Redes Sociais e Colaborativas em Informação Científica

Por: Dinah Aguiar Poblacion, Lúcia Maria S.v. Costa Ramos e Rogerio Mugnaini.

Angellara. 2006

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Sobre a Obra

Comentário

Maria Immacolata Vassallo de Lopes  Coordenadora da Pós Graduação da ECA

A percepção do aumento do caráter horizontal, generalizado e dos fluxos contínuos da comunicação faz com que vários autores destaquem a rede como uma forma ou metáfora da sociedade atual. É uma estrutura geral que tem na Internet sua expressão mais característica e resume aspectos essenciais da nossa época, com desdobramentos em diferentes âmbitos.

Porém, um dos méritos deste volume é ressaltar que o modo de organização em rede é e sempre foi fundamental na prática científica. A ciência constitui um programa coletivo de busca do conhecimento, uma atividade social na qual indivíduos, grupos e instituições estabelecem conexões, através da troca de informações, colaboração, debates e polêmicas. Desse modo, produzem-se redes em aspectos como a formação do pesquisador, a organização do conhecimento e a elaboração de políticas científicas, analisados pelos autores dos capítulos do trabalho.

É significativo ressaltar, por fim, que o próprio livro Redes Sociais e Colaborativas em informação científica evidencia esse modo de produção em rede que analisa. Elaborado a partir de uma discussão organizada pelo Núcleo de Produção Científica (NPC) da ECA/USP, conta com pesquisadores da Espanha e Brasil, de diferentes instituições, áreas científicas e campos de interesse. Isso torna a leitura do trabalho enriquecedora, tanto para os especialistas quanto para os interessados nas temáticas, já que o trabalho, ao mesmo tempo em que possui uma unidade discursiva, indo dos aspectos mais gerais aos mais específicos das redes, aborda o tema sob ângulos diversificados.

Apresentação

          Redes Sociais e Colaborativas em informação científica, em 21 capítulos , embora reunidos sob o mesmo tema, traz uma gama diversificada de trabalhos de pesquisadores do Brasil e Espanha - com o último capítulo dedicado a conceitos e glossário  e o primeiro, elaborado por Isaac Epstein, a resenhas e comentários dos textos - transcrito abaixo como apresentação:

Resenhas e comentários

                                      Isaac Epstein                  

Capítulo 2 - Integración vertical de las ciencias aplicada a redes sociales – sociedad de la información en sus relaciones sistémicas.

Emília Currás

A autora propõe um modelo de integração vertical das ciências. Na primeira parte do texto conceitua-se o que são redes sociais inclusive definindo alguns termos como nós ou objetos, vínculos ou arestas, estruturas, funções, finalidade, morfismo, dinâmica, centralidade, entrada, condições iniciais, saída ou resultados e redes abertas e fechadas. Também é ressaltado que muitos dos termos utilizados nas redes sociais têm um paralelismo com as noções e definição de sistema da Teoria Geral dos Sistemas.

Na segunda parte, do tema concernente à Sociedade da Informação, a autora chega ao conceito de Sociedade do Conhecimento. A Sociedade da Informação é considerada como uma Rede Social, inclusive classificada como rede sócio-técnica e econômica. Para isto devem ser considerados três ambientes: social humano, técnico físico e econômico a que correspondem três esquemas.

A terceira parte trata da Integração Vertical das Ciências e inicia com um esboço histórico de alguns pensadores que postularam a idéia da Ciência-Unidade. É justamente a partir desta unidade que é pensada a referida integração vertical.

A quarta parte descreve a Estrutura Vertical da Sociedade da Informação. Neste ponto são recuperados os ambientes descritos na segunda parte: social-humano, técnico-físico e econômico. Estes ambientes são então dispostos esquematicamente em três colunas, que por sua vez vão abrigar “nós” hierarquicamente colocados e considerados como seus constituintes. A seguir estas três colunas, já preenchidas com seus respectivos “nós”, são dispostas lado a lado e postuladas então, as interconexões entre determinados “nós”. Um esquema permite a visualização do conjunto.

Comentário: Sabemos que uma das distinções que se costuma fazer entre “modernidade” e “pós-modernidade” é a freqüência de relatos (ou teorias) globais e generalizantes, na primeira, e relatos (ou teorias) locais e fragmentados, na segunda. (LYOTARD, O Pós-Moderno).

