Pedagogia do Esporte

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Teoria Educacional, Teoria Pedagogica e Projeto Histórico



Nos perguntamos: é possivel tratar de pedagogia do esporte sem considerar a teoria educacional, a teoria do conhecimento e o projeto histórico subjacente? Defendemos a partir do projeto histórico para além do capital, a pedagogia socialista com base na teoria marxista. Implementamos semestralmente uma disciplina no curriculo do programa de pós-graduação em educação a respeito desta temática e estamos abertos a contribuições.

Comentários

Por João Batista Freire
em 08-09-2009, às 10h04.

Oi Celli. Que bom bom ver você por aqui.

Sabe Celi, eu acho possível sim, tratar da pedagogia do esporte sem considerar, pelo menos explicitamente, a teoria do conhecimento e o projeto histórico subjacente. Sim, porque, milhares e milhares e milhares de professores e professoras por aí, terão que fazer seus trabalhos todos os dias, oito horas ou mais por dia, e não poderão ter todas essas considerações. Eu, de minha parte, se tivesse que parar para pensar tudo isso antes de fazer qualquer trabalho, estaria parado até hoje. Sou um pedagogo, meu ofício é ensinar, tenho um problema a cada instante para resolver e não posso parar. Tudo isso de que você fala, está dentro de mim, em cada fala, em cada escrito, para o bem ou para o mal.

Um grande abraço.

Por Jênisson Alves de Andrade
em 08-10-2009, às 01h19.

Concordo com Celi, ou é consciente e direciona explicitamente, ou explicita-se algo que não se sabe o que é, isso é da divisão do trabalho...

Por Flávio Dantas Albuquerque Melo
em 08-10-2009, às 10h18.

Também concordo com a Celi e com o Jênisson,pois sou professor da rede pública de ensino sinto na pele a quantidade de atividades que temos que dar conta (trabalho em sala de aula e tenho por semana em torno de 45 horas-aulas a serem ministradas, fora os planejamentos), mas é imprescindível que o meu trabalho pedagógico e de milhares professores tenha explícito qual teoria de conhecimento e qual projeto histórico estamos aderentes, sem esta clareza lógico-metodológica o nosso trabalho pedagógico fica sem sentido heurístico, ou seja, sem direção epistemológica e ontológica que resulta em uma prática pedagógica esvaziada de significado político e pedagógico. Sintetizando torna-se-á uma ’sopa teórico-metodológica’ sem conectividade com a realidade objetiva (alienada e alienante) na qual estamos inseridos.

Por João Batista Freire
em 09-10-2009, às 10h17.

Digam isso aos professores da rede. Vocês acham mesmo que professores que dão oito, doze aulas por dia ganhando uma droga de salário, antes de cada aula (porque planejamento para tudo isso é impossível) se coloquem explicitamente suas teorias de conhecimento, seus projetos históricos aderentes, suas clarezas lógico-metodológicas para que tudo isso tenha sentido heurístico? Eu quero mesmo é ver a coerência entre tantas idéias maravilhosas e a prática do dia a dia.

Por Flávio Dantas Albuquerque Melo
em 09-10-2009, às 16h05.

Ao Sr. Freire, eis alguns dados concretos, a saber:

Dados da ONU, OIT e UNICEF

Por isso da necessidade de uma teoria pedagógica aderente a uma teoria educacional iluminada por uma teoria do conhecimento (e a pedagogia socialista nos fornece categorias para analisarmos estas contradições), com efeito, o senido heurítico deve está presente na prática pedagógica.

Tais contradições acima aludidas devem ser pedagogizadas para possiblitar na formação de professores a elevação de níveis de consciência aspirando a tomada de uma consciência de classe (dos trabalhadores). Temos, então duas opções, compreendermos estes dados visando uma mudança individual e coletiva nas nossas práticas sociais objetivando tranformações, ou ficarmos passivos ao processo desumano que nos encontramos. Atenciosamente, Professor Flávio Dantas.

Por Flávio Dantas Albuquerque Melo
em 09-10-2009, às 16h07.

Desculpe, os dados:

Dados da ONU, OIT e UNICEF

Por Flávio Dantas Albuquerque Melo
em 09-10-2009, às 16h09.

