Só Quero Mesmo Que Melhore... Sentidos e Significados dos Catadores do Lixão a Respeito do Seu Mundo e da Educação Física.

Por: José Ricardo da Silva Ramos.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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"Só quero mesmo que melhore". Foi o discurso de uma criança, aluna de Educação Física do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do bairro de Itaóca, município de São Gonçalo que expressou a sua reflexão sobre a sua condição não-cidadã, sua precariedade social, sua baixa renda e o seu não acesso aos bens materiais e educacionais. Esta e outras falas revelam o seu dia a dia no lixão e nas aulas de educação física. É um dos discursos revelados no registro participativo nas aulas junto com os catadores de lixo, no acompanhamento das aulas de educação física, no seu local de trabalho, nas reuniões escolares e pedagógicas, na aplicação de formulário de pesquisa, nos projetos de extensão com o estado, com a Secretaria de Educação de São Gonçalo, com a E. M. Carlos Drumond de Andrade e com a universidade.

As situações de vida, trabalho e lazer dos catadores de lixo no reservatório do Porto do Rosa foram nossos principais objetos de análise e compreensão, como também seu modo de estruturação do tempo no trabalho e fora do trabalho no lixão. Situações essas caracterizam e condicionam a vida dos indivíduos que vivem do trabalho de coleta e separação de lixo. Desse modo, buscamos conhecer e intervir em defesa de seus legítimos interesses de cidadãos.

O bairro Porto do Rosa (local de trabalho) é uma comunidade de trabalhadores de vários setores da indústria, do comércio e do mercado informal de São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro. Existe, de modo precário, uma comunidade que tem como principal atividade econômica à pesca. A praia da Luz fica a uma distância de 5km do reservatório de lixo. Esta praia permite a pesca através de barcos e traineiras. As atividades de pesca de crustáceos são fortes dentro da comunidade. O mangue em volta do reservatório proporciona trabalho. O mangue do Porto do Rosa preserva o ecossistema da baía de Guanabara e é considerado um santuário ecológico pelos ecologistas brasileiros.

Constatamos que a pesca predatória, a falta de educação, de informação e de conhecimentos sobre essa fonte de vida e econômica pode sofrer vários danos que levariam à completa destruição. A invasão do mangue para construção de casas vem destruindo a natureza exuberante dessa área ambiental. Mesmo com algumas placas de preservação, os catadores por desconhecerem as leis, a escrita, ou por necessidade de moradia invadem os locais de preservação.

O vazadouro de lixo - nome conhecido pelos moradores de São Gonçalo - é o local onde todo o lixo reciclável, orgânico e tóxico da cidade é despejado. Este espaço para o depósito de lixo vem sofrendo melhorias ao longo do tempo, com fiscalizações, balanças para pesagem do lixo e programas de assistência aos catadores de lixo. O governo do Estado, a Prefeitura Municipal de São Gonçalo e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil vêm criando atividades pedagógicas e programas para melhorarem a situação dos catadores e soluções para o problema do lixo não prejudicar tanto a população do Porto do Rosa.

Para esse fim, é importante destacar os conceitos educacionais que foram perseguidos nas nossas práticas pedagógicas. Esses conceitos, na prática, referem-se à nossa intervenção junto aos "catadores do lixo" objetivando a construção de plano de ensino da área para Educação Física com o objetivo de interpretar seu mundo social e mudar sua realidade.

Dentro das nossas intervenções pedagógicas os catadores foram estimulados no sentido de revelar seus projetos de vida, seus valores, a natureza ecológica do ambiente com o qual se defrontam dia a dia, no seu trabalho, a representação social subjacente no cotidiano de sua luta para viver e se transformar em um cidadão.

Fomos elaborando um projeto técnico, científico e humano para uma sociedade cidadã que precisa ser estimulada por esta instituição favorecendo uma maior atenção aos excluídos da nossa sociedade, conhecendo suas condições e relações dentro da sua comunidade. Dessa maneira estes foram sintetizando e conhecendo os conceitos coerentes com nosso projeto pedagógico reconsiderando algumas características do que é um trabalho coletivo em uma comunidade popular.

Analisamos que o olhar social de fome, desilusão "resto" ou "sobra" daquilo que não mais nos serve representa uma falsa realidade compartilhada pela maioria dos catadores do lixão. Ficou claro para nós o rompimento deles com essa visão enraizada no senso comum. Constatamos entre eles um espaço de riscos, de prazer, de sonhos, de luta, de crenças, de organização de força, como condição essencial de trabalho e de lazer para aflorar os sonhos de uma vida melhor e produtiva.