A idéia da Ciência Unificada uma “nostalgia” desde a filosofia antiga (“nostalgia da unidade” de Plotino) colhe sua atualização mais detalhada quando proposta pelo Movimento da Ciência Unificada dentro da epistemologia da ciência hegemônica na primeira metade do século vinte. A Ciência Unificada foi defendida por filósofos da ciência como Carnap e outros pertencentes ao chamado “Círculo de Viena”. Após o aparecimento do livro “Estrutura das Revoluções Científicas” de Thomas Kuhn, e todas as suas seqüelas no campo denominado de “Estudos Sociais da Ciência” a idéia começou a parecer cada vez mais inviável seja como possibilidade de algum conteúdo unitário, ou mesmo como epistemologia ou metodologia unitárias. A “nostalgia da unidade” parece ser, no entanto, um pensamento recorrente. Recentemente a unidade do conhecimento foi defendida por E.Wilson, multipremiado biólogo e entomólogo em seu livro “Consiliencia” onde explicitamente se alinha com os que pensam que “a natureza está organizada por leis simples e universais da física, às quais todas as outras leis e princípios poderão finalmente se reduzir”. O que então dizer da “Estrutura Vertical das Ciências” proposta pela autora? Uma crítica geral e global seria tão abrangente e problemática como a própria proposta. Geralmente o desafio a teorias muito abrangentes é o de encontrar as mediações adequadas para verificá-las empiricamente. Propomos então um exercício construtivo: tomando o último esquema mencionado pela autora pense o leitor um exemplo concreto, alguma situação real onde poderia aplicar e verificar a ocorrência das interconexões propostas. Um tal passo “empírico” seria saudável em direção à verificação da proposta.

Capítulo 3 - A Organização do Conhecimento e as Redes Sociais.

Marcos Luiz Cavalcanti de Miranda

O autor menciona a noção de habitus trabalhada por Bourdieu, algo que, paralelamente a normas ou regras codificadas, condiciona na prática a conduta das pessoas. Regras não escritas e às vezes não conscientes que regulam nossa conduta. Nessa ordem, diz o autor “objetivação é tornar visível, público, conhecido de todos”. A proposta do autor é então “visualizar de forma simbólica o fluxo da objetivação que começa no habitus, na subjetivação até a oficialização, a objetivação”. Para isso propõe um esquema gráfico. Partindo do fato que “os seres humanos estão conectados por uma rede complexa de relações sociais”, chega-se à idéia de uma rede global. É a partir disto que poderiam ser geradas proposições testáveis.

A seguir são sugeridos alguns esquemas para que “busca e recuperação da informação sejam realizadas a contento pelos usuários”. Para uma Teoria Geral da Terminologia (TGT) são propostos vários tipos de ordens: A) Relações lógicas; B) Relações ontológicas; e, conseqüentemente, as Relações quantitativas e qualitativas.

Finalmente são contrastadas as formas clássicas de ordenação do conhecimento, isto é, na forma de árvore classificatória, com ramos e sub-ramos contendo espaços e conteúdos mutuamente exclusivos na forma de rizoma. São definidos os conceitos de Multidisciplinaridade, Pluridisciplinaridade, Interdisciplinariodade e Transdisciplinarida-de. A imagem do rizoma, onde qualquer ponto pode ser ligado a outro, surge como uma resposta aos esquemas de bifurcação sucessiva, da lógica clássica e procedimentos binários e de mútua exclusão. A metáfora do rizoma sugere outros mecanismos de busca principalmente na rede da internet.

Comentário: Tradicionalmente nossas sociedades se organizam de forma hierárquica, com uma lógica classificatória e categorias idealmente e mutuamente exclusivas. No universo simbólico verificamos, por exemplo, a tradicional classificação de Lineu das espécies em gêneros, famílias, espécies, indivíduos, os livros de nossas bibliotecas tradicionalmente classificados em temas gerais, subtemas, etc. Nas organizações sociais, públicas e privadas prevalece o esquema da subordinação hierárquica com seus níveis ou “escalões”.

