Algo mais sobre o turfe em Salvador

23/11/2015

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

Na Bahia, encontramos dados que apontam para a existência do turfe já no século XIX. O jornal A Locomotiva(1) dava notícias da abertura de um palco específico para a prática na cidade, na data de 30 de dezembro de 1888:

a inauguração do Hipódromo S. Salvador, que teve lugar no dia 30 passado, foi um verdadeiro acontecimento notável para os anais desta grande capital.
[…]
Tudo correu bem, fazendo-se notar apenas a grande demora em começarem as corridas, e os enormes intervalos entre uma as outras.

Podemos perceber que a abertura deste palco de diversões mobilizou um público grande, nesta altura, carente de espaços e práticas divertidas na cidade. A boa recepção a esta inauguração denota o quanto a cidade ansiava por locais onde as “belas” pessoas, como diz a nota, podiam se entreter, numa prática considerada nobre e elegante.
No decorrer do tempo, o hipódromo continuou a promover corridas, procurando mitigar as dificuldades e as deficiências vistas nas primeiras apresentações. O mesmo A Locomotiva (2), noticiava assim:

Não se pode negar que as corridas de cavalos captarão as simpatias do povo baiano; o Hipódromo S. Salvador, tem-se tornado o ponto de reunião do mundo elegante desta capital.

As corridas de cavalo, logo começaram a fazer parte do cotidiano da cidade. Os jornais seguiam dando notícias dos eventos, apresentando as corridas, as ocorrências, comentando o desempenho dos cavalos e dos jóqueis, bem como as reações do público. As matérias sempre buscavam associar essa atividade aos estratos sociais mais altos da cidade, dando destaque a presença feminina.
Outro aspecto que denota o valor dado ao turfe, já desde o início das atividades, foi à criação de um periódico específico, O Sport. Esse jornal, que noticiava apenas coisas do esporte, teve seu primeiro número lançado já em 27 de janeiro de 1889, ou seja, logo após a inauguração do Hipódromo São Salvador, dizendo-se um jornal dedicado aos dignos turfistas desta cidade.
O Sport em 1889 (3) cuidava de mostrar desde programas e resultados, até dicas sobre formas de vestir-se e de comportar-se num hipódromo. O surgimento de um jornal próprio do turfe, e a forma como este se apresentou, demonstra a motivação de tentar consolidar esta prática. Isso, justo por reconhecer nela uma possibilidade de diversão, além de poder ser um meio de fazer da cidade, um lugar mais moderno, elegante e nobre, trazendo para Salvador uma atividade que já existia e gozava de prestígio em outras cidades e países.
O sucesso do turfe se comprovou com a abertura de um segundo local de provas, desta vez, no bairro do Rio Vermelho. Vemos que o turfe, àquela altura, mesmo ainda em sua fase inicial, já começava a se incorporar ao cotidiano da cidade. Vale citar que o bairro do Rio Vermelho, era ainda bastante distante do local do primeiro hipódromo, localizado na Boa Viagem.
Desde a inauguração, o Derby Clube do Rio Vermelho apresentava a intenção de contar com grande público, tendo para tal preparado uma estrutura que, segundo os jornais, daria conta de oferecer conforto à plateia. Também vemos a preocupação em apresentar as condições de transporte, já que o Rio Vermelho, bairro de veraneio, era de difícil acesso.
Após a inauguração do hipódromo, as notícias e análises sobre esse fato se estenderam por dias. Como exemplo, no dia 27 de maio de 1888 se noticiou a abertura e os acontecimentos mais gerais, atribuindo grande sucesso ao evento. No dia 28, foram apresentados os páreos e seus resultados.
A abertura de um novo hipódromo na cidade não significou, a princípio, que o anterior tenha interrompido suas atividades. Ao contrário, os jornais seguiam noticiando seus programas, descrevendo as provas e convidando o público a participar dos eventos. Como exemplo disso, encontramos no Diário da Bahia (4) a seguinte matéria:

no Hipódromo S. Salvador, á Boa Viagem, realiza hoje a 2ª. Corrida deste ano, tomando parte os melhores parelheiros de nosso turfe.
Abrilhantará a função a conhecida Filarmônica Carlos Gomes, que nos intervalos executará peças de seu variado repertório.

