Manifesto Mundial da Educação Física (1970)

Por: Federação Internacional de Educação Física - FIEP.

1970

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PREÂMBULO

A FIEP, fundada em 1923, é a mais antiga organização internacional de Educação Física. Ela agrupa atualmente membros individuais e membros coletivos (Associações, Escolas e Institutos Superiores de Educação Física e de Desportos, Institutos de Pesquisas, Grupamentos Profissionais de Ensino de Educação Física etc.) de 60 países, onde é oficialmente representada por um delegado. Os membros da FIEP são especialistas de ciências anatômicas, fisiológicas, psicológicas, sociológicas e pedagógicas e educadores físicos ou responsáveis político-sociais. O Boletim da FIEP, editado em 4 línguas, aparece regularmente desde 1931 e transmite aos simpatizantes e amigos da organização, ao lado de artigos de alto nível científico e pedagógico, informações sobre as atividades da Educação Física, nos diversos países.

O objetivo constante da FIEP é o de contribuir, no plano mundial, para a ação educativa por meio das atividades físicas. É universalmente admitido que, entre tais atividades, o desporto deve ter um importante lugar. Na sua concepção ideal, que é de jogo, afirmação e prova de si mesmo através do obstáculo (tempo, espaço, elementos materiais etc.) ou do adversário (indivíduo ou grupo), comporta importantes valores educativos.

A FIEP aprova, de modo geral, o excelente estudo feito sobre o assunto pelo Conselho Internacional de Educação Física e Desportos (CIEPS) no Manifesto do Desporto (1965) .

Os educadores, certos responsáveis sociais e as próprias federações desportivas estão apreensivos relativamente à evolução do desporto. O conceito "desporto" engloba, na atualidade, atividades muito diversas: do aprazível passeio ao extraordinário incentivo das grandes escaladas invernais; do jogo "distração e prova de si" à caravana publicitária das provas ciclistas, ao espetáculo objeto de palhaçadas do "catch" feminino ou do "catch" a quatro; do "desportivo-espectador" (no estádio ou na televisão) ao rude viajante solitário em "canoe-kayak" etc. Os efeitos fisiológicos do desporto vão assim da atividade corporal insuficiente ao esgotamento absoluto, algumas vezes até a morte, passando, felizmente, por estados positivos de bem-estar. As manifestações sociais vão da amizade leal à verdadeira guerra entre indivíduos ou grupos. Nós ficamos longe constantemente dos objetivos educativos e observa-se então em certos meios uma lamentável separação, e até uma posição, entre a Educação Física (ou educação pelas atividades físicas) e o desporto.

Para um melhor desporto, para um desporto verdadeiramente integrado no sistema educativo, torna-se necessário, do ponto de vista dos educadores, ver claramente onde está "o bem" e onde está "o mal", a fim de não pô-lo a serviço, inconscientemente muitas vezes, de uma causa ingrato.

Ponhamos em evidência, portanto, alguns fatos essenciais:

  1. O desporto moderno é um fato social de grande importância, expressando-se essencialmente sob as formas de "desporto de competição seletiva" e "desporto-espetáculo". Estas são principalmente as formas que atraem a atenção e recebem ajuda e estímulo dos poderes públicos, da multidão, dos organismos de informações (imprensa, rádio, TV) e de certas empresas comerciais.
  2. Essas formas são caracterizadas:
    • Por permanente e severa competição para a determinação do campeão.
    • Por treinamento rigoroso, que por vezes necessita muitas horas diárias e se transforma em verdadeiro trabalho.
    • Por imperativos financeiros que as orientam para a procura do espetáculo, do "sensacional" e à escravização a empresas comerciais.
    • Pela preocupação primordial da "vitória sobre outrem" e a utilização para isso de todos os meios. Neste contexto, deliberadamente a falta de isenção, a deslealdade, a fraude (o "doping", por exemplo), mesmo o ódio freqüentemente aparecem.
  3. Este estado de fato tem como conseqüência, em muitíssimos países:
    • Uma subestimação, e até um desconhecimento da Educação Física de base, que deve incluir certas formas de desporto e que deverá tornar-se uma realidade na Escola se, de fato, se quiser formar solidamente o homem - e o verdadeiro desportista - de amanhã.
    • Insuficiência de verbas, de pessoal e de instalações necessárias neste setor fundamental da Educação.
    • A tendência, aparentemente lógica mas nefasta (sobretudo para a Educação Física Escolar) de substituir os professores de formação universitária (tendo assim, em princípio, uma sólida cultura e alta concepção de sua missão de educador) por treinadores desportivos especializados, mais rapidamente e mais economicamente preparados, cujo papel será principalmente de "formar campeões".
    • A indiferença pelo "desporto de massa" e pelas atividades físicas não competitivas do tempo de lazer (ginástica voluntária), formas que, do ponto de vista individual e social, constituem uma necessidade dos tempos modernos e têm alto valor educativo.
  4. O desporto recreativo e educativo ainda existe. Há jovens e adultos, em numerosos países, que fazem desporto unicamente por prazer da distração, do esforço e do progresso (mesmo no mais alto nível. . . o que é, aliás, cada vez mais raro!) É essencialmente esta concepção que é preciso salvaguardar e desenvolver.
  5. Finalmente, um problema de opção prioritária é posto aos educadores e outros responsáveis político-sociais:
    • De um lado, há o desporto profissional e o desporto de alta competição (mais ou menos profissionalizado), que apenas podem atingir uma minoria de indivíduos,particularmente dotados. Temos de aceitar este profissionalismo ou semiprofissionalismo como sendo realidade incontestável - lógica em um mundo dominado pelo espírito de competição, pela satisfação da glória nacional e pelos interesses financeiros mas, sobretudo, como um fato que pode adquirir certo valor humano e social. Pode ser profissão honesta e, como toda profissão, ter sua utilidade, suas alegrias e sua grandeza. Porém, o desporto deve tornar-se mais claro em suas intenções, mais bem estruturado e mais social em sua organização. Ele deve servir à promoção humana e social dos especialistas e não ao seu aviltamento.
    • Por outro lado, existe o desporto essencialmente animado por preocupações educativas, higiênicas e recreativas, que é necessariamente o desporto para todos, aquele que mais se integra no sistema geral da Educação Física.

Entre essas duas formas, cujos liames são cada vez mais frágeis, é preciso escolher, ou, mais exatamente, estabelecer as proporções de ajuda política, administrativa e pedagógica a conceder a cada uma delas.

A escolha dos educadores parece-nos evidente.

A primeira opção não se pode justificar, do ponto de vista social, a não ser que pudéssemos provar que o exemplo dos campeões suscita realmente uma prática mais extensa e permanente das atividades físicas formadoras e educativas.

Apesar de todas as afirmações, de todas as suposições "evidentes", até hoje, ainda falta provar tal asserção através de inquéritos sociológicos conduzidos cientificamente. Parece mesmo, cada vez mais, que o desenvolvimento do desporto de massa depende essencialmente de fatores econômicos, sociais e educativos e não do número e popularidade dos campeões.

A segunda opção justifica-se pela quase-certeza duma ação humana e social válida e uma forte probabilidade de encontrar, finalmente, campeões em massa muito mais elevada de praticantes.

Trata-se, então, de obter o inverso das prioridades: fazer de modo que, no futuro, os responsáveis sociais, as associações e governos empreendam, com vigor e perseverança, esforços nitidamente maiores em favor da saúde popular e das atividades físicas recreativas e educativas postas ao alcance de todos, em lugar de empregar o essencial de suas verbas, tempo, esforços, muitas vezes da sua generosidade, à glória e aos interesses de alguns campeões (nova assistência social, comumente mais favorecidos que sábios benfeitores da humanidade!).

Isso não é coisa fácil! Porque será preciso realizar verdadeira revolução, nos espíritos e nos fatos, contra poderes consideráveis: interesses políticos e econômicos, paixões locais e nacionais, modos e hábitos.