A tecnologia de armazenamento da informação própria da internet nos aponta para novas maneiras de armazenar, organizar e buscar a informação desejada. Os hipertextos organizam a informação onde os termos se remetem mutuamente. Um universo relacional em contraposição a um universo classificador já havia sido vislumbrado por filósofos e cientistas. (MARUYAMA, M. “Metaorganization of Information”, Cibernética, nº 4, 1965).

A metáfora do rizoma pode nos levar a uma revolução, não só na organização de nossa memória simbólica (através da internet), como sugerir uma outra maneira de organizar a própria sociedade. O modelo da circulação da informação (hardware) no cérebro onde os neurônios parecem não obedecer a uma troca hierárquica de mensagens de “cima para baixo” como se diz, mas à formação de uma rede horizontal sem pontos ou “nós” privilegiados, não nos leva a pensar uma rede social organizada da mesma forma? Afinal, existe a possibilidade do ideal da utopia anarquista ser facilitado pela web?

Capítulo 4 - Redes sociais: presença humana e a comunicação informal.

Kátia de Carvalho

O texto ressalta, de início, a influência das tecnologias da informação na reformatação de redes verticais hierárquicas do fluxo da informação em desenhos onde ganha espaço o fluxo horizontal. E se, “Ciência é poder” (Knowledge is power), como dizia o velho Bacon e a informação é a matéria prima da ciência então isso não vai deixar de influenciar a distribuição de poder nas relações de trabalho. Muito bem dito!

A autora ressalta também a articulação entre a informação impressa e a informação eletrônica inclusive a introdução do hipertexto em contraposição ao texto de exposição linear. Uma atenção é dedicada às redes informais desde as mais corriqueiras até os chamados “colégios invisíveis” entre os cientistas. O acesso à informação na sociedade moderna, diz a autora, pode ser realizado de duas maneiras distintas: por meios convencionais e pelas redes sociais colaborativas. Ainda mais, como os espaços de convivência da emoção e da afetividade como a família, a escola e o trabalho estão pouco a pouco se transformando em lugares de isolamento e não interação entre as pessoas, as redes sociais de variada natureza, podem se transformar em importantes espaços de socialização. As redes humanas têm como objetivo promover a integração de indivíduos de forma participativa e democrática, visando um fim comum que facilite as articulações de políticas e implantações de projetos.

Enfim a autora enfatiza a importância das redes nas transformações das relações sociais, científicas e políticas.

Comentário: A comunicação vertical hierárquica formata nossas organizações e instituições. A informação, acoplada à ordem que é o lugar do poder, percorre de cima para baixo em forma de árvore todos ou a maioria dos tipos de nossas organizações: eclesiástica, militar, universitária, empresarial, etc. Poucos no topo (ou um só) e à medida que baixamos na árvore vai aumentando proporcionalmente o número de indivíduos em cada patamar. A economia dos fluxos de comunicação, percolando os vários escalões, é sensível em relação a um fluxo em que “todos se comunicam com todos”. Experimentos de laboratório, com pequenos grupos feitos há mais de 50 anos (Bavelas, Leavitt) mostravam as vantagens do fluxo vertical da informação (e do poder) na realização de tarefas rotineiras e pré-programadas e a vantagem do fluxo horizontal (de todos com todos) em tarefas que exigem iniciativa e criatividade. Mais ainda, em determinadas tarefas a posição central de uma pessoa na pequena rede formada no laboratório (de cinco a sete pessoas) induzia ao exercício da liderança. Em suma não se ocupa a posição central porque se é líder, mas se é líder porque se ocupa a posição central. Voltando, porém, ao incremento da comunicação horizontal em rede, agora facilitado pela Internet, podemos pensar no tremendo potencial que isto pode ter. O oligopólio das agenda settings da grande imprensa é desafiado pelos Blogs e Sites. O segredo das práticas menos recomendáveis postos à luz por informações filtradas e passadas também a sites. O poder do “saber competente” dos médicos desafiado pela internet. A própria exclusividade do peer review dos editores dos periódicos científicos desafiado pela publicação livre em certos sítios. Tudo isso, bem o sabemos é uma moeda de duas (ou até mais de duas) caras. Haverá certamente dispositivos para filtrar o aceitável do inaceitável, mas o fato é que estamos dentro de uma grande mudança.

