Educação Física no Maranhão

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Hoje a Aula é de Alegria!, Por Antonio Menescal




“Hoje a aula é de alegria!”

Antonio Menescal
a.menescal@globo.com

Publicado originalmente na Revista Benjamin Constant, em sua edição de número 6, de setembro de 1997, o texto mantém-se atual e oportuno. O esplendor, a grandiosidade, a visibilidade e a importância dos Jogos Paralímpicos devem levar à discussão, à reflexão e a iniciativas no âmbito do acesso de alunos com deficiência às aulas de educação física, quer na escola especializada quanto na de ensino regular.

O ouro, a prata e o bronze conquistados em uma Paralimpíada são importantíssimos. Esses atletas são heróis do esporte nacional. Universalizar e democratizar o acesso da criança e do jovem com deficiência à educação física escolar constitui-se em estratégia fundamental de desenvolvimento do esporte e base dos campeões do futuro. Campeões não só nas pistas, piscinas, quadras e “dojos”, mas campeões na vida, vencendo uma barreira de cada vez.

Não podemos deixar de considerar, portanto, a educação física escolar enquanto um elemento da iniciação esportiva, contudo, devemos considerá-la principalmente como ação universalizada de base do desenvolvimento, da formação do indivíduo e da potencialização do fazer e do interagir de crianças e jovens com deficiência.

No esporte, esperamos que as medalhas conquistadas por atletas brasileiros, as pessoas mais importantes do esporte paralímpico em nosso país, sirvam principalmente para aumentar as oportunidades de acesso à prática esportiva a outras pessoas com deficiência, àquelas para as quais o esporte paralímpico é mais importante, mesmo que não apresentem potencial para ouros, pratas e bronzes futuros.

Divido com vocês o texto “Hoje a Aula é de Alegria”. Espero que gostem.

Corria uma tarde ainda quente do outono carioca. Estávamos no ano de 1986 ou 1987, confesso que não me recordo com exatidão. Naquela época, nós, professores de Educação Física do Instituto Benjamin Constant – IBC éramos procurados por um grande número de acadêmicos, visto que a Educação Física Adaptada começava a ser entendida como um importante componente curricular nos cursos superiores de graduação.

Eu estava por iniciar a minha segunda aula daquela tarde, quando fui procurado por dois acadêmicos que deveriam cumprir um estágio de observação conosco. Uma turma de crianças cegas e de baixa visão, já aguardava por mim para o início da aula, esperando com ansiedade o banho na ducha coletiva que temos no acesso a nossa piscina.

A algazarra era grande e as carinhas demonstravam que elas estavam muito perto do prazer. Para essas crianças, que já haviam trocado por satisfação, prazer e alegria, ainda na pré-escola, o medo e a insegurança em relação à piscina e às aulas de natação, aquele era um momento onde elas poderiam demonstrar mais uma vez que venceram seus próprios obstáculos e as barreiras existentes para um contato bastante agradável com o meio líquido.

É facilmente percebido nas fisionomias dos nossos visitantes de primeira vez o impacto e a surpresa ao se depararem com nossos alunos. Quem sabe esperassem uma casa triste, como talvez julgassem ser sempre uma casa de cegos, ou talvez viessem preparados para um choro contido ao verem crianças cegas sendo arrastadas por seus assistentes videntes, desorientadas em um ambiente tão grande, ou ainda sentadas num canto qualquer com a fisionomia demonstrando a pressuposta inviabilidade de alegria num mundo sem a visão.

Depois da apresentação vieram as primeiras perguntas, sempre padronizadas e certamente elaboradas por um professor de didática, às quais eu já havia respondido por mais de uma dezena de vezes, quando trazidas por outros acadêmicos da mesma Escola. Durante o interrogatório pude observar que seus olhos não conseguiam desviar-se do que, para eles, era absolutamente inusitado e imprevisto: as crianças do Instituto Benjamin Constant demonstravam uma descontração absoluta e uma alegria surpreendente.

