação Física em geral e a formação dos professores da área no Brasil.

A sociedade brasileira

Vivemos numa sociedade de classes injusta e extremamente desigual, realidade que não ignoramos e a qual não temos a intenção de nos acomodamos. Ao escrever esse projeto procuramos não nos distanciarmos dessa realidade entendendo, todavia que remamos contra a corrente e que uma gama substancial de conhecimento deverá ser produzida para responder as demandas dessa realidade. O nosso objetivo é formar professores que sejam mais críticos e mais conscientes, que entendam melhor a realidade e sejam capazes de nela interferir.

As mudanças que vem ocorrendo no mundo, nesse período que vem sendo caracterizado como o da globalização(3), têm como conseqüências, o acirramento da competitividade, a exacerbação do individualismo, o que é reforçado pelas teorias que dão sustentação ao fim das utopias, semeando a falta de perspectivas e a desilusão. O desafio esta justamente em se ter à ousadia de propor mudanças numa estrutura curricular, tão convencionalmente reconhecida, num momento tão adverso. É neste contexto sem negar as dificuldades, que assumimos a cena como sujeitos do processo educativo. Reconhecemos, portanto, as dificuldades, entretanto, não perdemos de vista que a história é um processo dinâmico e, enquanto tal, apresenta-se como possibilidade do homem pensar outras condições existenciais humanas e buscar mecanismos nos diversos espaços político-sociais para a supera-las abrindo as portas para a efetivação de um novo projeto de sociedade, onde prevaleça a dimensão humana.

O conhecimento relação todo/parte e o ganho de consciência

A quantidade do conhecimento vem aumentando numa progressão geométrica e sendo ensinado de maneira cada vez mais afunilada e fragmentada. Esse processo leva a um distanciamento cada vez maior do todo e conseqüentemente do significado que têm. Portanto, é necessário desenvolver um ensino contextualizado, que só é possível com a ampliação do conhecimento em áreas como a filosofia, sociologia, antropologia e de cultura geral. Conhecimentos esses que terão como objetivo fazer a ligação entre o que é específico seja da educação no seu sentido mais amplo ou da Educação Física em particular, com o mundo real. O ensino dessas disciplinas possibilita, mas não garante a solução do problema, é preciso que ao ensina-las haja a preocupação de fazer essa restauração da realidade. Um outro problema é a fragmentação do conhecimento que está distribuído nas diversas disciplinas e é preciso integra-los.

A quantidade e a qualidade do conhecimento

A falta de definição do que seja Educação Física vem levando as Escolas de formação a cobrirem uma área extremamente vasta do conhecimento e procurando dar um nível de aprofundamento que não nos parece nem adequado, nem possível. A nossa intenção é privilegiar num primeiro momento a formação do generalista, num segundo, e opcionalmente, o especialista. Com essa otimização, o uso do tempo que obtivermos será utilizado para a transmissão de conhecimento referente a formação geral.

Os métodos de ensino deverão respeitar a individualidade dos alunos considerando-os enquanto pessoas que tem uma história de vida, qualidade e quantidade de conhecimentos diferenciados. Eles deverão, portanto ser agentes de construção do conhecimento devendo, participar ativamente enquanto sujeitos do processo. A construção de um conhecimento cada vez mais organizado, racional, analisado e criticado, só é possível através de um ensino que desperte a reflexão e coloque o aluno no centro do processo.

A construção coletiva

O individualismo, que vem se acirrando em decorrência do processo de globalização é um outro problema que nos aflige. Se por um lado entendemos que deve haver uma valorização do sujeito consciente, do individuo, por outro a exacerbação do comportamento individual, competitivo, e mesmo egoísta, é contrário aos interesses do grupo. Não defendemos, todavia a formação de pessoas cooperativas em oposição as competitivas mais pessoas capazes de cooperar, baseadas em suas reflexões e decisões. No nosso curso de formação procuraremos desenvolver instrumentos de valorização das construções coletivas, tanto nas disciplinas quanto no ambiente geral que compõe o curso.

A História concebida como construção, responsabilidade e possibilidade puramente humana, deve ser o referencial para que a pessoa humana se situe de forma crítica e coerente diante do seu tempo e assuma para si o papel de sujeito histórico transformador das condições em que vive.

Assim, sustentamos que temos diante de nós, não só um desafio político, mas um compromisso real com a nossa própria existência e, do ponto de vista do campo educacional, estas se apresentam como tarefas político pedagógicas para ser e estar no mundo como sujeito transformador das próprias condições de vida em que nos encontramos.

Fundamentação específica da educação física

A Educação Física brasileira importou os seus modelos até a década de oitenta, essa importação nos levou a adotar propostas sueca, francesa, americana sem que elas fossem adequadas a nossa realidade. Na verdade era uma Educação Física cujas propostas não só atendiam mais especificamente(4) aos interesses da classe dominante, como também ajudavam a perpetuar ideologicamente os valores dessa classe estendendo-os a todos como se fossem únicos, não considerando conseqüentemente os interesses e necessidades da imensa maioria de excluídos do nosso país. O nosso pensar e o agir são fortemente influenciado pelos valores impostos pela classe dominante que procura mascarar a realidade com o objetivo de nos levar a crer que existe uma só verdade e que os valores são absolutos. Essa estratégia minimiza os conflitos e concorre para manutenção da ordem, perpetuando a sociedade, tal qual ela é (CHAUI, 1990). Se entendermos que as informações, comportamentos e valores transmitidos em sociedade cumprem a função de mascarar a realidade e nosso dever criar uma Escola que desenvolva a capacidade de reflexão critica dos alunos, optando por disciplinas, objetivos e, sobretudo, métodos de ensino que favoreçam a conscientização dos futuros professores.

A Educação Física vem sendo identificada pelas suas atividades, sejam elas os esportes ou os exercícios físicos com fins de aprimorar a saúde ou a estética. As perguntas que temos que nos fazer e para que servem os esportes? Por que eles foram criados? Em que período da história ele foi criado? Que relação a sua criação tinha com a conjuntura? Perguntas como essas devem ser feitas sobre todas as atividades que consideramos serem pertinentes à Educação Física. Ao fazermos essas perguntas estaremos de fato discutindo a sociedade em que vivemos e a que queremos, como entendemos que as pessoas são e como gostaríamos que elas fossem. Como o esporte deve ser utilizado para concorrer para que uma pessoa seja de uma determinada maneira ou de outra. Portanto, a decisão se o esporte deve ou não ser uma atividade da Educação Física dependerá dela preencher os requisitos necessários para ajudar essa área do conhecimento a atingir os objetivos a que se propõe.

Para efeito da proposta de Escola de Educação Física que estamos construindo os esportes, os jogos, as lutas e a ginástica continuarão, provavelmente, sendo atividades pertinentes a nossa área, entretanto, não serão elas que indicaram o que é Educação Física. Os esportes e os exercícios físicos devem continuar existindo, mas não com fim neles mesmos, ou em beneficio do mercado, das glorias de um país, mas sim em beneficio das pessoas. Mas o que então caracteriza a nossa área de conhecimento? Entendemos que uma área de conhecimento jamais pode perder de vista as questões macro que relacionam o que fazemos com valores tais como: igualdade, justiça social, felicidade, consciência, liberdade, etc, entretanto, o que caracteriza uma área de conhecimento são suas especificidades ou seja aquilo que ela produz de diferente das outras áreas, embora reconheçamos a necessidade da interligação entre o que se produz em cada uma delas. Ao fazermos a opção por caracterizar a especificidade da Educação Física não o fazemos livre de influência, mas sim baseado em grande parte nos conceitos que hoje nos norteiam. O esporte é movimento e é estética, pode ser prazer e saúde. A ginástica movimenta o corpo em busca de uma estética mais adequada ao padrão, para melhorar a aptidão física ou melhorar a saúde. Enfim essas atividades consideradas como sendo de Educação Física utilizam o corpo e atuam sobre ele. A Educação Física é uma atividade que lida, o tempo todo, com o corpo, que pode ser, portanto, a sua especificidade.

Cabe, no entanto, dizer que o corpo ao qual nos referimos, não deve ser confundido com o corpo matéria que não pensa e nem é influenciados pelos sentimentos. Não pretendemos, portanto, perpetuar a dicotomia cartesiana que imprimiu uma marca tão forte na cultura ocidental que dela não conseguimos nos livrar. Por outro lado se falamos de um corpo que é ao mesmo tempo matéria e pensamento estamos na realidade falando de gente, o que não caracteriza uma especificidade. A solução que damos para esse problema é que devemos lidar com o corpo concreto sem, todavia esquecer que ele pertence a uma pessoa que sente e que pensa. É portanto, de gente que nos ocuparemos o tempo todo, como é de gente que deveríamos nos ocupar, seja na organização de todas as disciplinas da escola e da sociedade em geral.

As pessoas buscam prazer e felicidade, mas no curso de suas vidas tem que trabalhar para sobreviver, enfrentar problemas, vencer barreiras. Cada uma das situações que enfrenta no seu cotidiano reflete no seu humor, na sua saúde, etc. Temos portanto, que pensar uma Educação Física que pense o ser humano em todas as situações de sua vida. Não podemos pura e simplesmente idealizar uma Educação Física artificial e sistemática por mais fundamentada teoricamente que ela seja, ignorando que as pessoas vivem num mundo real que condiciona seus estilos de vida.

Nascemos bebe necessitando de cuidados especiais, não somos capazes de sustentar o pescoço, nossos movimentos são espasmódicos não enxergamos e o único som que emitimos é o choro. Somos inteiramente dependentes. À medida que envelhecemos aprendemos a engatinhar, para posteriormente assumir a postura bípede, dar os primeiros passos cair e levantar, e caminhar tropegamente, até finalmente aprender a andar e a correr. Para ficar de pé lutamos a vida inteira contra a gravidade e ao alcançarmos uma idade mais avançada começamos a perder essa batalha nos curvando a insistência impiedosa dessa força. Que cuidados devemos ter com as pessoas desde o momento em que nascem até quando morrem? No nosso entender a primeira providência é entender as necessidades das pessoas considerando-as no processo da vida que vai do nascimento a morte, evitando criar as categorias e rotulações.

Freqüentamos uma escola que nos faz ficar horas sentados, nos cobrando imobilidade em períodos de nossas vidas em que deveríamos estar nos movimentando e aprendendo com os nossos movimentos.

Que atenção damos ao corpo do adolescente que descobre que anda e que ao andar mexe as pernas sucessivamente, acompanhado de um balanço ritmado dos braços o que até então fazia sem pensar e que devido as cobranças feitas pelo grupo social a que pertence passa a se preocupar e querer controlar o seu andar. Nesse momento ele passa a sofrer a crise da centopéia que coordena perfeitamente seus inúmeros pés até o momento que ela para, e pensa em como o faz.