Capítulo 5 - Redes sociais e sistemas de informação na formação do pesquisador.

Geraldina Porto Witter

A autora recorta, no universo dos numerosos tipos de redes sociais e sistemas de informação, aquelas redes que se formam nos cursos de pós-graduação stricto sensu. A sua justificativa do recorte mencionado é que este é o último nível de educação regular formal e onde se preparam os pesquisadores. Espera-se então que estes pesquisadores, após sua titulação, passem a participar de outras redes na forma de grupos de trabalho, projetos comuns, “colégios invisíveis”, etc. Cabe então, diz a autora, “aos gestores de pós-graduação, aos colegiados de curso e aos orientadores tomar decisão sobre como proceder de forma mais rápida, econômica e eficaz”.

O pós-graduando continua a autora, precisa ser bem orientado no sentido de administrar bem sua busca de informação e para isso um requisito básico é o conhecimento de línguas estrangeiras, sistemas de busca disponíveis nas bibliotecas, periódicos especializados, internet, etc. “Pouco se cuida no Brasil de ensinar as pessoas a trabalharem em grupo o que deveria começar na pré-escola”, diz a autora e o “trabalho em grupo requer motivação, liderança e estratégias”. O papel de modelo é então esperado do orientador que assume um papel central na formação de redes. As redes sociais que se estabelecem a partir de um orientador se ampliam com a possível integração de outros orientadores que por sua vez são centros de outras redes e assim por diante.

É ressaltado o fato que no processo de formação do futuro pesquisador a razão é 1/1 (orientador/orientado) no que se refere à dissertação ou tese. Após sua titulação, como foi mencionado, espera-se que o pesquisador passe a participar de outras redes.

Comentário: É sempre muito oportuno, como a autora o faz, recortar significativamente um tema demasiadamente abrangente. Recortando mais uma vez, diremos algo sobre a relação 1/1 (orientador/orientado). A rede mínima e inicial do ser humano é a relação mãe/filho, sucedida pelo núcleo familiar. Uma parte das inadequações na socialização do ser humano adulto provém da repetição posterior pela pessoa adulta da busca de alguns padrões desta relação instintivamente protetora da mãe. A criança, agora adulto, por vezes busca proteção de alguém no qual é projetada a figura parental. Isto ocorre porque outras relações existem de quem sabe ou tem poder para quem não sabe ou é destituído deste. Consultas a profissionais, chefe/subordinado, professor/aluno, etc. São, todavia relações em geral de pouca duração a não ser justamente a relação psicanalista-paciente, mas que tem justamente como um dos objetivos adequar a pessoa a uma socialização através do fenômeno da transferência utilizada como agente terapêutico. Uma outra relação um a um que também dura alguns anos é a de orientador/orientando, mas agora com pessoas geralmente não preparadas para lidar com o fenômeno da transferência. Este fato pode perturbar de alguma forma a formação do futuro pesquisador. Sem nos estendermos muito no tema, o que podemos pensar é se não seria, sob vários aspectos, interessante e sadio estender esta rede orientando/orientador de um para um, para vários a um, ou até vários a vários onde uns poucos orientadores orientando em grupo um ou mais orientandos. É o que está ocorrendo, pelo menos parcialmente em algumas universidades inclusive no Brasil.

Capítulo 6 - Políticas públicas de incentivo à formação de redes sociais e colaborativas em ciência e tecnologia.

Asa Fugino, Lúcia Maria S.V. Costa Ramos, João de Melo Maricato

Os autores mostram como as transformações mundiais que estão ocorrendo através da lógica do mercado têm contribuído para uma gradativa acumulação de capital de uma pequena parcela da população enquanto aumentam as desigualdades sociais. O conhecimento enquanto instrumento de dominação e de poder pode contribuir para aumento da exclusão social e da pobreza.

Introduzindo o tema das redes os autores passam a desenvolver a idéia de um fluxo contínuo de informação, em particular da informação científica e tecnológica e a possibilidade de intercâmbio e participação e comunicação da produção científica. As políticas públicas de incentivo às redes sociais em C & T podem criar uma sinergia no progresso científico e tecnológico. É mencionada também uma mudança paradigmática onde é destacado o crescimento das publicações em colaboração, decorrente de programas e projetos cooperativos. Algumas considerações são feitas para apontar certas razões para que os pesquisadores se envolvam em atividades de colaboração: possibilidade de aumentar sua visibilidade, compartilhar recursos e custos de projetos, necessidade de trocar idéias para incentivar maior criatividade.

