Vasco da Gama ou Vasco da Grana?

Por: Ugo Braga.

28/12/2008

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O Futebol brasileiro, como se sabe, transformou-se num covil de canalhas. Habitado por todo tipo de gente - até homens de boa-fé! -, é dominado por trambiqueiros, malfeitores, corruptos e vários ou- tros espécimes de abjeções conhecidas e outras que ainda estão para ser inventadas.

Sei que o tema provoca febres alucinatórias geradas pela paixão. E antevejo logo quem crispe as sobrancelhas em vão patriotismo, lembrando, destarte, que os grandes, invejados e gloriosos clubes ingleses pertencem a mafiosos russos, alguns deles até mesmo impedidos de pisar na própria pátria, sob risco de prisão. O que é absoluta verdade. E que o Milan, cujo naipe de craques enrubesce muitas seleções pelo globo, tem por dono o milionário primeiro-ministro italiano, suspeito em escândalos pretéritos e pouco lisonjeiros. O que também é verdade.

Mas cá temos o caso, e aqui sim, como a jabuticaba, o ineditismo nos pertence, de o governo sacar dinheiro público e jogar no mar de lama. O que tira o debate da mesa de bar e o empurra às tribunas públicas. Cito, a guisa de novidade, o propalado patrocínio da Eletrobrás ao Vasco da Gama, protagonista da segunda divisão do futebol nacional no ano vindouro. A chocante e rica estatal entregará R$ 14 milhões ao clube em 2009, em troca de ter sua marca estampada no uniforme.

O bastidor dessa transação é fabuloso. Em princípio, o Ministério de Minas e Energia, a quem a Eletrobrás é subal- terna, brecara o negócio. Não via muito sentido na possibilidade de uma estatal monopolista fazer propaganda. Afinal, publicidade é coisa de quem quer vender, seja um produto ou uma idéia. Posta numa camisa de futebol, ela serve para expor o alvo da venda a milhares de pessoas.

Serve bem a planos de saúde (como os que patrocinam Corinthians e Fluminense), fábricas de eletrodomésticos (São Paulo e Santos), montadoras de veículos (Atlético-PR, Cruzeiro, Palmeiras). Mas a uma empresa do governo que produz energia hidrelétrica em escala comercial praticamente sozinha? E que a vende num sistema absolutamente controlado pelo Estado?! Não, definitivamente, não.

Era a posição oficial. Até que o governador do Rio de Janeiro, torcedor do Vasco, aflito e angustiado pela crise do clube, intercede. Telefona ao presidente da República, explica a situação e... bingo! O ministério deixa fluir o monstrengo. Mesmo sem qualquer sentido, a estatal de energia vai ajudar a tirar o clube do fundo do poço.

Há mais. A Eletrobrás, por estatal, pertence a todos os brasileiros. Por que recursos de seu caixa serão postos em socorro de uma instituição, chamemos assim, que representa uma parte pequena, estatisticamente desprezível deles, que nada tem a ver com seu ramo de negócio?

Há mais, há mais. Os argumentos, um e outro, servem perfeitamente ao Flamengo e seus R$ 16 milhões mamados anualmente já há um bocado de tempo das tetas da Petrobras. E do simpático Botafogo, que, fazendo-se de bom moço, suga outros R$ 9 milhões por temporada da Liquigás, uma subsidiária da Petrobras. Que festa é essa que ninguém me convidou?

Temos aí a proeminente fortuna de R$ 40 milhões anuais tirados do bolso de cada brasileiro e entregues a fundo perdido a três clubes cariocas. Por quê?

Há mais, muito mais. O futebol no Brasil é uma organização cujo presidente se fez cliente de um dos maiores lavadores de dinheiro do planeta, como revelou este Correio meses atrás. Onde políticos cassados por corrupção se apoderam de times e esquentam cada centavo do dinheiro roubado sem serem importunados. Onde a Justiça comum é tida como pária. E sobre quem não há controle, seja no âmbito administrativo ou no parlamentar.

É, infelizmente, um território aberto. Carente de quase tudo o que diz respeito ao Estado e à civilização. Menos de uma montanha de dinheiro público doada debilmente sem qual- quer finalidade lógica e, pior, sem nenhum controle efetivo.

De certa forma, seria justo e compreensível se a bolada das estatais pagasse todas as despesas da quarta divisão do campeonato brasileiro de futebol. Ou, melhor ainda, contratasse núcleos de formação básica dos esportes olímpicos país afora.

Não, talvez não. Engordar o orçamento do Ministério do Esporte e do Comitê Olímpico Brasileiro é tão ou mais teme- rário - visto os casos dos Jogos Pan-americanos e do programa Segundo Tempo. Aliás, ligando uma coisa à outra, dá para dizer que a política do governo Lula relacionada a esportes guarda uma certa coerência. Tenebrosa coerência...

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