Representações Sociais Sobre Ambiente de Residentes Fixos e de Não Residentes Praticantes de Motociclismo Off-road e do Mountain Bike, na área de Proteção Ambiental do Pico da Ibituruna

Por: João Batista Rodrigues da Silva Filho e Maria Cecília P. Diniz.

VIII Congresso Brasileiro de Atividades de Aventura - CBAA

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RESUMO
O tempo e o espaço dão conta de expor que a região do Pico da Ibituruna vem passando por processo contínuo de uso desordenado do ambiente. As práticas do Motociclismo OffRoad/Enduro e do Mountain Bike podem estar contribuindo para a descaracterização do ambiente natural na referida região, considerando que territorializam o ambiente natural usufruindo dos recursos naturais existentes. Os residentes compõem um território já estabelecido, produzindo e reproduzindo territorialidades carregadas de sentimento de pertencimento ao lugar. Objetivo: Identificar as representações sociais do ambiente de residentes e de não residentes, estes praticantes do Motociclismo Off-Road e do Mountain Bike no Pico da Ibituruna. Metodologia: Optamos pelo referencial teórico das representações sociais, com enfoque qualiquantitativo, identificado como Discurso do Sujeito Coletivo – DSC. Foram entrevistados grupos distintos: praticantes de Motociclismo Off-Road, Mountain Bike e Residentes Fixos. Resultados: Foi constatado que os sujeitos entrevistados não têm clareza em relação às principais diferenças entre os conceitos de natureza, ambiente, meio ambiente, recursos naturais e recursos ambientais. As relações que os sujeitos entrevistados estabelecem com o meio ambiente no Pico da Ibituruna sinalizam ser o ambiente um mero pano de fundo para a concretização de suas práticas corporais. Foi possível observar uma postura frente ao ambiente que sugere traços de distanciamento entre homem e natureza. Conclusão: Consideramos que através do DSC foi possível desvelar intencionalidades que permeiam tais práticas corporais na natureza em relação à apropriação e uso dos recursos naturais disponíveis na região de abrangência deste estudo.

INTRODUÇÃO

O Pico da Ibituruna está localizado na região Leste do Estado de Minas Gerais, na cidade de Governador Valadares, com altitude máxima de 1.123 metros do nível do mar e 990 metros do nível do Rio Doce - manancial aquífero que corta a cidade. A região do Pico da Ibituruna é considerada Área de Proteção Ambiental (APA) desde 1992.

Como atrativos para o público que almeja a prática dos esportes na natureza observase a existência de potencial para a prática do Mountain Bike e do Motociclismo Off-Road, além do Trekking , do Hiking e da Escalada em Rocha. Para a prática da Escalada em Rocha já existem Vias Grampeadas , sendo as mais procuradas localizadas na Comunidade do Brejaúba, onde há um Campo Escola de Escalada, implantado pelo curso de Educação Física da Universidade Vale do Rio Doce em 2003. Para essas modalidades não há no município de Governador Valadares uma Política Pública de Esporte e Lazer estabelecida.

JUSTIFICATIVA

As questões relacionadas à apropriação e dominação do território instigaram-nos à busca sobre os sentidos que tem o ambiente para aqueles que o utilizam. Isto foi relevante por permitir identificar as intencionalidades com que se apropriam do ambiente natural para satisfazer suas necessidades esportivas, de lazer e laborais, para então entendermos se estas relações estabelecidas com o ambiente são topofílicas4 , expressando um sentido de afetividade em relação ao mesmo.

OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICO

Para tal empreitada nosso objetivo geral foi identificar as representações sociais sobre ambiente de residentes fixos e de não residentes, estes praticantes de Motociclismo Off-Road e Mountain Bike na APA do Pico da Ibituruna. Para cumprir com este objetivo, propusemos os seguintes específicos: (1) Identificar as áreas de propriedade particular e com moradores fixos na APA do Pico da Ibituruna; (2) Identificar e mapear as áreas utilizadas pelos praticantes do Motociclismo Off-Road e do Mountain Bike; (3) Conhecer e comparar as representações sociais sobre ambiente que permeiam os residentes fixos e os não residentes praticantes do Motociclismo Off-Road e do Mountain Bike na APA do Pico da Ibituruna.

