Uma Educação Física Para Novas Relações de Gênero

Por: Cátia Cichetto de Moraes.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introduzindo o problema

Desde cedo me interessei em compreender as diferenças entre a representação dos papéis feminino e masculino em nossa sociedade.

Sentia-me incomodada ao observar condutas de submissão por parte de algumas mulheres com as quais convivia, além da minha própria conduta. Uma delas era minha mãe que ao mesmo tempo em que deixava meu irmão brincar na rua, esperava que eu ficasse em casa e a ajudasse nos trabalhos domésticos * pois ela não achava adequado uma menina brincar na rua *, até mesmo a freqüência às aulas de Educação Física não eram incentivadas por ela, achava que eu poderia me machucar.

Ao ingressar no mercado de trabalho, deparei-me com uma realidade semelhante. Trabalhando com eventos pude perceber o papel da mulher como objeto de desejo masculino, quando sua atuação profissional é estereotipada pelos homens. Com isso, minhas reflexões e indignações foram crescendo e conseqüentemente, o interesse pelo assunto.

Embora a percepção dessas desigualdades não seja novidade para muitas mulheres, muitos desses comportamentos estão enraizados na sociedade determinando comportamentos tipificados para mulheres e homens.

Sobre isso Montserrat Moreno (1999,p.23) entende que:

"O androcentrismo(1), um dos preconceitos mais graves e castradores de que padece a humanidade, vem impregnando o pensamento científico, o filosófico, o religioso e o político há milênios. Tantos séculos pensando de uma maneira podem levar a crer que não há outra maneira possível de pensar e, estando tão presos a algumas idéias, parece que somos incapazes de refletir sobre elas e de criticá-las, como se fossem verdades inalteráveis".

E ainda acrescenta que o androcentrismo a partir da ótica social supõe um acúmulo de discriminações e de injustiças em relação à mulher, e que se a mulher tolera é porque compartilha com o homem o pensamento androcêntrico, e tem inconscientemente aceitado todas as suas idéias. Entretanto não é preciso mudar de planeta para ver a realidade de outra maneira, basta introduzir o ponto de vista da mulher, e uma das muitas formas de fazê-lo é por meio da educação (ibid).

Com isso, inconformada por saber que comportamentos estereotipados, embora antigos, continuam com força interessei-me em aprofundar no assunto para melhor compreender como se construíram esses estereótipos e de que forma eles influenciaram e influenciam a sociedade, e tentar com isso encontrar formas de contribuir enquanto futura educadora, no sentido de caminhar em busca da igualdade real entre mulheres e homens.

Gênero, educação e educação física

Neste ensaio procuro compreender como a Educação Física trabalha com a questão dos estereótipos, funcionando como um aparelho ideológico(2), podendo influenciar diretamente na formação dos alunos.

A discriminação da mulher começa muito cedo, no momento do nascimento ou mesmo antes. Quando meninas e meninos chegam à escola, já têm interiorizada a maioria dos padrões de conduta que os diferenciam. A escola é um lugar privilegiado para introduzir uma mudança profunda na mentalidade dos indivíduos, no que diz respeito aos padrões e os modelos de representação. Para que isso seja possível, é necessário tomar consciência dos mecanismos inconscientes de transmissão do modelo que se quer modificar (Montserrat Moreno, 1999, p.30).

Para tratar dos estereótipos feminino e masculino, é necessário que se compreenda como se dão às relações sociais entre os sexos, utilizando para isso o termo gênero.

Segundo Joan Scott, a definição de gênero tem duas partes: "(1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder" (1995, p.86).
O termo gênero começou a ser usado como uma forma de enfatizar as construções sociais das diferenças entre mulheres e homens. O corpo sexuado biológico seria, assim, uma justificativa para as identidades subjetivas das mulheres e dos homens dentro de cada cultura (Joan Scott, 1995, p.86).