De novo:

a fome mata uma criança a cada cinco segundos do mundo. No Brasil mais de 10% da população total passa fome e não tem perspectiva nenhuma de modificar tal situação, estima-se que no mundo cerca de 815 milhões sejam vítimas graves de subnutrição e na América Latina a fome atinja no mínimo cerca de 55 milhões de seres humanos. Hoje 3 bilhões de seres humanos  vivem com menos de U$ 2,00 por dia, temos mais de um bilhão de pessoas desempregadas (os jovens ainda são os mais afetados pelo desemprego e correspondem a 44% das pessoas sem trabalho); 100 milhões de crianças sem escola; 3,6 milhões de mortos em guerras na última década; no Brasil, encontramos 27 milhões de crianças vivendo abaixo da linha da pobreza; o 1% mais rico do mundo recebe tanto de rendimento quanto os 57% mais pobres; o intervalo de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres no mundo aumentou dos 30 para 1 em 1960, para 60 para 1 em 1990 e para 74 para 1 em 1999, e estima-se que atinja os 100 para 1 em 2015.

Por Flávio Dantas Albuquerque Melo
em 09-10-2009, às 16h10.

Mais dados:

O não investimento em políticas de formação de professores, os vetos no que refere ao financiamento da educação no PNE (ampliação gradual do investimento na educação com base no PIB, saindo de 3,3% e atingindo 10% no ano de 2010), comprometem a formação de professores A UNESCO, no dia 05 de outubro de 2006, tornou público um dado alarmante: são necessários no mínimo 18 milhões de professores até o ano de 2015 para que todas as crianças do mundo (estamos falando unicamente de educação primária, sem contar a necessidade de professores até a formação superior), tenham acesso à educação básica.

 

Dados da ONU, OIT e UNICEF

Por Jênisson Alves de Andrade
em 09-10-2009, às 17h54.

"...doze aulas por dia ganhando uma droga de salário" acredito que esta fala é que demonstra a importância do que estamos defendendo, negar a compreensão sobre teorida do conhecimento teoria educacional é exatamente cortar o ser humano em dois: um que pensa e outro que trabalha, ou seja o professor da sala de aula é somente o prático, o que pensa é aquele que está na universidade e que é pesquisador... e essa divisão (na escola) é reflexo da formação que não dá outra possibilidade, mais uma vez concordo com Celi e o Flávio, e ainda digo que ’fazer por fazer’ é algo que somente é aceitável na lógica de mercado na qual estamos inseridos, pois quem ’não entrar na onda se afoga’.

Por Ivan Candido de Souza
em 09-10-2009, às 22h19.

Olá amigos. João, Celi, Jênisson e Flavio. Penso que o professor João não pensa em um professor acrítico, a formação docente tem início na licenciatura e não termina, Paulo Freire nos ensinou que o professor é um constante pesquisador, um curioso por natureza. Concordo com o João quando ele diz que o professor não se mobiliza para construir projetos aprofundados, pois não lhe resta tempo e suas condições de trabalho não propiciam tais mergulhos epistemológicos. Mas, vale lembrar que a visão de mundo deve ser configurada durante a formação do docente, a explicitação desses valores é de fundamental importância para o desenvolvimento das aulas, no entanto, cobra-se do professor que ele descreva todas as características de sua visão de mundo á todo instante, como se ele não fosse um ser dotado de cultura.

Não é assim. Como professor da rede estadual de SP compartilho da opinião do professor João: dando 12 horas aula por dia e ganhando uma "droga" de salário não é possível teorizar como o necessário. Porém, a não teorização não é falha do professor que dedicou seu tempo a construção de uma visão de mundo em outro momento de sua história.

Abraços.

Por Jênisson Alves de Andrade
em 10-10-2009, às 00h46.

É exatamente por causa desses professores que trabalham a troco de nada que devemos (todos) pensar diferente, uma visão de mundo que está distante do próprio mundo, que compreende esta opressão do professor como natural e que por isso o professor não pode ’teorizar’. Pesno que justamente por causa da carga de trabalho e da droga de salário é que devemos desvelar a realidade e não considerá-la natural e por isso dispensar certas coisas como por exemplo descolar teoria da prática e ficarmos apenas com a prática porque ela nos dará sustento (qual sustento? pois com esse tipo de carga de trabalho poderemos então, pelo menos, pagar médicos particulares, dai então o que mais nos sobra?). Não culpemos as pessoas individualmente por algo que é universal, a produção sempre será no capitalismo mais importante do que o ser humano, cabe-nos buscar outros caminhos, mas estes outros caminhos partem do mesmo lugar, não existe outra sociedade para se fazer, é preciso mudar esta.

