Educação Física no Maranhão

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Tarracá – Elástico Aplicado Pelo Mestre Marco Aurélio



TARRACÁ – Elástico aplicado pelo Mestre Marco Aurélio

 http://colunas.imirante.com/platb/leopoldovaz/2011/03/22/tarraca-elastico-aplicado-pelo-mestre-marco-aurelio/

  Recebi a seguinte correspondencia de Mestre Marco Aurélio. Lembrando que estamos na busca da origem do “TARRACÁ”, estilo de luta livre (hoje seria MMA) adotado pelo lutador maranhense Zuluzinho, que aprendera com seu pai, o Rei Zulú; criado em Pontal, no interior do Maranhão, lá, aprendeu a Tarracá, luta cabocla praticada e ensinada por índios e negros da região. Como seus 17 irmãos, nunca freqüentou a escola. Cresceu forte e brincalhão. Aos 14 anos, mudou-se com a família para a Vila Ilusão, na Ilha de São Luís.  

Essa discussão primeira está nesse Blog, http://colunas.imirante.com/platb/leopoldovaz/2011/03/22/em-busca-do-elo-perdido-historiamemoria-da-educacao-fisica-nodo-maranhao/ 

Mestre Baé informa: Com relação ao tema ATARRACAR: Posso lhe adiantar o seguinte ; desde criança tenho ouvido falar,assim como quase todos que também como eu são da baixada maranhense, grande parte da minha família é de Viana , Penalva e Municípios vizinhos. Minha família sempre foi voltada para criação de gado e pescaria no interior, quando éramos crianças sempre a gente se atarracava um com o outro na beira do curral ou do rio e até no campo para ver quem era melhor de queda e isso porque a gente via os mais velhos fazerem também ,meus avós e tio/avós falavam que isso sempre existiu, o nome ATARRACAR e conhecido em vários interiores do Maranhão mas nunca ouvir dizer que era uma LUTA ou eu tenho lido algo afirmando ser luta, sempre foi o nome dado a forma de nos pegarmos para dar uma queda no outro em um corpo a corpo mais nunca foi denominado como luta até porque era baseada mais na força física e jeito de cada um pegar e arremeçar o outro no chão através de uma queda. 

 Caros professores Leopoldo e Mayrhon,
É um prazer ser chamado ao diálogo, para tratar de nossa cultura popular, porém, antes, permita-me uma retificação professor Leopoldo, não é Judô-Matru-á, mas sim, Centro de Capoeiragem Matroá, nome este, uma homenagem ao líder indígena Matroá, que juntamente com Raimundo Gomes, Negro Cosme, Manoel Balaio e tantos outros deflagraram uma das maiores inssurreições populares já ocorrida em nosso país, a Balaiada.  

Um nome indígena para um terreiro de Capoeira deve-se ao fato de considerarmos que, embora para nós, a Capoeiragem possua matriz africana foi no Brasil que esta arte guerreira surgiu, com toda a idiossincrasia que lhe é peculiar, de tal sorte que em razão disso, não poderia deixar estar latente em sua origem, também, o elemento indígena e, até mesmo o branco, este último entenda-se não só europeu, mas semitas (árabes e judeus), tendo em vista a influência árabe na península ibérica. 
 

Quanto ao Atarracado, desconheço sua presença no centro-sul do Maranhão, apesar de poder haver, mas é uma prática muito comum no centro-norte, pelo menos na região do Pindaré e na Baixada, nesta última, pelo que já ouvi de alguns capoeiras originários daquela regíão das águas falarem-me a respeito.  

No que diz respeito à sua presença na região do Pindaré é fato, pois eu mesmo a praticava bastante, tendo sido ao longo do tempo, na qualidade de menino, e aí vai até meus doze (12) anos, a base de tudo o que sabia nas minhas ”brigas de rua”. 

Apesar de ter nascido em São Luís, me criei, desde bebê, até os sete (07) anos de idade, na cidade de Pindaré-Mirim, outrora, Engenho Central, e em sua origem, Vila São Pedro. Como toda criança ribeirinha, as brincadeiras eram em torno do rio, dos lagos e igarapés, ou então nas várzeas, e aí, não faltavam os embates.  

