O Método Dialético e a Escola

Por: André Malina.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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...A discussão sobre a pertinência de pressupostos marxistas como suporte teórico conceitual do mundo vem sofrendo sucessivos ataques teóricos de diferentes ordens, inclusive na Educação Física. Isto pode ser verificado na forma persistente com que tentam desmoralizar os principais nomes da década de 80.

No presente estudo explicitaremos, primeiramente, o método dialético, por considerarmos como o mais adequado no atendimento do objetivo proposto, assumindo, desta forma, as idéias de Kosik (1995) sobre a busca da essência do fenômeno para além da pseudoconcreticidade. (1). Em seguida, adotaremos tal proposta de busca da essência do fenômeno como suporte para demonstramos sua ocorrência, utilizando-se da exemplificação de uma Escola.

A Proposição de Kosik ...

Segundo Kosik (1995), para compreendermos a essência de um fenômeno faz-se necessário propor antecipadamente a decomposição do todo na ação e no conhecimento filosófico, decorrendo, neste sentido, uma separação do que seja essencial e secundário neste fenômeno. Apesar do fenômeno mostrar-se como um todo, isto não ocorre de forma imediata, mas como uma visão de mundo das aparências. Este mundo das aparências que parece nos mostrar o todo, não reconhece a essência verdadeira. Tal visão de mundo aparente é denominada pseudoconcreticidade.

Ao tentarmos atingir a essência precisamos do fenômeno e de sua manifestação, que é a coisa (2) e os elementos constitutivos para tratarmos esta coisa. A representação do fenômeno e de sua manifestação, contudo, pode não ser uma qualidade natural da coisa e da realidade, mas sim "uma projeção na consciência do sujeito, de determinadas condições históricas petrificadas" (Kosik, 1995, p. 19).

O mundo real ou totalidade concreta encontra-se oculto pelo mundo da pseudoconcreticidade, precisando ser desvelado para que se tente maior aproximação com a verdade. Essas aproximações são sucessivas e permanentes, como um ir e vir do conhecimento em relação ao fenômeno analisado, ou seja, é necessário realizar-se um detóur (Kosik, 1995). Conseguir chegar ao concreto parece ser possível somente com esta mediação do abstrato ou mediação da análise, como Saviani (1986) chama o detóur de Kosik.

Isto posto, a maior aproximação com a verdade depende do conhecimento sobre esse fenômeno, que é relativo à construção histórica do sujeito e influenciada por múltiplas relações sociais e com a própria construção do conhecimento.

Na perspectiva de uma teoria materialista do conhecimento, é necessário utilizar-se a consciência de maneira dialética (3), visto que, "a consciência humana é reflexo e projeção, registra e constrói, toma nota e planeja, reflete e antecipa, é ao mesmo tempo receptiva e ativa." (Kosik, 1995, p. 32-33). Segundo Kosik (1995), é pressuposto a ocorrência de uma visão dialética de mundo pelas pessoas, considerada não-reduzida ou ampliada. A partir do conhecimento velho é possível alcançar tal visão e atingir um conhecimento novo, onde a história é o ponto de partida para atingir este conhecimento, para se alcançar à totalidade concreta. Esta totalidade concreta pode ser atingida ao obter-se o conhecimento da concreticidade do real, sempre acrescentando fatos novos dialeticamente. Tal realidade é um todo dialético que não compreende a realidade total, mas uma teoria da realidade em que o conhecimento humano vem sendo permanentemente acumulado e processado em forma de espiral e na qual a concretização se desloca das partes para o todo e vice-versa. Nessa espiral, todo princípio é abstrato e relativo. (id))

O sujeito desta realidade é, invariavelmente, social, um ser produtivo por meio do desenvolvimento de suas atividades, onde conhece o mundo e se relaciona dialeticamente com ele. Por isso, faz-se necessário conhecer a realidade social do sujeito para melhor compreensão do todo. Ao conhecermos a realidade do sujeito historicamente construído, aproximamo-nos da compreensão do todo e afastamo-nos da pseudoconcreticidade, até a sua destruição, saindo da aparência do fenômeno para chegar à sua verdadeira objetividade (Kosik, 1995).

