Uma Contribuição a Avaliação do Viii Enfefe

Por: Amparo Villa Cupolillo.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

No III EnFEFE a Comissão de Avaliação considerou que o Encontro entrava, naquele momento, em sua adolescência. Entendemos que, em sua oitava edição (2004), atinge a maturidade referente há aproximadamente quarenta anos. Nem por isso, perde a vitalidade, a alegria e a rebeldia características da sua infância e adolescência, as quais o geraram e o fizeram crescer. O espírito crítico, de luta e resistência às políticas neoliberais e à desvalorização do ensino público continua forte e atuante.

A maturidade dos quarenta anos vem apenas aperfeiçoar, refinar e lapidar a aplicação dessa vitalidade ainda viva, vibrante e presente, não só durante os dias dos Encontros, mas também no cotidiano do Departamento de Educação Física da Universidade Federal Fluminense. Vitalidade e maturidade extremamente pertinentes ao momento e ao nível dos debates, questionamentos e proposições apresentadas nestes três dias. Esses debates demostraram que, sem dúvida, o EnFEFE cresceu e amadureceu e que, em sua oitava versão, marcou a existência de um contexto favorável a um novo processo de mudança na Educação Física Escolar.

O crescimento quantitativo (número de participantes e trabalhos), que já vinha sendo apontado em outras avaliações, e qualitativo que identificamos neste ano, solicitam algumas reflexões; embora não muito complexas, mas de extrema importância para que o compromisso com a práxis da Educação Física e com suas posições políticas democráticas continuem norteando os amplos caminhos que se abrem diante do contexto identificado nesse momento, o qual, conforme apresentaremos, parece desafiador e promissor.

De onde partimos

Todo processo avaliativo gera uma forte expectativa, tanto de quem avalia, quanto de quem é avaliado. Portanto, cabe em primeiro lugar uma breve discussão acerca do lugar do qual partimos para efetuar esta contribuição à avaliação que agora apresentamos. O nosso ponto de partida então é dizer como e o que entendemos por avaliação.

Estamos habituados a pensar em avaliação como uma prática feita a partir da fórmula dada pela nossa racionalidade científica, de cunho positivista que atrela a avaliação aos objetivos pré-determinados, operacionalizados e elaborados com clareza para a obtenção de resultados positivos e únicos. Na busca por encontrar respaldos objetivos do alcance dos resultados elaboramos instrumentos que nos possibilitem determinar este alcance ou não. E assim procedemos em quase todos os processos avaliativos do qual fazemos parte. Quanto mais claros e transparentes forem os objetivos entendemos que melhor ou mais fácil será detectar, via avaliação, a sua apreensão. Retiramos, com isso, as diversas possibilidades de apreensão diferenciada que cada ser humano é capaz de fazer diante de sua exposição à novos conhecimentos e experiências. Simplificamos o processos de aprendizagem buscando resultados únicos para todos.

Pois bem, a nossa tentativa, neste momento, nem um pouco fácil, é de buscar um olhar que não nos limite a unicidade, mas tentando contemplar ao máximo a ambigüidade e a diversidade das apreensões possíveis. Concordando com Sacristán, entendemos que toda avaliação é, antes de tudo, um olhar possível que elege questões consideradas pelos avaliadores como fundamentais, porém silencia para outras.

Assim, entendemos que o nosso papel nesta Comissão é, antes de tudo, alavancar uma discussão acerca deste importante Evento, nos colocando à disposição da plenária para o desdobramento e aprofundamento de nosso olhar impreciso e, dessa forma, subsidiar os organizadores para o próximo EnFEFE.

Gostaríamos de iniciar enfatizando e reiterando o que foi dito por todos na solenidade de abertura acerca da posição política do Departamento de Educação Física da UFF de manutenção da gratuidade deste Evento. Consideramos a manutenção da gratuidade e da qualidade do EnFEFE, mesmo com o aumento do número de participantes, como uma grande vitória para as Universidades Públicas frente às políticas de privatização e desmonte do ensino público. Nos colocamos ao lado, em completa e irrestrita solidariedade aos membros do DEF da UFF que vêm demonstrando ao longo dos anos uma firme disposição de luta e resistência.

Avaliações pontuais

Organização

Dado o acúmulo de experiência adquirida na organização de oito Encontros, consideramos que a organização esteve a contento. O encerramento das inscrições com um mês de antecedência demonstram a consolidação e tradição que o Evento já conquistou no Rio de Janeiro e também nos Estados mais próximos; o credenciamento e a entrega de certificados foi realizada sem aglomerações; as instalações e o lanche estiveram adequados para o tamanho do Evento; os pequenos atrasos não comprometeram o prosseguimento das atividades.

