Repensando a Educação Física escolar numa Perspectiva Crítico-social

Por: Claudio Luis de Alvarenga Barbosa.

II EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Qual o perfil da Educação Física Escolar (EFE) no Brasil deste final de século? Será que, durante o transcorrer deste século, conseguimos reunir as condições necessárias para justificarmos nossa presença como disciplina obrigatória na Escola Brasileira?Para responder a estas questões, se faz necessária uma análise sociológica do papel que desempenha a escola dentro da sociedade capitalista e, a partir daí, trazer esta análise para o campo específico da Educação Física que, como todas as outras disciplinas que compõem a grade curricular, é apenas um apêndice desta estrutura


 Teoria e prática da Educação Física Escolar:

pressupostos sócio-filosóficos
Vivemos num modelo capitalista de sociedade, dividida em classes, em que uma minoria dominante impõe sua cultura e seus valores como sendo universais a uma maioria dominada. Neste contexto, a escola, segundo Althusser (1992), fornece à formação social capitalista dois dos mais importantes elementos para a reprodução de sua força de trabalho: a reprodução de suas habilidades e a reprodução de sua submissão às regras da ordem estabelecida, isto é, a escola "se encarrega das crianças de todas as classes sociais desde o Maternal", lhes inculcando "durante anos, precisamente durante aqueles em que a criança é mais ‘vulnerável’, espremida entre o aparelho de Estado familiar e o aparelho de Estado escolar, os saberes contidos na ideologia dominante (o francês , o cálculo, a história natural, as ciências, a literatura), ou simplesmente a ideologia dominante em estado puro (moral, educação cívica, filosofia)" (p. 79).
Ainda nesse sentido, Saviani (1980) nos diz que
tendo em vista que a organização social tende predominantemente à conservação da situação dominante, a educação, enquanto atividade inscrita no seio da organização social, estará marcada também pela tendência à conservação (p. 125).
 Entretanto, Cotrim (1987) nos aponta para a saída deste impasse quando afirma que
mesmo que se considere, dentro da perspectiva das teorias reprodutivistas, que o sistema escolar de ensino é controlado, estruturalmente, pelas classes dominantes, é possível situarmos as contradições internas desse sistema. Pois ao receber o saber dominante, ainda que contaminado pela ideologia oficial, as classes dominadas terão a chance de reelaborar criticamente este saber, contrastando-o com a realidade concreta de suas vidas. Sem ter acesso ao saber dominante, é impossível aos dominados, criticá-los e superá-los. Isto é, os dominados precisam aprender a "dominar o domínio" (p. 72).
 Mas como atingiremos este ideal exposto, com a Educação Física que vemos na maioria de nossas escolas? De um modo geral, quando se fala em aula prática de Educação Física, pensa-se logo em movimento corporal, atividade física (correr 12 minutos, fazer exercícios localizados, jogar futebol, queimado, etc), ministrada de forma totalmente acrítica, sem qualquer relação com nossa realidade social. Mas será que nossa prática é somente o movimento? Como nos lembra Mauri de Carvalho (1991), o direito de todos à Educação Física e, conseqüentemente, ao movimento corporal, torna-se secundário
na medida em que os outros direitos, à nutrição, à educação, etc, estão apenas no papel, já que na verdade a grande maioria da população brasileira está impedida de praticá-los e portanto de exercer a sua cidadania. São direitos reais no papel, na Constituição, mas fictícios na prática social (p. 58).
Além disso, podemos observar com facilidade situações que normalmente definimos como práticas:
 Uma secretária que escreve cartas a mando de seu chefe está realizando a sua prática de serviço. Um funcionário público de determinada repartição, que tem como obrigação ler diariamente o Diário Oficial do Estado, por exemplo, e retirar do mesmo o que interessa à sua repartição, está realizando a sua prática de serviço. O professor de português que ensina a seus alunos os elementos da comunicação: emissor, receptor, canal, código, etc..., com uma aula expositiva, também está realizando sua prática pedagógica. Nos três exemplos acima, percebemos as ações de escrever, ler e falar como sendo práticas. Portanto, como entender a nossa prática como sendo apenas o movimento, se vimos que ações como ler, escrever e falar, também são práticas?
Podemos encontrar esta resposta na afirmação de Marilena Chauí (1980), quando nos diz que
temos uma teoria geral para a explicação da realidade e de suas transformações que, na verdade, é a transposição involuntária para o plano das idéias de relações sociais muito determinadas. Quando o teórico elabora sua teoria, evidentemente não pensa estar realizando essa transposição, mas julga estar produzindo idéias verdadeiras que nada devem à existência histórica e social do pensador. Até pelo contrário, o pensador julga que, com essas idéias, poderá explicar a própria sociedade em que vive. Um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tornar as idéias como independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais idéias expliquem aquela realidade, quando na verdade é essa realidade que torna compreensível as idéias elaboradas (p. 10).
Por esta razão, vejo o entendimento do que vem a ser a prática da Educação Física como sendo uma ideologia de culto ao corpo, objetivando uma grande campanha publicitária de produtos esportivos, entre outros, como nos mostra Arcângelo Buzzi (1989) ao comentar sobre pesquisa/pesquisador e a questão da tecnologia:
 Quem dirige e encomenda a pesquisa científica é hoje a tecnologia. Por isso, as universidades perderam em grande parte o senso da ciência. Perdeu-o também o próprio cientista, que está encarregado de pesquisar dentro de amplos programas cuja finalidade desconhece. Quer dizer, pesquisa sem ver a finalidade da pesquisa. Há pesquisas encomendadas por Centros de Tecnologia, e feitas sem que os cientistas jamais saibam a sua finalidade. Por conseguinte, a causa da ciência e de tudo que acontece no mundo da técnica não está na matéria nem no desejo de conhecer os mistérios ocultos da natureza, mas na vontade de poder (p.110).
Daí não é difícil concluir que este embasamento científico está de acordo com os interesses de uma classe dirigente. Segundo Staccone (1987),
cada grupo social dominante, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si uma ou mais camadas de intelectuais, que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político... (p. 26).
 Assim como nas considerações sobre "a ideologia em geral", Marx e Engels determinam o momento de surgimento das ideologias, no instante em que a divisão social do trabalho separa trabalho material ou manual do trabalho intelectual; também não se pode separar teoria e prática de Educação Física, sob o mesmo risco de surgimento de ideologias. Por exemplo, quando o professor de Educação Física está em sala de aula discutindo com seus alunos o uso do esporte como propaganda ideológica nas sociedades capitalistas, ele está exercendo sua prática na sua forma mais elevada. Neste momento, toda a sua teoria filosófica, política e social, que são elementos abstratos, irão embasar essa sua prática docente, que nada mais é do que o elemento concreto dessa relação teoria-prática. A teoria é um processo interno, abstrato - é o pensamento em si - e a prática é o ato concreto que se pode ver, ouvir, sentir; é quando nosso "interior" entra em contato com o mundo exterior.
 O professor de EFE que centra sua prática apenas no movimento, está baseado no senso comum, que nada mais é do que o efeito da propaganda ideológica disseminada pelos "doutores do saber", com o objetivo de manter a sociedade (no nosso caso, a sociedade capitalista) tal como ela é: uma classe dominante que pensa e diz o que é melhor para o restante da sociedade.
Por esta razão, quando um professor de Educação Física trata com seus alunos questões políticas e sociais como, por exemplo, quando ele fala sobre a propaganda maciça, feita pelo Estado, em cima do esporte de alto nível, fazendo com que as atenções se voltem para acontecimentos esportivos (copa do mundo, olimpíadas, campeonato brasileiro de futebol, etc.), desviando, assim, a atenção da população dos problemas políticos do momento, este professor será provavelmente, considerado pelos outros professores, como a "ovelha negra", que quer acabar com a Educação Física, com o esporte... Será tachado pejorativamente como fora do padrão, teórico e coisas deste tipo; quando na verdade ele está colaborando grandemente para a transformação social, fazendo de sua prática pedagógica muito mais que um simples movimento corporal, mas principalmente um movimento político e social em busca de uma sociedade mais justa.
A Educação Física e o "Movimento Social"
A Educação Física tem uma grande vantagem sobre outras disciplinas: a "desorganização". Enquanto em outras disciplinas da escola de 1o e 2o graus, o professor fica "preso" a um programa a ser cumprido, e que por sua vez é continuação do programa da série anterior, na Educação Física isto não acontece. Ela nos dá muita liberdade neste sentido, pois não existe um programa único a ser cumprido. Geralmente, principalmente em escolas públicas, o professor elabora seu programa de acordo com suas expectativas. Esta possibilidade nos abre espaço para elaborarmos um currículo que realmente vise a uma transformação social.
Nossa disciplina não pode se restringir ao ensino do desporto, como muitos acreditam, pois se assim fosse estaríamos desvalorizando nossa formação acadêmica, onde estudamos disciplinas as mais variadas, tais como: Anatomia, Cinesiologia, História da Educação Física, Fisiologia, Psicologia, Filosofia, Sociologia, entre outras. Se temos um currículo tão variado, por que nos limitarmos a ser apenas "técnicos desportivos"? Por que, ao invés de usarmos somente a biomecânica para explicar o movimento corporal da capoeira, por exemplo, não usamos também a sociologia e explicamos o "movimento" de resistência negra - manifestado nessa luta - ao domínio dos portugueses ?
 É preciso que entendamos que quando nos limitamos a ministrar apenas aulas ditas "práticas", onde somente são trabalhados movimentos corporais, estamos fazendo o jogo do sistema, privando nossos alunos da possibilidade de desenvolverem sua consciência crítica, entendendo, por exemplo, o quanto somos manipulados pelo sistema através do "desporto de alto nível". Além disso sabemos, melhor do que ninguém, que com uma aula por semana, como acontece na maioria das escolas, não se produzem efeitos fisiológicos significativos sobre o corpo humano. Temos também o problema da desnutrição em crianças de classes populares, que certamente é agravado devido às aulas de "ralação" (aulas com exercícios vigorosos), ministradas por professores que ingenuamente acreditam que seu dever é "ralar" o aluno.
 Mas o professor de Educação Física que realmente se preocupa com as futuras gerações, e então se engaja na luta pela transformação social, não pode privar seus educandos de seus conhecimentos ligados às questões do esporte e do corpo humano, por exemplo, pois estes dois componentes servem com grande eficácia ao direcionamento ideológico imposto pela burguesia. Se somos os profissionais especialistas nestes dois assuntos(entre outros específicos à disciplina), quem melhor do que nós para desvelar as ideologias que permeiam estes temas e torna obscuro às classes populares o real entendimento da realidade social?
Neste sentido, além da função "específica"citada no parágrafo anterior, a EFE deve visar sempre o objetivo de formar cidadãos críticos, autônomos e conscientes de seus atos, incluindo-se assim no contexto mais amplo da Educação.