Ao nascermos, nosso sexo é determinado biologicamente. Já o comportamento tem a influência direta do processo de socialização ocorrido junto à família, à escola, à TV, aos amigos etc. e que é historicamente marcada pela subordinação da mulher ao homem. Trata-se de um fenômeno cultural que tem se arrastado por séculos (Elaine Romero, 1995).

Dessa forma a criança já começa a ser treinada socialmente para assumir papéis diferenciados, que foram construídos historicamente, ou como afirma Simone de Beauvoir: "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher" (apud Saffioti, 1987, p.10).

Para Elaine Romero (1994, p.227): "Destes papéis espera-se, que os homens sejam fortes, independentes, competitivos, competentes e dominadores, para as mulheres, a expectativa é de que sejam mais dependentes, sensíveis, afetuosas e que suprimam impulsos agressivos sexuais".

Para Pierre Bourdieu (1995) embora haja uma diferença biológica entre os corpos feminino e masculino, particularmente a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, que, como tudo no mundo está disponível para várias espécies de construções, não se pode, porém, utilizá-las como justificativa para a construção de diferenças sociais entre os sexos, e que essas diferenças entre os sexos biológicos de acordo com os princípios de uma visão mítica de mundo, são produtos de uma relação arbitrária de dominação dos homens sobre as mulheres, a qual está inscrita na realidade da ordem social.

Essa perspectiva é compartilhada por Elaine Romero (1995), que acredita ser necessária uma diminuição das desigualdades entre os sexos, sendo importante no momento uma reflexão sobre a Educação Física como um meio de desenvolvimento integral do aluno.
Para Jocimar Daolio (1994) o problema é que os professores de Educação Física sentem dificuldade em propor uma prática que propicie as mesmas oportunidades a todos os alunos, meninas e meninos, e que respeite as diferenças e interesses de cada um. Essa dificuldade é devida a concepção biológica tanto sobre o corpo quanto sobre a própria área que atuam, de forma implícita na sua ação profissional, por se tratar de representações sociais que dão suporte e orientam sua prática, muitas vezes até inconscientes.

Esse tratamento diferenciado pode ser percebido em algumas escolas, que adotam como metodologia para a aula de Educação Física, turmas separadas por sexo e conteúdos distintos, como se não fosse possível compartilharem a mesma turma e as mesmas atividades.

Separar turmas por sexo é considerar apenas as diferenças de gênero como importantes numa aula, é contribuir para que as fronteiras entre os gêneros se tornem ainda mais rígidas, além de desconsiderar suas variações e tirar a possibilidade de que os alunos escolham estar juntos ou separados. É importante que saibam conviver uns com os outros, mesmo que essas relações se dêem de maneira conflituosa (Helena Altmann,1999).

Tendo em vista uma pesquisa de campo (3) realizada por Helena Altmann em escolas, durante aulas de Educação Física, com o objetivo de compreender como meninos e meninas constroem as relações de gênero na Educação Física, foi constatado que, um dos principais motivos de conflitos entre meninas e meninos, são as exclusões em jogos esportivos. De um lado os meninos excluíam as meninas dos jogos por considerarem que eram fracas e menos habilidosas, enquanto as próprias meninas se excluíam por não receberem a bola.

Ao se excluírem, as meninas estão adotando o modelo de coerção auto-imposta, que segundo Elenor Kunz (2000) acontece quando as exigências e pré-condições físicas e técnicas do modelo de esporte de alto rendimento, limitam as possibilidades alternativas e criativas, propiciando uma existência sem liberdade no mundo esportivo, sendo também o professor muitas vezes agente reforçador dessa coerção. Nas aulas de Educação Física "deveria ser possível desvelar e superar os principais problemas de uma socialização específica para os sexos" (Ibdem, p.40).

Jocimar Daolio (1994) acrescenta ainda que quanto ao professor de Educação Física é preciso que compreenda que o corpo não é apenas determinado biologicamente, mas construído culturalmente por causa de valores sociais, e há uma contínua transformação no uso social desses corpos, que não precisam gerar diferenças tão gritantes.