Na maior parte da nossa existência a nossa felicidade esta ligada ao relacionamento sexual. O que sabemos de sexo? Como aprendemos o que sabemos sobre sexo? O que sabemos sobre o corpo de nossos parceiros ou parceiras? Ou sobre o nosso próprio corpo? Essas são perguntas que em geral não paramos para nos fazer. Por que as questões relativas à sexualidade que dominam grande parte de nossas vidas, são ignoradas? Sem se preocupar com essas questões continuamos aprimorando nossos gestos para torna-los cada vez mais eficientes. Seja para o trabalho repetitivo e mecanizado, seja para utiliza-lo nos esporte para bater recordes, superando em décimos de segundo os tempos anteriores.

O sistema cobra produtividade, o que assumimos sem nos darmos conta de porque e para quem. Somos bombardeados com conceitos como "o trabalho enobrece o homem", "Deus ajuda a quem cedo madruga". A preguiça que é colocada como o contra ponto de trabalho é considerada enquanto um pecado capital. Trabalhamos incessantemente e nos orgulhamos disso. Entretanto, não paramos para nos perguntar quais são as conseqüências de 8, 10, 12 horas de trabalho que um motorista passa ao volante de um ônibus diariamente durante anos, enfrentando um transito intenso, e um calor infernal. E o corpo do trabalhador do campo que passa toda a sua vida debaixo do sol, arando a terra, plantando e colhendo: como é o seu corpo? Uma importante, consideração a ser feita é que são justamente os trabalhos em que o esforço físico é mais intenso que têm menor valor e são conseqüentemente menos remunerados. Utilizar o corpo e fazer o que é chamado de trabalha manual é considerado como algo menor e é discriminado. Durante muitos anos ter músculos desenvolvidos era considerado uma característica negativa.

As marcas que a cultura imprimiu no nosso corpo têm significados e intenções que no entanto, desconhecemos. Os gestos e movimentos que executamos as posturas físicas que assumimos são elementos da nossa cultura que aprendemos em sociedade. Essa constatação é facilmente realizável quando comparamos um brasileiro e um japonês andando, basta para isso, um pouco de treino e capacidade de observação. Os grupos sociais e as atividades que freqüentamos também influenciam os gestos e movimentos que realizamos ou as posturas físicas que assumimos.

Os jogos, a ginástica e os esportes são expressões culturais criadas em sociedade, se por um lado elas carregam no seu bojo as características da sociedade em que foram criadas, por outro lado elas também vão gradativamente moldando os que dela se utilizam. Se observarmos, por exemplo, jogadores de futsal seremos capazes de perceber que eles tem uma maneira de andar que lhes é peculiar, o mesmo se dá com um grupo de judocas que também andam de uma determinada maneira. Ambos grupos andam de maneira diferente da maioria da população.

Vivemos numa sociedade de classes ideologizada, num mundo "globalizado," que tende a homoneizar as culturas e tornar as sociedades cada vez mais consumistas. Os fatos nos indicam que a economia vai tanto melhor quanto mais inutilidades são vendidas. Não importa se exaurimos de maneira selvagem nossas reservas naturais e se produzimos toneladas de lixo. Se o que importa é a produção para acumulação em detrimento das necessidades da população (MEZARUS, 2004). Podemos continuar ignorando que a Educação Física faz parte desse mundo real ou assumir o controle de nossas vidas, interferindo na realidade enquanto atores que refletem e decidem.

A cultura de onde vivemos esta impressa em nosso corpo e um dos papeis da Educação Física deve ser entender o porque dessas marcas e ser quando necessário capaz de reverte-las. O que orientará a maneira como lidaremos com esse corpo serão as concepções que temos de ser humano e de sociedade.

A história que nos marcou

Entendemos que examinar a história da Educação Física brasileira nos ajudará em muito a entender os nossos problemas e a buscar as soluções. Nos ateremos, no entanto a discutir os pontos que entendemos ter maior relevância para esse projeto. Consideramos que um dos principais pontos dessa discussão deva ser a origem da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ENFED/UFRJ)

A criação da ENEFED/UFRJ
A Escola de Educação Física da Universidade do Brasil, atual UFRJ, foi a segunda escola de Educação Física civil do Brasil e teve uma grande influência na formação do pensamento da área. O decreto lei 1212 de 17 de abril de 1939 que a criou estabeleceu entre outras finalidades a formação de técnicos em Educação Física e Desportos (CURRÍCULO da UERJ, 1986).

O processo de escolha do primeiro quadro de docentes da ENEFED - UFRJ, foi coerente com o objetivo proposto de formar técnicos. Na época, o então presidente Vargas escolheu dentre os atletas de destaque aqueles que lecionariam as diversas disciplinas de atividades desportivas. Essa atitude reforçou a importância do conhecimento empírico, no caso, adquirido pelos atletas que foram, de um momento para outro, transformados em professores.

Durante os primeiros anos de existência da Escola a exigência para o ingresso, era do diploma de conclusão do curso secundário. (CURRÍCULO da UERJ, 1986). O grau de exigência para prestação do exame de admissão à Escola é uma referência do que então, significava o técnico, e a pouca importância que se considerava ter a fundamentação teórica para a Educação Física. Nos primeiros anos prevaleceu a concepção do fazer que dava pouca ou nenhuma importância ao conhecimento teórico.

Gradativamente o curso da ENEFED/UFRJ foi sofrendo alterações que apontavam para a valorização do conhecimento teórico. Em 1958 a exigência para ingresso passou a ser o título de conclusão do científico ou do clássico. A inclusão das disciplinas da área pedagógica ocorreu em 1960, embora tenham sido retiradas em 1962, e só tenham sido, outra vez, incluídas em 1969 (CURRÍCULO da UERJ, 1986).

A concepção de formar o técnico, e a valorização do conhecimento prático desprovido de fundamentação teórica, são elementos que estão até hoje enraizados na Educação Física brasileira. E fundamentam uma Educação Física que valoriza a exclusão, em detrimento de uma participação mais ampla, alem de dificultar a valorização da teoria aplicada á prática.

À época da criação da ENEFED/UFRJ o professor era o técnico oriundo da condição de ex-atleta. Nos treinamentos o papel dos atletas é de um modo geral repetir o que o técnico determina, dessa mesma maneira os "Técnicos/professores" passaram a ensinar aos alunos da Escola. No entanto, a valorização cada vez maior do esporte de competição e o conseqüente acirramento da competitividade levou uma parte desses técnicos a procurarem se fundamentar teoricamente e de práticos esses técnicos de alto nível se tornaram especialistas que são profundos conhecedores da atividade que desenvolvem. A conseqüência parece ter sido o aumento da credibilidade desses profissionais junto à sociedade, pois o resultado que eles apresentam é concreto, a vitória das equipes que dirigem .

A identificação, que inicialmente ocorreu, do professor com o técnico deixou, no entanto, marcas profundas nos professores que em grande parte das vezes, ainda, hoje, perdura. Seguindo essa tendência o professor ao em vez de se preocupar com a formação educacional no seu sentido mais amplo acaba por se fixar no aprofundamento do ensinamento da técnica específica da modalidade esportiva que ensina. É bem verdade que a técnica especifica por ser valorizada pela sociedade em geral, alem de ser mais concretamente visualizável que os valores educacionais mais gerais, são fatores que dificultam ao professor formar uma identidade que seja distinta daquela do técnico.

Essa influência da formação do técnico, passados 65 anos, ainda pode ser fortemente sentida na nossa área(5). A idéia de performance no sentido de alcançar o máximo seja no aprimoramento do gesto esportivo, nas qualidades físicas (velocidade, força, etc.) ou na perfeição tendo como referência um modelo estético são conceitos bem representativos do que seja Educação Física.

O modelo utilizado pelos professores seja consciente ou inconscientemente, é o do aprimoramento sem fim. O problema é que adotando esse modelo estamos excluindo a grande maioria de uma população. Quer seja no Brasil ou qualquer outro pais.

No caso dos esportes o modelo utilizado ainda é o da formação esportiva do atleta. Uma grande parte das aulas, e a cada uma delas, há invariavelmente o treinamento dos fundamentos(6) que são repetidos indefinidamente. Porque não ensinar os fundamentos básicos necessários para que o aluno tenha condições de praticar o jogo e deixar que ele jogue e se aprimore praticando a atividade, e sobretudo se exercite de maneira agradável. Sabemos que uma parcela diminuta da população se tornará atleta, mas todos podem praticar esportes e desfrutar de seus benefícios. Por que então insistir nesse modelo de ensino. Outros exemplos que parecem reforçar essa tese são: o ensino do golfinho ou de viradas olímpicas, que outra justificativa há para fazer o aluno treinar(7) essas técnicas a não ser como forma de prepara-lo para a competição.

O pressuposto básico das equipes de alto nível é que delas só devem participar os melhores. Conseqüentemente à medida que os níveis das equipes vão evoluindo a exclusão vai gradativamente se fazendo necessária. Entendemos que o esporte deve ser, em princípio utilizado, no sentido de atingir os objetivo, educacionais, de transmissão cultural, de dar prazer, de desenvolver habilidades, e promover a saúde. A utilização do esporte com esses objetivos, o torna inclusivo. Não temos, todavia a intenção de ignorar os esportes de alto nível e a formação de atletas. Entendemos que esses também têm o seu lugar na sociedade em que vivemos, a crítica que fazemos é quanto a generalização do uso do esporte "performance" e a adoção do modelo de ensino dele proveniente.

Educação física teoria e prática

Uma área de conhecimento não deve prescindir de teoria nem de prática, alem disso é de fundamental importância manter uma relação dialética entre as duas. Esse problema vem fazendo parte da história da Educação Física.

Educação física enquanto prática

Desde a criação da primeira Escola de Educação Física no Brasil até os anos oitenta o ensino nos cursos de formação era realizado de uma forma, bastante semelhante, da que se treinava o atleta, ou seja, o ensino era feito pela repetição do que era demonstrado(8).

Nas escolas de ensino básico e nas academias, esse tipo de ensino era conseqüentemente reproduzido, o que até hoje ainda é feito com raras exceções. É um fazer alienante em que o professor animador demonstra um modelo que deve ser seguido. Temos vivido a Educação Física do fazer sem saber porque nem para que. Os alunos correm durante vinte minutos durante todos as aulas de um semestre letivo sem saber o porque, o mesmo acontece quando participam de um aquecimento, ou aprendem um gesto esportivo. Criamos assim alunos dependentes e alimentamos a alienação. Os alunos saem das escolas sem, conhecer o próprio corpo e suas possibilidades, sem saber organizar seus programas de atividade física ou um torneio de futebol. Diante desse quadro passamos a nos perguntar qual é a utilidade da Educação Física na Escola. . Entendemos que quem sabe como funciona o seu coração, que conhece os prejuízos que podem advir da falta de atividade física para o sistema circulatório, e sabe como organizar para si um programa de exercícios aeróbios poderá faze-lo independentemente de poder pagar uma academia. O conhecimento específico que consideramos como pertencendo a Educação Física também poderá servir para ajudar as pessoas a organizarem a caminhada por uma trilha, ou um torneio de Pelada. O ensino deve portanto, procurar ensinar os alunos porque e para que devem fazer cada tipo de atividade física.

