Rememorando a Dança na Infância: Análise da ‘presença-ausente’ da Dança na Escola.

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58 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

Ao iniciar o curso de licenciatura em Educação Física os alunos têm fortemente a imagem da ginástica e do esporte como seus conteúdos fundamentais, marcas da consolidação da área no interior da escola. Inicialmente temos a Educação Física entendida como exercícios ginásticos, e assim se insere na escola, entre o final do século XIX e início do século XX no Brasil, vindo o esporte ganhar status na área a partir da década de 50/60. A produção teórica da Educação Física recebeu impulso na década de 80 com a critica ao modelo de esportivização, de orientação tecnicista, buscando romper com as referências históricas da aptidão física, iniciando um processo de reconhecimento da cultura corporal ou cultura de movimento que expressa, segundo Bracht (2005), a ressignificação mais importante e a necessária desnaturalização do nosso objeto, refletindo melhor a sua contextualização sócio-histórica. Desta forma vimos reconhecendo como conteúdos da Educação Física na escola as expressões de luta, dança, jogo, esporte e ginástica. Neste processo os cursos de formação também ampliam seus referenciais e inserem a dança, nosso objeto de estudo, como conteúdo do processo de formação. Refletir sobre as memórias da dança na fase da infância no espaço escolar é nosso objetivo, de forma a compreender como a memória vai se concretizando nos discursos dos alunos, entendendo este processo como um esforço em busca de significado (Middleton, 2006).


METODOLOGIA:

O presente trabalho foi desenvolvido com alunos do terceiro período de um curso de Licenciatura em Educação Física na cidade de Recife/PE, no primeiro semestre de 2004. Os dados foram coletados na disciplina Dança I, disciplina obrigatória do curso. Partimos do questionamento da presença da dança em nossas vidas. Como ela ganhou/ganha espaço em nossas vivências pessoais e sócio-culturais? Este levantamento foi realizado através da construção de um memorial individual, que tinha como temática: "Eu e a dança".

Nossa escrita foi baseada na recuperação de nossas memórias com a dança desde a infância até a idade adulta. Realizamos o levantamento de dados em quatro turmas, tendo sido catalogado 137 memoriais, sendo 97 de alunos e 40 de alunas, com idades entre 18 e 45 anos. Totalizamos cerca de 250 páginas com registros e imagens. A construção do memorial foi livre, estimulada por lembranças individuais e coletivas, bem como conversas com amigos e parentes, além do uso de signos que produzem diferentes formas de rememorar, a exemplo de fotos, roupas, certificados etc. Num primeiro momento a reação de muitos, especialmente dos homens, foi afirmar que não havia nada a contar/registrar, pois eles afirmavam não ter nenhuma lembrança de ter feito nada com dança. No entanto, o material coletado nos revelou grandes lembranças e marcas desta história.


 RESULTADOS:

Nossos registros foram organizados em uma classificação temporal de infância, adolescência e idade adulta. Desta forma pudemos ler e aglutinar experiências que nos possibilitou fazer um mapeamento das memórias. Neste trabalho apresentaremos as análises acerca do período de infância. As memórias foram recuperadas através da participação nas festas temáticas escolares, dentre elas : festa junina, com os ‘matutos’, as danças em pares, especialmente a quadrilha, onde meninos e meninas davam as mãos com muito constrangimento; a festa carnavalesca, onde passistas, la ursas, cirandeiros ensaiam passos básicos de representação; festa folclórica, onde aparecem os sacis, curupiras, comadres-florzinha, dentre outras lendas e mitos, eles pulam, desfilam, apresentam coreografias dos personagens de acordo com suas características; festa natalina, onde pastoras louvam ao menino Jesus, e encenam seu nascimento. Estas eram incentivadas especialmente pelas mães, que guardam boa parte das lembranças e imagens, sendo para uma parte dos meninos o registro de um grande ‘mico’. Foi possível reconhecer que esta presença se deu em outros espaços, tais como: na rua, através de brincadeiras cantadas; festa carnavalesca e junina; em casa, com a imitação de apresentadores de programa de televisão; além da abertura de jogos na escola. Poucos apontam a vivência de aulas de dança, seja na escola, via Educação Física ou Educação Artística, seja em escolas de dança.


 CONCLUSÕES:

Se no início do século tínhamos na ginástica a responsabilidade de trabalhar o corpo do homem, na perspectiva da formação de homens e mulheres saudáveis, cultivando o ‘Mens sana in corpore sano’, mensagem ainda presente em camisas, outdoors etc, da Educação Física.

Em seguida se firma o esporte pela apresentação de características semelhantes ao sistema capitalista, que se fortalecia, através da competitividade, rendimento máximo etc, ganhando este importância na formação do caráter de crianças e jovens, que vai ser destacado na era do ‘verdeamarelismo’, apontado por Chauí (2000), como mecanismo de reprodução do mito fundador da terra ‘brasilis’, tendo no principio da nacionalidade a construção do semióforo ‘nação’. Hoje temos a possibilidade de, considerando a perspectiva da cultura, privilegiarmos discutir a Educação Física enquanto prática pedagógica que reconhece na produção cultural possibilidades de vivenciar, refletir e reelaborar suas expressões na forma de linguagem corporal. Neste sentido, ao rememorar a dança foi possível reconhecer a idéia de sua ‘presença-ausente’, registrada por Brasileiro (2001), onde se reconhece a presença da dança nos eventos escolares como elemento decorativo, sem refletir sobre a importância de seu conhecimento para a formação dos alunos. O que podemos evidenciar é o quão marcante é a presença da dança nas memórias destes alunos. Uma rememoração de nossas vidas através da presença da dança, deixando diferentes sentidos e significados.

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