Lembro-me que a minha afinidade com a prática era bastante estreita, talvez, por desde pequenino ter sido corpulento, de maneira que não era muito afeito à briga “corpo fora”, como se dizia, mas, mais no “atarracado“, ou “corpo dentro”, o que dava-se a partir de uma cabeçada. A ponto de quando ousava me aventurar pelo “corpo fora”, na maioria das vezes saía perdendo…  

Foi na Capoeira, que fui aprender o embate, digamos, “corpo fora”, a partir da ginga, de peneirar… – por favor, deixo claro que “corpo fora” e “corpo dentro”, não é nem um tipo de modaliade de luta, mas somente para fins, talvez, de didática, consoante dizíamos no interior.
 

Quanto à origem do Atarracado, não sei afirmar, se indígena ou africano, quiçá, até mesmo européia, nesta senda, somente pesquisando-se para buscar referências.  

Posso afirmar, no entanto, o que não quer dizer que a priori seja africana, é que tive oportunidade de ver, em um evento internacional de lutas de origem africana, em Salvador/BA, em 2005, quando levamos daqui, a “Punga dos Homens“, uma prática que existe rasteiras e desequlibrantes, no tambor de crioula, um pessoal de Angola/África, apresentar a Bassúla, uma luta, a despeito de alguns golpes diferentes, muito semelhante ao Atarracado, pois imediatamente, quando vi os angolanos praticando-a, eu achei bastante parecida com o Atarracado, impressão esta, também denunciada pelo Mestre Alberto Eusamor, que lá estava comigo, assim como tantos outros, representando o Maranhão.
 

No que diz respeito a uma influência indígena direta, e que é uma brincadeira da região do Pindaré e, acho, da região Norte como um todo, é o “Cangapé”, uma espécie de rabo de arraia e outros molejos que se pratica lançando-se para cima do contrário, na água.

Bem, a princípio é isso aí, espero ter colaborado com vocês, me colocando ao dispor para outros contatos.
Um grande abraço!
Marco Aurelio

A  seguir a esta mensagem eletronica, Mestre Marco Aurélio acrescenta outra: 

Caros professores,
Falei de como o atarracado tem semelhança com a Bassúla, luta de um país africano (Angola) e, no entanto, não me lembrei, na oportunidade, de falar de uma luta de origem indígena, o que se faz necessário, para ponderarmos, trata-se do Uka-Uka, um embate indígena, que consiste em fazer com que o contrário ponha um dos ombros no chão, hoje, ocorrente durante o “Quarup” um grande evento-cerimonial existente entre os povos do Alto-Xingú.  

Mas poderiam perguntar o que uma prática existente entre povos indígenas do Alto-Xingú tem a ver com uma prática ocorrente no Maranhão? Segundo Roberto da Mata, desculpem-me não dispor da referência bibliográfica, os povos Krahô e Xavante sairam em uma corrente migratória, a partir do Maranhão, para onde se encontram hoje, respectivamente, Tocantins e Alto-Xingú.  

Daí, há de notar-se que o Maranhão em razão de ser banhado por inúmeras e grandes bacias hidrográficas era e é um celeiro de alimentos, o que deve ter sido berço de inúmeros povos indígenas, entre atuais, extintos e migrantes. Talvez, esse berçário, para os que possuem uma visão míope, e consideram que o maranhense tenha uma cultura ”preguiçosa” é por desconhecerem exatamente esse manancial de alimentos que é e, que outrora, tenha sido ainda mais.  

Exemplo disso, se vê na obra que o professor Leopoldo te falou, Mayrhon, “A Guerra dos Bentivis”, de Mathias Röhring Assunção, quando ao entrevistar uma senhora, a fala da mesma é peremptória quanto à abundância de alimentos no lugar aonde ela morava, na sua resposta ao autor, ao afirmar que o povo do lugar não ía atrás da caça, pois ela vinha até eles, vez que muitas das vezes eram capazes de vê-la se aproximar bem perto do alpendre de sua casa. 
Até mais.
Marco Aurelio.
 