Um dos requisitos para ingressar numa Escola de Educação Física foi durante vários anos o de ter um determinado nível de aptidão física e de habilidades específicas. Os testes para avaliar as condições físicas, fizeram durante vários anos, parte do exame de seleção.

Entendia-se então que o professor deveria ser um executor e, portanto, deveria ter determinadas capacidades e habilidades. Nos anos oitenta alguns teóricos começaram a questionar se seria necessário formar professores executores o que refletiu inclusive na necessidade ou não da utilização dos testes de habilidades especificas nos exames de vestibular. A partir de então ganhou força a proposta de se ensinar a ensinar, passou-se a entender que o professor deveria aprender a ensinar e que não seria necessário treina-lo para ser um executor. Entendemos que existe uma diferença entre ser treinado para ser um executor cujo um determinado nível de performance lhe será cobrado e entender que o aluno deverá executar para vivenciar como uma pessoa comum e não como um atleta.

Consideramos que o professor deverá aprender a ensinar, mas também deverá vivenciar as atividades que ensinará. Vivenciar, todavia não é um simples executar, mas o executar pensado que terá posteriormente o seu produto analisado. Entendemos que seguindo esses passos os alunos passarão a entender melhor seus próprios corpos, seus limites e possibilidade, o que lhes dá prazer ou o que lhes causa desconforto. Entendemos que esse processo lhes ensinará que os movimentos devem ser realizados para as pessoas e não para os próprios movimentos.

Dicotomia teoria e pratica

A dicotomia teoria e prática é um outro fator que pode ser percebido na história da nossa área tanto no Brasil quanto no exterior. No Brasil um fato concreto que é fruto desse pensar e ao mesmo o tempo o reforça é que nos primeiros anos de existência da Escola de Educação Física da Universidade do Brasil, eram os médicos que produziam as teorias e os militares a executavam seguindo os manuais (MELO, 1996). Entretanto, essa característica da Educação Física não é uma peculiaridade brasileira. Ao examinarmos a história da Educação Física no mundo identificaremos, por exemplo, que apesar de Ling e Amoros, já, entre 1770- 1848 procurarem desenvolver os seus métodos ginásticos com base na anatomia e na fisiologia a Educação Física não era reconhecida como estando inserida numa área científica de produção de conhecimento, mas, de aplicação (BRACHT, 1997).
Essa dicotomia tão flagrantemente observada é fruto da rotulação ideológica da Educação Física enquanto trabalho manual fruto da divisão social do trabalho, trabalho manual/trabalho intelectual.

Esse procedimento que procura separar o pensar do fazer, atribuindo aos professores de Educação Física o que é reconhecido como trabalho manual, o qual é socialmente tido como de menor valor, é sem dúvida uma das causas que até hoje dificultam o desenvolvimento teórico da Educação Física e o seu reconhecimento, na sociedade em geral e, sobretudo, na Escola. Os professores de Educação Física costumam se queixar que as direções das escolas consideram a sua disciplina menos importante do que as demais e a relegam a um segundo plano. O desprestigio da Educação Física se reflete, inclusive, quando os pais escutam dos filhos que fizeram a opção por essa área do conhecimento. Esses pais disseram preferir que os filhos tivessem ido cursar faculdades como as de Engenharia ou medicina (DAOLIO, 1995).

Contraditoriamente as atividades reconhecidas como sendo de Educação Física são valorizadas pelas crianças que correm, jogam, nadam etc. pelos cientistas que não cessam de falar dos benefícios do exercício na prevenção de doenças, pela sociedade em geral no que concerne aos esportes ou como instrumento de desenvolvimento da estética corporal ou da saúde.

Aliando a teoria a prática e uma crítica a importação do conhecimento ignorando a nossa realidade

Temos uma forte critica a fazer a Educação Física dos anos 70, no entanto, não podemos ignorar que esse foi um período significativo do estreitamento entre a teoria e a prática, entre ensino e pesquisa. Nos anos 70 houve, a nível mundial, uma expansão da pesquisa em Educação Física. No início dessa década no Brasil a área de fisiologia do esforço foi a mais prestigiada. Os estudos de Cooper voltados para o tema da aptidão física tiveram uma grande influência nas pesquisas aqui realizadas. O método passou a ter uma grande aceitação, no Brasil, principalmente, após a sua aplicação na nossa equipe de futebol que se tornou campeã do mundo em 1970. As conseqüências e as evidências do crescimento dessa tendência podem ser observadas na criação dos laboratórios de pesquisa na área de fisiologia do esforço, no número de artigos publicados sobre o assunto e na lei 69450/71. Em 1972 o Departamento de Educação Física e Desporto (DED) distribuiu uma sofisticada aparelhagem para instituições de Ensino Superior com o intuito de criar laboratórios de pesquisa. Na revista brasileira de Educação Física e Desportos durante os primeiros anos dessa década foram publicados 11 artigos com base nos trabalhos de Cooper (FARIA JUNIOR, 1987).

A adoção do modelo tecnicista de origem positivista também no ensino formou com a pesquisa uma couraça que dificultava a possibilidade do desenvolvimento de estudos críticos. Os teóricos do tecnicismo se baseavam na crença de que a escola para ser eficaz deveria adotar a lógica do modelo empresarial. O modelo proposto pregava a necessidade da especialização de funções e a sua aplicação na educação e fez do professor mero executor do que era planejado pelos especialistas (ARANHA, 1997). Por influência da corrente tecnicista o planejamento passa a ser realizado com base nos princípios da filosofia positivista e do behaviorismo o seu ramo na psicologia que acreditavam apenas ser real o conhecimento que repousa sobre os fatos observados (COMTE, 1973). O conhecimento técnico utilizado para elaborar o planejamento é o dos objetivos instrucionais operacionalizados que são estabelecidos na seqüência das metas a serem atingidas. Os objetivos de ensino ficam restritos ao que é observável (ARANHA, 1997).

Apesar do ensino da Educação Física estar aplicando esse modelo importado e, ao nosso ver, inadequado, não podemos ignorar que também, houve avanços quando se procurou fazer estudos do teste de Cooper e da influência dos exercícios aeróbios em parcelas da população brasileira. Nesse período começou a ser criado no Brasil a necessidade de se desenvolver a pesquisa no meio acadêmico de Educação Física, alem de se ter tido a preocupação de aliar a teoria a prática. A corrida com o objetivo de desenvolver a capacidade aeróbia passou ser com freqüência, parte integrante das aulas da Educação Física na escola. A prática da corrida não ficou, todavia, restrita a Escola e desde esse período passamos a ver pessoas correndo pelas ruas, praias e parques da sociedade.

Entretanto, a adoção do positivismo tanto na pesquisa quanto no ensino, contribuiu para retardar por um longo período os estudos capazes de provocar a reflexão. Ao analisarmos a conjuntura política da década de 70 percebemos claramente que os conteúdos do ensino e da pesquisa não eram algo puramente técnico a margem da realidade. No entanto, naquele período os profissionais da área tratavam a Educação Física como se ela fosse uma disciplina que existia isoladamente, a margem da sociedade e das forças políticas e ideológicas que a governavam. Os teóricos da área se preocupavam exclusivamente com a condição cardiovascular, a mecânica dos movimentos, as teorias de aprendizagem e a formulação de objetivos. Era o fazer que não se preocupava em examinar, os objetivos implícitos de ordem política e ideológica que manipulavam as idéias e as ações. A Educação Física foi até a década de 80, mera reforçadora dos valores da classe dominante (CASTRO, 1989).(9)

As propostas dos anos oitenta e noventa

Até por volta do inicio dos anos oitenta a Educação Física era praticamente voltada para a área escolar, apesar de alguns professores atuarem em clubes e algumas poucas academias.

A década de oitenta é, sem dúvida, um marco em termos dos questionamentos na nossa área. Com o fim da ditadura, iniciada em 1964, que suprimia a liberdade de expressão, nós da Educação Física passamos a fazer parte de um movimento de denúncia e crítica do qual participaram vários setores da nossa sociedade. As contribuições mais importantes desse período foram as de CAVALCANTI, 1984; GHIRALDELLI, 1989; CASTELANI FILHO, 1988; MEDINA, 1987; que com seus livros marcaram a fase critica e de denuncia da Educação Física.

Passado o período de denúncia a Educação Física passou para uma nova etapa que foi a de propostas dentre elas, a Critico Emancipatória (KUNZ, 1994), a Critico Superadora (1992), a Desenvolvimentista (1988), etc.

Sessenta e quatro anos já se passaram desde a criação da ENEFED-UFRJ, hoje temos mais de uma centena de Escolas no país, vários cursos de especialização alguns mestrados e doutorados; além de um grande número de congressos e publicações. Seria, portanto, de se supor que a fase empírica da Educação Física tivesse sido em grande parte vencida. Entretanto, apesar do aumento do número de publicações que refletiram na melhora da qualidade do conhecimento produzido, alguns estudos detectaram que a Educação Física continua sendo ensinada de maneira bastante empírica.

MOREIRA (1991) nos indica que as aulas de Educação Física vêm sendo desenvolvidas de maneira padronizada e empírica. Segundo GAYA (1993) a Educação Física não se baseia numa teoria, ficando, portanto, reduzida a técnicas e práticas corporais. Em pesquisa realizada com professores que lecionavam de Primeira a Quarta serie, foi identificado que os docentes tem pouco conhecimento teórico, não tem objetivos e nem intenção político pedagógica (RIBEIRO, 1996). Professores de Educação Física que lecionavam no segundo segmento do Primeiro Grau demonstraram desconhecer as finalidades da Educação Física Escolar para esse nível; e ao aplicar novos conhecimentos o fazem sem refletir sobre suas adequações à realidade (BOCCARDO, 1990). Pesquisa realizada com professores de Educação Física que lecionavam de Quinta a Oitava indicou que seus objetivos são imediatistas e tendem a se fixar, quase que exclusivamente nos problemas encontrados no cotidiano das aulas. As estratégias mencionadas pelos professores como sendo as que utilizam para atingir os objetivos se resumem a proporcionar as atividades esportivas, na crença de que essas atividades têm o potencial de fazer com que os alunos passem a ter os comportamentos desejados, sem que haja interferência do professor. Os meios mencionados para atingir os objetivos não parecem fazer parte de um projeto pedagógico planejado, operacionalizado e que permita conseqüentemente a geração intencional de situações de ensino. Não ha indícios de que o professor tenha em mente um perfil de aluno que queira ajudar a formar (CASTRO et al, 1997).

A educação física e os diferentes momentos históricos

O que é Educação Física ou quais são os seus objetivos, são perguntas que não devemos cessar de fazer, pois elas só podem ser explicadas em cada diferente momento histórico. Portanto, consideramos que esse não é um projeto definitivo e acabado, pois já antes de implanta-lo deveremos prever um sistema para avalia-lo periodicamente e conseqüentemente fornecer informações para que ele possa ser reformulado, à medida que se fizer necessário.