Alertamos os organizadores para um pouco mais de cuidado na produção dos anais, pois encontramos algumas páginas repetidas e outras faltando. A crítica mais contundente que fazemos, apesar de estarmos conscientes das enormes dificuldades materiais da comissão organizadora, é quanto a não entrega da programação dos temas livres aos participantes, dificultando a escolha e a localização das apresentações.

Um último alerta é quanto ao fato de o avaliador e uma participante (que não conseguiu inscrever-se), ambos presentes em quase todos os Encontros anteriores e ex-alunos da pós-graduação, não terem recebido nenhuma comunicação sobre a realização do evento. Esse fato deve ser observado com cuidado, uma vez que detectamos a existência de inscrições utilitaristas, no sentido de que sejam priorizados participantes realmente envolvidos com a proposta do evento.

Programação Cultural

Consideramos a escolha da cantora Samantha Shimutz, acompanhada por Sérgio Paranhos e André Geléia como extremamente adequada, com o repertório diversificado, expressividade e personalidade marcante, descontração e carisma. Ressaltamos que, se possível, para os próximos eventos seja também contactado algum grupo artístico dirigido por professores participantes do Evento.

Participantes

Observamos uma significativa diversidade de gerações e regiões presentes. Participaram pessoas de Juiz de Fora e Belo Horizonte (MG), Rio Claro (SP), Vitória e Curiacica (ES), Santa Maria (RS) e Goiás (GO); o que demonstra a extensão da propagação das idéias aqui desenvolvidas. Também vale destacar a presença de mães professoras e filhas estudantes; o que nos leva a acreditar na continuidade do evento pelas próximas gerações;

Esta participação diversificada enriqueceu as palestras com o levantamento de questões pertinentes ao tema e preocupadas com o cotidiano escolar, estendendo-se após as palestras pelos corredores e outros espaços;

Deve-se considerar, entretanto, a participação utilitarista, isto é, algumas inscrições feitas apenas com o intuito de apresentar trabalho ou cumprir carga horária da faculdade impedindo, algumas vezes, a inscrição e a participação de outros mais comprometidos com a proposta do evento.

Tema

O tema escolhido para o VIII EnFEFE - Cultura e Educação Física - nos pareceu de extrema pertinência e ousadia. A temática cultural, que vem sendo debatida por diversas áreas do conhecimento, oferece possibilidades bastante amplas de aprofundamento e discussão, pois que se coloca como um foco iluminador para a crise da razão, na medida em que faz emergir o debate acerca da estética e, consequentemente, da sensibilidade e do devir enquanto projeto social.

Temas Livres

Gostaríamos de ressaltar a importante decisão por parte da organização do evento, em aceitar a maior parte dos trabalhos, mesmo aqueles em que as discussões teórico-metodológicas não estejam de acordo com o rigor acadêmico, visto se tratarem, muitas vezes, de relatos de experiência de professores que têm como atividade principal o cotidiano escolar e seus desafios. Alertamos, todavia, para a progressão crescente de trabalhos a serem apresentados e a solução que os organizadores deverão encaminhar. Sugerimos que esta decisão seja exaustivamente discutida para que não se tome rumos elitistas na seleção dos trabalhos, o que, do nosso ponto de vista, descaracterizaria os objetivos originários do EnFEFE.

Na oitava edição do EnFEFE foram apresentados 109 trabalhos com temáticas variadas, sendo 5 destes relacionados diretamente ao termo Cultura e a Educação Física. Destacamos nestes a diversidade das abordagens, contemplando quase totalmente a abrangência de uma área multidisciplinar;

Ressaltamos a apresentação de trabalhos tratando conteúdos como a Dança, o Teatro, os Jogos Cooperativos, o Taekwondo, a Corrida de Aventura, o Tênis de Mesa, a Ginástica, fugindo da limitação dos esportes coletivos tradicionais. Entendemos esse fato como uma das marcas do processo de mudança da Educação Física Escolar e que se refletiu nesse Encontro. Mesmo com alguns trabalhos ainda imaturos ou pouco aprofundados, entendemos que este momento caracteriza-se pela passagem de uma época de lamentações para uma outra de construções e proposições.

Mesas e Palestras

Sem dúvida foram esses momentos que deram a tônica do Encontro. Os conteúdos, implicitamente ou explicitamente ligados ao tema central do Encontro, representaram a diversidade e a multiplicidade de olhares que já estão sendo realizados e dos muitos que ainda necessitam ser percebidos. Especialmente, a abertura, cujo o tema "Cultura e Educação Física Escolar: uma Relação Clara?", do Prof. Dr. Victor Andrade de Melo, marcou o início de um grande avanço em relação aos Encontros anteriores e tornou-se referência para muitas das outras apresentações subsequentes.
Ao apresentar críticas à tendência pedagógica Crítico-Superadora o palestrante propôs um diálogo da Educação Física com os elementos dos estudos culturais e da estética numa tentativa de inverter os conhecimentos veiculados pela escola para o que ele denominou de "Pedagogia Radical dos Conteúdos". Essa palestra ficou para nós e outros participantes como uma referência, pois nos trouxe, dentro das limitações do evento, alguns exemplos de como essa pedagogia fundada na estética e nos estudos culturais pode subverter uma ordem enraizada e consolidada por onde se inscreve a história da Educação Física brasileira.