O texto conclui dizendo que o estímulo à formação de redes sociais no universo da comunicação e produção deve ser política do governo principalmente na área de C & T visto que a ele caberá a manutenção e a infra-estrutura necessária para a operacionalização destas redes.

Comentário: Dentre os vários aspectos tratados neste texto e referente à formação de redes sociais em ciência e tecnologia, queremos ressaltar aqui as redes formadas através da produção de artigos elaborados por grupos de cientistas. Em artigo recente (Science, 18/05/07) constata-se objetivamente uma reversão histórica ocorrida nas últimas décadas, da autoria preferencialmente individual de artigos científicos (tanto na área das ciências da natureza, como das humanas, mas mais acentuadamente nas primeiras) para uma autoria coletiva. São mini redes de dois, mas às vezes até quase uma dezena de autores que podem pertencer a centros de pesquisa e universidades espalhadas pelo país ou mesmo fora dele, que se unem para produzir artigos concernentes à determinada pesquisa. Entre nós temos os grupos de pesquisa oficializados por algumas agências de fomento que se unem em torno de um tema, ou de uma problemática. Ora esta tendência mostra uma abdicação por parte do cientista do mito da produção individual (e genial?) para uma produção cooperativa e coletiva. Os ganhos desta abdicação, mencionados no texto, ou pelo menos alguns deles como aumento de visibilidade, quando mensurados pelo número de citações, nem sempre justificam a formação da equipe colaborativa conforme mostram dados exibidos no referido artigo da revista Science. Outros ganhos menos tangíveis objetivamente como o prazer do trabalho coletivo, incentivo da criatividade, etc. podem ser indicadores promissores de uma crescente tendência colaborativa entre os pesquisadores.

Capítulo 7 - Fundamentação básica para a análise de redes sociais: conceitos, metodologia e modelagem matemática.

Renato Fabiano Matheus, Antônio Braz de Oliveira e Silva

O capítulo apresenta a fundamentação básica utilizada na análise de redes sociais (ARS) e sua modelagem por meio de grafos. O objetivo, nas palavras dos autores é: ”fazer uma apresentação básica dos métodos e técnicas disponíveis para a pesquisa em ARS e indicar caminhos para aqueles que queiram seguir no estudo desse método”. O foco de estudo na análise de redes não está nos elementos constituintes das redes, mas nos seus relacionamentos. Alguns conceitos são definidos como: laço relacional; ator ponte; relação; rede de modo duplo; rede por afiliação; díades e tríades; balanço estrutural; subgrupo; redes informais, conjunto de atores, etc. A modelagem, por meio de grafos, é fundamentada matematicamente e utiliza uma notação segundo três abordagens distintas: grafos, matrizes e álgebra relacional. Estas notações são compatíveis reciprocamente. Os conceitos básicos sobre grafos são: Caminhada, trilha, caminho, caminhada direcionada, semi-caminho - dos nós - podem ser: não alcançáveis, fracamente conectados, unilateralmente conectados, fortemente conectados, distância geodésica, etc. Os conceitos de centralidade e prestígio. A análise numérica permite calcular alguns parâmetros como: cálculo de centralidade de grau para um ator, centralidade de proximidade, centralidade de intermediação, centralidade de grau por grupo em um grafo direcionado, etc.

Comentário: O capítulo é bem redigido bem referenciado e desperta a atenção do leitor. Trata-se de um texto que fornece a definição de alguns conceitos básicos, fórmulas, notações e algoritmos da ARS. É preciso reconhecer que o espaço alocado na coletânea não permitiu aos autores um desenvolvimento mais detalhado do seu conteúdo. Por isto se impõe uma pergunta: A quem se dirige o texto? Certamente não aos especialistas que já conhecem os princípios e conceitos fundamentais da (ARS) que são descritos. O leitor jejuno na especialidade não conhece o assunto e os conceitos ai lançados carecem de exemplos práticos. Em suma o que faz falta é um exemplo prático de aplicação da ARS onde o leitor não versado no tema poderia apreciar o alcance, a utilidade e os objetivos deste tipo de análise. Esclareçamos, no entanto, um possível equívoco. Este comentário crítico se dirige menos aos autores, do que a natureza do artigo: ele é destinado aos pares, ou seja, comunicação primária, ou ao público, ou seja, comunicação secundária ou divulgação? Quando se pensa na relevância da comunicação científica, seja inter pares, seja pública, esta questão é fundamental. Uma inadequação relativa à categoria do leitor pode conduzir num extremo à incompreensão por falta de informação prévia e no outro à redundância.