A expressão Educação Física, no Brasil, nos dias de hoje, esta intimamente ligada as atividades físicas que visam se ocupar da estética corporal, recrear, ensinar os fundamentos das praticas desportivas, promover e gerir competições desportivas, manter ou aprimorar a aptidão física. No entanto, entendemos a Educação Física por um prisma bem mais amplo. Não podemos ignorar sua relação com a afetividade dos alunos e sua influência na formação global; nem os momentos históricos que atravessamos ou as peculiaridades do país; ou mesmo que a Educação Física seja influenciada por políticas e regida por ideologias. Se agíssemos de outra forma, estaríamos fazendo uma analise simplista do que seja Educação Física.

A mobilidade dos conceitos e objetivos que norteiam a Educação Física é patente. Nem os termos Educação Física, nem os objetivos, nem as atividades, nem os conteúdos que hoje se considera no Brasil como pertinentes a área são os mesmos do passado e certamente não serão os mesmos do futuro. O que hoje, chamamos de Educação Física já teve outras denominações e já abrigou em seu seio modalidades que se entende hoje não ser mais da nossa competência, ou passaram a ser utilizadas com outros objetivos.

Inferindo-se sobre o que foi a Educação Física no passado, com base em pressupostos do presente, podemos, por exemplo, entender que as justas do período medieval europeu eram uma atividade de Educação Física. Podemos supor, por exemplo, que uma atividade física de "certa intensidade" que tenha caráter competitivo seja objeto da Educação Física, o que nos possibilitaria considerar as justas como uma atividade pertinente a essa área. As justas também poderiam ser identificadas como sendo objeto da Educação Física se as considerarmos como atividade desportiva, ou educativa, isto se desporto e educação forem considerados como pertinentes a Educação Física.

MARINHO (1980) faz algumas considerações sobre o que teria sido a Educação Física nos primórdios da humanidade. Naquele período da historia, não se via alguém correndo com o simples propósito de se exercitar, corria-se de um animal ou atrás dele, para atingir um inimigo ou para fugir dele. A atividade física era parte da vida do homem pré-histórico. Naquela época os homens viviam praticamente da mesma maneira que os outros animais, suas atividades eram mais próximas da natureza.

Foi quando começou a se organizar em grupos se tornando sedentário, plantando e criando animais que o homem sentiu a necessidade de se organizar para combater seus inimigos. Durante os primeiros anos de vida sedentária o homem diminui sua atividade física e se tornou mais frágil ficando vulnerável as invasões dos nômades que em conseqüência de seu modo de vida, tinham mais vigor físico. Nesse momento nasceu o treinamento para a guerra, e o que o autor chamou de Educação Física guerreira.

Com o crescimento dos povoados que se transformaram em cidades é que os homens mais protegidos e sofrendo menos ataques de seus inimigos passaram a desfrutar de mais tempo livre. Surgiu então a necessidade de nos tempos de paz exercitar o corpo para mantê-lo preparado para os momentos de guerra. Foi nesse período que surgiu a fase desportiva da Educação Física.

Quando MARINHO (1980) identificou as atividades do homem pré-histórico como sendo de Educação Física o seu pressuposto era que atividade física e Educação Física eram sinônimas. A fase seguinte identificada como guerreira pelo que parece, foi julgada como de Educação Física porque as atividades físicas de caráter belicoso eram provavelmente ensinadas e treinadas de forma sistemática.

Observa-se que na fase considerada natural os homens realizavam atividade física intensa, inclusive as guerreira mas que não eram ensinadas nem treinadas de forma sistemática. Portanto, no primeiro caso a simples característica de atividade física é o elo de ligação com a Educação Física como a conhecemos hoje. No segundo caso entra um segundo componente que é o ensino e o treino realizados de maneira sistemática.

MARINHO (1980) considera a terceira fase da Educação Física como sendo a desportiva pois nesse período os homens faziam competições de lutas. O pressuposto nesse caso foi o fator competição e tinha o caráter de preparar para a guerra. Hoje consideramos a atividade desportiva de competição como pertinente, entretanto seu objetivo principal não tem sido a preparação para guerra, ao contrario durante o período da guerra fria as competições desportivas foram um substituto paliativo para a guerra. As duas grande potências, da época, a União Soviética e os Estados Unidos disputavam a hegemonia mundial nas competições desportivas já que a prudência os impedia de deflagrar um conflito nuclear de conseqüências catastróficas para toda a humanidade.

No segundo Império Tebano entre cerca de 1552 e 1069 AC. no Egito se faziam atividades físicas que eram a natação, o tiro com arco a corrida, a caça e a pesca (MANACORDA, 1989). Essas atividades consideradas pelo autor como sendo de Educação Física são classificadas como tendo características ginástico desportivas ou militares, num trecho mais adiante o autor afirma que a Educação Física daquela época tinha o objetivo de preparação para a guerra. É também assinalado que as pessoas eram instruídas, no que concerne a maneira de desenvolver essas atividades.

Considerar, hoje a natação como atividade de Educação Física não e para nos nenhum problema. A natação pode ser utilizada, entre outros objetivos como exercício físico e como atividade desportiva de competição. A corrida tem atributos semelhantes aos da natação, e também, não teríamos dificuldade de reconhece-la com atividade de Educação Física, segundo a concepção, já, daquela época.

O tiro de revolver ou carabina que tem características semelhantes ao tiro com arco podem ser treinados com objetivos distintos como preparação para a guerra ou desporto. Tanto o tiro com arco quanto o tiro com revolver ou carabina seriam provavelmente considerados como atividades desportivas, essencialmente pela característica da competição. No entanto, não temos conhecimento de nenhum curso superior de Educação Física, no Brasil que tenha essas modalidades em seus currículos.

Como podemos perceber nos parágrafos anteriores a Educação Física não se restringe ao que podemos lhe atribuir enquanto específico, ela está inserida no contexto mais amplo da educação em geral, da sociedade, do período histórico que atravessa.

As informações, comportamentos e valores, componentes da educação e inerentes a Educação Física, já antes de Cristo eram objeto de interesse. Naquela época já se considerava o exercício físico segundo concepções de indivíduo e de sociedade. Platão considerava que as crianças deveriam ser enviadas ao mestre da ginástica que tornaria seus cor¬pos mais fortes e conseqüentemente mais obedientes e corajosos, quer em guerra, quer em outras ações (MANACORDA, 1989). Platão entendia que fortalecendo os corpos através da ginástica se formaria cidadãos fortes, obedientes e corajosos. Os Jesuítas que estiveram no Brasil até 1759 catequizando os índios, ou seja tentando impingir seus hábitos aos nativos, com o fito de converte-los ao catolicismo, utilizavam os exercícios físicos com o objetivo de liberar as tensões dos nativos (OLIVEIRA, 1983). Durante os Estado Novo a Educação Física foi utilizada como meio de desenvol¬ver o patriotismo e cultivar o civismo. O que se traduzia em doutrinar os indivíduos de acordo com os interesses dos detentores do poder, e produzir cidadãos leais ao Estado (CASTELLANI, 1988). A Educação Física até a década de setenta tinha como objetivo formar homens e mulheres sadios, fortes e dispostos para a ação. A Educação Física tinha como objetivo disciplinar os hábitos das pessoas afastando-as das práticas nocivas a saúde e a moral, o que comprometeria o coletivo (GHIRALDELLI, 1989).

Não é objeto desse estudo justificar o que seja Educação Física com base num estudo aprofundado, entretanto estabelecer alguns elementos norteadores que nos permitam, analisar o que vem acontecendo no que consideramos ser a nossa área de conhecimento e com base nas analises, criticas e propostas vir a criar a nossa Escola. Essa breve analise nos indica que o conceito de Educação Física é historicamente definido e vem sendo construído numa visão de classe, segundo as concepções e interesses de cada época. Esse modelo de Educação Física inadequada para a grande maioria da população brasileira deve na nossa visão ser descontruído, apesar de nele nos apoiarmos para a realizar a nossa critica e não nega-lo totalmente, na construção da nossa proposta.

Apesar do nosso objetivo ser o de adequar a proposta do nosso curso de formação a realidade brasileira, procurando incluir o maior número possível de pessoas, não temos a ilusão de que ele será excludente, assim como será qualquer outro projeto construído nesta sociedade.

O projeto terá tanto mais adequado quanto melhor entendermos a conjuntura em que vivemos.

A conjuntura ou o atual momento histórico

A derrocada da União Soviética e a queda do mundo de Berlim delimitam uma nova fase, da história da humanidade. Não havendo mais a polarização que por tantos anos dominava o cenário mundial, entramos num período que pela falta de alternativas, ficou conhecido como o do fim das utopias e o chamado pensamento único passou a predominar. Nesse novo período dominam a racionalidade e a inevitabilidade do mercado.

A chamada globalização, fundada na necessidade da busca de mercado e de lucro, se caracteriza pelo "fim das fronteiras dos países" e a formação de blocos de paises como os do mercado comum europeu, Nafta, Mercosul etc. As fronteiras que de fato caem são as dos paises mais fracos que não se impõem diante dos mais fortes. Esses paises apoiados na lógica de que não tem jeito aceitam as imposições e se submetem.

A competitividade é a tônica, com essa finalidade busca se automação das empresas reduz se o número de empregados, muda-se as empresas para os paises que facilitem a remessa de lucro, que ofereçam isenção de impostos e mão de obra mais barata.

O Estado passa a ser considerado o vilão que cria gastos desnecessários e se ocupa de tarefas que não deveriam ser suas. Na esteira da concepção de Estado Mínimo, a política Neoliberal, clama por privatizações. No cumprimento dessa cartilha, no Brasil, foram privatizadas companhias elétricas, telefônicas, metrôs, companhias de Águas e Esgotos etc.

Desde a eleição de Fernando Collor, o Brasil vem seguindo a orientação de organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial, o que vem provocando a queda da renda e aumento do desemprego. O emprego diminui, por que caiu o poder de compra, por que os investimentos caíram, mas também por causa da automação. No entanto, a desqualificação é apontada como a causa do desemprego, e a solução apontada é a educação que deve melhor qualificar as pessoas.

Uma conseqüência evidente do processo de globalização é o acirramento da competitividade em todos os níveis da sociedade o que gera, conseqüentemente, o crescimento do individualismo.

A sugestão de que a história teria acabado atua subjetivamente no sentido de não colocar nenhuma perspectiva no horizonte, indicando que o mundo é como é e não pode ser diferente. A eliminação da possibilidade do sonho causa a desesperança e a imobilidade favorecendo a busca das saídas individuais e o enfraquecimento do coletivo para o coletivo.

Para uma parcela da população mundial que tem acesso as TVs a cabo ou via satélite e a rede mundial de computadores a globalização da informação foi alcançada. Entretanto, consideramos que dois elementos devem ser analisados: a)apenas uma pequena parcela da população mundial tem acesso a esses meios de comunicação; b) o termo globalização nos passa a falsa idéia de que os paises fazem uma troca de informações culturais, quando na verdade é os Estados Unidos que tem o principal domínio dessas informações. O predomínio cultural é, portanto, principalmente dos Estados Unidos que impõe seus modelos culturais e vende seus produtos, concorrendo para o processo de alienação com a substituição das culturas locais.