Eis aqui o verdadeiro fim a atingir. Ele pode e deve ser atingido.

A primeira condição de sucesso é criar - ou recriar - uma concepção sã e clara da Educação Física, para desenvolver uma outra corrente social.
Tal é o objetivo deste Manifesto.

I - Conceito geral da Educação Física

A Educação Física é o elemento da Educação que utiliza, de maneira sistemática e como meios específicos, as atividades físicas e a influência dos agentes naturais: ar, sol, água etc.

A ação "física" é considerada, hoje em dia, como um meio educativo de alto valor, porque empenha o ser na sua totalidade. O caráter de "unidade" da educação, por meio das atividades físicas, é universalmente reconhecido. Para as necessidades da análise teórica, distinguiremos, no entanto, os seguintes objetivos particulares:

  1. Corpo são e equilibrado - Para tornar o indivíduo apto a resistir às diferentes agressões do meio físico e social, há a exigência de um treinamento racional, a fim de estabelecer perfeita adaptação das funções, em busca da saúde, que, na verdade, é mais do que não estar doente. Trata-se de um fim higiênico, fim básico (procurado pela medicina e pela higiene por meios diferentes), que não deverá ser perdido de vista.
  2. Capacidade de ação - Ação relativa a três ordens de qualidades:
    • Qualidades perceptivas: acuidade das percepções internas (conhecimento do seu próprio corpo), rapidez e segurança das percepções externas (apuramento dos sentidos).
    • Qualidades motoras: flexibilidade, velocidade, força, destreza, faculdade de relaxamento e outras, que permitem a eficácia das ações e o seu máximo rendimento.
    • Qualidades de autodomínio e de julgamento: compreensão das situações e facilidade de achar rapidamente as soluções convenientes. O conjunto dessas qualidades psicomotoras - dependentes, muitos vezes, uma das outras - deve facilitar as adaptações apropriadas às ações da vida corrente e da vida profissional, assim como às atividades físicas do lazer.
  3. Valores morais - A Educação Física deve ser "moral em ação". O clima moral das sessões e o meio social ativo (na atividade de grupo), que os educadores podem criar, são aqui determinantes. No mundo atual e, sobretudo, no mundo de amanhã, no qual devemos constantemente pensar, os objetivos da Educação Física, quando se trata de educação de criança, têm importância social considerável. Devemos evidentemente levar em consideração o fato social peculiar a cada país: a concepção e os meios de educação são sempre dependentes do quadro político, econômico e humano. Mas, considerando-se, na atualidade, a evolução provável das sociedades, linhas comuns podem ser determinadas na aplicação da Educação Física.

Trata-se, cada vez mais, de preparar as crianças a ajudar os adultos e as pessoas idosas a reagir eficazmente, através dos respectivos equilíbrios psicofisiológicos, contra os efeitos nefastos da mecanização, da sedentariedade, da poluição e da fadiga nervosa provocada pelo ritmo precipitado e pelas tensões da vida civilizada.

Deve-se procurar criar e manter o gosto pelo esforço físico e o sentido de uma vida sadia, a fim de possibilitar o indivíduo participar da luta contra os grandes males, tais como o alcoolismo, o tóxico, a preguiça física, a falta de entusiasmo etc.

II - Os meios da Educação Física

O meio específico da Educação Física é o exercício físico,.isto é, a atividade física sistemática concebida para exercitar (educar, treinar, aperfeiçoar).

Não é a natureza do exercício que fixa o papel preponderante, mas a intenção que anima o ato, dando-lhe orientação geral e formas particulares, ao mesmo tempo que determina, em definitivo,

seus resultados sobre o indivíduo. Toda a atividade psicomotriz, concebida sobretudo com um fim educativo, integra-se na educação física. Esta, em última análise, caracteriza-se mais por um estado de espírito que pela escolha de tal ou tal técnica. As técnicas são os "instrumentos" - infinitamente variados e em contínua evolução - a utilizar em função de claras intenções educativas e de dados particulares (estados dos indivíduos, condições materiais etc.).