A dialética por sua vez, prevê que as interpretações feitas relativas ao mundo devem ser encaradas como passíveis de mudanças e reconstruções, pois a interpretação prática de transformar o mundo em que vivemos, desencadeia ao mesmo tempo um processo de transformação pessoal num mundo em permanente transformação. Este processo deve ser o da autocrítica e da crítica à realidade social. Tal pensamento é tratado como dialético e deve ser aplicado na prática, apesar da dificuldade e da sedução de estabelecer-se a priori e também de pensar que todos seremos felizes porque pensamos dialeticamente. O método dialético, no entanto, pode causar desconforto em certos segmentos de classe, porque pressupõe mudanças em conceitos admitidos como verdades, até mesmo quando visa se aproximar mais destas.

Na vertente dialética, existe uma unidade e uma unicidade entre teoria e prática, isto é, entre o conhecimento e a ação. Existe, portanto, uma visão de mundo orgânica, propiciada pela dialética em que o "ser" o é em detrimento do "ter" e passa a existir também uma oposição relativa à metafísica, pois o movimento ocorre invariavelmente e é concreto. Por outro lado, segundo Politzer et alli (1980), a dialética contraria a lógica formal, porque busca a totalidade dos aspectos do processo, em detrimento do resultado imediato e aparente.

Kosik trata da coisa em si ou real concreto, mas demonstra que ele não se manifesta ao homem de forma imediata, e que compreendê-lo exige um esforço e uma estratégia, uma amarração (détour), conforme dito anteriormente. Por isso, o pensar dialético faz uma distinção entre a representação e o conceito do real concreto, "com isso não pretendendo apenas distinguir duas formas e dois graus de conhecimento da realidade, mas especialmente e, sobretudo, duas qualidades da práxis humana" (Kosik, 1995, p. 13).

Desta forma emerge o procedimento de Kosik em relação ao binômio aparência-essência, onde o primeiro termo é o mundo da pseudoconcreticidade, o olhar falso sobre o mundo e o segundo a concreticidade que nos aproxima da verdade. Por esta perspectiva, entretanto, embora não consigamos alcançar a verdade, temos que fazer sucessivas idas e vindas, e um détour para nos aproximarmos dela. Ou seja, Kosik está tentando ressaltar a importância da dialética na concepção de mundo e, conseqüentemente, no fazer científico. Portanto, as conceituações abordadas no presente estudo se respaldam na visão do método dialético proposto por este autor marxista.

Método Dialético e a Escola ...

Para compreendermos melhor, vamos exemplificar como isto ocorre, por exemplo, em uma Escola. Para tanto, precisamos entendê-la enquanto fruto de um contexto que gera conotações diferentes dos conteúdos aparentes. Diferentemente, podemos verificar somente a prática, o fenômeno como se manifesta para compreendermos o real concreto, indo diretamente para a intervenção, o que, pressupostamente, resultaria somente em uma visão pseudoconcreta deste real concreto. Nesta perspectiva, esta Escola poderia ser compreendida se fosse entendido o conjunto dos membros que a compõem, os alunos, os professores, os faxineiros, os donos (no caso de Escolas privadas), enfim, sua população.

Ao analisarmos de forma mais apropriada à Escola, podemos, por exemplo, ampliar o conceito de Educação Física (EF), tornando nossa compreensão mais complexa. Ao fazer esta análise ampliada da EF, poderíamos considerar preliminarmente, a prática como início de um método para entendimento e posterior intervenção de um fenômeno. Aprofundando tal afirmativa, contudo, observamos que apenas a análise preliminar do método de entendimento do real somente pela prática, pela manifestação empírica, propicia-nos um entendimento abstrato, pois entender uma população relevando as classes que estão embutidas neste processo é uma abstração. Da mesma forma, seria também uma abstração se entendêssemos a palavra classe e ignorássemos as formas de manifestações que as determinam, como o capital e o trabalho assalariado, que por sua vez fazem supor, por exemplo, a divisão do trabalho e o preço. Portanto, ao iniciarmos uma análise de uma Escola somente pelos membros que a compõem, somente seria possível ver o todo representado caoticamente e, através da análise por este método - que resulta numa visão do aparente concreto -, teríamos sucessivas abstrações reduzindo o fenômeno às abstrações mais simples.

