Um Pequeno Panorama sobre o Professor de Educação Físisca: Sua Formação Profissional e papel na Sociedade

Por: Edson de Moraes Neto.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O presente trabalho tem por objetivo discorrer sobre o professor de Educação Física e seu papel na nossa sociedade atual. Para este fim tem-se a necessidade de descrever o panorama atual do Brasil, tendo em vista os fatores internos e externos estão envolvidos, associando a formação profissional a nível superior do professor de Educação Física, suas práticas e seu compromisso político e pedagógico e a interação destes com a sociedade atual.

Nosso objetivo neste trabalho é mostrar a indissocibilidade de nossa prática, que deve ser comprometida com as classes mais desfavorecidas, agindo sobre os fatores que regem toda a dinâmica política e social a ser mostrada.

Onde estamos

Com a queda dos mais significativos estados comunistas do mundo, URSS e leste europeu, nos deparamos com um crescente das idéias neo-liberais e de globalização da economia difundidas pelo grupo de países economicamente dominante (G7 +1) através de organismos como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que tem por objetivo a manutenção do jugo político e econômico exercido sobre os países do chamado terceiro mundo através da implantação de planos e políticas econômicas de acordo com os interesses do G7+1, as políticas de ajustes estruturais descritas por Celi Taffarel (1998). Dentro destes "ajustes" temos as Políticas de privatização (Plano Nacional de Desestatização) que é responsável pela venda de estatais de diversos setores a empresas multinacionais, que visam somente o lucro. Serviços estes que passam a ser regulados pelo mercado e por agências reguladoras como a ANEEL e ANATEL desresponsabilizando o estado por tais serviços em prejuízos à população, demissão de funcionários e na piora do serviço, contrariando o argumento de que privatizar melhoraria o serviço e a livre concorrência diminuiria os preços. Por conta desta ação há a constate retirada de direitos sociais e trabalhista, acentuando assim as diferenças sociais e o poder de manipulação da classe dominante sobre a classe trabalhadora.

A partir deste panorama exposto fica clara a luta entre classes onde a classe proprietária luta pela manutenção do status quo e ampliação de seus lucros e do jugo sobre a classe proletária, que por sua vez luta pela manutenção de seus direitos, sua existência digna e por igualdade social (COLETIVO DE AUTORES, 1992).

Uma outra parte desta política é o assalto às consciências e o amoldamento subjetivo descrito por Celi Taffarel (1998) que atinge diretamente a educação através da implantação de políticas de educação baseadas em "el desarollo en la práctica. La enseñanza Superior: las lecciones derivadas de la experiencia" um documento redigido pelo Banco Mundial afim de estabelecer sua política de interesses, buscando a massificação de sua ideologia através do estabelecimento das seguintes metas para a educação superior brasileira:

  • Avaliação institucional (Exame Nacional de Cursos) - organismo responsável pela avaliação dos cursos de nível superior de diversas carreiras com critérios de acordo com a ideologia de mercado e por conseqüência vem prejudicando as universidades públicas, historicamente centros de resistência político - ideológica;
  • Autonomia universitária plena - plano que sujeita as instituições de ensino superior e sua produção científica aos incentivos financeiros da iniciativa privada, inserindo assim toda a produção de conhecimento na lógica de mercado e sujeitando assim aos interesses das empresas e não do interesse da sociedade.
  • Melhoria do ensino - por fim este plano prevê alterações curriculares que regulamentem esta lógica mercantilista da transmissão e produção do conhecimento destruindo todo o caráter crítico e independente que deve envolver o ensino superior.
    Este assalto às consciências é parte primordial da luta da classe proprietária pela massificação de sua ideologia frente ao pensamento e necessidades da classe trabalhadora.

Há alguns instrumentos que servem para a massificação da ideologia dominante, portanto para a manutenção do status quo, um deles é de especial interesse para nossa análise que se seguirá sobre a formação do professor de Educação Física: a Industria Cultural. O conceito de Industria Cultural foi estabelecido por T.W. Adorno e Max Horkheimer e a define como "algo que trabalha com a idéia de massa, ou seja, um aglomerado de pessoas que pensem, sintam e agem de maneira uniforme" (MELO, 2001). A Educação Física se insere no contexto da Indústria Cultural ao ser instrumento promotor de práticas e modas que tem a ver com a lógica mercantilista de culto ao corpo e consumo de bens, estando mais comprometida com esta lógica do que com a real promoção da saúde e do bem estar físico dos praticantes de atividade física bem como com uma atuação pedagógica, contrária à ideologia imposta.

Quem somos

Ao vivermos dentro de nossa profissão um momento ímpar com o estabelecimento de um conselho regulamentador, com o dito propósito de regulamentar a profissão e assegurar o campo de trabalho para profissionais devidamente habilitados, e de toda uma legislação em torno desta contata-se uma total omissão por parte da maioria acerca desta de outras questões.