Nossa hipótese foi a de que essas múltiplas territorialidades observadas na área de inserção deste estudo, além de incorporarem uma dimensão estritamente política em seu bojo, dizem respeito também, como afirma Haesbaert (2005, p. 3), [...] às relações econômicas e culturais, pois está “intimamente ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar”.

Neste sentido buscamos dialogar com autores (RAFFESTIN, 1993; HAESBAERT, 2005; SAQUET, 2007; SANTOS, 1987; SACK, 1986) que discutem em profundidade o tema Território, este conceituado por Raffestin (1999) como sendo o espaço no qual há a manifestação das relações humanas, seja ela para qual fim se deseja, estando presente nessas relações aquelas envolvendo o poder.

Raffestin (1993) trata com clareza essa questão da diferenciação entre espaço e território, ressaltando que a presença humana no espaço é o fator preponderante. Afirma que território é [...] um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder (RAFFESTIN, 1993, p. 144).

Portanto, território não é espaço, apesar de se apoiar nele para que se concretize como tal. Mas, não é o espaço e sim uma produção a partir do espaço, ou seja, território é construção envolvendo questões relacionadas ao tempo e ao espaço.

Faz-se necessário, portanto, enfatizar uma categoria essencial para a compreensão do território, que é o poder exercido por pessoas ou grupos sem o qual não se define o território.  Poder e território, apesar da autonomia de cada um, vão ser enfocados conjuntamente para a consolidação do conceito de território. Assim, o poder é relacional, pois está intrínseco em todas as relações sociais.

Saquet (2007, p. 7) nos coloca que [...] território é conteúdo, meio e processo das relações sociais (onde se fixam as identidades) e das relações de exterioridade (homemnatureza), paisagem na qual se desenvolve o tempo histórico e o tempo das simultaneidades.

Em relação ao poder e as relações envolvidas na construção deste, vamos encontrar em Haesbaert (2005, p. 2) a afirmativa de que, [...] território, assim, em qualquer acepção, tem a ver com poder, mas não apenas ao tradicional “poder político”. Ele diz respeito tanto ao poder no sentido mais concreto, de dominação, quanto ao poder no sentido mais simbólico, de apropriação.

Vale ressaltar sobre o sentido de apropriação e de dominação aqui utilizados, sendo este à luz de Lefebvre (1986. apud. HAESBAERT, 2005, p. 2 - 4), que diz [...] o primeiro sendo um processo muito mais simbólico, carregado das marcas do “vivido”, do valor de uso, o segundo mais concreto, funcional e vinculado ao valor de troca.

De acordo Haesbaert (2005, p. 5), o uso do Território acentua conflitos, estes decorrentes das trocas ocorridas em seu interior. Neste sentido, podemos arguir, para o caso dos esportes praticados em ambientes naturais, como se dão as trocas ocorridas no território? Há disputa de poder no processo de territorialização? No processo de utilização do ambiente natural para concretização das práticas esportivas envolvendo o Motociclismo Off-Road e o Mountain Bike, quais relações são estabelecidas entre os praticantes e o meio ambiente? E mais, em relação à territorialização das trilhas no Pico da Ibituruna para as referidas práticas esportivas, o que é preponderante em relação ao meio ambiente: dominação ou apropriação em relação ao lugar?

Nessa linha de raciocínio, Gomes (2010), vem contribuir com as discussões sobre a apropriação e dominação dos ambientes naturais pelas práticas corporais em ambientes naturais, discorrendo de maneira a chamar às responsabilidades entusiastas, turismólogos, profissionais de Educação Física e demais personagens envoltos no contexto dessas práticas, afirmando que:

[...] A procura pelos paraísos naturais, provocada, principalmente, pelo turismo de massa, altamente depredatório, incrementado muitas vezes por atividades físicas e esportivas de aventura na natureza, causaram danos incalculáveis. Grande parte dos esportistas, turistas e grupos em busca de lazer passaram a ser alvo das críticas dos gestores das Unidades de Conservação – UC (áreas naturais protegidas), em função do impacto causado ao meio ambiente através de suas práticas. Com isso, todos os professores de Educação Física, turismólogos, agentes de viagem, esportistas e turistas passaram a ser mal vistos, inclusive aqueles possuidores de práticas sustentáveis. Frente a isso, vemos a necessidade de repensar o modelo de turismo, a oferta de produtos, os espaços e o código de conduta das pessoas que fazem uso das UC’s (GOMES, 2010, p. 248).