Considerações finais

A vida em sociedade se faz de relações humanas, e para que relações de diferentes grupos não se transformem em relações desiguais e conflitantes, é essencial que os homens aprendam a respeitar a ocupação de espaços também por parte das mulheres. A ocupação proporcional do espaço físico escolar em aulas de Educação Física é um bom começo, para que no futuro os espaços sociais, políticos, profissionais, entre outros, sejam compartilhados de maneira mais justa e igualitária, não só pelas mulheres, mas por todos os segmentos discriminados, seja de classe, etnia, geração ou gênero.

Com isso, maior do que a conquista de praticar esportes em espaços públicos, será poder produzir, criticar e difundir o conhecimento científico na área da Educação Física, como atriz principal, pois além de conquistar um direito social, a mulher também lutará por consolidar alterações nas relações sociais (Celi Taffarel & Tereza França, 1994).

Porém não somente a Educação Física pode contribuir para esse processo. É importante a articulação da universidade com o sistema escolar, pois a universidade forma especialistas em educação, que em grande parte atuará no sistema escolar. (Moacir Gadotti,1988).
É pela educação que o aluno poderá refletir e, principalmente, modificar os padrões pré-estabelecidos socialmente a fim de alcançar uma sociedade não discriminatória e, portanto, que não promova a desigualdade. Mas para isso é imperioso que haja, por parte dos educadores o compromisso com uma nova sociedade, que nos livre a todos de qualquer tipo de opressão.

Notas

  1. Androcentrismo consiste em considerar o ser humano do sexo masculino como o centro do universo, como a medida de todas as coisas, como o único observador válido de tudo o que ocorre em nosso mundo, como o único capaz de ditar as leis, impor a justiça, de governar o mundo (idem,p.23).
  2. Ver Louis ALTHUSSER, "Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado", Lisboa: Presença:, s/d.
  3. Dissertação de mestrado: Rompendo Fronteiras de Gênero: Marias (e) homens na Educação Física, defendida em 1998 junto ao programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Obs. A autora Cátia Cichetto de Moraes faz parte do Projeto de iniciação científica - sob orientação do Prof. Ms. Antônio Carlos Vaz na UNICSUL/SP

Referências bibliográficas

  •  Altman, Helena. Rompendo Fronteiras de Gênero: Marias (E) Homens na Educação Física. Revista brasileira de ciências do esporte. São Paulo: vol.21, n°1, setembro 1999, p.112-117.
  • Bourdieu, Pierre. A dominação masculina. In: Revista Educação & Realidade. Gênero e Educação. Porto Alegre: vol. 20, n.2, jul/dez., 1995, p.133-184.
  • Daolio, Jocimar. Da cultura do corpo. Campinas: Papirus, 1994.
  • Gadotti, Moacir. Educação e compromisso. Campinas: Papirus, 1988.
  • Kunz, Elenor. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí, 2000.
  • Montserrat, Moreno. Como se ensina a ser menina: O sexismo na escola. Campinas: Editora Moderna, 1999.
  • Romero, Elaine. A Educação Física a serviço da ideologia sexista. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte. São Paulo: vol.15, n.2, janeiro/ 1994, p.226-234.
  • Romero, Elaine. Corpo, Mulher e Sociedade. Campinas: Papirus,1995.
  • Saffiot, Heleieth. O poder do macho. S.P: Moderna, 1987.
  • Scott, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In: Revista Educação & Realidade. Gênero e Educação. Porto Alegre: vol. 20, n.2, jul/dez., 1995, p.71-99.
  • Taffarel Celi N.Z. & França, Tereza L. A mulher no esporte: O espaço social das práticas esportivas e de produção do conhecimento científico. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte. São Paulo: vol.15, n.2, janeiro/ 1994, p.235-246.

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