Integra

Não sou “militante”, mas tenho posicionamento político e acho que o
presidente eleito tem, sim, algumas condutas com as quais não concordo.
Também penso que nossas instituições (governos, igrejas, quartéis, empresas e
ONGs) precisam rever seus princípios e condutas urgentemente. Mas elegemos
quem mais se aproxima da democracia e do respeito às diferenças.

Há quase uma década, observo que qualquer desvio ou posição diferente da
minha visão de mundo parece justificar radicalizações e intolerância (quando
não atos violentos). Parece não haver mais “adversários” que divergem de
nossas ideias, mas inimigos que precisam ser “exterminados”. E muitos assim
agem com a Bíblia nas mãos!

Entre tantos episódios repulsivos na campanha que se encerrou e no rescaldo
do inesperado resultado, destaco a recente campanha nas redes sociais, e até
em discursos vergonhosos de parlamentares em várias regiões do Brasil,
estimulando a demissão de qualquer trabalhador que tenha, porventura,
votado ou se alinhado ao presidente eleito. Mais que isso, listas nominando
empresas e negócios “de esquerda” foram divulgadas em diversas cidades de
SC e pelo Brasil afora, determinando que não se fizesse qualquer “compra ou
contratação de serviços” nessas organizações. Mais que assédio eleitoral (e pós-
eleitoral) tudo isso nos remete à Europa fascista da primeira metade do Século
XX e até mesmo dos “expurgos” da era Estalinista ou de perseguições da
chamada “revolução cultural” na China há meio século.

Qual será o próximo passo? Queimar livros em praça pública? Acorrentar os
que são diferentes de nós, como visto simbolicamente em passeata no RJ?

Obedecer cegamente a líderes “enviados por Deus para salvar o Brasil” já
acontece. É só ver o poste enviado à SC para ser senador e que foi eleito com
expressiva votação dos obedientes seguidores do Messias.

Parece que teremos algumas décadas de intolerância escancarada pela frente.
Oxalá o verdadeiro espírito democrático, multilateral, inclusivo, solidário,
retorne ao Brasil e mais ao norte, de onde vem a orientação suprema e a
guarida para o malfeito aqui no sul.

Talvez, seja o momento de reler o texto de Martin Niemöller, no site do museu
do Holocausto: Quando eles vieram, fiquei em silêncio.

Grande abraço.

Markus Nahas