Sobrevivendo ao Estigma da Hipertrofia: Notas Etnográficas Sobre o Fisiculturismo Feminino

Por: César Sabino, Dirceu Gama, Eliane Grivet, Jeferson Jose Moebus Retondar, Juliana Brandão Pinto de Castro, Rafael da Silva Mattos e Wecisley Ribeiro do Espírito Santo.

Arquivos em Movimento - v.15 - n.1 - 2019

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Resumo

Este estudo objetivou compreender o estigma da imagem do corpo hipertrofiado das fisiculturistas da modalidade bodybuilding em diferentes espaços sociais e as respectivas implicações na vida cotidiana. O referencial teórico-conceitual selecionado foi a teoria de Erving Goffman, privilegiando o conceito de estigma e de representação do eu; e a teoria de L. Wacquant sobre a construção socioantropológica do objeto de estudo a partir do próprio corpo. Para compreender os sentidos dessa problemática, realizou-se uma pesquisa qualitativa de campo etnográfico e entrevistas em academias de fisiculturismo no bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Observou-se que, na construção de um corpo com grande volume muscular, para alcançar os padrões estéticos da modalidade, exagera-se no consumo de suplementos e esteroides anabolizantes andrógenos. A fim de obter uma imagem de corpo ideal, essas mulheres constroem uma espécie de obsessão por um corpo forte, musculoso, com baixo percentual de gordura e, ao mesmo tempo, maternal e feminino. Desse modo, permeia a desconstrução da imagem social da mulher frágil e dócil na história sociocultural do gênero feminino. Conclui-se que o bodybuilding insere-se num grupo especifico da sociedade contemporânea, reconhecida dentro dos espaços sociais de competições, adquirindo poder simbólico. Simultaneamente, as fisiculturistas tendem a ser estigmatizadas nas academias de musculação por serem consideradas exageradas, desproporcionais e monstruosas.

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