Por João Batista Freire
em 11-10-2009, às 11h38.

Quero dizer para vocês que criamos esta comunidade para produzir alguma coisa que se realize em práticas. As transformações que faremos no mundo em que vivemos será feita, na Educação Física, jogando bola, pulando corda, brincando de Amarelinha. Se a gente não conseguir incorporar as belas idéias nessas práticas, esqueçam, nada acontecerá. Restará o discurso vazio, escapista, da palavra pela palavra. Tudo que pensamos vira terapia, tecnologia, pedagogia, ou jogo (jogo de idéias, de palavras). Vou continuar postando exemplos de práticas comentadas. E não participarei mais do debate pelo debate. Os dados que vocês colocam são mais que conhecidos, todo mundo sabe disso. Quero compor práticas para que os professores tenham sobre o que pensar e material para usar como exemplos.

Por Luciano de Lacerda Gurski
em 11-11-2009, às 17h31.

Olá colegas,

Acredito que o que o professor João Batista Freire polemiza é a real necessidade de pensarmos como que essa preocupação da formação crítica se realiza no fazer pedagógico cotidiano. Há muitos professores que se perguntados afirmaram que realizam práticas críticas, contextualizadas, mas que se perguntarmos aos alunos, comunidade, não perceberam isso, ou seja, a historicidade, a epistemologia do conhecimento tratado, está somente na cabeça do professor, quando está...

Como então dentro da escola e das condições que temos, pois é nela que atuamos, podemos pensar a Educação Física de forma a garantir a historicidade, contextualização, reflexão e recriação do conhecimento?

Concordo com o professor João Batista quando diz que o professor em sua extensa jornada não tem condições de pesquisar e estudar a fundo cada tema abordado. Contudo não podemos esquecer que este professor passou por uma formação inicial, algumas vezes uma pós-graduação, cursos de formação continuada (espera-se) e ainda tem, mesmo que menos do que se acredita ideal, horário para planejamento, que se não garantem todo o conhecimento e pesquisa necessário, oferecem condições de se qualificar minimante a intervenção. Não basta saber fazer, e isso muitas vezes não sabemos, só pensar no caso das lutas por exemplo, mas o porque fazer... Fazer sem saber porque as vezes pode ser pior do que não fazer...

Respondendo a pergunta do fórum: possível é, e na maioria das vezes é o que acontece no dia a dia escolar. A questão é, a quem serve esse fazer? E outra mais difícil, como e o que fazer para que o professor consiga transpor essa teoria em suas aulas, mesmo sem pesquisar antes de cada uma?Já defendo que não gosto do termo teoria, pois para mim uma teoria sempre que compreendida se torna prática, portanto, se não á transposição, possivelmente se deve ao fato de ainda não ter sido compreendida...

abraços!

Por Roberto Affonso Pimentel
em 11-11-2009, às 18h50.

Luciano,          

“Nosso desastre educacional mostra que o Brasil aprendeu a gastar, mas não aprendeu a ensinar; continua confundindo o ponto de partida com o ponto de chegada”. (J. R. Guzzo, Ponto de partida, revista Veja, 30.9.2009)

 

Após ter deixado meu comentário na sua proposta sobre a Educação Física no Paraná, deparei-me com os seus dizeres nesta comunidade. Na parte final pareceu-me um tanto prolixo no que se refere à proposta do João – “coisas pertinentes à prática” – o que considero muito sábio da parte dele nesta discussão estéril, que não conduz à nada. Como tenho propostas concretas neste sentido – meu conhecimento advém inicialmente da prática – entendo que possa ajudá-lo na tarefa que, no seu dizer, é “mais difícil, como e o que fazer para que o professor consiga transpor essa teoria em suas aulas...?” Como consignei em outra comunidade criada por você, estarei aguardando sua manifestação.

Roberto Pimentel.

Por João Batista Freire
em 13-11-2009, às 09h02.