Capítulo 8 - Visualização da informação das redes sociais através de programas de

     Cienciografia.

Adilson Luiz Pinto, Beatriz Ainhize Rodriguéz Barquím, Preiddy Efrain-García, José Antonio Moreiro González

O texto inicia fazendo uma distinção entre informação, conhecimento e sabedoria, que ocorrem na comunicação usual. A seguir observa que quatro teorias (Gestalt, Sociometria, Grafos e Dinâmica dos grupos convergem para a atual Análise de Redes Sociais. Um esquema ilustra a “Origem teórica da Rede Social”. Na seqüência são explicados seis passos para a construção de um Cienciograma, isto é, uma representação gráfica da rede. Ficamos sabendo também que há uma grande variedade de métodos para a construção automática dos Cienciogramas e que a “representação da cienciografia se faz visível pelos mapas de relações, seja através dos hiperlinks web, das relações científicas, das citações e co-citações, entre outros tipos”. A seguir são mostradas algumas imagens de redes. Para representação gráfica das redes existem alguns softwares livres como Pajek, CiteSpace e TouchGraph. Um exemplo de aplicação do Pajek mostra uma matriz e um gráfico cujos nós são 11 universidades espanholas. Para aplicação do programa CiteSpace e todo o seu funcionamento estatístico e gráfico é fundamental conhecer as 15 relações que geram suas relações. O TouchGraph determina as relações sociais dentro da Internet. Nas considerações finais assinala-se que a Rede Social é um campo em expansão principalmente porque as suas vertentes (métrica e gráfica) acabam por unir a técnica e a teoria. A Cienciografia além de gerar mapas, gera cálculos como o de centralidade, freqüência entre relações, proximidade, intermediação e densidade.

Comentário: A distinção feita pelos autores entre informação, conhecimento e sabedoria, pode ser substituída, em termos de semiótica, por denotação e conotação. Deste modo podemos perceber que a afirmação que a visualização é apenas denotativa é, no mínimo, discutível. O texto expõe de maneira clara as origens históricas da Teoria da Análise de Redes. Com isto situa contextualmente este instrumento visual de análise. O reconhecimento da origem das visualizações evita a impressão de ser a Análise das Redes uma inovação teórica e prática, fruto apenas das novas tecnologias da comunicação. O texto também inicia o leitor em alguns softwares livres para a representação gráfica das redes e, inclusive, insinua um exemplo prático com onze universidades espanholas. As figuras ficaram um pouco comprimidas assim como os exemplos, mas isto é uma contingência do espaço destinado ao artigo. De qualquer forma trata-se de uma boa introdução ao tema e que permite ao leitor, pelas fontes mencionadas, inclusive o acesso aos softwares livres, de prosseguir o estudo por sua conta.

Capítulo 9 - Expressões concretas das refelxões sobre o tema Redes Sociais em artigos

                  de revistas brasileiras no domínio da Ciência da Informação.

Leilah Santiago Büfrem, Sônia Maria Breda

            A Teoria Geral de Sistemas, formulada por Bertalanffy, é uma das fontes teóricas designadas como origem da noção de redes sociais como categoria teoricamente construída.O estudo descrito de caráter analítico-descritivo tem um corpus de 567 artigos, editados desde 1970, das revistas indexadas na base de dados BRAPCF. Os registros foram inseridos na base de dados BREDES, utilizando-se o software ProCite, versão 5.0 do Institute for Scientific Information. Certos dados da pesquisa são mencionados como: os resultados obtidos nesta análise indicam a presença do tema redes sociais em 562 dos 4281 artigos publicados nas revistas de ciência de informação no Brasil. Alguns gráficos são apresentados: Gráfico 1: Descritores mais utilizados; Gráfico 2: Descritor e termos correlatos mais freqüentes; Gráfico 3: Descritor de rede e termos correlatos mais freqüentes; Gráfico 4: Distribuição de artigos sobre redes por revista; Gráfico 5: Distribuição de artigos sobre redes por ano; Gráfico 6: Distribuição de artigos sobre redes por ano; Gráfico 7: Distribuição de artigos sobre redes por autores.

