Uma Concepção Universal do Ensino das Ciências Naturais e Humanas na Educação Física Escolar

Por: Fabio de Faria Peres.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

Send to Kindle


Tradicionalmente, o corpus teórico da Educação Física brasileira e por conseguinte, os seus mais diversos campos de atuação, divergem explicitamente em duas áreas distintas - ciências naturais e ciências humanas. Durante o curso universitário tal separação é bastante evidenciada, ao ponto que as pessoas relacionadas a cada uma delas negam a relevância ou até mesmo a necessidade da existência da outra na Educação Física. Como conseqüência, tal concepção de educação física permeia o processo de ensino-aprendizagem escolar. Haja visto, professores do ensino fundamental se dedicarem exclusivamente as questões relativas à performance.

Entretanto, tal situação, apesar de absurda, bem como o desenrolar do conhecimento científico podem em parte ser explicados pelo processo sócio-histórico-cultural da sociedade ocidental, como cita Aranha e Martins (1986, p.117): "(...) a razão humana adquire formas diferentes no correr dos tempos, dependendo da maneira pela qual o homem entra em contato com o mundo que o cerca. Queremos dizer que a razão é histórica e vai sendo tecida na trama da existência humana".

Um breve histórico do desenvolvimento das ciências

Os gregos ao romperem com o mundo mítico e com o saber de natureza imediata dão origem a uma forma de pensar abstrata e racional, que pode ser chamada de ciência, mas no entanto, ainda intensamente vinculada à filosofia. São exemplos conhecidos, os filósofos Aristóteles (séc. IV a.C.), Pitágoras (séc. VI a.C.), Tales (séc. VI a.C.), Euclides (séc. III a.C.), Arquimedes (séc. III a.C.) que produziram importantes contribuições teóricas, principalmente no que viriam a ser chamadas de matemática, física e astronomia.

Posteriormente, no século V, com a queda do Império Romano, a cultura greco-romana praticamente desaparece, dando lugar ao poder absoluto da Igreja Católica que através da sua religião, como forma de manter o seu poder e divulgar a sua concepção, agrega a razão, a ciência e a filosofia à fé. Assim, durante quase toda a Idade Média, a razão se encontra a serviço da crença. Um exemplo clássico é a transformação do pensamento aristotélico, antes condenado, em parte fundamental da filosofia cristã aristotélico-tomista2. Quando isto não ocorria, um dos artifícios usados pela Inquisição (Santo Ofício), diga-se de passagem "em nome de Deus", era queimar o acusado vivo, como no caso de Giordano Bruno (séc. XVI) incriminado por acreditar, entre outras coisas, na infinidade do universo (ARANHA, MARTINS, 1986).

Indiferente as concepções dicotômicas do Renascimento (séc. XV), é a partir dele que se inicia, apesar de paulatinamente, a dissociação entre a religião e o saber. A origem do conhecimento começa a voltar a ser de caráter especulativo e não apenas contemplativo (COSTA, 1997).

Entretanto, é somente no século XVII, com a criação do método científico estruturado na experimentação e na matematização, que há a quebra das relações da filosofia e da ciência com teologia que até então, desde o início da Idade Média se encontravam com intensos liames. Assim, dá-se origem a concepção de ciência na Idade Moderna que pode ser atribuída à Galileu Galilei (1564-1642) que teve importantes contribuições na astronomia e na física, sendo a mais conhecida a defesa do modelo copernicano (heliocentrismo), onde a Terra deixa de ser o centro do universo, característico do modelo aristotélico e ptolomaico (geocentrismo).

Em grande parte, tal momento crucial da história se dá em virtude da formação da ordem burguesa, que propicia ao homem da época uma nova postura diante do mundo ao valorizar o trabalho. Por conseguinte, a concepção moderna de ciência encontra-se baseada na crença da racionalidade do mundo e, consequentemente, associada à técnica, já que ao "dominar" e a compreender a natureza, melhor a classe burguesa seria favorecida financeiramente.

Nos séculos que se seguem, o método científico originado na física evolui e se torna modelo para outras "ciências particulares". Pode-se destacar a elaboração da primeira teoria científica - Teoria da Gravidade - proposta por Newton (1642-1727); o surgimento no século XVIII da concepção moderna de química; e o grande desenvolvimento das ciências biológicas no século XIX com Lamarck (1744-1829), Darwin (1809-1882), Pasteur (1822-1895), Mendel (1822-1884) entre outros.

Esta espantosa evolução das chamadas ciências naturais no século XIX e a credibilidade no seu método, faz com que as ciências humanas se distanciem da filosofia. Destarte, este ideal de cientificidade, característico das ciências naturais e com seus alicerces na experimentação e matematização, permeia as ciências humanas. Dá-se então, início a uma série de dificuldades que as ciências humanas ainda hoje se defrontam (ARANHA, MARTINS, 1986).

O caminho tortuoso das ciências humanas

Com o cientificismo - o dogmatismo da racionalidade das ciências naturais e de seu método - ou seja, a crença neste modelo como o único habilitado a explicar e a conhecer a realidade, as ciências humanas desde o seu desenvolvimento no século XIX até os dias de hoje vêm enfrentando muitos obstáculos a fim de se estabelecerem efetivamente como ciência.

A primeira dificuldade reside em relação ao objeto. No caso das ciências naturais o objeto de pesquisa se encontra fora ou indiretamente relacionada ao indivíduo, ao passo que nas ciências humanas o objeto é o próprio ser que conhece, imerso invariavelmente numa complexidade de fatores intangíveis cuja a mensuração é extremamente controversa.