Utilizamos para coleta de informação a entrevista semi-estruturada (ANDRÉ) onde as questões principais do formulário buscaram escutar, conhecer as percepções, sentimentos e significados que a população do lixão possue em relação ao seu mundo e a prática da Educação Física. As fundamentações da unidade pesquisa e Educação Física apontaram-nos uma atitude de professor- pesquisador coerente em transformar o familiar em estranho:

"É um esforço ao mesmo tempo teórico e metodológico: por um lado deve-se jogar com as categorias teóricas para poder ver além do aparente e por outro treinar-se para "observar tudo", para "enxergar"cada vez mais, tentando vencer o obstáculo do processo naturalmente seletivo da observação."(1987, 43)

Identificamos através do discurso verbal dos sujeitos da pesquisa o seu universo educacional, social e cultural dirigido através de entrevistas semi-estruturadas fundamentando algumas questões importantes: (a) Caracterização dos catadores; (b) necessidade das atividades; (c) seu cotidiano; (d) seu lazer; (e) seu trabalho; (f) seus projetos de vida; (g) sua linguagem e suas representações sociais. Analisamos o conteúdo das nossas intervenções buscando compreender o sentido dos seus discursos e significações das suas condutas sociais nas nossas práticas pedagógicas.

O nosso trabalho abrange intervenções que possibilitaram observar o fenômeno lixão, seu impacto social e educacional descrevendo-o e interpretando-o. Procuramos identificar e analisar as representações através da fala, o sentido e o significado com os quais os "catadores" orientam suas relações educacionais com o lazer e o trabalho.

Nesse sentido as atividades foram, em primeira instância, as principais ferramentas de intervenção. Para isso realizamos uma análise diagnóstica das atividades mais significativas dos jovens e adultos catadores de lixo após o trabalho, onde o jogo foi à atividade preferida.

As observações feitas durante as nossas primeiras intervenções se deram a partir de entrevistas, reuniões e fotos do seu ambiente de trabalho. Essas atividades procuram já inseri-los no nosso projeto-pedagógico, buscando uma educação de qualidade e a construção da sua cidadania.

Tal população foi observada de perto pelos autores deste projeto-pedagógico. Na medida em que acompanhamos suas experiências diárias, aprendemos sua visão de mundo, e o significado que eles atribuem às suas ações cotidianas.

Desvelando uma pedagogia voltada para formação de professores pesquisadores na Educação Física

Na aprendizagem e no ensino da educação física, entendemos sua esfera pedagógica, como uma prática de atividades físicas e de movimentos. Criar, descobrir, solucionar, classificar são algumas concepções de ensino na história da educação física. O papel do professor reprodutor de gestos, de práticas eminentemente performáticas já se tornou anacrônica entre os educadores.

Nesse sentido, investimos em uma prática para conhecer e desvendar o mundo dos catadores. Adotamos uma postura ativa diante do seu cotidiano para aprendermos a sua realidade. Para isso, foi necessário penetrarmos no seu discurso interno, isolando falas, sintetizando discursos, compondo as partes, transformando o todo, produzindo novas combinações. Assim fomos descobrindo uma pedagogia apropriada para que uma cultura extremamente complexa pudesse ser mediada, tornando-a significativa para nós e o nosso publico que foi conveniente descrever como uma abordagem cultural e antropológica.

Essa abordagem criada a partir de reconhecimento da vida cultural do aluno colocou a Educação Física em uma situação investigativa e representa, para nós, um enriquecimento pedagógico no campo da pesquisa levantando novos fenômenos, dados e estilos corporais enfocando novos objetivos e experimentando uma abordagem social, antropológica e cultural.

Obs. Os autores, José Ricardo da Silva Ramos, Nivaldo Marins Cardoso e Peterson Vieira Carvalho Silva fazem parte do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) da Secretaria Municipal de Educação de São Gonçalo/ Universidade Salgado de Oliveira (Universo).

Referências bibliográficas

  •  André, M.E.D.A. A pesquisa no cotidiano escolar. FEUSP, Porto Alegre, 1987.
  • Bardin, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
  • Costa, Vera Rita. USP declara guerra ao lixo. Ciência hoje, São Paulo, vol 19 nº 111 Julho de 1995, p.56-57.
  • Coulon, Alain. Etnometodologia. Petrópolis, Vozes, 1995.
  • __________ Etnometodologia e Educação. Petrópolis, Vozes, 1995.
  • Daolio, Jocimar. Educação Física escolar: uma abordagem cultural. Campinas, SP :Unicamp, 1995.
  • Tarantino, Mônica. Lixão não. TV Escola Ministério da Educação. Secretaria de Educação a distância, Brasília, nº 18, Março/Abril 2000.
  • Werlang, Maria Flávia. Não era bicho, era homem. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 31de Julho de 2001, p. 1.

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