Resumindo drasticamente identificamos que a globalização causou o acirramento da competitividade, o aumento do individualismo e a falta de esperança.

A realidade brasileira

A nossa primeira preocupação é nortear a proposta com base numa Educação Física que considere a realidade brasileira e tenha como sua maior preocupação concorrer para muda-la, por considera-la excludente, injusta e desigual.

Cerca de Quinze milhões de brasileiros são analfabetos, menos de 70% dos que se matriculam no Ensino Fundamental chegam a 8ª série, menos de 41% dos adolescentes de 15 a 17 anos estão na série adequada à sua idade, entre as crianças até 6 anos apenas 37% estão matriculadas em escolas (MORAES, 2005). 87% da população brasileira tem acesso a água potável sendo que destes 95% moram nas cidades e 53% na área rural. Em Andorra, Austrália, Áustria, Barbados, Belarus, Bulgária, Canadá, e outros 19 países 100% da população têm acesso a esse benefício. A renda per capita brasileira é de 2700 dólares, na Austrália 26.525, na Bélgica 29.257, na Finlândia 31.069, na Dinamarca 39.497, na Noruega 48.888. Ao todo 85 paises dos citados nas estatísticas das Nações Unidas (15/06/2004) têm renda per capita maior do que a brasileira. A renda per capita não nos permite entender a distribuição de renda mas ela é um indicador da riqueza do país. Embora não tenhamos em mãos os dados que indicam a distribuição de renda no Brasil, sabemos que a nossa é uma das piores do mundo, e que uma parcela considerável da nossa população é de pessoas consideradas pobres ou como estando abaixo da linha da pobreza. Esses são alguns dos indicadores que podem nos ajudar a elaborar um currículo mais adequado a realidade do nosso país.

Com relação às atividades que nos são especificas consideraremos, prioritariamente, aquelas que atendam a maior parcela possível da população Entendemos, todavia ser importante não nos iludirmos quanto à possibilidade de construirmos uma proposta que inclua a maioria das pessoas, pois não nos esquecemos em nenhum momento que a nossa atividade é desenvolvida na sociedade em que vivemos. Entendemos que seria uma falácia falar na democratização da Educação Física num país em que a maioria da população é composta de pobres é de miseráveis. No entanto, entendemos que alem de procurarmos incluir a todos que possivelmente possam desfrutar dos benefícios da Educação Física temos o compromisso de desmontar mitos como o de que o esporte, ou a dança nas comunidades carentes cria oportunidades. Não queremos formar apenas professores conscientes, mas sim pessoas que entendam a sociedade e o mundo em que vivem sabendo interpreta-lo e nele interferir no sentido de ajudar a construir uma sociedade mais justa e menos desigual.

A importação e a adoção indiscriminada do Método de Cooper é um exemplo, flagrante de como a realidade do país, foi ignorada durante aquele período da nossa história. Na década de 60 os americanos passaram a se preocupar com o grande número de obesos existentes no país e os problemas que o excesso de peso gerava. Foi nesse período que o método de Cooper passou a ser amplamente utilizado nos Estados Unidos, e logo em seguida também adotado no Brasil, não só na sociedade em geral, mas também nas escolas públicas. O que não foi avaliado na importação do método é que os americanos tinham uma vida extremamente sedentária e ingeriam alimentos riquíssimos em calorias o que não era o caso dos brasileiros que ao contrário sofriam de desnutrição e tinham uma vida bastante ativa. É verdade que não estamos falando da população brasileira como um todo, mas sim da grande maioria e, portanto, os benefícios do método de Cooper não deveriam ter sido generalizados.

A nossa proposta vem sendo construída há cerca de trinta anos e ela é o resultado não só das nossas leituras e reflexões individuais mas também das discussões e sobretudo das observações experimentações realizadas em nossas aulas.


Sobre os princípios norteadores do modelo proposto
a) Princípios Gerais
Princípio da formação para a vida humana, forma de manifestação da educação omnilateral (totalidade) dos homens;

A complexidade do fenômeno educativo e a natureza ontológica deste processo nos remete à reflexão a respeito do sentido abrangente do ser humano, que torna possível suas múltiplas existências, indicam a necessidade de que a formação do educador contemple múltiplas dimensões como a: política, pedagógica, ética, estética e cultural, favorecendo a construção de um saber mais democratizado possível e compromissado com as mudanças que se fazem necessárias e urgentes.

Uma formação abrangente no sentido de possibilitar uma efetiva dialética entre estas dimensões, vislumbrando uma produção acadêmica no campo da atividade física "entranhada" ao mundo do trabalho, e, portanto, de conjunto, o que implica compreender a interdependência entre todos os fenômenos implicados na formação dos profissionais da educação.

A docência

O exercício da docência levará em consideração a realidade do país mas terá em mente mudar as condições existentes. Entendemos que o conhecimento a ser transmitido deverá estar em consonância com a realidade e deverá ser construído a partir dela, sem, no entanto, a ela se acomodar. Em outras palavras a ação pedagógica e a prática política do docente deverão caminhar lado a lado. Teremos ao mesmo tempo a preocupação de construir os instrumentos didáticos para vencer as deficiências da nossa condição de país de terceiro mundo, mas também de não ceder ao descompromisso dos governantes que não têm interesse em mudanças.

Tendo em vista a formação do professor generalista, numa primeira etapa do curso, abordaremos o máximo possível do essencial de cada disciplina considerando os limites do possível e sem perder de vista a totalidade. Encontrar a dosagem ótima de conteúdo a ser transmitido, facilitará estreitamento entre a relação teoria e prática, e da integração entre as disciplinas.

Ensinaremos o professor a ensinar, com base numa fundamentação teórica consistente e coerente, de modo a permitir-lhe sentir-se seguro e compromissado com a sua proposta profissional e de vida. Para isso, o ensino deve propiciar aos docentes a vivência prática das atividades oferecidas com o intuito de sentir o que ensinarão. Essa prática teoricamente fundamentada deverá ser vivenciada, pelos alunos mestres, refletida, e aplicada na prática de ensino. As posturas e movimentos são de seres humanos que vêm sendo colocados em segundo plano em detrimento dos produtos que produzem. Entendemos que a vivência refletida poderá ajudar a humanizar a prática.

Os professores são antes de tudo pessoas que tem uma história de vida e uma quantidade enorme de conhecimento, na sua maioria armazenado de forma irrefletida é nosso objetivo leva-los a refletir sobre esse conhecimento. Vamos também muni-los com teorias que os ajudem a organizar esse conhecimento que têm armazenado. Nesse processo não estaremos exclusivamente formando professores mas pessoas que terão propostas pedagógicas coerentes com suas ações cotidianas que estão para alem da prática docente. O processo de formação não será simplesmente acadêmico, mas, cultural, no sentido do conhecimento produzido em sociedade, e não ficando limitado ao conteúdo especifico da área profissional em questão.

A quantidade e a transitoriedade do conhecimento nos fazem ter a preocupação de formar pessoas capazes de buscar e selecionar a informação, tendo em vista um processo de atualização que se torna cada dia mais difícil de ser realizado.

A incorporação da pesquisa como princípio de formação

Situado historicamente, o pensar e o agir pedagógico decorrem de uma relação direta entre teoria e prática do fazer humano, transformando a relação do binômio teoria/prática indissociável, entendendo portanto, que eles devem ocorrer concomitantemente. Tal formulação decorre da compreensão e da importância epistemológica do conceito de práxis como atividade prático-crítica, que permita a superação da rígida oposição que fora estabelecido entre as ciências da natureza e a história, entre o método da explicação causal e as suas formas de compreensão intuitiva.

Assumir essa relação como horizonte de um projeto de escola conforme o que se delineia, nos leva a considerarmos a importância da pesquisa como um outro elemento central para a formação do professor, cuja importância deve ser apontada não só do ponto de vista teórico, mas também político.

Portanto, no que se refere à pesquisa, esta deve ser considerada como "... um princípio formativo e cognitivo da docência" (BRZEZINSKI, 2001, p.316), sendo um componente constitutivo tanto da teoria quanto da prática pedagógica. A pesquisa fundamenta a construção e a reconstrução das teorias assim como a dimensão investigativa da atuação prática, permitindo a permanente criação e recriação do conhecimento.

O professor necessita hoje, mais do que nunca da pesquisa, para atuar nos diferentes espaços educativos, sejam nas instituições escolares, desenvolvendo uma prática investigativa e uma reflexão sobre a ação pedagógica, seja nas Instituições não-escolares, impulsionando a discussão sobre os problemas com que se defronta no cotidiano de sua própria ação, levantando questões e apontando alternativas com os sujeitos históricos envolvidos naquele contexto.

A prática da investigação sistemática na Educação Física favorece a formação discente para a atuação do professor com atitude de pesquisador, crítico e reflexivo e/ou como educador, constantemente atento às transformações e contradições do mundo do trabalho, que busca a autonomia, a elaboração própria, a constante atuação e inovação de conhecimentos num procedimento de formação continuada, que permita estabelecer o diálogo com os diversos sujeitos sociais e a discussão coletiva sobre as experiências e a realidade concreta.
Nessa perspectiva de formação, as articulações entre conhecimentos teóricos, pesquisa e prática pedagógica no seio do processo de ensino e de aprendizagem enquanto construção de conhecimentos pelos docentes e discente, devem constituir-se como eixos articuladores do currículo do Curso.

Sólida formação teórica em todas as atividades curriculares e ampla formação, política e cultural

Entendendo o currículo como algo interligado, integrado, encadeado e conectado a vários campos disciplinares, mas também, com as conexões advindas das artes, da cultura, e da política de um modo amplo, bem como saberes e experiências trazidos por nossos alunos e alunas ampliando e enriquecendo a ação educacional e tornando a aprendizagem significativa, evitando os conteúdos e métodos que possam promover qualquer tipo de exclusão. As atividades políticas e culturais, neste sentido, não assumiriam apenas um caráter "extracurricular", mas ao contrário, constituiriam o próprio currículo.

b) Princípios específicos da escola de formação de professores de educação física

A atividade física com o objetivo de promover o prazer, a saúde e a qualidade de vida, desenvolver a estética corporal e do movimento, a educação.

As atividades físicas têm como objetivo agir e produzir resultados sobre o corpo. Essas são questões relacionadas à qualidade de vida, prazer, saúde, a vivência e a consciência do próprio corpo.

Neste campo o principal desafio é promover uma Educação Física para todos e em especial para a maioria da população que é excluída pela concepção de Educação Física que se baseia na formação do atleta ou do corpo perfeito.