Minha gente:

Educar não pode ser uma coisa complicada, senão a gente não educa. Outra coisa é que os alunos não podem ser depositórios de ideologias de professores, muitas vezes frustrados por verem suas aspirações não realizadas. Ser conservador é querer que nossos alunos pensem como nós. Cada aluno é um fato novo no mundo, uma nova história que atualiza as anteriores e cria um novo capítulo. Para mim, um grande professor é aquele que aceita que seu aluno poderá ser completamente diferente dele. Mas, para botar fogo nessa fogueira, tenho uma sugestão, que vai abaixo:

Exemplo de uma aula:

Ano escolar - quarto ano do Ensino Fundamental

Conteúdo - brincadeira do pega-pega (qualquer variação)

Tarefa do professor: conseguir, servindo-se desse conteúdo, colocar em prática suas ideias (formar o cidadão, tornar o aluno mais inteligente, produzir as bases de uma sociedade socialista, formar as bases do futuro atleta, etc.). Ou seja, com uma brincadeira de pega-pega, realizar uma aspiração, pois, o que temos à mão, na aula, é bola, corda, bastão, brincadeiras, esporte, etc. Essa é a nossa realidade quando vamos para a aula. E não vale fazer a prática e depois sentar com os alunos e fazer um belo discurso doutrinador, separado dessa prática. Se pretendo que meu aluno se torne crítico, devo ser capaz de fazê-lo enquanto meu aluno pratica a brincadeira de pega-pega.

Por João Batista Freire
em 19-11-2009, às 09h56.

Está bem, já que ninguém arrisca, arrisco-me.

Objetivo: simplesmente desenvolver as coordenações espaciais, porém, levando-as ao plano da consciência, de forma que elas se transformem em matéria prima generalizável a outros planos do conhecimento humano. Resumindo, quero, brincando de pega-pega, levar da prática à compreensão, formando noções espaciais.

Primeira parte: as crianças sentam em roda com o professor e conversam com ele sobre a brincadeira. O professor faz perguntas do tipo: quem já brincou de pega-pega? Como é o pega-pega que você conhece? Esse é o único jeito de brincar de pega-pega? Em seguida sugere que as crianças brinquem do jeito delas.

Segunda parte: depois que as crianças brincam (brincaram na versão pega-ajuda), o professor senta com elas e sugere uma variação: um pega-pega corrente num espaço bem pequeno. Rapidamente todos são pegos.

Terceira parte: o professor faz uma outra variação: agora o pega-pega corrente é brincado num espaço muito maior, pelo menos o dobro do anterior. Os primeiros pegadores têm muita dificuldade para pegar. uns 10 minutos depois, o professor para a brincadeira e sugere que os pegadores se reúnam e achem um jeito de brincar melhor. Os alunos confabulam, fazem um plano e voltam para a prática. Mais dificuldades, nova parada, mais planos e, finalmente, todos são pegos.

Quarta parte: todos em roda sentados com o professor. Perguntas do professor: que parte da brincadeira foi mais difícil? Qual foi o plano que vocês fizeram? Depois do plano ficou mais fácil ou mais difícil de pegar? Etc.

Simples, não? O conflito criado pelo professor referiu-se à questão espacial, uma vez que ele duplicou o espaço de jogo, criando a necessidade de uma nova organização espacial para o grupo.

Por João Batista Freire
em 25-11-2009, às 18h13.

Parece que isso não tem muita importância. Afinal, as crianças brincaram de pega-pega corrente, mudaram de um espaço pequeno para um espaço muito maior, atrapalharam-se, pararam, discutiram e acharam soluções para os problemas. E daí? O que resta disso para a vida? Nada revolucionário. No entanto, o conflito criado referiu-se à questão espacial, e as discussões, reflexões, compreensões, também à questão do espaço. No mínimo, esse espaço do jogo prático, levado ao plano da reflexão, fortalecerá o pensamento da criança. Pouca coisa, mas que se soma a outros ganhos, ao longo da vida. Os alunos poderão, com essa pedagogia, ter o pensamento fortalecido. Porém, notem que os alunos não integraram o modo de pensar do professor, mas formaram o seu modo próprio de pensar. Isso é que é difícil: o professor aguentar a ideia de que os alunos não pensarão como ele, caso contrário, não serão livres, serão dependentes do professor. E uma educação se faz para a liberdade e não para a dependência. Professores conservadores são aqueles que procuram fazer os alunos pensarem como eles, o que nada muda.

Por Luciano de Lacerda Gurski
em 06-01-2010, às 15h12.

Olá a todos,

desculpe a demora em responder, fim de ano corrido.

Contudo não fugi ao debate, que está bastante interessante.

