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De acordo com Forteza de La Rosa¹, o objetivo máximo do treinamento esportivo é obter o "triunfo competitivo", mas, para isso, o atleta deve alcançar grande nível de preparação. Numa perspectiva puramente fisiológica, tal "preparação" resulta da adaptação dos diferentes sistemas corporais ao estímulo de treinamento.

Em alguns casos, os sistemas afetados e as modificações produzidas pelo treinamento esportivo são facilmente verificáveis.

Exemplos clássicos são as alterações no sistema cardiovascular e no sistema neuromuscular. Já em outros, as características intrínsecas de determinados sistemas corporais fazem com que suas respostas ao treinamento não sejam fáceis de serem mensuradas (não pelo menos sem o uso de equipamentos e métodos razoavelmente complexos). Este é o caso do sistema imunológico (SI). Uma das dificuldades para se entender as respostas imunes ao exercício é a complexidade do próprio SI, afinal, seus componentes são tão diversos quanto a pele, as enzimas, os complexos protéicos e diferentes tipos de células, essas últimas particularmente, nem de longe apresentam um padrão razoavelmente uniforme de resposta ao exercício.

Entretanto, para o objetivo do presente texto pode- -se assumir que o SI é capaz de distinguir entre os componentes normais de nosso corpo e elementos estranhos a ele (que podem ser desde uma bactéria até um órgão recebido por transplante [não é sem motivo que transplantados usam imunossupressores]).

Independentemente de quão desconhecido para nós e complexo possa ser o SI, não se deve esquecer que para ele também vale o princípio: a aplicação inadequada do estímulo de treinamento resulta em condições negativas! Sem dúvida, a mais temida é o overtraining; caracterizada por redução da performance e a sensação de fadiga². A presença de infecções do trato respiratório superior (ITRS) observadas em maratonistas e nadadores de longa distância com overtraining levou à crença de que esta condição causa imunossupressão.

Nesse contexto, o entendimento adequado dos fatores que regem a capacidade do SI adaptar-se ao exercício é fundamental para potencializar as chances de obtenção do "triunfo competitivo", minimizando concomitantemente a ocorrência de imunossupressão. Uma crença bastante usada com essa intenção é a de que exercícios de intensidade moderada seriam capazes de aumentar a imunidade enquanto os exercícios intensos fariam o contrário³ (Pedersen, 2005). Infelizmente, tal crença leva à interpretação errada dos efeito do exercício sobre o SI. Quando a literatura científica sugere que o exercício intenso pode causar imunossupressão significa que altascargas, pouco descanso, competição, cobranças externas,isto é, um contexto inadequado de treinamento físicopode afetar o SI, não uma sessão aguda de exercício. Ouseja, que fique claro que a realização de sessões intensasde acordo com a capacidade do indivíduo assimilar tais cargas não é, de forma alguma, prejudicial. Por outro lado, fatores como recuperação insuficiente de uma sessão prévia de treinamento físico4,5, baixa disponibilidade de carboidratos6-8, condições de hipóxica9,10, estresse pelo calor realmente afetam a imunidade e devem ser levados em conta.

Vale destacar também que até recentemente todas as formas de estresse eram pensadas como sendo imunossupressoras.

Entretanto, descobriu-se que tanto o tipo quanto o grau de estresse são importantes na determinação do efeito final do estímulo sobre o SI (isto é, supressão ou estimulação). Ou seja, não só a intensidade, duração e frequência do estímulo que importam, mas também o quão "estressante" o exercício é "visto" pelo indivíduo.

Fica então o aviso de que muitas condições externas ao ambiente de treinamento e que levam à redução da motivação (ex. problemas familiares) podem levar à imunosinformativo Técnico-Científico do COmitê olímpico brasileiro ano III supressão, mesmo quando as demais características do treinamento estão adequadas.

Independentemente de todas essas influências, o que se deseja em última instância é saber qual o efeito que dada sessão de treinamento teve sobre o organismo de um atleta. Classicamente, os efeitos do treinamento sobre o SI têm sido verificados de duas formas: a) mudanças nas porcentagens de células imunes no sangue e; b) estimulação de algumas dessas células em laboratório e verificação da magnitude de sua resposta aos estímulos12,13. Apesar de seu valor no âmbito científico, por motivos óbvios, essas duas formas são de utilização complexa na prática.

A determinação de anticorpos na saliva (ex. imunoglobulina A [IgA]) também tem sido utilizada para verificar quedas na imunidade induzida pelo treinamento14-16. Tal utilização decorre tanto do fato de tais anticorpos fornecerem uma importante proteção contra patógenos (agentes causadores de doenças) que entram no corpo pela boca ou pelo ar, quanto por poderem ser reduzidos em função da prática de exercícios. Infelizmente, o uso de imunoglobulinas da mucosa carece da mesma dificuldade das técnicas mencionadas no parágrafo anterior: depende de equipamentos e tempo, o que nem sempre se dispõe no ambiente de treinamento. Além disso, háainda poucos estudos demonstrando que a queda desses anticorpos possam predizer a ocorrência de infecção (isto é, de que o treinamento causou imunossupressão).

Diante dessas limitações, o monitoramento da carga interna de treinamento (CIT) tem sido utilizado como alternativa para verificar os efeitos da manipulação das variáveis do treinamento (ex. intensidade, volume, densidade) sobre o SI. Para os que não estão familiarizados, o monitoramento CIT pode ser realizado de diversas formas, através do acompanhamento de variáveis fisiológicas em diferentes modalidades esportivas17-21.

Alguns autores têm sido bem sucedidos em relacionar o comportamento da CIT com alterações relevantes na função imune. Por exemplo, Foster²² verificou que a maior incidência de infecções leves estava associada aos momentos que atletas ultrapassavam um certo limite individual quanto à magnitude da carga de treinamento.

Entretanto, outros autores²³ não foram capazes de associar, diferenças de milhagem, intensidade ou carga com a ocorrência de infecções respiratórias em corredores de meia e longa distância altamente treinados.

Apesar da controvérsia sobre o efeito da manipulação das
cargas de treinamento é fundamental que os técnicos/ preparadores físicos realizem o controle adequado dos estímulos aplicados a fim de que os mesmos não causem adaptações indesejadas como a imunossupressão.

Alguns autores têm sido bem sucedidos em relacionar o comportamento da CIT com alterações relevantes na função imune.

Referências
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Endereço: http://www.cob.org.br/pesquisa_estudo/pdfs/laboratorio_olimpico_18.pdf

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