As mesas subsequentes complementaram a "explosão" causada na conferência de abertura, reforçando a idéia de que a Educação Física Escolar pode avançar e não ficar presa nem limitada aos conteúdos e abordagens tradicionais.

Assim, a mesa intitulada "Incluindo através da Educação Física escolar: uma questão de gênero" com a profª. Ludmila Mourão e Bianca V. S. Souza enfocaram dois importantes temas: a questão de gênero e envelhecimento. Ressaltaram a importância de uma revisão das nossas relações sociais e humanas para superar as diversas formas de preconceito ainda presentes em nossa sociedade. Observamos que estas questões estão fortemente postas na Educação Física, já que as duas discussões passam pela questão da corporeidade, do corpo que não se limita ao estritamente biológico, muitas vezes alardeado dentro da área. É mais uma vez a realidade, o cotidiano reivindicando novas referências, novos parâmetros, novos elementos que nos instigam a repensar a relação sujeito/corporeidade, ou melhor, sujeito encarnado, como nos abrilhanta Najmanovich quando reflete a corporeidade como a dimensão real e concreta da subjetividade do ser humano

A mesa "Outras linguagens da Educação Física escolar I" com a professora Lúcia Regina B. M. Voss e o Prof. Sérgio Henrique Cardoso da Silva, trouxe, num primeiro momento, um importante relato de experiência de uma professora que desafia o preconceito da "falta de habilidade" buscando atividades que de inclusão e, num segundo momento, experiências com atividades circenses como possibilidades de trabalho em Educação Física. Igualmente às demais, esta mesa abrilhantou o evento com a discussão de novas possibilidades escolares, demonstrando a riqueza da cultura de movimento que a Educação Física abrange, mas que até bem pouco não nos tínhamos dado conta

Por fim, a mesa "Outras linguagens em Educação Física II" com o prof. Waldyr Lins de Castro e a profª. Maria Inês Galvão Souza trouxe a cena novas possibilidades em Educação Física a partir da linguagem teatral e da dança. Buscando romper com a visão estritamente esportivizante a discussão trazida pelos palestrantes reforçou o que foi a marca do Encontro, qual seja, as diversas tentativas de refletir propostas teórico-metodológicas em Educação Física escolar.

Em suma, essas mesas nos mostraram que, talvez, a revolução e a transformação social, ainda hoje reivindicada, possam se dar mais facilmente por meio de uma outra forma de ver o mundo e os seus problemas: a dimensão do sensível, da afetividade e da estética, ou melhor, do phatos.

Desafios e Possibilidades

Finalmente, avaliamos o Encontro como um momento em que os pressupostos teóricos que vêm sendo construídos pela Educação Física com mais consistência a partir da década de 80, evidenciam que já temos percurso suficiente para dialogar e apresentar críticas, contradições, e propostas que se alinham às diferentes linhas filosóficas e epistemológicas, produzindo um campo de saber com consistência e fundamentação bastante significativos. Estas diferentes perspectivas demonstram que a crise paradigmática que se instalou na ciência moderna no século XX também produz reflexos no campo da Educação Física, gerando, especialmente neste EnFEFE, um rico e produtivo diálogo acerca do que entendemos ser papel e função da Educação Física Escolar. Assim, a palestra do prof. Victor Melo, ao causar um forte impacto, nos fez repensar, rever, ressignificar velhos conceitos e conhecimentos. Nem por isso, nos sentimos ameaçados ou medrosos do que está por vir. A aparente "desorganização" proposta pelo professor veio seguida por uma "operação rescaldo", realizada pelas mesas e temas livres apresentados posteriormente.

Essa correlação, entre a palestra do Prof. Victor e as demais, nos levou a resumir a avaliação da seguinte forma: estamos diante de muitos e complexos desafios, mas a produção atual em Educação Física Escolar, bem como as possibilidades que nos são apresentadas através da socialização desta produção, nos dão segurança e confiança para assumi-los.

Os membros da Comissão de Avaliação, a Profª Ms. Amparo Villa Cupolillo é doutoranda (UFF) e leciona na UFRRJ, e o Prof. Ms. Marcos Miranda Correia é da rede estadual (RJ).

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