É nesse nível superior de intenção que se realiza a Unidade de Educação Física, isto é, a harmonia entre técnicas, muitas vezes fundamentalmente diferentes, mas que concorrem para atingir o mesmo fim.

As tentativas de classificação dos exercícios físicos têm sido numerosas. Qualquer classificação, no domínio ou nas "fronteiras" das coisas da vida, é sempre indecisa e, seguramente, artificial e convencional. Em função da intenção principal que anima o ato, propomos uma classificação que, na nossa opinião, parece ser, ao mesmo tempo, geral e simples:

  1. Exercícios educativos propriamente ditos. As formas e situações são escolhidas ou criadas unicamente para atingir fins formativos e educativos consideradosfundamentais: aquisição e manutenção de uma flexibilidade ótima, desenvolvimento da força, da resistência, autoconhecimento e autodomínio etc.
  2. Atividades práticas, jogos e desportos. Nelas a primeira intenção consiste em alcançar um fim concreto e imediato: distrair-se, vencer um adversário ou bater um recorde. Para ficar no domínio da Educação Física, torna-se necessário que os exercícios sejam, pelo menos no espírito do ensino, animados por uma intenção educativa.

O caráter formal dos exercícios da primeira categoria, para a maioria dos alunos pelo menos, constitui atividades de fraca motivação. Elas não devem, portanto, ser esquecidas porque são essenciais nos primeiros períodos de formação. A arte pedagógica deve torná-las interessantes para todos os alunos.

Os segundos são, em geral, exercícios de forte motivação. Porém, o seu emprego é delicado, porque eles estão no campo de luta entre o interesse prático ou lúdico e o interesse educativo, entre a paixão e a razão.

No entanto, comumente, na prática pedagógica, estas duas categorias de exercícios podem - e devem - ser ligadas numa mesma motivação geral que é o domínio e a afirmação de si. Tal ligação deve estabelecer-se, sobretudo, no nível das atividades desportivas, tão freqüentemente utilizadas hoje em dia.

Lugar das atividades desportivas na Educação Física

As atividades desportivas comportam:

  1. A competição desportiva sistematicamente organizada - Geralmente organizada pelas federações desportivas, constitui a forma mais comum e mais característica do desporto atual. Procede geralmente por eliminação e seleção, sendo estritamente codificada em formas técnicas, número, duração etc.
  2. O treinamento desportivo - Compreende o conjunto de atividades preparatórias para a competição desportiva. Ele procura colocar o atleta "em condição" e, em seguida, através de um trabalho "especial", em "forma". Por natureza, procura, em um primeiro tempo, os mesmos fins visados pela Educação Física: melhoria das qualidades fundamentais (flexibilidade, destreza, força, resistência, domínio corporal etc.), treinamento da vontade e outras qualidades.
  3. O "desporto-jogo", que é a competição livremente adaptada para satisfazer essencialmente às necessidades recreativas e educativas. Exemplo: jogar basquetebol entre camaradas, em equipes improvisadas.

Esta forma de desporto não elimina os fracos. Pode dispensar espectadores e instalações custosas. É colocada unicamente sob a responsabilidade dos educadores ou dos próprios praticantes, que podem, à vontade, modificar as regras para melhor adaptação às necessidades e possibilidades de cada um.

Concebe-se que o treinamento desportivo e o "desporto-jogo" se integram facilmente no sistema geral da Educação Física.

No mundo moderno, convém atribuir-lhes um importante lugar, porque correspondem a uma grande necessidade durante os lazeres. Ademais, no período escolar de formação, constituem uma poderosa motivação.

A utilização da competição desportiva clássica é muito mais delicada. A ação do educador e também dos dirigentes e treinadores de clube, dos médicos e jornalistas também tem muita importância. Todas as precauções devem ser tomadas para que a competição guarde seguro valor formativo e educativo. É preciso, portanto, utilizá-la com prudência, como ainda considerar que se trata, de qualquer modo, de um setor de ação limitada quanto ao número de praticantes e a duração da prática real (de uma dezena de anos, em média).