O que era aquilo? Como era possível? Essas foram perguntas que, não tenho dúvidas, passaram por suas cabeças. Foi nesse ambiente que veio a pergunta chave: Professor, qual é o tema da aula de hoje? Hoje a aula é de alegria, disse eu. Nesse ponto começa a nossa estória.

Naquela ocasião eu já tinha uma experiência de seis ou sete anos com aulas de Educação Física para crianças cegas e de baixa visão. Qualquer melindre em relação à deficiência, que eu, por acaso, tenha tido no início da minha atuação no IBC, já se dissipara totalmente. Buscava compreender meus alunos como crianças e como crianças com deficiência, exatamente nessa ordem, não deixando de considerar tudo aquilo que a infância e a cegueira na verdade trazem quanto as suas necessidades, interesses e expectativas.

Desde o início percebi o caráter absolutamente essencial das atividades lúdicas para meus alunos. Oferecer oportunidades para que o prazer de brincar pudesse estar sempre junto às atividades formativas, buscando, por ambos, a base do desenvolvimento da criança e não um treinamento de instrução e uma performance atlética, era a estratégia básica de minha atuação.

Quando minha resposta trouxe uma surpresa, quem sabe maior do que aquela que tiveram os estagiários ao se depararem com a realidade de nossas crianças, eu pude entender. Tendo em vista que, naquela época, a Educação Física era percebida por alguns profissionais que nela atuavam como tendo uma potencialidade muito menor do que aquela que de fato ela tem, é muito provável que aqueles jovens não tenham percebido o papel e a importância que tem uma coisa tão simples quanto a alegria em uma aula de Educação Física.

Depois da minha resposta as atenções passaram a ser concentradas em mim com um olhar direto de dúvida e avidez por maiores esclarecimentos. Preferi não dá-los, mas sim deixar que eles próprios pudessem observar o que representava um tema como esse, para eles, sem dúvida, absolutamente inédito.

O que seria uma aula de alegria? A alegria pode ser ensinada? Ora, se não há o ensino, não há aula. Quais os instrumentos de avaliação poderiam ser utilizados para mensurar uma questão tão abstrata? Como seria organizado o conteúdo? E a aula, como seria dividida? Os objetivos instrucionais, quais seriam? Todas essas perguntas passaram pelas mentes dos dois estagiários, então absolutamente confusos.

Pelo teor dos questionários que nos eram apresentados, podia se perceber que a Escola adotava uma linha comportamentalista e diretiva na proposta didática utilizada. Como eu poderia querer que acadêmicos habituados a temas fechados, objetivos comportamentais, estilo e estratégias nessa linha pudessem perceber a alegria como tema de uma aula de Educação Física?

Talvez tenham pensado em um possível sorriso de canto de boca como padrão mínimo a ser apresentado. Quem sabe, no processo de avaliação, um sorriso aberto valeria dois pontos ou mais. Com certeza minha intenção não era essa, embora um sorriso seja sempre muito importante.

E a tal aula de alegria?Os leitores devem, até agora, estar querendo saber. Contudo, antes disso, precisamos conversar mais um pouco, e conversar sobre crianças, sobre brincadeiras, natação, cegueira, prazer e alegria.

Todos nós, tenhamos sido crianças há muitos anos ou não, guardamos conosco as lembranças de nossas brincadeiras infantis. Os primeiros brinquedos, aqueles prediletos, os amiguinhos e os folguedos da imaginação que nos faziam inventar coisas, objetos, pessoas e situações para, depois de utilizá-los sem os limites do concreto, deixá-los guardados na nossa estante imaginária e tirá-los de lá, um dia, quando a vontade viesse. A brincadeira imitava a vida e esta, um dia certamente, nos faz imitar a brincadeira.