Neste mesmo contexto, surge um outro aspecto problemático, identificar e controlar o que as ciências naturais chamam de variáveis, além do como e do por que destas exercerem influências nos seres humanos (ARANHA, MARTINS, 1986).

Uma outra observação subsequente é que ao contrário dos experimentos das ciências naturais, onde os fenômenos ou os fatos podem e são desejáveis que sejam reproduzidos, as ciências humanas ao tentarem a repetição dos mesmos se deparam com uma dificuldade que é bem ilustrada nas palavras de Paulo Freire (1999, p.48): "No jogo constante de suas respostas altera-se no próprio ato de responder (...) A captação que faz dos dados objetivos (...) é naturalmente crítica, por isso, reflexiva (...)". Neste sentido, a repetição de qualquer vivência sempre terá importância e conotações diferentes para o ser humano que a vive.

Ademais, mesmo que se questione a respeito dos sentimentos, o ser humano pode voluntária ou involuntariamente não verbalizá-los. Ressalva-se ainda, uma outra questão ao refletir sobre a citação de Paulo Freire: subentende a idéia de liberdade humana. Em contrapartida, as ciências naturais buscam incessantemente a regularidade dos fatos.

Por fim, há uma diferença essencial entre as ciências. Enquanto que nas ciências naturais há o desejo, em última análise, de quantificar. Nas ciências humanas isto nem sempre se faz verdade, já que na maioria das vezes os aspectos pesquisados são de ordem qualitativa.

Contudo, o sentimento cientificista acabou por derivar o positivismo, que apesar de ter sido idealizado no século XIX, ainda exerce enorme influência e propicia conseqüências relevantes, não só nas ciências humanas, mas na postura do ser humano diante de si próprio, da sociedade e na maneira de interpretar a realidade.

De fato, o positivismo, apesar das diferenças citadas entre as ciências, "converteu" e "limitou" as ciências humanas às ciências naturais, além de as reduzir ao fato observável, "real". Um exemplo bastante conhecido é a transposição da Teoria Evolucionista de Darwin para questões sociais (o darwinismo social) que convergiu com a postura presunçosa européia de que as sociedades tradicionais estavam em estágios inferiores e que a "evolução natural" deveria tender para o modelo da sociedade européia (COSTA, 1997).

Algumas implicações

Como conseqüência do panorama cientificista, o objetivo positivista de limitar tudo à razão, acabou por criar paradoxalmente na sociedade contemporânea os mitos da cientificidade, do especialista, da tecnocracia e do progresso.

De certa forma, pode-se dizer que todos estes mitos estão inter-relacionados e que derivam do mito da cientificidade, que é, resumidamente, aquele que hierarquiza o saber. O poder é de quem possui o saber cientifico, o único capaz de compreender e interpretar a realidade.

Cria-se assim, uma outra hierarquia, que é o mito do especialista, ou seja, as únicas pessoas que podem se expressar são aquelas que detêm este saber. Consequentemente, gera-se o mito da tecnocracia: o rumo da sociedade depende dos técnicos e das suas técnicas. Um exemplo atual deste mito é como a questão ambiental é tratada. A redução da poluição, segundo alguns renomados especialistas, depende exclusivamente do aperfeiçoamento das técnicas e da criação de técnicas alternativas, e não do que se chama de vontade política.

Subseqüentemente, se a técnica expressa o domínio do ser humano sobre a natureza, a descoberta de técnicas novas pressupõe uma ascensão da sociedade, denominada progresso. Entretanto, sabe-se que muitas das novas técnicas promoveram, por exemplo, o desemprego, a poluição e a miséria. Este é o mito do progresso (ARANHA, MARTINS, 1986).

Por uma nova concepção

Constatamos, portanto, os estorvos que ambas as ciências, principalmente as ciências humanas, vêm se deparando ao longo da história. Isto gerou a dicotomia ciências naturais e ciências humanas presente em todas áreas do conhecimento humano, inclusive na Educação Física, bem como na sua ramificação escolar.

No entanto, deve-se lutar por uma relação dialética entre elas. De tal maneira a formar uma unidade no saber, que por conseguinte, propiciará a não fragmentação do ser.

Neste sentido, esta visão pretende considerar todos aspectos intervenientes no ser humano, sejam eles de caráter biológico, social, político, psíquico, cultural, econômico, estético entre outros. Ou seja, pretende ser uma visão universal, onde não existe um saber único, melhor e tampouco inacabável. Lembra-se que o ser humano ao se autoproduzir continuamente nas suas relações consigo e com o mundo, implica dizer que sempre surgirão mudanças e novas formas de saber.

Notas:

  1. Este artigo, em última análise, tem sua origem a partir da disciplina Filosofia ministrada no CAp/UERJ em 1994, onde foi adotado o livro Filosofando: introdução à filosofia (1986) escrito pelas professoras Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins. Destarte, traçou-se relações entre o desenrolar da ciência, descrito no referido livro, e a situação atual que grande parte dos docentes em educação física se defrontam.
  2. Aristotélico-tomista: filosofia de Aristóteles sob a ótica do pensamento cristão de Santo Tomás de Aquino.


Obs.
O autor é recém-formado pela UFRJ.

Referências bibliográficas

  • Aranha, Maria Lúcia Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.
  • Costa, Cristina. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. 2. Ed. São Paulo: Moderna, 1997.
  • Freire, Paulo. Educação como prática da liberdade. 23. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Tags: ,

O que são tags? Tags são palavras-chave (relevantes) usadas, no CEV, para classificar um determinado conteúdo.
Que tal sugerir uma?

Comentários


:-)





© 1996-2014 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.