As maiores possibilidades de sucesso - e a ação humana mais válida - estão na ação a favor do desporto para todos. Este será, antes de tudo, o desporto-jogo e o desporto de competição clássica, porém concebido fundamentalmente com fins recreativos e educativos. Ele não pode, sem dúvida, ser baseado sobretudo nas estruturas atuais do desporto federativo, na competição seletiva, porque ele conduz inevitavelmente a todos os perigos já assinalados. Será, de preferência, o desporto escolar e universitário, dirigido por educadores, livre da tendência de vencer a qualquer preço, dependendo o menos possível de imperativos financeiros, organizado segundo fórmulas que permitam a participação dos mais fracos e com uma freqüência e dosagem constantemente adaptadas às possibilidades dos alunos e às necessidades dos estudos (de maneira a servir aos estudos e não prejudicá-los).

Ele será o desporto familiar e o desporto corporativo do tempo de lazer. Será nos clubes desportivos o encontro amigo; enfim, aquele que constituirá prazer fora das regras imperativas, de duração, de substituição de jogadores etc., para ficar sempre ao nível do prazer de jogar.

Ele será o desporto dos praticantes e não o dos simples espectadores.

Deste "desporto-jogo", deste "desporto-lazer", verdadeiro desporto de massa, surgirá naturalmente uma elite, entre os jovens, que, tal como acontece atualmente, se desenvolverá até ao mais alto nível, podendo então esperar-se um espírito diferente, um "desporto mais puro, mais cavalheiresco, mais calmo", como sonhou Pierre de Coubertin.

III - Técnicas e formas pedagógicas

A Educação Física é uma ciência relativamente nova. Ela não deve, portanto, ser dogmática e restrita a certas técnicas ou formas pedagógicas.

Para assegurar a sua evolução de maneira conveniente, determinar as melhores técnicas e os processos pedagógicos mais eficazes, é necessário que tenha melhor organização e se desenvolva sua pesquisa científica. É lamentável que, até agora, os centros de investigação científica tenham orientado exclusivamente os seus trabalhos para o conhecimento do máximo esforço e para a adaptação orgânica e psíquica em condições difíceis (altitude, mergulho submarino etc.) e, insuficientemente, para os problemas fundamentais da educação física escolar e do "desporto para todos".

A investigação científica deve caber a especialistas experimentados, reunidos em equipes de trabalho, nos centros regionais ou nacionais de pesquisas (ligados entre si e por meio de organizações internacionais especializadas e outros centros de pesquisas biológicas, psicológicas, sociológicas e pedagógicas). Nunca se deve esquecer que a experimentação se faz também, de maneira indispensável, em grupos de crianças, "material experimental", que jamais deverá ser sacrificado, necessitando, por conseguinte, que o trabalho seja conduzido com competência, prudência e elevado sentido humano.

A Educação Física deve constituir-se, assim, em ciência aplicada maior, tendo o seu domínio e métodos específicos, cumprindo também cooperar para o progresso de outras ciências humanas, através de mútuas contribuições.

O atual conhecimento empírico e os dados já cientificamente estabelecidos permitem, no momento, a condução de uma ação bastante válida no domínio da educação pelos exercícios físicos. Alguns princípios fundamentais podem orientar a ação dos educadores:

1.° - Grau biológico do esforço - O esforço só é educativo - apenas conduz ao progresso - a partir de certa intensidade e repetição suficiente com uma freqüência bem adaptada. É o princípio da sobrecarga, cientificamente estabelecido tanto em biologia como em psicologia.

2.° - Dosagem do esforço (adaptação às possibilidades individuais) - O esforço deve ser suficientemente intenso para entrar no setor positivo de graduação biológica, mas de maneira a evitar qualquer excesso que termine em esgotamento.