Por esse processo todos nós passamos. Dele tiramos muito daquilo que hoje somos. O brincar é absolutamente inerente, necessário e essencial ao desenvolvimento humano.

A criança cega não é diferente, ela gosta e tem necessidade de brincar, principalmente brincadeiras que trazem em si a necessidade da interação ambiental e interpessoal.

Contudo, em algumas situações, geralmente trazidas pelos cerceamentos da superproteção e de outras reações familiares ao nascimento de uma criança com deficiência, ela necessita ser levada ao gosto e ao prazer do lúdico. Precisa ter oportunidade de descobrir a brincadeira e o prazer e a alegria que eles trazem, sendo essa uma das primeiras descobertas de muitas que a vida lhe oportunizará.

Outra questão a ser considerada é o fato trazido pelo estigma que a sociedade tem em relação às pessoas com de deficiência de uma maneira geral. Deficiência e prazer definitivamente não combinam na restrita visão preconceituosa e generalista de uma sociedade mal informada sobre a realidade das diferenças humanas. A brincadeira é ludicidade, é prazer e é alegria e isso aqueles jovens acadêmicos não esperavam encontrar numa instituição educacional para pessoas cegas e com baixa visão.

Além de poder ser a natação também uma brincadeira, além do prazer que ela geralmente traz, as atividades no meio líquido desempenham uma função de grande potencialidade com relação ao desenvolvimento da criança cega. Elas atuam, também, como elementos de construção de conceitos corporais e da “inteligência cinestésica”. Através do tato qualquer movimento de seu corpo é percebido, e a internalização da imagem corporal e da potencialidade biomecânica se fazem na medida em que existe uma reação a toda ação motora. Isso pode, em parte, substituir a função do espelho e do modelo visualmente percebido e utilizado pela criança de visão normal como embasamento de seu desenvolvimento motor.

Nas aulas de educação física para crianças cegas e de baixa visão o importante é o movimento e não a sua excelência. Padrões externos inseridos precocemente podem ser transformados em barreiras julgadas inatingíveis e, por via de consequência, em fatores inibidores, limitadores e excludentes.

Aquela aula observada pelos estagiários adotou como estratégia a predominância absoluta das atividades de animação sobre as de instrução; da aquisição, transferência e utilização de conceitos sobre a técnica; dos estímulos, problemas e reforços apresentados de forma individualizada sobre aqueles dirigidos a todo o grupo; da utilização das pistas ambientais e dos pontos de referência sobre uma voz de comando constante; do movimento livremente expresso sobre aquele construído a partir de um comando externo; da individualidade sobre o todo; dos aspectos utilitários, recreativos e formativos da natação sobre a performance; do desenvolvimento da autoconfiança, da auto-iniciativa, da capacidade de tomar decisões e do prazer de poder fazer sobre a dependência absoluta do aluno ao professor; e, acima de tudo, o privilégio da participação plena, da ludicidade, do prazer e da alegria sobre os conteúdos e objetivos formais fechados e generalistas.

Certamente não buscávamos atletas (isso viria depois, se for o caso). Ali, as vitórias que esperávamos de nossos alunos não eram as conseguidas em competições esportivas, mas sim aquelas a serem alcançadas no dia a dia, ao superarem as barreiras que lhes são impostas no caminhar de sua efetiva e igualitária participação na sociedade, sendo, a meu ver, a potencialização, o dar condições para o embate social, a principal função da Escola – especializada ou não.

Contudo a “aula de alegria” não era aquela. Aos meus alunos eu não tinha necessidade de ensiná-la, eles a haviam descoberto fazia já um bom tempo. Os sujeitos da “aula de alegria”, aqueles a quem o tema foi de fato dirigido, eram exatamente os dois jovens acadêmicos. Eles é que tinham a necessidade de uma “aula de alegria”, dada, não por mim, mas sim por crianças cegas e de baixa visão de sete, oito e nove anos de idade.

 

 

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