Uma experiência da Educação Física com o 3º ano do 2º GRAU

Por: Ricardo Carlos Santos Alves.

II EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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  Os rumos da Educação Física na Escola são produzidos, direcionados, intensionalizados e traçados por nós que atuamos em Educação. Mas quem somos nós? Que identidade temos com a Educação? Que atuação nos distingue educadores?
A pequena experiência que submeto aqui ao estudo e a reflexão, não poderia ficar isolada deste aval, pois suas características não formais e não peculiares na ação pedagógica pressupõe uma alternativa, mesmo que inacabada, um rumo da nossa área experimentado e bem aceito pela comunidade escolar envolvida.
  Neste relato, procuro passar minhas questões polêmicas no trabalho com a turma 315 (3º Ano do 2º Grau) da Unidade Centro-Colégio Pedro II - RJ - de Abril a Julho de 1997, na expectativa de ampliar minha capacidade de atuação e atendimento ao processo ensino-aprendizagem através das críticas, sugestões e reflexões que possam colaborar nesse meu caminhar.
Iniciei este processo substituindo um colega de equipe, o que já me deixava em situação delicada, num período letivo bem curto (3 meses), aproximadamente 12 sessões, uma por semana, as segundas feiras, no segundo tempo de aula, sendo que não pude continuar com a turma no segundo semestre pois entrei em licença prêmio logo no seu início.
Com a mudança da Chefia do Departamento da nossa área, novos rumos começaram a ser esboçados com o objetivo de melhorar a atuação da Educação Física no processo Educacional da Escola.
 Ficou claro aos professores que ouvir os envolvidos, pesquisar a história da área na Instituição, encaminhar propostas básicas de manutenção do trabalho enquanto as novas estruturas pedagógicas (objetivos, conteúdos, avaliação, etc...) não ficassem prontas e principalmente, se localizar nesse tempo, escutar os desejos do outro, da mídia, das expressões corporais, gestuais, num manancial de cultura corporal em movimento desse fim de século, seria fundamental.
 Minha estratégia utilizada foi a Prática Psicomotora através de vivências corporais, dinâmicas, sensibilizações e jogos recreativos.
No nosso 1º Encontro, sessão de apresentações e mapeamento de intenções e posições, perguntei-lhes:
- O que foi desenvolvido até então?
Eles, reunidos na arquibancada de uma pequena, mas poliesportiva quadra, responderam:
 Combinamos no início do ano com o outro Professor, que ficaríamos aqui na quadra para a chamada e caso quiséssemos alguma atividade específica, falaríamos com antecedência de uma aula, para que ele pudesse preparar, planejar a aula, com aquela atividade escolhida.
- Não deveríamos, no momento, no tempo da aula, ficar pelos corredores, na nossa sala ou outros locais da escola, isso prejudicaria o acordo.
 Fiquei interessado em me aprofundar nesse acordo e estimulei uma longa conversa que era revezada com vários alunos. Pude observar aí, vários outros calados que não se manifestaram durante um longo tempo nas aulas.
- E o que vocês faziam aqui na quadra no tempo destinado à Educação Física, quando ninguém na aula anterior havia sugerido uma atividade específica?
- Nada, ficávamos conversando, lendo jornais e revistas, copiando ou estudando alguma matéria.
- E quem não ficava na quadra, ou chegava atrasado?
- Levava falta ou pedia abono ao Professor pelo atraso.
 Tentei neste início impressioná-los e propus ampliar o acordo, retirando a antecedência do pedido da atividade e liberei para eles no momento que sentissem interesse em alguma atividade, que o manifestassem.
 "Querer introduzir na escola este corpo vivido e permitir-lhe exprimir-se, é uma atividade subversiva" (A. Lapierre e B. Aucouturier)
Iniciei lentamente e já no 1º Encontro, observei os interessados, os rancorosos com a nossa área, os que faziam alguma atividade fora da Escola, os totalmente sem interesse pela área e assim por diante, entrei numa conquista, numa pesquisa de interesses com induções constantes, mesmo que com um ou dois alunos e aos poucos conseguir tocar aquele grupo.
Já no 2º encontro, pendurei vários pedaços de barbante no alambrado, sem falar nada, esperando uma reação, uma pergunta. Durante longos 10 minutos, eu parecia um maluco pendurando coisas e ninguém dando a mínima. Foi quando uma menina disse que já tinha visto uma brincadeira legal com o barbante. Ela não conseguiu lembrar muito bem e eu aproveitei para sugerir com ela e com outra amiga uma outra atividade. Prendi as duas pelos seus pulsos com os barbantes entrelaçados uma na outra, como duas algemas de cordas longas (um metro aproximadamente).