Comentário: Trata-se de uma pesquisa empírica destinada, entre outras coisas, a determinar a incidência do tema “redes sociais”, como categoria construída, nas revistas de ciência da informação no Brasil. O estudo é importante no sentido de traçar um retrato da visibilidade do conceito “redes sociais” nas revistas referidas. Como esta visibilidade deve variar com o tempo, este estudo poderá ser complementado por séries históricas passadas e eventualmente num projeto a ser elaborado com periodicidade no futuro. Alguns parâmetros, no entanto, não ficam esclarecidos na descrição da pesquisa. Assim quando os autores dizem que analisaram 562 dos 4281 artigos publicados nas revistas de ciência da informação no Brasil não ficamos sabendo de que revistas se tratam, e por que procedimentos foram selecionados os 562 artigos dos 4281. No gráfico n0 1, 2 e 3 ficamos sem saber se os descritores são ou não, mutuamente exclusivos e quais são os correlatos. No gráfico n0 6 obtém-se um resultado que contraria as tendências atuais, conforme acertadamente observam os autores: 67.8% dos artigos são de autoria individual e 32.2% de autoria conjunta. O Gráfico 7 mostra uma distribuição de artigos sobre redes, por autores, mais uniforme do que faria supor a proporção usual, 20:80 de Pareto. As duas últimas conclusões são particularmente instigantes justamente porque contrariam tendências, já mencionadas, verificadas recentemente (Science, 18/05/07).

Capítulo 10 - BIREME/OPAS/OMS – 40 anos de operação em rede.

Abel Packer

A BIREME, criada em 1967 presta, desde então, serviços de pesquisa nas principais fontes bibliográficas de acesso a documentos originais. Fontes e fluxos de informação operadas pela rede Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e redes associadas como Scielo tiveram em 2007 um número médio de acessos mensais superior a 10 milhões. O trabalho em rede na América Latina e Caribe soma mais de 2.000 instituições envolvidas direta ou indiretamente com ações em rede. A BVS, por sua vez, representa o mais alto estágio de desenvolvimento do trabalho em rede da BIREME desde sua fundação.

Comentário: A importância da BIREME e da BVS como instâncias de comunicação da saúde é evidente. Apenas lamentamos que não tenha sido feito um relato mais abrangente, detalhado e crítico do seu modo de organização e operação o que seria de enorme importância. Certamente não faltará oportunidade para isso. 

Capítulo 11 – Redes colaborativas entre autores de revistas científicas em Odontologia e Medicina.

Vânia M. B.O. Funaro, Lúcia Maria S. V. Costa Ramos, Suely Campos Cardoso, João de Melo Maricato

O foco de análise da análise feita é a colaboração científica entre pesquisadores por intermédio de publicações em co-autoria. Nestes casos os dois ou mais colaboradores num trabalho representam os “nós” da rede científica de comunicação e esta associação, segundo ao atores envolve metas e objetivos comuns, soma capacidade e conhecimentos, melhora os resultados, poupa tempo, otimiza recursos materiais e financeiros, aumenta o crédito dos resultados obtidos e a visibilidade das publicações. É mencionado também o ethos da ciência de acordo com os famosos imperativos institucionais de Robert Merton. É dado também um pequeno histórico das duas revistas utilizadas para a pesquisa: a Brazilian Oral Research da área odontológica e a Clinics da área médica.

Para verificar as redes colaborativas entre autores foram examinados todos os artigos, publicados nos anos de 2004, 2005, e 2006. Neste período houve um total de 166 artigos publicados, todos de autoria múltipla (entre dois e oito autores por artigo) e a maior parte de artigos foi escrita por autores de diferentes instituições. O software utilizado para o trabalho foi o UCINET (versão 6.29). Na revista Clinics, no mesmo período de 2004 até 2006, foram publicados 209 artigos e a quantidade de autores variaram entre 1 e mais de dez com predominância entre 3 e seis autores por artigo.