Referências Bibliográficas

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro: Graal, 1992.
BARBOSA, Claudio L. de Alvarenga. Educação Física Escolar: da alienação à libertação. Petrópolis: Vozes(no prelo), 1997.
_________ As Representações Sociais da Educação Física no 2º grau. Dissertação (Curso de Mestrado em Educação). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1997.
_________ Teoria e Prática da Educação Física Escolar. Revista Sprint Magazine, Rio de Janeiro, ano XII, no 66, p. 38-39, mai/jun 1993.
_________ Teoria e Prática da Educação Física Escolar II: uma proposta curricular. Revista Sprint Magazine, Rio de Janeiro, ano XII, no 69, p. 11-13, nov/dez 1993.
_________ Qualidade total aplicada à educação: um pequeno alerta aos desavisados. Revista Tecnologia Educacional, Rio de Janeiro, ano XXIV, no 129, p. 7-9, mar/abr 1996.
BUZZI, Arcângelo R.. Introdução ao pensar: o ser, o conhecimento, e a linguagem. Petrópolis: Vozes, 1989.
CARNOY, Martin. Educação, economia e estado. 4a ed. São Paulo: Cortez, 1990.
CARVALHO, Mauri de. A miséria da Educação Física. Campinas: Papirus, 1991.
CAVALCANTI, Katia B. Esporte para todos: um discurso ideológico. São Paulo: Ibrasa, 1984.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 34a ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
CODO, Wanderley. O que é alienação. 10a ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
COTRIM, Gilberto. Educação para uma escola democrática. São Paulo: Saraiva, 1987.
GARCIA, John Nelson. O que é propaganda ideológica. São Paulo: Brasiliense, 1988
LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública. São Paulo: Loyola, 1986.
McARDLE, William et alii. Fisiologia do exercício. Rio de Janeiro: Interamericana, 1985.
MOCHCOVITCH, Luna G. Gramsci e a escola. 3a ed. São Paulo: Ática, 1992.
SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1980.
_________ Ensino público e algumas falas sobre a Universidade. 3a ed. São Paulo: Cortez, 1986.
_________ Escola e democracia. 24a ed. São Paulo: Cortez, 1991.
STACCONE, Giuseppe. Gramsci: bloco histórico e hegemonia. São Paulo: Centro de Pastoral Vergueiro, 1987.

 

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