Representações Sociais da Corrida de Rua nos Parques de Porto Alegre

Por: Carolina de Campos Derós.

56ª Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

A corrida de rua - e os seus praticantes - têm sido de grande representatividade quando se pensa ou se fala em estudar as formas de ocupação em parques da cidade de Porto Alegre; basta uma simples olhada por qualquer parque ou praça da cidade para nos depararmos com um grande número de pessoas realizando alguma prática física e, em especial, a corrida. Escolhemos estudar os corredores porque esse grupo chamou a nossa atenção devido ao seu grande número de praticantes e porque eles realizam essa prática em dois locais de grande relevância como espaços de lazer da cidade de Porto Alegre - Parque Moinhos de Vento e Parque Farroupilha -, sendo assim facilmente percebido por quem passa por eles. Outro aspecto que nos levou à realização desta pesquisa é o fato de existirem muitas abordagens na área biológica acerca da corrida, contrastando com o reduzido número de estudos culturais sobre este tema.

Esse trabalho visa compreender os significados da corrida para seus diferentes protagonistas, desvelar as formas de sociabilidade que ocorrem em torno desta prática e entender de que maneira se dá a apropriação do espaço urbano nesta atividade.

As questões norteadoras da investigação foram:

• Qual o significado da corrida para estas pessoas?

• De que forma esta prática se insere nos modos de viver o lazer dos protagonistas?

• Por que correr nesses parques e não em outros locais?

METODOLOGIA:

Tendo o presente estudo um caráter etnográfico, a metodologia utilizada foi a da observação participante. Dessa forma, para dar corpo à pesquisa foi analisada uma série de diários de campo, confeccionados a partir do início do mês de outubro de 2002, à luz de leituras pertinentes aos temas Lazer, Cultura e Ocupação de Espaços Públicos.

Houve uma grande dificuldade no início destas observações para abordar as pessoas que corriam dentro do Parque Farroupilha, devido ao fato de que elas não costumavam fazer paradas durante a sua prática e, quando o faziam era por um reduzido lapso de tempo. Foi necessário então que se fizesse inicialmente uma simples observação à distância que permitisse elaborar uma estratégia de abordagem, para não atrapalhar a atividade dos praticantes. No Parque Moinhos de Vento, por já possuirmos um contato nesse grupo, o contato nos foi facilitado.

Estas observações levaram à delimitação de dois grupos principais de corredores, elaboradas por nós: corredores aparentemente pertencentes a uma condição de anonimato; corredores vinculados a grupos.

Preferiu-se não enfocar a pesquisa no primeiro grupo porque foram encontradas dificuldades para abordar as pessoas que o integram.

Dentro do grupo de corredores que se vinculam a grupos, encontramos duas subdivisões: os que se encontram no Parque Farroupilha, e os que realizam seus encontros no Moinhos de Vento.

RESULTADOS:

No Parque Farroupilha encontrou-se um grupo que se reúne diariamente junto ao Monumento ao Expedicionário, e destinam seus encontros ao chimarrão e às conversas, e esses acontecem em torno de um senhor e sua esposa que ficam junto ao monumento sentados em cadeiras de praia. Ele foi a única pessoa presente em todos os encontros observados e, pela assiduidade e por ter se mostrado como a figura central desse grupo, tornou-se nosso informante privilegiado nesse espaço, ou seja, passou a ser o responsável pela maioria das informações obtidas acerca desse grupo, e também o que nos apresentava aos outros corredores que ali paravam para conversar. A maior parte das pessoas que se reúnem junto ao Monumento realizam sua corrida em outros locais que não a Redenção, utilizando-se deste local somente para os encontros.

No parque Moinhos de Vento localizou-se um grupo constituído basicamente por homens que se lá reúne às terças e quintas-feiras à noite e aos sábados e domingos pela manhã em um local equipado para a prática de alongamento. As reuniões acontecem rapidamente antes da corrida durante a semana; já aos finais de semana, estas reuniões acontecem também depois da corrida, tendo estas últimas uma duração maior, sendo destinadas ao chimarrão, às conversas e à recepção de outras pessoas que não praticam a atividade com eles. A maior parte dos integrantes deste grupo participam de competições nacionais e internacionais.

CONCLUSÕES:

As observações realizadas mostraram diferentes formas de viver a corrida. Assim, separamos os dados encontrados em três temáticas: estilo de vida, sociabilidade e apropriação do espaço.

Constatamos que a corrida como estilo de vida se reflete em elementos como o senso de compromisso com a atividade e a formação de vínculos.

O senso de compromisso se revela no fato dos representantes dos grupos realizarem a sua atividade independente do clima.

A formação de vínculos aparece, de certa forma, à idéia da formação de um clube. As reuniões seriam uma forma alternativa de se relacionar, sem deixar de buscar um certo tom de formalidade, dentro de espaços abertos e públicos da cidade. Pode não ter um caráter tão fechado quanto um clube tradicional, porém cada grupo apresenta elementos que permitem aos de fora identificá-los. Os dois grupos possuem códigos de sociabilidades, formais ou não, que podem funcionar de certa forma como requisitos para o ingresso e manutenção de seus componentes.

Esses elementos são reforçados por regras de convivência, que fazem os integrantes nutrirem um sentimento de pertencimento ao grupo. Caracteriza-se pela presença de consenso, laços afetivos e até mesmo um certo controle social.

Nesses espaços foram encontradas desde pessoas que parecem realizar a sua atividade anonimamente e utilizam o parque apenas como um trajeto até aquelas que vivem a corrida em grupos, utilizando e apropriando-se dos espaços como se fossem os seus pedaços.

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