Tendo como pano de fundo a história do homem, no início a configuração territorial se resume ao conjunto das “coisas” naturais, ou seja, tudo aquilo que antecede à chegada do ser humano. À medida que a história da humanidade vai sendo produzida, temporal e espacialmente, por consequência, a configuração territorial também é produzida através das obras dos homens - hospitais, supermercados, edifícios, pontes, portos, aeroportos, parques, cidades, etc. – ao que Santos (1987) denomina “verdadeiras próteses”. Segundo o referido autor, a configuração territorial tem uma relação direta com a produção histórica do território e esta, por sua vez, tem suas relações ao distanciamento do homem da natureza natural. Neste sentido, Santos (1987), afirma que:

[...] A configuração territorial criada é cada vez mais o resultado de uma produção histórica, que por sua vez tende a uma negação do homem da natureza natural que é substituída pela natureza humanizada, produzida, e esta produção reflete as intenções do homem no espaço – no passado, no presente e no futuro (SANTOS, 1987, p. 62).

Neste estudo, com base na citação acima, quando problematizamos acerca das referidas práticas esportivas no ambiente natural do Pico da Ibituruna, o objetivo é investigar sobre como se dá a relação homem/ambiente natural durante a realização dessas práticas corporais, buscando identificar as intencionalidades para posteriormente, após análises, conhecer como se processam as territorializações dos espaços que envolvem as trilhas e caminhos utilizados pelos praticantes do Motociclismo Enduro/Off-Road e do Mountain Bike, e qual sentido tem o ambiente para estes.

Marion e Wimpey (2007), em publicação da International Mountain Bike Association (2007, p. 3-4), que trata dos impactos do Mountain Bike sobre o meio ambiente, afirmam ser esta uma prática nova e que, portanto, ainda não existem estudos científicos que estabeleçam uma relação direta entre Mountain Bike e degradação do ambiente.

Ainda em relação às práticas envolvendo o ciclismo no ambiente natural, vamos encontrar em Pickering e colaboradores (2009) um estudo onde fizeram uma comparação entre as práticas do Hiking, Mountain Bike e Horse Riding com o objetivo de identificar os impactos provocados por estes no solo e na vegetação das trilhas e caminhos por onde passam, a seguinte conclusão:

Impactos biofísicos decorrentes das práticas das caminhadas são mais pesquisados do que aqueles provocados pela prática da cavalgada com cavalo e o mountain bike. Há impactos em comum a todas as três atividades, embora as diferenças na severidade do impacto, com passeios a cavalo apresente maiores impactos por usuário do que caminhadas. Para mountain bike, é difícil avaliar os impactos relativos como há pouca pesquisa nessa direção, principalmente através de métodos experimentais quantitativos e estilos de pilotagem mais realistas. Há impactos da atividade específica que podem prejudicar o meio ambiente, mas é necessária mais investigação. Esperamos que este comentário ajude os gestores, pesquisadores, usuários e organizações de conservação, destacando o que é conhecido, mesmo considerando os resultados atuais das pesquisas nesse sentido, vale ressaltar que ainda há muito mais que precisamos descobrir. (PICKERING et al. 2009, p.7, Tradução nossa).

No caso específico da modalidade Mountain Bike, de acordo com os referidos autores do estudo citado acima, percebe-se ser difícil avaliar essa relação entre a prática da modalidade e os impactos ambientais provocados pela mesma, isso decorrente de questões envolvendo o estilo de pilotagem de cada um dos ciclistas, o que pode vir a ser um fator de aumento da complexidade para estudos futuros, uma vez que cada um dos praticantes utiliza as trilhas e caminhos a seu modo, neste caso para suprir suas necessidades físicas e de lazer.