Me preocupa que em anos de história, de estudos, pesquisas, discussões, fontes teóricas diferenciadas e debatidas afundo, buscando a maior exatidão possível nos entendimentos e nas interpretações, no final, na quadra, ou na sala de aula, todo mundo faz a mesma coisa, ou quase a mesma coisa, ou seja, do tecnicista ao psicomotor, passando pelo histórico crítico, ou crítico-emancipatório, todos brincam de mãe pega. Aí me pergunto, no fim, a discussão toda, serve mesmo para quê? Muitas vezes a única diferença está no que se escreve no diário de classe, no projeto político pedagógico ou no artigo para publicar (em revista nível A1, não no mordes).

Para um professor com uma formação pautada na psicomotricidade a atividade é realizada com o objetivo de desenvolver a coordenação espaço-temporal, lateralidade, equilíbrio, entre outras valências. Para o professor com uma formação técnica-esportiva é um jogo pré-desportivo que auxilia na compreensão da visão de jogo, do raciocíonio rápido, para o professor crítico superador é um jogo que permite perceber as diferentes classes sociais e a opressão que a minoria, que detem os meios de produção (pegar), tem sobre a minoria, que oprimida só resta fugir. A revolução se daria quando a maioria percebesse seu potencial e se virasse contra o pegador, o que na aula poucas vezes se vê...

Assim a falta de coerência teórico-prática não é "luxo" de um determinado grupo, mas acredito que está presente na prática da mairia dos professores. Não porque esses sejam desleixados ou não possuam formação, mas porque o próprio histórico de nossa disciplina, a cultura escolar que se formou a com ela, os currículos universitários, entre outros fatores, gerou uma multiplicidade de informações, mas pouca gente ainda conseguiu construir e mostrar como que se faz, com coerência.

Acho extremamente possível transpor à prática qualquer uma das concepções. Porém para isso é necessário de fato conhecer essa concepção, estudá-la, testá-la, aprofundá-la. Para isto precisa-se primeiro de fato escolher uma, de acordo com os ideiais de sociedade que busca, e não com a moda do momento...

Assim topando o desafio tentarei exemplificar na prática como se daria uma aula na concepção histórico crítica, utilizando o jogo de mãe pega.

Para isso usarei a fundamentação de Saviani e de Gasparin, principalmente esse último quando escreve uma didática para a pedagogia histórico crítica.

Embora a proposta seja para uma aula, acredito que seja melhor exemplificar em um conjunto de aulas.

Gasparin sugere que o primeiro momento da aula seria a prática social, de forma extremamente resumida, aquilo que o aluno já sabe, como ele se relaciona com o conhecimento que buscamos tratar.

Assim a aula ou conjunto de aula poderia começar com estratégias de avaliação diagnóstica, como uma conversa com os alunos buscando identificar que brincadeiras costumam fazer, buscando assim o próprio mãe pega ou atividades similares. Ao chegar no mãe pega poderíamos explorar perguntando onde aprenderam, quando e com quem brincam, quais as variações que conhecem. Poderíamos fazer isso através de conversa ou outras estratégias, pedindo que desenhassem, ou formassem grupos e cada grupo deveria escolher um brincadeira e apresentar aos demais (o que poderia levar várias aulas).

A partir da observação dessa etapa, o professor deverá destacar algum aspecto que considere importante na atividade, afim de transformá-lo em uma problematização. Por exemplo: das formas brincadas, qual era mais divertida? Porque? Qual era menos divertida, porque? Todos brincaram de forma igual? O que podemos fazer para que a atividade fique mais legal para todos?

A próxima etapa seria o acesso ao conhecimento sistematizado, aquele conhecimento que vai além do que o aluno já sabe. Seria o momento de falar um pouco sobre a brincadeira, sua origem, significados, apresentar novas formas de brincar, quem sabe relacionar a um tema que o professor tenha previsto, como resgate da cultura popular, incitando os alunos a buscarem outras brincadeiras, qui sá desenvolvidas por seus pais ou avós.

O próximo momento seria a catarse, onde os alunos tentariam superar a situação problema. Seria o momento de tentar solucionar a ou as situações problemas propostas. Experimentar e criar variações com o objetivo de que todos consigam se divertir, por exemplo. Se a problematização foi em torno do resgate de brincadeiras da cultura popular seria o momento de vivenciar as atividades descobertas. Se a problematização foi em torno da competição, seria o momento de buscar formas de brincar onde essa não fosse o elemento principal, ou que houvesse momentos de cooperação (mã- corrente, por exemplo).