Conforme o exposto, podemos perceber que muitas mudanças e transformações terão que ser implementadas para podermos desempenhar os "papéis" exigidos nesse projeto. Nesse sentido ao mesmo tempo em que elaboramos as propostas pensamos os meios didáticos que utilizaremos e a preparação dos professores para executar as ambiciosas tarefas que nos impomos. As preocupações de estreitar a relação teoria e prática, transmitir um conhecimento que seja contextualizado, enfrentar as concepções que valorizam a performance, construir métodos e técnicas de ensino que nos permitam ensinar a ensinar colocando os alunos como centro do processo, vivenciar as atividades refletindo sobre as vivências são algumas das propostas que fazem parte do nosso projeto e cada uma delas precisa ser exaustivamente estudada.
As diversas dimensões que se espera de uma proposta comprometida com mudanças e transformações, devem indicar para:
a) Dimensão ético-política: os alunos deverão desenvolver a suas capacidades de pensar, refletir, analisar e discutir as diversas formas de compreensão da realidade, como possibilidade efetiva de construção de um novo homem e de uma nova sociedade.

Nessa perspectiva, a atuação do professor não pode estar voltada apenas para a dinâmica interna de sua disciplina, mas, articulada com as demais disciplinas num processo de interação, diretamente comprometida com os desafios do seu próprio tempo. O curso, como um todo, deve ser compreendido como "lócus" privilegiado para se repensar as mais variadas práticas educativas da sociedade contemporânea. Isso nos possibilita compreender que o docente no exercício de sua própria prática pedagógica situa-se como formador e formando da relação que se estabelece entre o ato de ensinar e o de aprender nas relações humanas, ora tidas como formais, ora como informais, embora cada tipo de processo educativo guarde sua especificidade. Isto o remete a uma responsabilidade ética de compreender a dinâmica de desenvolvimento histórico da humanidade, como também, de se localizar neste processo e localizar o outro como parte integrante e atuante da mesma.

b) Dimensão político-pedagógica: o aluno deve assumir uma postura crítico/reflexiva, coerente com os princípios norteadores da sua prática, na busca constante de formulação de mecanismos de democratização das relações e dos espaços sociais, através da especificidade de seu trabalho docente, ou seja, da preocupação com os processos contextualizados de construção e reconstrução de saberes.

É de fundamental importância explicitarmos que aquele que se compromete com o exercício da docência não deve compreender esta como puro ato de transmissão de conhecimentos e verdades pré-estabelecidas, mas sim, de assumir criticamente que os saberes e as práticas existentes são temporários e por isto mesmo devem ser objetos constantes de sua própria análise, onde todo conhecimento é provisório e se constitui como tal por ser um dos resultados do dever histórico.

c) Dimensão epistemológica: o aluno deve fazer da sua prática pedagógica um objeto constante de investigação, enfrentando os desafios do cotidiano escolar e não-escolar, com vistas a alcançar novas formas de apreensão do real e, conseqüentemente, dos processos educativos.

Esta dimensão exige dos docentes uma "sólida formação teórica e interdisciplinar sobre o fenômeno educacional e seus fundamentos históricos, políticos e sociais bem como o domínio dos conteúdos a serem ensinados pela escola".

A complexidade de um processo educativo que envolva a construção de conhecimentos envolvendo corpo docente e discente, pressupõe sólida formação epistemológica no sentido de dar sustentação ao movimento de análise e de intervenção na realidade sócio-educacional. Assim sendo, exige-se do docente, uma capacitação permanente na busca de novos conhecimentos e de novas inter-relações, para fazer frente aos desafios que esse tipo de ação pedagógica impõem.

d) Dimensão estético-cultural: o aluno deve assumir a prática pedagógica como um processo desprovido de preconceitos, predisposto à construção de uma interpretação aberta às diferenças e de efetivação de relações humanas de respeito e tolerância.

Ao Professor, torna-se necessário, senão fundamental, a busca de um olhar amplo que incorpore à formação docente, considerando o professor enquanto alguém que esta no mundo, com o mundo e com os outros. Não há prática docente verdadeiramente que não seja ela mesma um ensaio estético e ético (FREIRE, 1996)." Para isso, os aspectos culturais regionais devem ser valorizados no processo de aprendizagem, re-significando os conteúdos através da sua contextualização e estabelecendo pontes e relações entre o aprendido e o já conhecido. O processo que conduziremos tem como objetivo dar ao futuro professor elementos que deverão servir para fundamentar suas informações, valores e comportamentos, no sentido de possibilita-lo construir não só uma prática pedagógica coerente mas sua própria conduta de vida. Temos em mente ser necessário que o formando deverá procurar estreitar cada vez mais a relação entre a pessoa que é e o professor que será.

A Escola terá como objetivo formar professores que
entendam que a Educação Física é parte da formação geral.

entendam que a Educação Física deve ser pensada na sua relação com a conjuntura de cada momento histórico.
entendam que a Educação Física esta inserida no contexto da educação brasileira.

sejam conscientes de si e da realidade social brasileira.

entendam que a Educação Física deve se preocupar com a inclusão da maioria da população brasileira sem no entanto, discriminar as minorias, quer de portadores de deficiência, quer de atletas.

tenham conhecimento geral abrangente.

tenham conhecimento abrangente sobre Educação Física que lhes permitam o conhecer o corpo nas várias situações da vida humana em sociedade

tenham conhecimento das atividades físicas, esportivas, de lutas, etc, sendo capazes de ensina-las em nível de iniciação.

sejam capazes de lutar por melhores condições de trabalho mas também de trabalhar nas condições existentes considerando os limites do possível.

sejam capazes de ensinar contextualizando o conhecimento e mantendo o processo dialético entre a parte e o todo, o todo e a parte.

sejam capazes de se manter atualizado sabendo obter a informação qualificada

sejam capazes de integrar o conhecimento.

procurem aliar a teoria à prática.

sejam capazes de trabalhar em grupo e de ensinar seus alunos a fazê-lo.

Ações a serem executadas

Subsidiar a compreensão e provocar a reflexão sobre o contexto econômico, político, social e educacional da sociedade brasileira, tendo em vista a atuação de um profissional, consciente, crítico e criativo.

Transmitir a compreensão da educação enquanto fenômeno social e cultural em seu dinamismo e diversidade.

Transmitir a concepção da ação pedagógica enquanto lócus da articulação entre as teorias, conhecimentos e saberes determinados e originados na prática e elaborados na pesquisa educacional.

Proporcionar o uso de diferentes linguagens e tecnologias na promoção da aprendizagem, estabelecendo relações entre ciência, tecnologia e sociedade.

Ensinar, valorizando o sujeito existente em cada aluno respeitando-os enquanto agentes do processo.

Ensinar a ensinar, vivenciando, analisando e criticando.

Ensinar valorizando a Educação Física enquanto uma atividade teórico prática e procurando desconstruir a concepção que a identifica enquanto trabalho manual.

Construir um ambiente no curso que favoreça ao desenvolvimento político e cultural dos alunos. Não só organizando eventos, mas também incentivando a participação na vida da Universidade e da sociedade em geral.

Algumas considerações sobre as disciplinas da Escola

As disciplinas da Escola são a operacionalização dos princípios e concepções discutidos até esse ponto do estudo. Tendo em mente contemplar a Educação Física para todas as faixas etárias, baseados numa concepção de corpo e tendo em mente a inclusão.

A escolha das disciplinas que virão a compor a nossa grade curricular nos coloca diante de inúmeros problemas dentre esses o da abrangência da área, o conceito que se tem do esporte e a formalização que se faz das atividades físicas.

A abrangência da área

A amplitude da nossa área e sem dúvida um dos difíceis problemas a serem resolvidos. Um dado indicativo dessa afirmação pode ser observado quando lemos nos anais de um congresso da nossa área títulos de estudos como: "A prática de atividades motoras com pessoas acometidas por traumatismo medular: do real ao ideal (TOLOCKA e MARCO, 1996)." O esporte na escola como conteúdo da Educação Física (PALMA, 1996), "Perfil da aptidão física de handebolistas de alto nível". O primeiro estudo é sem dúvida um caso que foge a normalidade pois considera pessoas que sofreram um tipo bem específico de traumatismo. O segundo estudo é voltado para pessoas na faixa da normalidade e num ambiente definido que é a escola que tem objetivos educacionais voltados para a formação do aluno. O terceiro estudo discute um grupo específico, o de atletas, que também esta fora da faixa da normalidade que procuram se aprimorar cada vez mais com intuito de vencer competições da modalidade. Entendemos que essa amplitude da área englobando características tão diversas dá uma visão da complexidade do problema.

A abrangência da área deve, portanto, ser alvo das nossas preocupações. As nossas Escolas formam, hoje, professores para trabalhar em escolas do ensino infantil, fundamental, médio e superior; técnicos esportivos, preparadores físico, recreadores, lazereiros, etc.

Lidamos com clientelas as mais diversas e com uma enorme variedade de atividades. Do nível de conhecimento especifico mais elementar ao mais complexo, como exemplo, citamos os professores que trabalham em escolas do Ensino Básico e os técnicos esportivos. Nas escolas os professores utilizam uma grande variedade de atividades dentre elas, a dança, as lutas, os esportes, a ginástica etc, em nível de iniciação. O técnico esportivo ao contrario, lida como uma só atividade mas tem como objetivo a performance máxima. Esse grande guarda chuva que abriga tanto o técnico esportivo quanto o professor que leciona nas escolas cria uma flagrante dificuldade para se conciliar num mesmo currículo formações tão dispares.

Por mais contraditório que pareça os cursos acabam favorecendo a formação de profissionais que são mais técnicos do que professores e conseqüentemente discriminando a maioria da população em detrimento da minoria. Predomina nesse caso o que é mais valorizado pelo mercado, e, portanto, pela mídia e pela sociedade em geral. O esporte de alto nível. A Escola é sem dúvida o setor que mais sai prejudicado no que deveria ser uma conciliação curricular. Um dos problemas que de imediato identificamos é o do professor que ensina assumindo a função de técnico um outro problema, conseqüência do primeiro é a redução do leque de opções das atividades que são oferecidas aos alunos.

O que predomina é o que é mais valorizado pela mídia e pela sociedade em geral, mas que é de fato determinado pelo mercado. O esporte de alto nível, o baseado no modelo da performance, acaba consciente ou inconscientemente, sendo ensinado nas escolas tendo como meta o aperfeiçoamento sem limite. Essa opção é feita em detrimento do esporte para todas as pessoas e não apenas para alguns privilegiados, fisicamente melhores dotados. Preconizamos inclusive que os esporte sejam desenvolvidos enquanto jogo, o que acreditamos ser capaz de ajudar a quebrar o padrão de pensamento instituído.

A estrutura dos currículos das Escolas de Educação Física é provavelmente um fator que influencia o número limitado de atividades nas aulas da disciplina nas escolas. Hoje, a Educação Física Escolar estar reduzida basicamente ao Futsal, Handebol, Voleibol e Basquetebol. As estruturas curriculares das Escolas de Educação Física consideram essas modalidades esportivas enquanto disciplinas, que são ensinadas em pelo menos um semestre. Essa opção se baseia na concepção de que o professor tem que conhecer esses esportes num determinado nível de aprofundamento que se aproxima muito mais do técnico do que do professor. Não são necessárias 30 horas aula para se ensinar um professor a dar aulas de Futsal, Handebol, Voleibol ou Basquetebol, em nível de iniciação, e caso esse número de aulas fosse necessárias para ensinar essas modalidades esse já seria por si só um fator que impediria ampliar o leque de ofertas.