Comentário: A co-autoria de artigos científicos é uma prática que tem aumentado nas últimas décadas. O universo escolhido pelos autores, de duas revistas especializadas em saúde, mostra que a totalidade de artigos escritos no período de 2004 até 2006 foi de autoria múltipla. O que ficamos sem saber é qual foi a variação histórica desta proporção do número de artigos de autores múltiplos em relação ao número de artigos de autores individuais. Um outro dado que seria interessante aferir seria a qualidade dos artigos. Será que, entre nós, a qualidade dos artigos múltiplos é, em média, superior a dos autores individuais? Esse parâmetro é geralmente aferido pelo número de citações que o artigo recebe e sua aferição depende de bases de dados confiáveis no que diz respeito a citações. Sabemos também que em outros países o crescimento de artigos de autoria múltipla em relação aos artigos de autores únicos nas últimas décadas é consistente em todas as áreas do conhecimento Também ocorre a melhoria da qualidade dos artigos de autoria múltipla em relação aos artigos de autores únicos, nas últimas décadas, nos Estados Unidos (Science, 18/05/07:1037/1039). O estudo feito é interessante por sua atualidade e este tema recorre em alguns de nossos comentários.

Capítulo 12 - Representação das redes sociais e colaborativas do Sistema de Informação
Especializado na área de Odontologia (SIEO).

Telma de Carvalho. Lúcia Maria S.V.Costa Ramos

O trabalho descreve o Sistema de Informação Especializado na área de Odontologia (SIEO) que tem por missão “oferecer mecanismos para atender, de forma sistêmica, as necessidades informacionais da comunidade odontológica nacional e internacional”.

A implantação do SIEO é vista como uma quebra de paradigma. Trata-se efetivamente da implantação de uma rede de redes locais proposta pela Faculdade de Odontologia da USP com apoio financeiro da Fundação Kellog que possibilitou o equipamento de informática necessário. O projeto contou com a colaboração de várias instituições inclusive seis bibliotecas que atuaram como núcleos básicos às quais foram somadas outras bibliotecas de faculdades de odontologia. O SIEO funciona há 15 anos e o seu sucesso, segundo as autoras, repousa no trabalho dedicado das equipes técnicas das bibliotecas, principalmente os bibliotecários. Dotadas de equipamento informático, uma iniciativa inédita para a época, o avanço para a constituição do SIEO foi efetivo. Desse modo as bibliotecas puderam iniciar sua atividade o que teve uma repercussão nacional. O trabalho exibe a seguir alguns dados estatísticos relativos ao desempenho do SIEO durante o ano de 2006. As autoras terminam considerando que as várias Bibliotecas Virtuais da área de Saúde (BVS) devem ser elos periféricos da BIREME como centro propulsor da rede.

Comentário: A implantação de uma “rede de redes”, descrita acima, consiste na aplicação de um novo meio na recuperação e utilização da informação onde a mudança vai transformar e ampliar em escala a comunicação entre os profissionais e pesquisadores, digamos, revolucionar o aproveitamento da informação e do conhecimento. São dispostos esquemas bastante claros para a visualização do procedimento da formação da rede de odontologia. Destaca-se também um importante fator, ou seja, o aprendizado coletivo a partir da rede meio e, o meio passa a ser a rede. Pela ampliação geométrica do aproveitamento da informação e do conhecimento, a organização de uma rede como o SIEO é vista como uma “quebra de paradigma” termo este de uso atualmente inflacionado em relação ao seu significado original dado por Kuhn. Se o meio passa a ser a rede no aproveitamento da informação e do conhecimento pensamos que a frase de McLuhan “O meio é a mensagem” é a mais indicada para descrever o processo. A vantagem desta afirmação seria a de induzir pesquisas sobre a mudança de atitudes e de desempenhos dos usuários quando passam a utilizar a “rede das redes”. Se McLuhan tem razão em sua frase de impacto “o meio é a mensagem”, as mudanças provenientes da implantação da rede das redes transcendem até a mera ampliação do aproveitamento da informação. O sentido destas, digamos, metamudanças, apenas poderão ser constatadas por estudos empíricos.

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