Em resposta:
Meu caro Mestre

Obrigado pelos esclarecimentos. Saiu Judô, não sei porque, mas procurei corrigir depois, e essas máquinas, às vezes, têm vontade própria. Desculpe a falha. Mas valeu pela lição de maranhensidade…
 

Sempre é agradável ouvi-lo (lê-lo, no caso…) pois coisas de nosso Maranhão, primeiro recorro a você. Tenho a certeza de que o Mayrhon fará um excelente trabalho de resgate, tendo vocês, estudiosos da Capoeira maranhense, como interlocutores. Nos movimentos agonísticos, as fontes são essas, mesmo; as quais me valho, sempre quando preciso. Obrigado pela aula… por isso os chamo, sempre de meus Mestres. Tenho a certeza de que quando comentar essa questão com Patinho, teremos mais algumas revelações. 

Eu costumo colocar essas questões – mesmo quando vêem em forma de correspondencia pessoal, caso do correio eletronico, a público, para partilhar e ouvir. O Baé já havia me dado uma versão, uma resposta, que coincide com a tua, só que a tua está mais detalha, com aspectos geográficos, de localização regional.  

Vou juntando tudo, e em forma de ‘entrevista’, como se houve um resgate de memória oral, metologogia que sugeri ao nosso academico, e que a seguir estarei mandando algum outro material, para aprofundar as buscas, de metodologia de resgate histórico…
 

Mas meu caro Mestre, vamos prosseguir essa busca, e alimentar o interesse do Mayrhon

Mais uma vez, em nome do resgate de nossas tradições, obrigado.

Leopoldo

Continuando, Marco Aurélio, tem toda a razão. Xavante é originário do Maranhão. Foi forçado a migrar, indo para os lados do Tocantins, subiu o Araguaia, indo se estabelecer na Ilha do Bananal, forçado pelas ‘guerras justas’ do período colonial. As frentes de penetração, mais modernas, têm forçado essas migrações. É um fato histórico. 

Mas vamos à informação sobre o uka uka – ou kuka huka. Andando por esses interiores, fui encontrar em Carutapera o estilo ‘onça pintada’, introduzido na região por um mestre paraence – Mestre Zeca – baseado em luta de antiga tradição marajoara – o agarre marajoara -; lembrando que muitas das nações indígenas que se estabeleceram na Ilha do Marajó foram ‘desterradas’ do Maranhão durante o período colonial; inclusive, há certa semelhança entre as cacarias encontradas em Cajari (nas estearias do lago) com motivos marajoaras… 

Está em artigo publicado no Jornal do Capoeira – 05/06/2005 – disponível em
- http://www.capoeira.jex.com.br/noticias/capoeira+maranhao+agarre+marajoara 

Já retornei de Caratupera, região do Alto Turi, fronteira com o Pará … conversei com alguns capoeiras da área – Caratupera e Maracassumé – que estão ligados ao Pará, através do Mestre Zeca … não consegui informações, ainda,  sobre a “capoeira carioca”, pois, muito jovens não conhecem a história da região. Turiaçu fica bem próximo de Carutapera, na mesma região do Turi … O grupo de Carutapera denomina-se ACANP – Associação Capoeira Arte Nossa Popular – fundada por Mestre Zeca, de Belém do Pará – Jose Maria de Matos Moraes (33 anos). A ACANP é filiado aa Federação Paraense de Capoeira – e o estilo praticado é o “Angola com Regional”, estando desenvolvendo, em Maracassumé, e introduzindo em Caratupera, o estilo desenvolvido pelo Mestre Zeca, que denominam de “Onça Pintada” – que seria uma fusão da Regional com o Agarre Marajoara. De acordo com Álvaro Adolpho, de Belém do Pará, ex-diretor do Departamento de Educação Física do Pará, o “Agarre Marajoara” é uma luta desenvolvida pelos índios da Ilha do Marajó – que guarda uma certa semelhança com o Huka-huka - havendo registro de sua pratica ha mais de 300 anos. De acordo com o Prof. Álvaro, talvez seja a primeira luta-esporte com registro de sua pratica no Brasil.   Além da correspondencia do Marco Aurélio, recebo outra, do Javier, desde as Astúrias/Espanha, indicando um sítio, da Biblioteca da Federação Internacional de Capoeira – FICA, da qual é Presidente -, em que aparece uma luta semelhante à que o Rei Zulu e Zuluzinho praticam – o tal estilo Tarracá -   Dar uma olhadinha ao vídeo do link anexo: E “Batuque duro” do Kalahari -1930.
http://salavideofica.blogspot.com/2010/11/1930-c-ernest-cadlewild-men-of-kalahari.html   Mas vamos nos aprofundando: wikipédia:   Wrestling (lit. luta) é uma arte marcial que utiliza técnicas de agarramento como a luta em clinch, arremessos e derrubadas, chaves, pinos e outros golpes do grappling. Uma luta de wrestling é uma competição física entre dois (às vezes mais) competidores ou parceiros de sparring, que tentam ganhar e manter uma posição superior. Há uma grande variedade de estilos, com diferentes regras tanto nos estilos tradicionais históricos, quanto nos estilos modernos. Técnicas de wrestling foram incorporadas por outras artes marciais, bem como por sistemas militares de combate corpo-a-corpo. Como esporte, com exceção do atletismo, o wrestling é o esporte mais antigo de que se tem conhecimento, e que se pratica ininterruptamente ao longo dos séculos de maneira competitiva.  

