Quando o Racismo Bate à Porta

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Blog do CEV - 2019

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Os seres humanos se diferenciam de outros animais por serem produtores de cultura. E isso só é possível pela dependência que nós temos de outros seres da mesma espécie. Ou seja, desde que a criança sai da barriga da mãe e começa a respirar o ar com seus próprios pulmões ela passa a absorver não apenas oxigênio, mas tudo aquilo que circula próximo dela.

E assim se constrói a identidade, entendida como um processo que nos leva a afirmar que somos alguém, diferente de tantas pessoas que se parecem conosco. Somos seres humanos e pertencemos a diferentes grupos, embora papéis sociais e convicções possam ser alterados ao longo de nossa existência. Ser e estar, na língua portuguesa, significam coisas diferentes. O ser se fixa, enquanto estar é um momento. Ser significa estar no mundo de alguma forma. 

O verbo que nos iguala também nos distingue. Ser como alguns implica em ser diferente de outros uma vez que a humanidade é pródiga em produzir multiplicidade. Não haveria dificuldade alguma em lidar com isso não fosse a centralidade da cultura da dominação que marca a história humana. Domínio, imposição, escravidão caminham distantes da convivência, do respeito e da liberdade.

O esporte, principalmente os Jogos Olímpicos, foi concebido para ser uma atividade de abrangência universal, com o intuito de promover a paz e aproximar a humanidade, independentemente do idioma, da religião ou da cultura dos atletas ou times. Uma utopia que mobilizou o planeta. Uma prática cultural que deu e dá identidade a inúmeros países e grupos sociais. Como fato social ele também expõe os conflitos e mazelas do momento histórico em que se manifesta.

Há tempos as competições esportivas têm sido palco de manifestações racistas. Seja no futebol, no voleibol, na ginástica, no rugby, no judô ou no campinho de terra. Entendeu-se que mais do que uma brincadeira chamar alguém de macaco ou saco de lixo era ofensivo e desumano e depois de muitas décadas as instituições esportivas começaram lentamente a se mexer para evitar que o assédio ganhasse a mesma visibilidade que o espetáculo esportivo.

Punição à torcida, ao clube e ao torcedor individual tem sido aplicada. Ainda assim, isso não parece ser suficiente porque as agressões continuam. Fato é que a violência que transborda em outras instâncias da sociedade acompanha até os estádios e ginásios as mesmas pessoas que agridem de forma impune conhecidos e desconhecidos.

A naturalização e a banalização da violência no cotidiano atingem o esporte e violam o princípio da igualdade que o fundamenta.

Ouvi de diversos atletas, de diferentes gerações, o que é conviver com o racismo dentro e fora do ambiente de competição. Ele se manifesta de forma aberta e velada nos vestiários, nos espaços de treinamento, nos refeitórios. À vítima cabia a resignação porque a denúncia sempre pareceu ser uma forma de rebelião, atitude essa muito pouco conveniente a um ambiente aristocrático, fundamentado no fair play. Também em relação a isso a sociedade mudou. Atletas de diferentes nacionalidades, exercendo o seu trabalho mundo afora, passaram a exigir respeito. Ser atleta e ter visibilidade global é também estar na posição privilegiada para expor aquilo que outros não conseguem.

Uma piada é agora entendida não mais como brincadeira, mas como uma ofensa passível de ser punida com o rigor da lei. Nenhuma agressão se justifica como uma brincadeira seja de mau gosto.

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