Ao discutirmos regulamentação cabe-nos o seguinte questionamento: um conselho realmente asseguraria os espaços para aqueles que são devidamente formados e capazes de exercer com um mínimo de condições a atividade profissional? E encaminhando mais a discussão aqui proposta: mesmos aqueles que passam pelo ensino superior com o objetivo de exercer a atividade estariam devidamente habilitados para exercer a profissão nos diversos campos profissionais abrangidos pela Educação Física? A uma resposta negativa põem-se em cheque a questão da regulamentação.

E se analisarmos especificamente o exercício dentro do campo da Educação Física escolar, abre-se campo ainda maior para a discussão e o real questionamento de nossas práticas frente aos anseios da sociedade e de nossa legitimidade profissional neste âmbito. Segundo LIBÂNEO (in QUELHAS, 1996) "a presença de uma disciplina no âmbito escolar só se justificaria pela sua função social e pedagógica, se tornando essencial a sua presença com o estabelecimento de objetivos prioritários, dando a devida relevância às questões sociais, políticas (algo que causa ojeriza em determinados professores), profissionais e culturais." Panorama notadamente conflitante com a prática observada na maioria das aulas de Educação Física, normalmente seletivas e excludentes com o objetivo puro e simples da iniciação desportiva, tendo como modelo o desporto de alto nível e ignorando condições sociais e econômicas1. Esta visão de Educação Física nos é difundida através da ação de veículos como a mídia2, a Indústria Cultural (já citada anteriormente) e a nossa própria formação a nível superior influenciada grandemente pela ação das duas anteriores e ignorando vários fatores como conhecimento científico e pedagógico, como constatado pelo professor Haimo Feinsterseifer (in QUELHAS, 1996) em sua análise da formação profissional em Educação Física:

  1. Processo de formação a-crítico;
  2. Processo de formação a-histórico;
  3. Processo de formação a-cientifico;
  4. Currículo desportivizado;
  5. Desconsideração do contexto de inserção social;
  6. Fragmentação do saber;
  7. Dicotomia entre teoria e prática;
  8. Processo de formação para estabilização do sistema vigente;
  9. Importação e aceitação de modelos teóricos a-criticamente;
  10. Orientação na formação voltada para atender as classes favorecidas socialmente;
  11. Interpretação do esporte como estabilizador do sistema ; condicionamento; rendimento; aptidão física; importação cultural; alienador; pautado no modelo de alto rendimento.

O que está descrito acima, tem estreita relação com a prática observada e vem a relacionar com o panorama social descrito na primeira parte deste trabalho, onde agimos como simples estabilizadores do sistema vigente com a nossa posição tida por a-política e desinteressada. Condição onde também podemos ressaltar a produção de conhecimento, primordial para quem trabalha com educação e está comprometido com o saber e a formação do ser humano. Na nossa área, quando ocorre algum tipo de pesquisa é em áreas das ciências biomédicas desprezando as ciências humanas, tão importantes quanto as biomédicas. Para exemplificar recorro novamente à Paulo Freire: "Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para contatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade."

Conclusão

Ao final deste trabalho onde cita-se o contexto social, político e econômico em que se insere as classes desfavorecidas do Brasil, e a atuação do professor de Educação Física embasada por sua formação nas faculdades, descomprometida com estes; conclui-se que a Educação Física não possui legitimidade no ensino de nível fundamental e médio por não preencher os requisitos para a formação do ser humano, bem como por seu descompromisso pedagógico; nossa dependência científica de outras carreiras pelo pouco conhecimento produzido na área e assim como em outras épocas servimos como instrumento para massificação ideológica e atendimento dos propósitos da classe dominante;

Obs.
O autor, Edson de Moraes Neto, é acadêmico de educação física da EEFD - UFRJ

Notas:

  1. A escola como "celeiro de atletas", algo que volta à tona frente ao nosso "fracasso" nas olimpíadas de Sidney em 2000,e é prática em diversas escolas paranaenses com o projeto VIVA VOLEI da CBV e apoiado pelo governo estadual.
  2. Ver o texto "Educação Física: mídia reforça distorções" i n www.Observatoriodaimprensa.com.br de 07 de março de 2001.

Referências bibliográficas

  • Pulo, Freire. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 12a edição. São Paulo. Paz e Terra. 1996.
  • Quelhas, Márcia Moreno. Conhecimento e trabalho pedagógico com as camadas populares no ensino público: o curso de licenciatura em Educação Física da UFRJ. Rio de Janeiro. UFRJ. 1996.
  • Coletivo de  autores. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo. Cortez.1992.
  • Taffarel, Celi Neusa Zulke. A formação profissional e as diretrizes curriculares do Programa Nacional de Graduação: o assalto às conciências e o amoldamento subjetivo. Revista da Educação Física/UEM. Volume 9, numero 1. 1998. p.13-23.
  • Melo, Macelo Paula de.Políticas públicas de esporte e lazer em São Gonçalo, uma análise crítica de atuação da SEMEL/SG.Rio de Janeiro.EEFD/UFRJ.2001.(Memória de Bacharelado).

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