O catch wrestling é um estilo tradicional de wrestling que tem várias origens, os mais famosos são os estilos tradicionais da Europa como “collar-and-elbow“, wrestling de Lancashire ou “catch-as-catch-can”, submission wrestling, entre outros, além dos estilos asiáticos pehlwani e jujutsu.  

Federação Universal de Wrestling (Universal Wrestling Federation) – O movimento da UWF foi liderado pelos lutadores de catch wrestling’ e originou o “boom” da MMA (artes marciais mistas) no Japão. O catch wrestling forma a base dos estilos de wrestling japonês como o shoot wrestling (que incorpora movimentos realistas, como pegadas de submissão, chutes de kickboxing, entre outros).  

Galhofa é um estilo de wrestling tradicional transmontano, que se define como um desporto de combate. É tida como a única luta corpo a corpo com origens portuguesas. Tradicionalmente, este tipo de luta era parte de um ritual que marcava a passagem dos rapazes a adultos, tinha lugar durante as festas dos rapazes e as lutas tinham lugar à noite num curral coberto com palha. 

Wrestling tradicional (em inglês: folk wrestling; lit. luta tradicional) é denominação geral de várias disciplinas de wrestling ligadas à um povo ou à uma cultura, que podem ou não ser codificados como um esporte moderno. A maioria das culturas humanas desenvolveram seu próprio tipo de estilo de grappling, único se comparado à outros estilos praticados. Enquanto diversos estilos na cultura ocidental podem ter suas raízes na Grécia Antiga, outros estilos, particularmente os da Ásia, foram desenvolvidos de forma independente. 

Grappling é o nome que se dá a uma técnica de imobilização, ou uma manobra evasiva , a qual se dá por meio do domínio do oponente. Forma de combate muito utilizada em táticas policiais e esportes de contato, como o wrestling 

Huka-huka é um estilo de wrestling tradicional brasileiro dos povos indígenas do Xingu e dos índios Bakairi, de Mato Grosso. O huka-huka faz parte do Jogos dos Povos Indígenas como parte da modalidade luta corporal que é praticada como modalidade de demonstração.

Vamos aguardar novas notícias sobre o TARRACÁ, ATARRACAR, ATARRACADO…

ter, 22/03/11 por leopoldovaz | categoria Atlas do Esporte no Maranhão, Raízes, VISITANDO O MARANHÃO

Comentários

Por Leopoldo Gil Dulcio Vaz
em 22-03-2011, às 18h00.

Quem é o Mayrhon

Mayrhon José Abrantes Farias

Professor de Educação Física
Brasil. São Luís-MA.

Por Mayrhon José Abrantes Farias
em 23-03-2011, às 11h42.

Professor, estou maravilhado com o vasto campo a ser desbravado. Clarificou bastante as idéias e configurou bons direcionamentos para o andamento da pesquisa. Mesmo embrionária já está tomando forma. Já tinha ouvido falar da Bassula, da punga dos homens, do huka-huka, inclusive já apresentei trabalhos sobre esta luta indígena do alto do xingú. O Maranhão dispõe de preciosidades que precisam ser levadas para o seio acadêmico. Agradeço ao Mestre Marco Aúrélio pelas colaborações, em breve espero conhecê-lo pessoalmente. Ainda estou meio perdido em meio a tantas informações, levando em consideração que desconhecia muitas. Ainda não tenho conhecimento de bibliografias que tratem do assunto. Quando garimpar novidades trarei para a discussão. Abraços!!!

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