Violência Impune

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Blog do CEV - 2019

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O esporte é fundamentado em valores que buscam promover a paz e a educação, tendo no princípio da igualdade uma de suas bases. A igualdade, porém, precisa ser entendida não apenas do ponto de vista das chances entre os que competem. No jogo da vida é preciso que a humanidade seja a principal referência. Igualdade é diferente de equidade.

A igualdade presume isonomia, algo que no artigo 5°da Constituição brasileira manifesta que “todos são iguais perante a lei” ou ainda que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

A igualdade consiste que os iguais devem ser tratados de forma igual e os desiguais de forma desigual, na medida em que se desigualam.

A equidade consiste na adaptação da regra existente à situação concreta, observando-se os critérios de justiça. Pode-se dizer, então, que a necessidade de equidade leva à adaptação da regra em um caso específico, a fim de deixá-la mais justa. Dessa forma, a equidade não somente interpreta a lei, como evita que a sua aplicação prejudique alguns indivíduos. Isso porque toda a interpretação da justiça deve tender para o justo, atentando para as possíveis exceções.

Ao longo do século passado a participação das mulheres no esporte foi questionada de diferentes formas: incapacidade física e fragilidade emocional. Com o passar dos anos, a persistência de algumas, a determinação de outras e a competência de muitas pôs por terra os argumentos pautados na diferença entre os sexos e o seu consequente reflexo no campo competitivo.

O fato é que as mulheres nunca foram iguais aos homens. Nem serão. A polêmica ainda persiste.

O direito à prática esportiva das mulheres está pautado na equidade, ou seja, no reconhecimento da diferença. É esse o respeito que desde os primórdios as mulheres de todas as idades clamam. Dentre as modalidades esportivas as lutas permanecem como um território onde o entendimento da equidade ainda levanta polêmica.

O depoimento de Karina Gracie, assim como de Ericka Almeida e de Megan Sutton-Kirkby, na série “Vozes do tatame”, aponta para um universo no qual essa discussão ainda parece longe de acontecer, retardando atitudes em treinos e competições compatíveis com os tempos atuais.

Entendo que as lutas exigem uma disposição para o enfrentamento diferenciada de outras práticas esportivas, o que reforça um estereótipo historicamente construído de que a agressividade e a força são atributos masculinos. No tatame, ou no octógono, a ética do jogo exige respeito às regras, aos adversários, ao território e uma estreita consciência de limite. Ao leigo isso pode soar como violência, mas as regras e o fair play garantem uma disputa justa.

Na prática, porém, o que se assiste é a transposição do uso da técnica, tanto da luta como da cena da luta, com suas incansáveis simulações de caras e bocas de fúria, para o cotidiano fora do ringue.

A história de mulheres como Karina, Ericka e Megan mostra um universo conhecido, porém negado. E isso não acontece somente nos tatames ou nas comunidades das lutas. Nos espaços onde se coloca em disputa a competência ou poder, também intelectual, ainda persiste esse tipo de prática. Consideradas usurpadoras somos agredidas com tentativas de desqualificação que vão da potência física e intelectual à aparência da inevitável decadência de quem envelhece.

A violência impregna a cultura de grupos específicos e manifesta-se como algo natural diante da conivência de líderes, mestres, chefes. Seja no esporte, ou em qualquer outra esfera da vida social, isso tem que mudar.

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