 Aos poucos quase todos estavam envolvidos na brincadeira, numa turma de 40 alunos, pelo menos uns 30 estavam brincando de tentar sair do barbante do colega.
Ao final conversamos sobre as sensações vividas naquele momento e a importância do momento para cada um. Muitos saíram sem falar e as colocações foram poucas, tímidas, mas para mim promissoras.
Perguntei se gostariam de ver um filme do jogo Brasil x França - Handebol Masculino - Barcelona 92. Todos os presentes manifestaram que sim, e logo o 3º encontro já se objetivara. Não conseguimos vê-lo totalmente, mas curtimos muito aquele momento e o mais interessante ainda, foi o pedido deles para eu conseguir outros filmes de voleibol e ginástica olímpica.
 Para uma turma que nada fazia, até que eles estavam bastante saidinhos.
Na projeção do vídeo fizemos ótimas reflexões quanto a violência no esporte, a arbitragem, a forma física, a saúde, etc...
Cada encontro acontecia alguma coisa do interesse geral até que um dia chegamos na quadra sem nenhuma idéia e nos perdemos em conversas de todo o gênero. Me aproximei de uma aluna que lia Alan Kardec e começamos a falar sobre espiritualidade, corporeidade, e fomos parar no capitalismo, no socialismo e na qualidade de vida.
 Antes de terminar a sessão resolvi iniciar a preparação da outra aula e quando arrumava a rede de voleibol, uma aluna me perguntou se eles poderiam jogar um voleizinho e respondi que sim, desde que viessem com roupas mais adequadas. Pudemos então, falar sobre essas adequações, não do uniforme ou de regras, mas da qualidade de vida e o que seria necessário para preservá-la. Cada um deu sua posição e tenho certeza que isso fez muitos ali, pensarem melhor até no seu passado e presente sedentários, nas suas críticas adolescentes sobre a atividade física.
 A cada sessão eu os sentia experimentando novas sensações, novas formas de expressão dos seus movimentos. Como numa atividade em dupla, num salão bem amplo, onde um fecharia os olhos e se imaginaria cego e o outro seria um mudo que tentaria ajudar, se comunicar e ser ajudado também pelo seu colega, o cego.
Após a atividade sentamos e falamos o que sentimos. Muitos gostaram mais de uma posição do que da outra, uns se sentiram seguros, outros não, mas riram bastante, até que alguém perguntou sobre a função, o objetivo desse trabalho.
 Respondi que cada um tinha um objetivo. Ou pelo menos criou um objetivo como alternativa. O meu era verificar várias características de cada um, como: medo,, coragem, criatividade, tolerância, discriminação, agressividade, passividade, iniciativa, limite, etc... e a partir dessas observações poder interferir e ajudá-los a superar, ou dividir com o outro a dor ou o prazer daquela sensação. O outro objetivo era de proporcionar-lhes essas sensações importantes aos seus processos de formação: escolher alguém, sorrir, brincar, recusar alguém, dar ou não atenção ao seu limite.
 Eles gostaram e queriam mais, cada vez mais essas atividades. Começaram a conhecer melhor os seus colegas de turma, sentí-los mais reais, através das brincadeiras. Poder falar abertamente sobre isso com todos foi fundamental para essa redescoberta do outro.
Numa das últimas aulas, eu ainda tinha algumas resistências na turma e desta vez pedi que quem não fosse participar ficasse fora do salão.
 Justifiquei dizendo que a permanência de alguém não envolvido poderia inibir os outros.
Poucos não participaram e na aula seguinte puderam dar seus depoimentos e ouviram também seus colegas reclamando a falta que eles fizeram.
Pedi que escolhessem um par e fizemos a brincadeira do espelho. Logo depois pedi a formação de trincas: um seria "A", o outro "B" e o outro "C".
 O "A" deveria fazer uma pose, uma estátua e "B" deveria colocar o "C" na mesma posição dessa estátua. Todos deveriam passar pela posição "A" pelo menos uma vez.
Observei como era difícil para alguns, tocar o corpo do outro, como cada um tocava o corpo do outro, e o que cada um fazia para disfarçar sua inibição nessa brincadeira. Uns morriam de cócegas e denunciavam aí, também uma grande defesa em serem tocados.