Em relação ao motociclismo Enduro/Off-Road, Stokowski e LaPointe (2000) também afirmam ser esta uma prática relativamente nova, crescente nas três últimas décadas (séc. XX). Porém, estudos já identificaram que esta prática esportiva apresenta severas alterações ambientais nas trilhas acompanhadas por significativa erosão e compactação do solo reduzindo a qualidade das trilhas e que, portanto, [...] requerem medidas de gestão avançadas para desenvolver e manter seguro a qualidade das trilhas (STOKOWSKI e LAPOINTE, 2000, p. 20).

No entanto, o crescimento dessas práticas trás a tona uma nova discussão: os esportes de aventura na natureza trazem como consequências a preservação ou a degradação do meio ambiente?

De acordo com Marinho (2001) essas atividades produzem:

(...) uma definição bastante reduzida da natureza. Esta, por sua vez, passa a ser encarada como um mero local de atividades, cujo propósito é limitado a servir as necessidades dos praticantes que procura satisfação e prazer. A natureza, levada, então, a um segundo plano é redefinida como um ambiente coincidentemente útil e agradável, atrativo e conveniente para as atividades esportivas. O conhecimento e a proteção ambiental, nesse contexto, parecem ser irrelevantes. (MARINHO, 2001, p. 144).

As territorializações nos ambientes naturais através das práticas corporais envolvendo os esportes na natureza, conforme afirmam Teixeira e Marinho (2010), necessitam vir à baila através de discussões que atinjam além do senso comum do consumo.

METODOLOGIA

Como referencial teórico utilizou-se a Teoria das Representações Sociais, buscando dialogar com autores como Moscovici (1976, 1996, 1998, 2003), Jodelet (1984, 2002), Horochovski (2004), Duarte (2009) e Sá (1998). Segundo Moscovici (2003), as representações sociais são fenômenos complexos, sempre ativos dentro da vida social, dada a dinamicidade de suas dimensões, formas, processos e funcionamento.

Seguindo por essa linha de raciocínio, compreende-se que as representações sociais são, por um lado, sistemas que registram nossa relação com o mundo e com os outros, orientando e organizando as condutas e as comunicações sociais. E por outro, interferem nos processos, diversificando a difusão bem como a assimilação dos conhecimentos produzidos, possibilitando o desenvolvimento individual e coletivo, a definição das identidades pessoais e sociais, a expressão dos grupos e as transformações sociais.

Para o enfoque qualiquantitativo foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo – DSC, desenvolvida e proposta por Lefevre (2010), fundamentada na Teoria da Representação Social e seus pressupostos sociológicos, através da qual se chega a um discurso síntese elaborado com partes de discursos semelhantes, em torno de um tema central, reunidos em um só discurso.

A opção pelo DSC se deu por tratar-se de uma técnica onde a tabulação e organização de dados qualitativos possibilitam resolver um dos grandes impasses da pesquisa qualitativa, uma vez que permite agregar depoimentos sem reduzi-los a quantidades, para tanto seguindo procedimentos sistemáticos e padronizados.

O estudo levou em consideração a Resolução nº 196 do Conselho Nacional de Saúde que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas da Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE) através do parecer 381.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Por meio de quatro perguntas distintas: 1: Tem sido muito discutida questões relativas ao Meio Ambiente. Para você, o que é Meio Ambiente? 2: Quais questões você julga mais importantes para discussão sobre esse tema? 3: Que relações você estabelece com o Meio Ambiente no Pico da Ibituruna em suas práticas? 4: Como você vê a maneira com a qual as pessoas, que frequentam o Pico da Ibituruna, se relacionam com ele?) buscou-se identificar o DSC que compõe cada uma delas, chegando assim ao desvelamento das territorialidades protagonizadas nas trilhas e caminhos existentes no Pico da Ibituruna, utilizadas para tal fim.

Foi constatado que os sujeitos entrevistados não têm clareza em relação às principais diferenças entre os conceitos de natureza, ambiente, meio ambiente, recursos naturais e recursos ambientais. Estes se demonstram confusos, por exemplo, quanto à diferenciação entre natureza e ambiente. Para se ter uma ideia mais clara em relação a esta “confusão” de conceitos, durante a realização do estudo piloto constatou-se ser de bom tom utilizar a terminologia meio ambiente ao invés de ambiente, uma vez que os sujeitos entrevistados, em todas as categorias, questionavam se a pergunta fazia referência a meio ambiente ou a ambiente, e neste caso, de qual ambiente nós gostaríamos que ele tratasse.