O útimo momento seria a prática social final, em palavras curtas, o que o aluno aprendeu, o que leva para a vida disso. Esse momento nem sempre é perceptível na aula em si, e é bastante difícil de ser avaliado, mas seria as mudanças que o professor percebeu com o processo, como por exemplo, ver que as crianças brincam de outra forma agora, mesmo que em horário de recreio.

É crítico superadora porque estabelece um lugar na sociedade para a brincadeira, busca perceber sua origem, significados, possibilidades e limites. Busca estabelecer relações para além da atividade em si, como a relação com os colegas, com a cultura na qual está inserida, por exemplo.

Porém isso tudo só faria sentido se o professor estivesse atento a esses objetivos e aos encaminhamentos necessários para que eles acontecessem...

Por João Batista Freire
em 06-01-2010, às 17h21.

Olha Luciano, há coisas que você faz na sua aula que eu gosto, até porque muito do que você fala já é feito fora dessa concepção histórico-crítica, por exemplo, por mim e descrito em alguns de meus livros. Porém, você deve conhecer bem as crianças e saber que elas se desinteressam por coisas chatas. Se a gente passar muito tempo discutindo coisas com elas e não brincar, elas vão abandonar a proposta. Essa garotada de que eu falei só tem 9, 10 anos. Acho que o maior problema de quem persegue uma Educação Física dita revolucionária é querer mudar tudo de uma vez, é a falta de paciência. Nunca, jamais, em tempo algum, as crianças brincando de pega-pega, se não for por uma forçação de barra do professor, se rebelarão contra o pegador e, sentindo-se oprimidas, fariam uma revolução. A paciência pedagógica diz que fazemos uma coisa de cada vez. Viver conflitos de ordem espacial e ter alguma consciência disso enrique o conhecimento que a criança, mais adiante, poderá usar, com autonomia, para dar conta de sua vida. Porque a gente não educa uma criança para que ela seja como nós, nem para que ela cumpra nosso projeto de sociedade, mas para que ela aprenda a viver, para que ela, crítica, decida como encaminhará seu conhecimento. E, nunca esqueçamos: a aula de Educação Física tem que ser bonita, gostosa, atraente, nosso grande diferencial na escola.

Por Luciano de Lacerda Gurski
em 08-01-2010, às 10h26.

Olá João,

Existem muitos pontos importantes nessa discussão.

O primeiro que gostaria de chamar a atenção é que você está propondo é a discussão pensando em anos iniciais do ensino fundamental, o que no ensino de 9 anos seria entre o 1 e 5 ano.

Acredito que essa discussão anda em falta, principalmente por parte das propostas críticas, pois estamos acostumados a pensar e trabalhar com anos finais e ensino médio. Existem uma série de aspectos a serem pesados, como a especificidade dessa estapa, da idade das crianças.

Vale lembrar que na realidade brasileira até o quinto ano não há necessidade de haver um professor de educação física (segudno a lei), e mesmo não existe a idéia de disciplina, o que já nos propõe aí um bom debate. Qual o papel da educação física nessa etapa? Sei que você tem boas respostas a essas perguntas.

Entre as discussões relativas a especifidade dessa faixa etária uma que a algum tempo vem me incomodando e que gostaria de conversar com você (vocês na verdade, pois espero que mais pessoas estejam lendo, refletindo, e posteriormente participando), que é a idéia do prazer, da diversão, e do termo que muitas vezes é mal usado, lúdico.

Como você afirma, nessa idade é difícil manter a atenção das crianças, e acredito que uma educação tem que tocar o educando, ser significativo para ele, se possível cativá-lo, como já nos chama atenção Paulo Freire.

Contudo, o ato educativo é um ato de disciplinarização, ou seja, instituir normas e valores que pautam a conduta humana tendo em vista a coletividade, o convívio em sociedade. Assim em muitos momentos desejos pessoais terão de ser suprimidos, controlados (não seria a partir daí que surgiria o mal estar da sociedade, segundo Freud?).

Ou seja, minha conclusão é que a aula não pode ser o tempo todo legal, divertida, embora sempre que possível acho extremamente recomendável. Contudo, não pode ser preocupação principal do professor agradar aos alunos, sob pena de a aula se tornar recreação, e os valores educativos se perderem.

Óbvio também que não podemos ir ao outro extremo, o de negar a alegria, a diversão, a autorealização nas aulas, ainda mais quando trabalhamos com crianças. Não se trata de meio termo, mas de encontrar o equilíbrio, que são coisas diferentes.