Em Educação Física é difícil o indivíduo chegar ao esgotamento (quer se trate de sessões escolares ou de ginástica voluntária de adultos). Fica-se mesmo, muitas vezes, abaixo da intensidade ou da quantidade (insuficiência dos horários) necessárias. No treinamento desportivo, sobretudo na competição desportiva, é bastante freqüente o indivíduo atingir os limites fisiológicos. Se o esforço intenso é benéfico para o jovens (tanto do ponto de vista fisiológico com psicológico), pode-se tornar perigoso para o adultos e as pessoas mais idosas. Sua repetição pode levar ao esgotamento. A prudência e o controle médico regular são indispensáveis. Pertence à Biologia e à Pedagogia a solução do problema da dosagem individual no ensino de grupo

3.° - Primazia do treinamento geral - No período essencial da formação corporal, mental efetiva da infância e da adolescência, a ação educativa deve estar centrada nodesenvolvimento da disponibilidade, da capacidade de aprender e das qualidades fundamentais (saúde, flexibilidade, velocidade, força e resistência, qualidades de julgamento, domínio de si etc.). Isso impõe um treinamento físico geral, compreendendo exercícios muito variados em situações igualmente variadas.

O desenvolvimento das qualidades básicas constitui a melhor preparação às ações futuras da vida corrente, da vida profissional e da especialidade desportiva. Quanto ao desporto educativo, convém evitar toda especialização prematura Não se deve aprisionar, muito cedo, a criança em uma única atividade e num meio fechado que modelarão seu corpo e sua alma dentro da condições estreitas e poderão impedir a afirmação de certas potencialidades. É preciso - como nos outros domínios da educação - colocar progressivamente a criança, depois o adolescente em condições de fazer uma escolha livre e judiciosa de uma ou várias atividades, que serão praticadas o maior tempo possível. Convém preparar sobretudo para as atividades da idade adulta, que são fundamentais, pois se trata de um período (de responsabilidades familiares e sociais) no qual o homem tem necessidade de manter-se sadio e fisicamente apto.

4.° - Importância das atividades ao ar livre - No mundo moderno, que tende, cada vez mais para uma civilização urbana, é preciso admitir - para a Escola e para o lazer dos adultos - lugar importante nas atividades físicas ao ar livre, atividades eminentemente formadoras, liberadoras e equilibrantes.

5.° - Motivação do exercício - Só há educação verdadeira a partir dum compromisso voluntário do indivíduo de participação ativa. O importante, do ponto de vista pedagógico, é, portanto, encontrar a motivação que conduzirá o indivíduo a agir utilmente para o seu progresso. A psicologia moderna estabeleceu que a maior parte dos interesses são criados pela - educação e pelo meio (a família, o grupo social, a propaganda). Mas constitui um interesse fundamental, universal, específico do ser humano o desejo de se testar, de se superar "da procura do sucesso". Esta necessidade de se afirmar, e de se engrandecer, através de qualquer atividade, se exprime, naturalmente, no jogo e no desporto. O homem é por natureza um ser desportivo, no sentido lato do termo. Isto o distingue fundamentalmente no animal.

A motivação lúdica e desportiva deve ter, por conseguinte, importante lugar na Educação Física. Mas, ela deve ser utilizada com prudência, e, sobretudo, não ser a única a ser posta em jogo. Salvo no primeiro período escolar (4 a 8 anos, aproximadamente), o sistema educativo não poderá ser fundado unicamente no jogo. É também preciso, a fim de preparar para a vida, que apareça claramente a noção de trabalho e que a criança tome finalmente gosto pelo trabalho.

A motivação desportiva habitual (ligada à competição) é muitíssimo complexa. Ela é formada - e muitas vezes deformada - pela influência do meio social. Corresponde a uma característica muito marcante do mundo moderno, "a luta pela vida, com eliminação do adversário", característica que seria desejável fosse substituída, no mundo de amanhã, mais fraternal, pelo esforço solidário em benefício do progresso mútuo. A motivação desportiva, para ser válida, deve desligar-se dum contexto social por vezes perigoso para a educação, ultrapassando-o.