Entendemos que a melhor opção seja montar uma grade curricular que numa primeira etapa tenha como objetivo ampliar o leque com baixo aprofundamento e numa segunda etapa em disciplinas optativas oferecer o aprofundamento em alguns esportes.

A abrangência da área também se reflete na fundamentação teórica que utilizamos. As áreas de conhecimento, de um modo geral, se restringem a campos mais específicos, estando mais situadas numa das áreas como a humana, a tecnológica, a biomédica etc. A Educação Física é uma exceção pois a sua ligação é tão forte com a área biomédica quanto com a humana. O problema é que as pessoas costumam ter afinidade com uma delas o que dificulta uma formação mais equilibrada. O que vem ainda agravando o problema é que os professores de Educação Física que lecionam as disciplinas não têm conseguido fazer uma seleção do conhecimento possível de ser transmitido e assimilado pelos alunos. Na ânsia de formar alunos que conheçam a suas disciplinas num grau aprofundado os professores estabelecem uma quantidade de conteúdo que é impossível de ser assimilado pelo aluno. Nesses termos é provavelmente, mais fácil ser um bom especialista do que um bom generalista. Se o nosso objetivo principal é formar um professor generalista se torna necessário fazer uma otimização do conhecimento que iremos transmitir.

A fundamentação teórica na área de Educação Física era colocada em segundo plano no mundo inteiro, entretanto, alguns paises estavam num estágio mais avançado do que nós e era deles que importávamos os nossos modelos cuja aplicação não era precedida de uma análise crítica nem adaptações a nossa realidade.

A abrangência extremamente ampla do que é considerado como sendo da nossa área, decorre da falta de uma orientação mínima do que seja Educação Física, que para nós se baseará num conceito de corpo e prioritariamente no de inclusão da maioria, o que não significa dizer que discriminaremos as minorias seja de portadores de deficiência quanto de atletas.

O porque das disciplinas escolhidas

A construção de um modelo baseado num corpo que esta no mundo nos abre possibilidades, mas também a responsabilidade de construir disciplinas que dentro dos limites do possível nos permitam discutir e ensinar os conteúdos que fundamentem essa concepção. A adoção dessa concepção nos permite um distanciamento das disciplinas que caracterizam o que é Educação Física e acabam por defini-la. Paradoxalmente, são sobre essas atividades das quais precisamos nos afastar que mais temos condições de discutir, analisar e propor mudanças, o esporte é uma delas.

O esporte, a luta e a dança

O objetivo dos esportes, do ponto de vista social que considera a maioria da população, vem sendo destorcido. Eles são pensados em função de um número diminuto de atletas em detrimento da grande maioria de praticantes reais e possíveis. O esporte segundo esta visão é extremamente excludente e por esse motivo, precisa ser desconstruída e reformada. Na nossa proposta num primeiro momento o esporte será considerado e ensinado como um direito de todos, enquanto conhecimento cultural, instrumento educacional, de lazer e atividade física. Não desprezaremos, todavia o esporte a ser treinado com fins de performance, que terá o seu lugar enquanto disciplina eletiva, numa segunda etapa do curso.

A organização de esportes enquanto disciplinas, que devem ser ensinadas durante um semestre ou mesmo dois, transmitem a idéia que de que para ensina-los é preciso ser um técnico que conheça com profundidade seus conteúdos específicos. No caso do técnico que treina especificamente pessoas numa dessas modalidades a interpretação esta correta, todavia não são os técnicos que queremos formar, e sim professores. Na nossa concepção os professores são acima de tudo educadores que devem ter uma formação geral ampla, o que é incompatível com o aprofundamento que ora se procura realizar; quer seja pela falta de tempo suficiente na carga horária do curso, quer devido aos limites aos quais a própria capacidade humana esta submetida.

Entendemos que os professores de Educação Física incorporam a partir dessa informação que recebem durante a sua formação que para ensinar as modalidades esportivas devem conhece-las com profundidade, o que acaba limitando o que se dispõem a ensinar. Entendemos que para aprender a ensinar os esportes no nível de iniciação, são necessárias apenas algumas aulas. Professores de Educação Física precisam acima de tudo conhecer a fisiologia do esforço, a biomecânica, a psicologia, a pedagogia etc, que são aplicáveis a todas modalidades que ensinam. Alem de precisar saber procurar a informação quando necessitam se aprofundar em algum assunto.

A dança e as lutas que também foram esportivisadas e como seguem a mesma lógica serão tratadas da mesma forma que os esportes.

Uma outra estratégia de qual lançaremos mão para descaracterizar o esporte, a luta e a dança, enquanto uma modalidade que deve ser treinada com o objetivo de levar a perfeição e classifica-los como atividades. A nossa proposta é grupar mais de uma atividade em cada disciplina e renomeá-las, de maneira a descaracteriza-las enquanto esporte.

Atividades físicas formais com fins estéticos ou de saúde

As atividades física com fins de promoção da saúde ou estética vêm tendo sua forma modificada para se tornar mais atraente aos olhos do leigo. No entanto, pouco vem se fazendo para torna-las teoricamente melhor fundamentadas. Entendemos que as modificações que se fazem necessárias devem ser levadas a efeito com base na biomecânica, fisiologia ou na área motora e não na forma. Se considerarmos os exercícios físicos com base nessas áreas de conhecimento, veremos que a ginástica, a musculação, a corrida, ou as atividades que realizamos no nosso dia a dia são bastante semelhantes, não sendo, portanto, adequado estuda-los de forma separada, mas sim como esforço físico.

A atividade ginástica para adultos(10) foi identificada durante muitos anos como calistenía. No início da década de 70, a ginástica calistênica passou a ser substituída nas aulas de Educação Física na escola pelo jogo e pelo esporte. A critica que inicialmente se fez a esse tipo de ginástica, é que ela era enfadonha(11) e que deveria ser substituída por atividades com características lúdicas, no caso os jogos e os esportes.

Com base da valorização do lúdico os teóricos passaram a combater a atividade cada vez em um número maior e com mais veemência. Provavelmente, em decorrência da forte crítica recebida e da lei 69450/70 que preconizava a formação esportiva, a ginástica calistênica quase desapareceu das escolas. Com o fim da ditadura militar iniciada em 1964, começaram as denuncias de como a Educação Física era utilizada em pró da manutenção do sistema. Nesse período a ginástica calistênica sofreu mais uma critica contundente dessa vez pelo seu caráter militar, disciplinador e alienante, ocasião em que foi banida das escolas.

As academias, no entanto, nunca desistiram da ginástica, dado ao potencial comercial que ela tem. Nesse tipo de estabelecimento, o aumento da procura pela atividade ocorre, devido às descobertas cientificas que indicam a necessidade do exercício físico para a manutenção e o aprimoramento da saúde e a valorização de um padrão estético que preconiza o corpo "malhado", elementos que são reforçados pelo marketing e pelo modismo. A preocupação com a ludicidade da atividade, entretanto, não foi desconsiderada. O piano, que acompanhava freqüentemente as sessões, foi substituído pelas fitas gravadas. Os exercícios ganharam uma forma mais arredondada e se tornaram, mais motivantes. As maneiras de fazer ginástica surgem a todo o momento, preconizando novas formas de executar exercícios físicos, alguns exemplos, primeiro foi a aeróbica, depois a aeróbica de baixo impacto, em seguida vieram o "step," aero funk, aero box, etc. Entretanto, cabe observar que os exercícios receberam uma nova forma mas as explicações teóricas que vem sofrendo uma grande evolução desde os anos 70 pouco foram utilizadas para tornar essa atividade teoricamente melhor fundamentada.

Com o avanço dos estudos na área de fisiologia, a ginástica passou a poder ser, teoricamente melhor fundamentada, apesar de, em geral, os participantes de uma sessão serem tratados coletivamente o que dificulta, em grande parte, o uso desse conhecimento.

O mercado mais especificamente o marketing tem atribuído diferentes roupagens à ginástica, com o objetivo de vender o seu produto. E dessa forma que a ginástica, de um modo geral, funciona nas academias. No nosso entender é preciso romper com a concepção de ginástica que atribui mais importância à forma do que a fundamentação teórica, o que permitiria a essa atividade alcançar diferentes objetivos. Se considerarmos a ginástica como esforço ou atividade física e nos fundamentarmos nas fontes de energia utilizadas, ou nas valências físicas a serem desenvolvidas, teremos condições de elaborar uma concepção que pense os movimentos em função das valências físicas que se quer atingir e se com objetivos de promoção da saúde ou estéticos. Nesse sentido, andar ou correr seriam atividades consideradas como ginástica, assim também como subir escadas ou em arvores, ou fazer musculação. Uma concepção de ginástica fundamentada nesses princípios poderia não só ajudar a tirar o seu caráter exclusivamente institucional, valorizando a atividade física do dia a dia, alem de possibilitar a sua volta a escola de uma forma mais livre e mais motivante.

A individualização da ginástica em contraposição a sua coletivização é um outro fator a ser considerado. No seu segmento musculação essa proposta pode ser efetivada sem qualquer dificuldade, entretanto, quando se trata dos movimentos conhecidos como sendo de ginástica essa individualização não vem sendo considerada, o que no máximo se consegue organizar é uma dosagem pela média dos participantes do grupo.

A individualização, no entanto, tem também uma ligação intima com um outro comportamento que consideramos de extrema importância que é a autonomia em termos do sujeito construir o seu próprio programa de atividade física. Se a pessoa sabe que os exercícios aeróbios são os que imprimem um maior gasto calórico e que são apropriados para fortalecer o músculo cardíaco. Se ele aprende que sua saúde em termos físicos depende de força e resistência muscular, mobilidade articular e uma boa condição cardio vascular, enfim se formamos pessoas que tem um conhecimento mínimo sobre atividade física e como dela obter benefícios, teremos cumprido uma importante função educativa.

As teorias que fundamentam uma disciplina ou área de conhecimento são historicamente determinadas, e tem um valor relativo.Um outro fator limitante é a organização didática que nos permite melhor delimitar o nosso campo de estudo e divulga-lo. É verdade que precisamos organizar o caos pois nele nos sentimos perdidos, entretanto, reconhecemos que essa organização também interfere na nossa maneira de pensar e a limita.

Com o passar do tempo de posse de outras informações e influenciado por novas concepções podemos olhar o nosso objeto de estudo de forma diferenciada. E fazer propostas que rompam com o estabelecido e resolva problemas que enxergamos nas concepções estabelecidas.

Entendemos a ginástica como um esforço físico intencionalmente organizado que teoricamente fundamentado tem como objetivo desenvolver determinadas valências físicas seja com fins estéticos seja de promoção da saúde. Essa definição não exclui a ginástica da maneira como hoje é realizada mas amplia a maneira de desenvolve-la, fortalece a importância da fundamentação teórica e a ajuda a romper com o predomínio do gesto.