Propus então dividirmos a turma em dois grandes grupos, um de cada lado do salão. Inventei que o grupo "A" (do lado esquerdo) eram pedras a serem esculpidas pelos artistas (grupo "B" que estava do lado direito) e que eu era o dono do museu. Após terminarem as obras, estátuas esculpidas que eles inventaram com o corpo do outro, pedi que tirassem todas daquela posição para o salão ser varrido, mas que tivessem bastante cuidado para as estátuas não serem quebradas. Eles se divertiram muito, não imaginando quantas observações eu extraia daquelas cenas e o quanto cada um, com todo aquele simbolismo, aquela dramatização, montavam simbolicamente os seus desejos, manifestavam suas primitivas sensações e expressões.
 Os grupos trocaram de posição e novas emoções foram surgindo, preenchendo espaços importantes tanto no mundo interno como também no externo dessas pessoas.
"O indivíduo traz para dentro dessa área da brincadeira objetos ou fenômenos oriundos da realidade externa, usando-os a serviço de alguma amostra derivada da realidade interna ou pessoal." (Winnicott)
Na reflexão final alguns já se colocavam mais abertamente, chegando a se expor em questões pessoais e de certo modo se fragilizando junto ao grupo. Isso inicialmente não foi possível devido a rigidez das pessoas em se mostrarem aos outros sempre em guarda, sempre prontos a rebaterem um ataque. As estátuas ajudaram bastante nesse aspecto, pois muitos eram verdadeiras caricaturas dessa rigidez, dessas posturas defensivas, fechadas, invioláveis. De repente todos queriam falar ao mesmo tempo, como se tivessem descoberto algo mais naquela simples brincadeira.
 Não pensem que tudo foi fácil assim como está neste papel. Peitar aquele acordo inicial com os alunos demandava uma certa credibilidade junto a coordenação e direção da instituição.
Logo que começamos a trabalhar chegou o final do 1º Bimestre e tivemos que resolver como seria a avaliação e no meu 2º contato com eles, coloquei o diário de classe na mesa e pedi que cada um se auto-avaliasse. Eu só observava a fala de cada um no momento de dar a sua nota, tentando justificar o que "nada tinha feito".
 A chave da sala de vídeo não se conseguia com facilidade, tinha que ser marcado com antecedência.
Os locais de atividades não estavam sempre disponíveis e algumas sessões foram adiadas por isso. Não era possível fazer todas as atividades na quadra.
No último dia de aula, marquei uma filmagem, mas acho que mesmo eles tendo autorizado, alguns ficaram com vergonha. Havia uma P.U. (Prova Única), a última de uma maratona e obviamente o cansaço era maior. Mesmo assim consegui o depoimento de vários alunos que avaliaram por escrito, essa experiência em Educação Física e que transcrevo trechos como conclusão desse relato.
Depoimentos
"As aulas de Ed. Física nesse primeiro semestre foram muito mais interessantes do que nos anos passados. Confesso que nunca fui muito fã de aulas e desde a 6ª série que fugia dessas aulas..."
"Essas atividades alternativas, são muito boas para o conhecimento das pessoas que nos rodeiam. Acredito que sendo utilizado esse método, os alunos do 2º grau voltem a se interessar pelas atividades físicas... fica até mesmo, chato ter de correr, jogar... Espero que esse quadro mude."
"Apesar de ter começado somente neste ano este tipo de atividade, ajudou em relação aos relacionamentos interpessoais."
"Como este ano é o nosso último, em que todos se preocupam exclusivamente com o vestibular, as aulas de Educação Física, que sempre teve importância reduzida para a maioria agora tornaram-se algo totalmente inútil, fútil para os objetivos desejados... Porém, a culpa disso tudo deve ser da mentalidade dos alunos ao decorrer dos anos, também dos professores que não souberam explicar o real objetivo da Ed. Física no Pedro II... desejo que nosso professor continue tentando estimular os alunos a fazer isso."
"Descobri que o trabalho de Ed. Física pode ser bem amplo. Aquela atividade no salão de leitura, do trabalho de dupla foi muito legal, gostei muito. Professor Ricardo, valeu a pena!"

Referências Bibliográficas

AUCOUTURIER, Bernard e LAPIERRE, André. Fantasmas Corporais e Prática Psicomotora, Manole, SP, 1984
LEVIN, Esteban. A Clínica Psicomotora, Vozes, RJ, 1995
_________ A Criança em cena, Vozes, RJ, 1997
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade, Imago, RJ, 1975

 

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