É preciso alargar a noção de motivação desportiva e considerar que toda situação, todo exercício que conduza a criança a conhecer-se melhor, a testar-se e a afirmar-se é, para ela, coisa interessante, é ato desportivo.

Há também "ato desportivo" na descoberta e superação de si próprio, nos exercícios educativos propriamente ditos (o esforço voluntário, plenamente consciente e metódico para o desenvolvimento sistemático das qualidades de base), na ação orientada para a ajuda mútua, no esforço intenso ao ar livre, fora do recinto fechado do desporto de competição e da influência dos espectadores etc. Um educador consciente de sua alta missão não deverá esquecer estas nobres motivações, que formam, aliás, o verdadeiro espírito desportivo.

6.º - Ação educativa do grupo e influência do meio social - A educação, no mundo moderno, é essencialmente de ordem coletiva. A relação "professor-aluno-grupo de alunos", ao nível da escola ou do clube, é considerada como um fator fundamental na ação educativa. A educação deve fazer apelo, cada vez mais, à psicologia social para a determinação dos seus métodos pedagógicos e deve ter sempre em consideração a influência favorável ou desfavorável do meio social.

IV - Os educadores

As técnicas, as formas pedagógicas e mesmo as possibilidades materiais são apenas instrumentos, cujo emprego eficaz depende, em definitivo, daqueles que os utilizam. É essencial que os responsáveis políticos e administrativos, nos diversos países, tomem claramente consciência que o rendimento de seus esforços em favor da Educação Física é, em primeiro lugar, função do número suficiente e do valor dos educadores.

A missão educativa, por meio de atividades físicas, exige sólidos conhecimentos biológicos, psicológicos e sociológicos e boa preparação pedagógica. Durante o período delicado da infância e da adolescência, especialmente, ela não deve ser confiada senão a educadores que receberam sólida formação de nível universitário.

Na formação desses educadores a tônica deve ser posta na cultura geral, nos conhecimentos científicos e técnicos fundamentais (dados que têm valor geral e permanente), nas intenções educativas e no desenvolvimento do espírito científico. O estudo aprofundado das técnicas desportivas - bastante variados e constantemente modificadas - deve ser olhado como uma especialização livre, durante e após os estudos gerais.

Mas é preciso também formar alma de educadores: criar a fé e o entusiasmo pela obra a realizar, desenvolver as qualidades essenciais do pedagogo: amor aos alunos, dedicação, respeito humano etc. Os educadores físicos devem manter-se - e permanecer o maior tempo possível - como exemplos de boa condição física e espírito desportivo.

O nível universitário de formação é igualmente desejável para os educadores que exercem a sua ação em setores diferentes da escola: clube desportivo, exército, educação física de adultos. Isso deve ser realizado em numerosos países, onde as verbas necessárias são concedidas pelos governos.

Para satisfazer à multiplicidade de necessidades, torna-se preciso considerar em alguns setores especialmente para o desporto de massa e a ginástica voluntária de adultos - a formação de grande número de animadores e instrutores, que, de forma benévola ou retribuída de modo parcial ou completa, possam assegurar o enquadramento de tais atividades. Neste caso, uma formação técnica, simples mas precisa, o bom senso, a dedicação, a arte pedagógica e uma sadia concepção das atividades físicas postas a serviço do Homem são qualidades essenciais.

Condições administrativas e materiais

Para assegurar a eficácia da educação física, é indispensável que os poderes públicos e os administradores diretamente responsáveis:

1 . Realizem um esforço particular para organizar a educação física na escola primária (5 a 12-14 anos) e mesmo no jardim de infância (2-6 anos). É o verdadeiro ponto de partida, no entanto, e, infelizmente, constitui o setor mais desprezado na maioria dos países.

A ação educativa é, com efeito, imperiosa e determinante nesse período de grande maleabilidade orgânica e psíquica.

O que vem depois. . . vem muito tarde!

