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Ensino da ética e da Estética, Por Jorge Bento




Ensino da ética e da estética

“A ética e a estética não se ensinam”, oiço o grito ressoar estridente nos ouvidos. Alto aí! Ensinam, sim, por via indireta. Como sei que o leitor é casmurro e insiste em contestar, vou dar-lhe uma aula professoral. Quanto mais não seja, ela serve para demonstrar que a jubilação não me afasta das lides conceptuais e mesmo didáticas.

 
Venha daí, e faça o favor de seguir os meus passos e indicações! Pegue numa bola de andebol ou de basquetebol ou de futebol; entregue-a a um bando de crianças. Repare que disse ‘bando’ e não ‘grupo’; foi de propósito! Como é a cena que se desenrola aos seus olhos? Os membros do ‘bando’ engalfinham-se uns nos outros; os mais fortes agarram e empurram os restantes, tentando assenhorear-se da bola. Um ‘espetáculo’ perfeito de caos, desordem e incivilidade!

 


Qual é a sua reação, caro leitor, se isto o incomoda e deseja modificar o quadro? Não tem alternativa à de ensinar os gestos e as regras básicas do jogo. Pouco a pouco, à medida que os elementos e ações estruturantes do jogo vão sendo aprendidos, a conduta das crianças altera-se, os instintos do bando convertem-se em comportamentos do grupo. Os agarrões e atropelos dão lugar a atos tecnicamente melhorados. As relações dos sujeitos entre si são ordenadas pelas operações inscritas no jogo. Ou seja, a apropriação da técnica amanha o terreno para o florescimento da ética e da estética. Os alunos libertam-se de insuficiências primárias, das quais estavam totalmente dependentes; enraízam e alargam, assim, a capacidade de autonomia, de liberdade e escolha das suas atitudes.

 


Ensinar um jogo desportivo consiste precisamente nisto: ensinar ética e estética, por meio da transmissão e aquisição da técnica e das normas, sem necessidade de as nomear. Este ensino não é fácil, mas é profundamente exaltante e gratificante do desempenho de um professor a sério. O fruto fica bem à vista: o praticante tecnicamente evoluído não recorre à falta e grosseria, é atraído e admirado pela busca e exibição do belo e sublime.
Estamos entendidos? O leitor apreendeu o subido alcance desta lição? Então vamos pô-lo em prática! Em nome da Cidade e Humanidade: do direito de todos a espaço e objeto.

 

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