No que tange às questões mais importantes em relação ao tema meio ambiente (lê-se ambiente), os sujeitos da pesquisa demonstraram preocupação com a questão da preservação, dentre outras tais como o desmatamento na região e a questão da água. Em relação a estas é marcante a presença da característica de “transferência de responsabilidade”, ou seja, o sujeito entrevistado sempre coloca o problema da falta de preservação, do desmatamento e da água, como sendo algo que decorre da falta de cuidado do outro.

Além disso, ele próprio não identifica sua parcela de responsabilidade e contribuição sobre os problemas listados, tão pouco as consequências decorrentes de suas ações no ambiente que frequenta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para fazer frente a carência em relação aos saberes sobre questões ambientais acreditamos ser necessário o desenvolvimento de um processo contínuo de educação para o uso racional e consciente dos recursos naturais existentes, e que este seja capaz de distinguir com clareza e firmeza quais deles estão disponíveis para o uso e destinação às práticas corporais em ambientes naturais.

Para tanto, acreditamos ser emergente a execução de um Plano de Manejo na área de inserção da APA do Pico da Ibituruna, constituída desde 1983 sob o efeito do Decreto 22662, de 14/01/1983. Interessante ressaltar que, tecnicamente, para se criar uma APA o Plano de Manejo a antecede.

Sobre as relações que ele (os sujeitos entrevistados) estabelece com o meio ambiente no Pico da Ibituruna em suas práticas fica claro para nós que o ambiente em questão não passa de mero pano de fundo para a concretização de suas práticas corporais. O caráter funcional é marcado por relações de puro e simples consumo dos recursos naturais, mesmo no âmbito dos residentes fixos que se demonstram preocupados com a preservação no sentido de “até quando poderão continuar usufruindo de tudo aquilo que a natureza colocou à disposição do homem para ele sobreviver na terra”.

Em relação aos praticantes de Motociclismo Off-Road/Enduro e Mountain Bike, podemos afirmar que o ambiente natural no Pico da Ibituruna é para eles mais um palco destinado aos espetáculos que protagonizam com suas motos, bicicletas. O ambiente em si não é enxergado como tal pelos sujeitos envolvidos, trata-se de mais um recurso disponível aos desejos e necessidades do homem.

As preocupações dos praticantes, bem como dos Residentes Fixos, estão primeiramente voltadas ao consumo direto daquilo que, segundo eles, está disponível na natureza, o que vem corroborar com nossa hipótese de que estes frequentadores e consumidores do ambiente natural na região do Pico da Ibituruna não estabelecem, em primeira instância, relações afetivas com a natureza e seus recursos existentes. Parece-nos que “usar” é a ordem hegemônica no espaço.

Quanto inqueridos na entrevista sobre como o outro, que também frequenta o Pico da Ibituruna, é visto por ele, identificamos que estes são percebidos como mal educados, que contribuem para a destruição daquilo que ainda resta de natural na região deste estudo.

Neste sentido, demonstram preocupação com a educação ambiental do outro, porém não se coloca como sujeito ativo nesse processo passando uma imagem de que são conhecedores de como lidar e cuidar do meio ambiente, e afirmam fazê-lo nas relações que estabelecem com o espaço.

Fica claro que os sujeitos envolvidos neste estudo não estabelecem relações de topofilia em relação aos recursos naturais existentes no Pico da Ibituruna;

As relações existentes entre os sujeitos dessa pesquisa, principalmente aqueles praticantes dos referidos esportes na natureza, e o meio ambiente no Pico da Ibituruna possuem traços marcantes de um consumismo exacerbado dos recursos naturais;

A apropriação, bem como dominação dos ambientes naturais existentes no Pico da Ibituruna tem ocorrido de maneira desordenada, sem controle.

Portanto, entendemos ser pertinente para o momento sugerirmos a necessidade emergente de se desenvolver um Plano de Manejo, Regulação para o Uso e Processo de Educação Permanente dos frequentadores do Pico da Ibituruna, afim de que os recursos naturais ainda existentes não cheguem a sua exaustão.

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