Posto isto, faz-se necessário refazer o caminho percorrido anteriormente de forma invertida, chegando à população que compõe à Escola pelo entendimento da composição dos seus membros e não mais como o todo representado caoticamente, mas um todo composto de determinações e múltiplas relações. Analogicamente, ao analisar o que é EF somente a partir do que aparenta ser, do aparente real e concreto, sem levarmos em consideração às determinações e os determinantes, além da tecitura das relações envolvidas num todo complexo, teremos também abstrações cada vez mais simples, mas que distanciam o entendimento do real que é real e concreto. Vemos aí um exemplo de diferenciação de análise, que é a diferenciação dos horizontes ideológicos de cada um, e remetem a discussão sobre a pseudoconcreticidade e a concreticidade. Tal tipo de análise, da mesma forma, serve como caminho de análise de uma aula de EF, por exemplo.

Assim sendo, é pertinente a continuidade de trabalhos e práticas que apontem a necessidade de desvelarmos o que está por trás ou o que está oculto no fenômeno como ele se manifesta. Isto é mister especialmente em uma área de intervenção pedagógica, uma prática social como a EF.

Notas

  1. Kosik trabalha com a manifestação do fenômeno com uma pseudo-essência que necessita ser ultrapassada para que se chegue à verdadeira essência que, no entanto, pode ser alcançada pela via dialética. Isto não se manifesta, contudo, com um conceito de verdade plenamente alcançável, mas com sucessivas aproximações em sua busca. Por outro lado, Saviani (1986), ressalta que o binômio fenômeno-essência é similar ao empírico-concreto, onde o empírico, ao mesmo tempo, revela e oculta o concreto. Para ele, o binômio fenômeno-essência tem eco tanto metafísico quanto idealista, e que poucas vezes um desses termos foi utilizado pelo Marx ‘maduro’. Apesar disto, segundo Saviani (1986), Kosik recupera estes termos resultantes desse binômio e articula-os, com vistas à elaboração de uma dialética da totalidade concreta.
  2. COISA - Tudo aquilo que possui uma existência individual e concreta. Sinônimo de objeto, portanto realidade objetiva, isto é, independente da representação. Nesse sentido, a coisa se opõe à idéia. (Japiassú & Marcondes, 1996). Não se trata, contudo, neste estudo, de tratar fatos sociais ou pessoas como coisas, pois acreditamos que os fatos sociais ou as pessoas devem ser tratados de dentro dos fatos sociais, que são geradores de conseqüências. Ou seja, conscientizar as pessoas ou grupos dos fatos conseqüentes que são provocados quando existe adesão a determinados valores decorrentes do fato social e/ou que estão implícitos ou explícitos neles. (Goldmann, 1980).
  3. Kosik refere-se à dialética marxista.

Obs. O autor, professor Ms André Malina é doutorando pela Universidade Gama Filho (UGF), Membro do GEPHEFE (Grupo de Estudo e Pesquisa em História da Educação Física e do Esporte) do Programa de Pós Graduação em Educação Física da UGF

Referências bibliográficas

  •  Goldmann, Lucien. Ciências Humanas e Filosofia. São Paulo: DIFEL, 1980.
  • Kosik, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.
  • Japiassú, Hilton & MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.
  • Politzer, Georges et alli. Princípios Fundamentais de Filosofia. São Paulo: Hemus, 1980.
  • Saviani, Demerval. Educação: do Senso Comum à Consciência Filosófica. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1986.

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