Nos jornais também eram informados alguns páreos que destinavam renda a entidades beneficentes. Apesar de todo esse sucesso na sua fase inicial, em algum momento houve um esvaziamento de matérias sobre o turfe.
No tocante a esse esporte, dentro do período estudado, Salvador merece uma análise especial. Em fins do século XIX e início do XX, a modalidade figurava na cidade. Todavia, na década de 1910, foram encontradas poucas referências que fizessem menção à existência de sua prática formal nos jornais soteropolitanos. Nesse período, esporadicamente encontramos notas sobre corridas de cavalos como uma atividade de diversão, associada a alguma festa(5).
Algumas considerações podem ser feitas sobre as razões que motivaram esse intervalo na cobertura sobre o turfe em Salvador. Sarmento (2009, p. 113) afirma que a 1ª Grande Guerra causou fortes impactos na cidade, notadamente em sua vida econômica: “a população sofria com o aumento do custo de vida, especialmente com os altos preços dos alimentos. Diversas categorias profissionais foram prejudicadas com a guerra, que aumentou o desemprego”.
Como no esporte existia o hábito das apostas, podemos inferir que a menor circulação de dinheiro pode ter gerado um desestímulo pela modalidade, em função das dificuldades em se apostar e também porque a prática era uma atividade com altos custos de manutenção do espaço e dos animais. Outra razão pode ter sido a dificuldade de deslocamento até as áreas onde se localizavam os hipódromos.
A partir da década de 1920, o esporte passou novamente a ser noticiado, com sua prática acontecendo no mesmo hipódromo dos tempos iniciais, o da Boa Viagem, e também no do Rio Vermelho.
Essa retomada do turfe em Salvador foi, em grande parte, motivada pela constituição do Jóquei Clube, no Rio Vermelho, em 1919 (LOPES, 1984), que foi reinaugurado em 1923(6), na Boa Viagem.
Tratou-se de iniciativas de membros da elite baiana, que buscavam retomar os áureos tempos da prática turfística, suplantada pelo remo e principalmente pelo futebol. As tardes de turfe, como visto, se deram no antigo Derby do Rio Vermelho. Contudo, parece mesmo que foi o Hipódromo de Boa Viagem o palco principal da retomada do turfe: “…a dedicação de certos vultos de grande valor no esporte baiano como os Srs. Alberto Catharino, Fernando Petersen, Arthur Matos, Engenheiro Gantois, Dr. Couto Maia e outros incansáveis vêm agora dotar a Bahia de importante estádio”(8), representantes da mais alta sociedade soteropolitana, interessados em fazer Salvador retomar tempos em que as tardes de turfe representavam formas valorizadas de sociabilidade, um tempo de representação de poder e status.
De tudo, importa dizer que o turfe foi, em Salvador, uma prática inconstante, sem experimentar uma forte organização na forma de clube, fato só visto na década de 1920, com a criação do Jóquei Clube. Ainda assim, poucos não foram os problemas.
Apesar desse cenário de não regularidade, a participação do público era associada a “bons” modos de comportamento, exigindo-se uma vestimenta “chique”. Ir aos hipódromos significava ver e ser visto e também, circular por entre os da elite.
Estar na rua em contato com outras pessoas, bem como saber portar-se e vestir-se eram marcas das novas “posses” das camadas detentoras de poder. Além disso, apostar e mesmo ser proprietário de animais era sinal de status e, ainda, poderia contribuir para o enriquecimento.
Por fim, foi possível identificarmos a presença do turfe na cidade, tendo sido uma atividade que gerou interesse e mobilizou a população. Ao mesmo tempo, percebemos que sua prática foi inconstante, experimentando momentos de euforia e de apagamento, decorrentes de sua maior ou menor circulação e visibilidade. Diferentes estratos da população foram envolvidos pelas corridas de cavalos, assumindo papéis diversos nesse cenário. Ainda, os espaços de seu desenvolvimento também foram diferentes, ocupando locais na cidade, bastante distantes um do outro.

Notas:

1. A Locomotiva, Salvador, 15 de janeiro de 1889, p. 41.
2. A Locomotiva, Salvador, 22 de janeiro de 1889, p. 51.
3. O Sport, Salvador, 27 de janeiro de 1889, p. 1.
4. Diário da Bahia, Salvador, 06 de abril de 1902, p. 1.
5. A Tarde, Salvador, 17 de agosto de 1915, p. 2.
6. Semana Sportiva, 28 de abril de 1923, p. 5.
7. Semana Sportiva, Salvador, 21 de abril de 1923, p. 13.

Referências:

LOPES, Licídio. O Rio Vermelho e suas tradições: memórias de Licídio Lopes. Salvador: FUNCEB, 1984.

ROCHA JUNIOR, Coriolano Pereira da. Esporte e modernidade: uma análise comparada da experiência esportiva no Rio de Janeiro e na Bahia nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX. 2011. Tese (Doutorado em História Comparada), Programa de Pós-Graduação em História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

SARMENTO, Sílvia Noronha. A raposa e a águia: J.J. Seabra e Rui Barbosa na política baiana da Primeira República. Dissertação (mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFBA, Salvador, 2009.

Fonte: https://historiadoesporte.wordpress.com/

 

 

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