Portanto não vejo mal que existam momentos na aula que sejam mais "chatos", desde que justificáveis de acordo com os objetivos educacionais esperados. Como um pai que sabe que em certos momentos tem de brigar com seu filho, para o bem dele mesmo (do filho), a momentos em que pode ser necessário deixar a aula mais "séria". De qualquer forma, sabemos das dificuldades do dia a dia, como por exemplo, como fazer os alunos ouvirem, sem que dispersem sua atenção? Então a resposta muitas vezes está mais no como se faz do que no que se faz. Ou seja, não é o ato de conversar que vai manter ou dispersar a atenção, mas sim como a conversa se desenvolve, o que incluiu recursos utilizados, linguagem, tom de voz, relacionamento com a turma, o momento no qual a conversa acontece, entre outros.

Voltando ao exemplo que estamos debatendo, a conversa pode se dar aos poucos, concordo contigo no que se refere a paciência pedagógica. Alguns minutos no início, outros no meio, uns em um dia, outros em outro dia...

Também não vejo sentido em forçar a "revolução" no mãe pega, mas o professor pode e deve interferir dando "dicas" ou criando situações nas quais os alunos podem perceber certos aspectos. Essas "dicas" podem acontecer alterando uma regra para reforçar determinado aspecto, um comentário provocativo durante a atividade... Por exemplo, se a preocupação é a competitividade, frases do tipo "quero ver quem pega mais rápido" ou "quero ver quem não vai ser pego nenhuma vez" sem dúvida incentivam a uma maior competitividade... Agora, as mesma estratégia pode ser usado para o contrário, diminuir a competitividade, como "quero ver quem corre da maneira mais diferente", "o pegador está sozinho, isto é certo? como podemos ajudá-lo?" ou outras.

Acredito que é possível uma Educação Física crítica, mesmo nos anos inciais, desde que se aprofunde as discussões relativas à especificidade da faixa etária e da própria organização escolar para essa etapa.

O debate está muito bom!

Obrigados a todos por ele!

abraço!

Por Jênisson Alves de Andrade
em 08-01-2010, às 12h48.

"Contudo, o ato educativo é um ato de disciplinarização, ou seja, instituir normas e valores que pautam a conduta humana tendo em vista a coletividade, o convívio em sociedade. Assim em muitos momentos desejos pessoais terão de ser suprimidos, controlados (não seria a partir daí que surgiria o mal estar da sociedade, segundo Freud?)."

Concordo Luciano, a escolarização não é fato cotidiano como podemos conferir em obras do prof Newton Duarte, trata-se da formação de outra natureza humana além da biológica, e se, em ultima análise fosse tomado o extremo de apenas o gosto ou apenas a opressão não estaria de acordo com objetivos educativos, de um lado a escola não seria necessária e de outro seria embrutecedora e moduladora do comportamento, e o jogo da mãe pega também não é tão parecido assim com a realidade, pois na realidade o trabalho depende da exploração do capital para que a pessoa possa subsistir... vamos discutindo mais.

Abraços

Por João Batista Freire
em 08-01-2010, às 19h06.

Luciano, Jênisson: em princípio, esta comunidade está aberta com um fim específico: pessoas querem ter melhores instrumentos para ensinar esporte. É uma das coisas que fiz a vida toda. Portanto, por mais que nossa discussão seja interessante, não quero desviar o foco da comunidade, até porque as questões escolares podemos discuti-las na comunidade Educação Física Escolar. Porém, vamos seguir um pouco mais, para não interromper o debate. Mas, se vocês quiserem, a gente continua o debate lá na outra comunidade.

Vejam: sem querer ser professoral e invocar os anos de experiência, chamo a atenção para um fato simples: como foi que vocês, que passaram, provavelmente, por um processo de escolarização tradicional, tiveram consciência de certas coisas, tornaram-se críticos, etc? Não deve ter sido por causa da pedagogia escolar. Coisas acontecem, até acidentais, que vão constituindo, mais que uma história de vida, um complexo chamado educação. O problema é que, como a escola pouco contribui para uma educação crítica, a gente fica dependendo de um pai ou uma mãe especiais, um professor especial, um acidente, etc. E isso não é bom. Uma educação de boa qualidade, ética, crítica, é um direito de todos.

No entanto, não podemos esperar que todo professor, dando oito aulas por dia, tenha um lastro teórico como o que está sendo discutido aqui subsidiando cada aula. Além disso, temos que pensar que nossos alunos não têm que ser depósitos de nossas ideologias. Quem disse que o modo como penso é o melhor? Quem disse que se nossos alunos fizerem aquilo que pensamos serão bons cidadãos. Quem disse que nossa conduta garante a existência de uma boa sociedade?