O nome ginástica esta estigmatizado e o melhor seria não utiliza-lo. Por esse motivo propomos que o nome da disciplina que incluiria não só que viemos chamando de ginástica, mas também a musculação, a corrida ou mesmo o esforço físico do cotidiano fosse discutido sobre o nome da disciplina "Atividades Físicas formais com fins estéticos ou de saúde." .

Atividades físicas informais e/ou do cotidiano

As atividades físicas com fins de desenvolver a saúde ou a estética vêm sendo consideradas como pertencendo ao domínio da Educação Física. Atividades com esse objetivo vêm sendo desenvolvidas, em geral, de maneira sistemática, por professores de Educação Física.

Concordamos com a pertinência, mas não com a exclusividade. Um dos motivos que contribuiu para o desenvolvimento da atividade física sistemática foi necessidade de se exercitar o corpo, pois grande parte das pessoas, nas sociedades moderna passou a levar uma vida cada vez mais sedentária. Em outros períodos da história a atividade física era parte de seus cotidianos e estavam associadas ao trabalho. Uma pessoa que are a terra com uma enxada ou que plante, estará fazendo atividade física. É verdade que a atividade física realizada dessa forma pode não contemplar todas as qualidades físicas que deveriam ser desenvolvidas, segundo um determinado conceito como, por exemplo, o de Promoção da saúde. No entanto, esse não nos parece ser um argumento que justifique a desvalorização dessa atividade. Entendemos que a atividade física realizada no dia a dia tem o seu valor e deve ser incentivada.

A nossa proposta entende que as pessoas devem se tornar autônomas com relação à programação e a execução de suas atividades físicas, no sentido de atender a esse objetivo, precisamos ensinar as pessoas os conceitos que lhes possibilitem entender os efeitos da atividade física sobre seus corpos. Esse conhecimento lhes servirá tanto para entender o tipo de esforço físico que realizam durante as suas atividades cotidianas quanto realizar os movimentos sistemáticos com fins específicos, como, por exemplo, o dos exercícios abdominais.

Atividades de desenvolvimento de habilidades corporais(12)

Um outro papel que consideramos ser da Educação Física é o de propiciar o desenvolvimento de habilidades corporais. Entendemos que atividades como a Ginástica Olímpica e o atletismo tem elementos que são fundamentais para o desenvolvimento dessas habilidades, dentre eles correr, saltar, arremessar, rolar, fazer paradas de mão e os diversos tipos de salto. Atividades circenses que desenvolvem equilíbrio e habilidades de malabarismo são outras dessas habilidades.

Esportes, lutas e danças

Essas disciplinas têm como objetivo qualificar os professores que querem se especializar num determinado esporte. Elas serão oferecidas tendo em vista tanto a nossa capacidade de oferece-las quanto em função da procura. Tendo em vista o nosso atual quadro docente podemos antecipar que poderão ser oferecidas nesse grupo de disciplinas: Handebol, Futsal, Voleibol, Judô. Precisamos todavia discutir em quantos níveis ofereceremos essas disciplinas.

Organizações coletivas escolares e não escolares.

Quando dissemos que a política deveria ser vivenciada estávamos prevendo tanto a participação dos alunos nos orgãos de decisão coletivos quanto em aulas que tratassem especificamente desse tema. Entendemos que a política deve ser vivenciada através da participação direta em orgãos colegiados, comissões, conselhos, diretórios etc, mas também entendida e discutida de maneira organizada numa disciplina que todavia, não se restringirá à discussão teórica mas que também organizará visitas a Grêmios, Diretórios, Conselhos, Colegiados, Câmaras de Vereadores, de Deputados, Senado, Associações de moradores etc.

Corpo e imagem (Imagem: televisiva, fotográfica, filmagem em vídeo)

Falar de corpo é falar de imagem. Portanto, é sem dúvida alguma, muitíssimo mais fácil falar de estética ou de movimento exibindo imagens, do que descrevendo um corpo ou os movimentos que realiza. Ensinar o professor como utilizar ou produzir imagens quer através da fotografia quer através da filmagem é prove-lo de um instrumento que poderá tornar as suas aulas mais esclarecedoras, alem de mais dinâmicas e atuais. Um outro fator que nos indica a necessidade de melhor entender à imagem é que a televisão esta presente na grande maioria dos lares brasileiros transmitindo informações e valores que atuam fortemente na formação das pessoas. Entender esse veículo de comunicação de massas e sua interferência na formação das pessoas é uma necessidade, para aqueles que querem formar alunos críticos.

Estágio

O estágio será uma das grandes preocupações da nossa Escola, e ele não se baseará na concepção de que aprender e ensinar, acontecem, necessariamente em momentos diferentes. Entendemos que essas duas ações devem fazer parte de um mesmo contexto. O professor quando leciona aplica métodos e técnicas de ensino que não estão desvinculados do conteúdo ensinado, o que acontece é que freqüentemente, assimilamos esses métodos sem refletir sobre eles.

Ensinaremos com base em análises e reflexões procurando estreitar a relação teoria e prática o que caracteriza um processo de Estágio. Todavia não desprezaremos o estágio da maneira como vêm sendo concebido

Reservaremos uma parte da carga horária das disciplinas para a realização do estágio relativo as atividades específicas, alem do que será realizado nas instituições. Os estágios a serem realizados nas Escolas, Clubes e Academias se estenderam para alem das aulas, que deverão promover a participação no contexto dessas instituições.

Educação Física para a faixa etária que vai de 0 a 10 anos

As leis que orientaram e ainda orientam a Educação Física só se preocuparam em determinar que essa disciplina era da alçada dos professores da nossa área a partir da Quinta Série. Uma outra marca impressa pelas leis e principalmente pela 69450/71 é que o esporte deveria ter prioridade. Essas concepções de certa forma nos impediram de desenvolvermos estudos que se ocupassem da Educação Física nas Escolas até a Quarta série. Essa é uma deficiência que nos impede por ora de fazermos uma proposta mais elaborada para essas séries, mas não deixaremos de incluí-las no currículo assinalando que é urgente realizar estudos no sentido de preencher essa lacuna. Uma outra decisão que devemos tomar é se nos posicionaremos no sentido de reivindicar que a Educação Física deve ser ensinada pelo professor da área ou pelo professor Regente. Seja qual for a decisão entendemos ser necessário desenvolvermos estudos que nos habilitem a ensinar uma Educação Física adequada para essa faixa etária seja na escola ou fora dela.

As disciplinas

Atividades esportivas I (Futebol, Futsal, Futebol de areia, Futvolei), Atividades esportivas II (Volei, Volei de areia, Peteca em quadra, Peteca em areia) Atividades de Luta I (Pré lutas, lutas brasileiras), Atividades de Luta II (Judo, Ju-jitsu, Luta livre olímpica, Luta greco romana), Atividades de Luta III (Aikido, Karate, Tae-kwon-do) Atividades aquáticas I (Natação na piscina e no mar), Atividades aquáticas II (Surf, Body board, caiaque) Atividades ritmicas ( Dança, expressão corporal, mímica). Atividades contemporâneas I (Andar de Skate, Andar de Patins, Andar de Bicicleta). Atividades físicas formais com fins estéticos ou de saúde (Ginástica, musculação, corridas). Atividades físicas informais ao ar livre I (Caminhada, Caminhada em trilha, Atividades diárias). Atividades de desenvolvimento de habilidades corporais I (Ginástica de solo, atividades circenses). Atividades de desenvolvimento de habilidades corporais II (correr, saltar, lançar, arremessar). Handebol I. Handebol II. Handebol III. Jogos populares I. Teorias aplicadas aos esportes. Teorias aplicadas aos jogos. Teorias aplicadas ao lazer. Estudo de organizações coletivas escolares (Grêmios, Diretórios, Conselhos e colegiados) Estudo de organizações coletivas não escolares (Câmaras de Vereadores, de Deputados, Senado, Associações de moradores, ONGs). Corpo e trabalho. Corpo e sexualidade. Corpo e imagem (Imagem: televisiva, fotografia, filmagem em vídeo, uso do data show). Corpo e a arte (cinema, pintura, escultura, música etc.) Informática (Windows, Word, Excel, Power Point, Operar no sistema Web e com e-mail) Estágio I (Realizado nas aulas). Estágio II (Realizado em outras instituições).


Notas explicativas:

(1)Nesse trecho concentramos uma parte maior da fundamentação, mas na verdade ela é parte integrante de todo o estudo.

(2)As modalidades que eram oferecidas para os alunos de todos os cursos através da Sub-coordenação Curricular era denominada de "Educação Física Curricular" e apesar do nome desse setor ter sido mudado para Setor de Graduação, por força de hábito, ainda hoje, nos referimos a esse setor como sendo da Curricular.

(3)O termo globalização embora nos transmita a idéia de uma rede de troca a nível mundial são na verdade vias de uma só mão que beneficiam os países do primeiro mundo e em especial os Estados Unidos.

(4)Chamamos de específicos da Educação Física os jogos, esportes, lutas, ginástica, etc. Os valores e comportamentos inerentes a Educação Física são parte da educação geral.

(5)É bem verdade que essa predominância do ensino técnico em busca da performance não se justifica exclusivamente, pela formação técnica que o professor de Educação Física vem recebendo na graduação. Não podemos desprezar a valorização da performance que é feita pela mídia e a população em geral, quer seja do esporte de alto nível quer seja com relação a um padrão estético.

(6)O que acreditamos não acontecer com mais freqüência pela falta de material.

(7)Ensinar essas técnicas como informação de um elemento da cultura corporal, que pode ser vivenciado pelo aluno é compreensível, entretanto, o que se faz e fazer o aluno treinar essas técnicas.

(8)Esse ensino era repetido em cadeia pelos professores formados segundo essa prática pedagógica. Hoje, muitos professores que ensinam nas escolas de Educação Física já tem a preocupação de ensinar a ensinar, o que no entanto, ainda não ocorre com muita freqüência nas escolas do Ensino Básico e outros locais onde se ensina as atividades de Educação Física.

(9)As nossas considerações sobre a pesquisa em Educação Física não tem o objetivo de negar a importância de seu viés biomédico e de característica quantitativa mas desfazer o mito da neutralidade desse tipo de pesquisa e apontar que ela não é a única alternativa mas sim uma delas.

(10)Qualifiquei como sendo a ginástica para adultos porque para as crianças eram preconizados exercícios físicos recreativos que também eram chamados de ginástica. Entretanto, na sociedade em geral quando se falava em ginástica entendia-se calistenia.

(11)É interessante observar que apesar dos avanços da fisiologia que ocorriam nesse mesmo período a critica não se deu por esse viés.

Para citar apenas um exemplo, a calistenia como desenvolvida naquele período, não colaborava em nada para desenvolver a condição cardio vascular que as descobertas daquele período tornavam tão importante.

(12)Todas as atividades que realizamos desenvolvem uma habilidade corporal, no entanto, entendemos que as atividades grupadas nessa disciplina devem dar ênfase a esse objetivo.

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