Os Direitos da Criança, afirmados na Declaração de 2O de novembro de 1956, da Assembléia Geral das Nações Unidas, somente são salvaguardadas quando a escola, os pais e o grupo social proporcionam à criança uma educação física concebida em função de suas necessidades e possibilidades.

A educação física da criança deve ter um sólido valor formativo e educativo, não se limitando a uma simples "recreação".

2. Outorguem tempo suficiente para a Educação Física Obrigatória na Escola, agindo de maneira que o horário estabelecido não seja teórico. Um mínimo de 5 horas por semana é indispensável. Este horário deve ser completado pela prática de atividades físicas livres, fora da escola e sob a forma de treinamento especializado, jogos desportivos e atividades ao ar livre.

3. Empreendam um grande esforço de propaganda (em particular pelos jornais e a televisão) e dêem ajuda eficaz às atividades físicas higiênicas e recreativas dos adultos (ginástica voluntária) e o "desporto para todos".

As atividades de lazer não devem ser inteiramente entregues às empresas comerciais, para as quais os fins educativos, por acaso existentes, ficam logicamente em plano secundário.

Esperemos que, no mundo de amanhã, as condições políticas e econômicas possibilitem a todos os indivíduos os benefícios de um tempo suficiente para os mais sadios lazeres.

4. Multipliquem as instalações de forma a satisfazer às necessidades de atividades físicas da massa das crianças, adolescentes e adultos, necessidades cada vez maiores, num mundo mecanizado, onde o esforço físico tende a ser suprimido. Neste indispensável esforço de equipamento devem ter prioridade absoluta:

a. Os ginásios de Educação Física, as piscinas e locais de desporto, simples, no interior ou nas proximidades de todos os estabelecimentos escolares e universitários.

b. As instalações semelhantes em todos os grandes conjuntos habitacionais e quarteirões das cidades: estádios populares e ginásios públicos de Educação Física (não comercializados), abertos a todos e a qualquer hora, para o treinamento regular, individual ou em grupos constituídos; instalações simples e pouco custosas comportando pessoal suficiente (remunerado pelo estado, municípios ou clubes) para conservação, fiscalização e "conselho".

c. Os grandes terrenos de jogos, sem tribuna, mas com vestiários convenientes e chuveiros, instalados pelo menos na periferia das grandes cidades.

d. As instalações simples, mas suficientemente vastas e confortáveis para facilitar a prática de grandes atividades ao ar livre: vela, alpinismo e excursões, canoagem etc.

O rendimento do esforço educativo deve constituir preocupação primordial dos educadores e poderes públicos. Para assegurar esse rendimento é necessário:

a. Utilizar os mais eficazes processos técnicos e pedagógicos. Esta necessidade acentua novamente a importância de sólida formação dos educadores e da pesquisa científica. Em Educação Física, como em outras atividades, não se pode deixar o indivíduo realizar práticas sem sentido.

b. Utilizar plenamente e da melhor maneira o tempo concedido à Educação Física. É preciso não esquecer que os dois fatores essenciais da eficácia da ação educativa são aintensidade e a freqüência (adaptadas às necessidades individuais). Três sessões semanais de uma hora, convenientemente intervalados, são muito mais eficazes que uma única sessão de três horas, total do tempo real consagrado à atividade física.

c. Considerar a necessidade de uma educação permanente, da infância à velhice, porque os efeitos do treinamento são provisórios e não é suficiente ter praticado um desporto, por exemplo, entre 15 ou 2O anos, se o treinamento for, mais tarde, descuidado.

d. Fazer um esforço particular em favor dos mais fracos, dos deficientes e dos inferiorizados, isto é, dos que têm mais necessidade da ajuda da sociedade.

O rendimento da Educação Física não se define em função das vitórias ganhas pelos melhores especialistas, mas ao nível da melhoria - certamente mais difícil de julgar - que ela pode trazer aos valores físicos, intelectuais e morais, à eficiência social e, finalmente, às oportunidades de felicidade individual.

(Edição brasileira, tradução do Gen. Jayr Jordão Ramos.)

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