Sendo assim, entendo educação crítica como aquela que permitirá ao aluno, formando-se, ser livre para escolher, e ser ético para decidir. Que Educação Física é aquela que, ensinando bem seus conteúdos, garanta o cidadão que cuide da vida, que faça tudo a favor da vida, a sua e as dos outros, e nada contra a vida?

A Educação Física sempre foi achincalhada na escola, o primo pobre, aquela a quem ninguém dá atenção. No entanto, a educação praticada entre quatro paredes, opressora, alunos prisioneiros do pequeno espaço da carteira, está errada. Essa educação nunca vai educar para a liberdade, nunca vai ser crítica, nunca vai ser ética. Ela é boa para manter o que está aí, mas não para mudar isso. Nesse ponto a Educação Física aparece como a disciplina querida, aquela que não oprime espacialmente, aquela que é alegre, aquela em que a pessoa pode se expressar (se for bem ministrada). Se a gente abrir mão do que temos de melhor, então teremos todos os vícios que temos, mais os vícios da sala de aula. No dia em que tirarmos os alunos da quadra para darmos aulas teóricas, no dia em que nos fizermos teóricos chatos, enchendo as crianças de palavras, no dia em que roubarmos a elas o tempo da brincadeira, seremos como qualquer outra disciplina.

Olha pessoal, sem dizer uma palavra, com uma corda e uma bola, consigo dar uma aula para crianças, ou para adolescentes, em que eles, quem sabe, poderão ser livres, críticos, etc., daqui a um dia, ou uma semana, ou um mês, ou um ano, ou dez anos, não importa. Eu nunca saberei exatamente o efeito daquilo que ensinei, e isso minha profissão me ensinou.

E vai aí, para contribuir com o debate, uma poesia/prosa que postei no meu blog:

Revolução

Era assim a minha vida,

Pipa, esconde-esconde, pião,

A gente jogava bola,

Essa era minha revolução.

E foi desse jeito que eu virei gente. Aprendendo sem saber que aprendia, brincando, brincando e brincando, e só parando de brincar quando alguém, um adulto impedia, até para fazer o meu bem, mas eu não sabia. Eu parava de brincar e ia  cumprir as obrigações.

E me levaram para a escola,

Me ensinaram a lição,

De somar, multiplicar, escrever,

Não parecia uma revolução.

Quando menos percebi, assim de repente, virei gente grande, e caí no mundo. Tive a escola, e tive os amigos, meus irmãos e os meus pais. Depois veio o trabalho, logo cedo, e tanta gente diferente.

Nem sei como aprendi as coisas,

E aprendi a ganhar o meu pão,

O tempo foi passando,

E foi essa a minha revolução.

Por Clayton Borges
em 19-02-2010, às 21h48.

Pessoal, achei os comentários muito bacana e pertinentes a nossa profissão.

Acedito muito nisso que o João Batista escreveu, apesar de toda teoria, em nossa prática muitas vezes temos 8, 10 aulas por dia.

Mesmo assim acredito muito no planejamento, muitas vezes não o sigo, mas é porque não foi bem formulado, ou porque não observei bem as características das crianças, ou mesmo pelos inúmeros imprevistos que acontecem e é preciso improvisar.

Vou contar uma pequena história - na escola que leciono os professores tem a prática ( bastante questionável) de premiar os alunos destaques do bimestre.

Sugeri que premiassem uma aluna chamada Flavia, todos riram  pois disseram que essa aluna da 5ª série mal estava alfabetizada.

Realmente essa aluna tem algumas dificuldades de aprendizagem, e tinha até mesmo na questão motora, mesmo assim resolvi convidar essa aluna p/ participar dos treinos de atletismo.

A equipe da escola se classificou para a final estadual da olimpíadas colegial no revezamento, e adivinhe quem abriu o revezamento, ela mesmo, a Flavia.

O tiro de saída foi muito demorado, mas essa aluna tida como dispersa, teve uma concentração excelente e saiu "em cima" do tiro de saída.

Ficamos 4 dias no alojamento e pude perceber como essa menina é maravilhosa, cativante, fez amizades, enfim, observei atitudes que professores de outras disciplinas jamais terão a condição de observar. Mesmo assim os professores não se sensibilizaram c/ meu relato.

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