Psicologia do Esporte Fora da Psicologia

Por: Teresa Sanches e (Entrevistado).

Boletim da Ufmg - 2018

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Pesquisa mapeia produção acadêmica na área em Minas Gerais; maioria dos trabalhos foi desenvolvida no âmbito dos programas de pós-graduação em Educação Física

A partir dos anos 80, o esporte competitivo conquistou lugar de destaque no campo social e cultural e valor de commodity na balança comercial nacional e internacional. De lá para cá, a performance dos atletas passou a ser objeto de pesquisas de mestrado e doutorado em Psicologia e Educação Física. Dissertação defendida no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Fafich mapeia essa produção acadêmica, de 1980 a 2012, em Minas Gerais, e confirma a Educação Física como principal área produtora de estudos em Psicologia do Esporte.

No período investigado, seis instituições ofereciam programas de pós-graduação em Psicologia: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e as universidades federais de Uberlândia, do Triângulo Mineiro, de Juiz de Fora, de São João del-Rey e de Minas Gerais. Apenas o programa da UFU registrou trabalhos no campo da Psicologia do Esporte – 5% dos estudos. Os outros 95% dos trabalhos científicos foram realizados no âmbito dos programas de Educação Física mantidos na UFMG e nas federais de Juiz de Fora e Viçosa.

[Emmi: três décadas de produção em psicologia do esporte]
Emmi: três décadas de produção em psicologia do esporteFoca Lisboa/UFMG

Das 55 dissertações desenvolvidas no período e recomendadas pela Capes, 67% são de autoria de homens, e 33%, de mulheres. A Educação Física predomina como área de formação dos autores (71%), seguida da Psicologia e da Fisioterapia (ambas com 9% cada) e formação dupla (8%). Em 4% dos casos, a formação não foi identificada. 

Entre os orientadores, 67% eram ­homens, e 33%, mulheres; 67% tinham como formação a Educação Física, e 33%, a Psicologia. Segundo a autora do estudo, Emmi Myotin, identificar a formação dos autores e orientadores foi importante para verificar a contribuição dos psicólogos e da Psicologia para as Ciências do Esporte que visa ao alto desempenho dos atletas. “A questão do gênero, embora não tivesse prioridade no início do levantamento, tornou-se relevante e talvez a chave para justificar a predominância da Educação Física como produtora de trabalhos científicos em Psicologia do Esporte no estado”, avalia. 

Abordagens
A abordagem predominante nas 55 dissertações foi a cognitivo-comportamental (96%), que se baseia na observação do comportamento do sujeito relacionado à cognição. “Ela difere da abordagem psicanalítica, presente em 2% dos trabalhos, que se funda na escuta, para entender os sentimentos e as ações do cliente-paciente. A vertente cognitivo-comportamental parte do pressuposto de que a pessoa é influenciada pelo que ela pensa sobre o evento”, explica a psicóloga.

A abordagem psicossocial também esteve presente em apenas 2% das produções científicas e, segundo Myotin, é fundamental para a Psicologia do Esporte. “Como a psicologia tem múltiplas vertentes, com diferentes conceitos sobre o ser humano, acredito que a abordagem sobre a performance do atleta deve considerar todo o contexto em que ele está inserido. A família, as relações sociais e institucionais têm forte influência sobre o desempenho do atleta nas competições”, pondera Emmi. 

Os principais temas dos trabalhos mapeados pela autora são análise do estresse psíquico (25%), liderança do treinador (9%), qualidade de vida do atleta (7%), expert performance do atleta (7%), expert performance de treinador (7%), carreira de atleta (5%), motivação (5%), treinamento mental e outros, com 5% cada.

Os tipos de sujeitos (atleta, árbitro e treinador) foram também destacados por Myotin como importante contribuição para as futuras pesquisas da área. Segundo ela, 71% eram atletas, 25%, treinadores, 2%, árbitros, e 2% não se enquadravam nas classificações anteriores. “Como profissional de Educação Física, sempre defendi a necessidade dos conhecimentos da Psicologia na formação dos treinadores, cujo papel pode ser comparado ao de pais ou de educadores. Muitas vezes o problema apresentado pelo atleta não exige um acompanhamento psicológico, pois pode ter sido originado da formação inadequada do treinador”, observa.

Após aposentar-se como professora do Departamento de Educação Física, da Universidade Federal de Viçosa, atuando na área de Psicologia do Esporte, Emmi Myotin recomeçou sua carreira acadêmica em 2009, na graduação em Psicologia da UFMG. Naquele ano, a disciplina Psicologia do Esporte não constava na grade do curso, o que desapontou Myotin. Apenas em 2016, depois que se formou, foi introduzida uma disciplina optativa, de 30 horas. Com base nessas experiências, a pesquisadora propõe sugestões de ação para os cursos de Psicologia, como a introdução da disciplina Psicologia do Esporte na grade curricular da graduação, oferta de especialização e formação de grupos de pesquisa na área, com foco em questões de gênero.

Dissertação: Psicologia do Esporte: produção científica em programas de pós-graduação em Educação Física e Psicologia de Minas Gerais (1980-2012)
Autora: Emmi Myotin
Orientador: Sérgio Dias Cirino
Defesa: junho de 2018 no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Fafich

Endereço: https://ufmg.br/comunicacao/publicacoes/boletim/edicao/novas-luzes-sobre-o-figado/psicologia-do-esporte-fora-da-psicologia

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