Integra

Hoje quero lembrar João Ubaldo Ribeiro, escritor renomado, jornalista, e brilhante observador da realidade brasileira. Morreu cedo – com a idade que completo neste ano (73), estudou na Universidade do Sul da Califórnia (onde cursei o doutorado) e foi professor por alguns anos na Universidade Federal da Bahia (profissão que abracei aqui na UFSC).

As coincidências param por aí, e o motivo dessas 300 palavras é, como admirador de seu trabalho, lembrar uma crônica atemporal: “Precisa-se de matéria prima para construir um país”. Trata-se de discutir valores, num país onde, entra governo, sai governo, mantém-se a esperteza brasileira como uma característica predominante e de interpretação dúbia no imaginário e no comportamento das pessoas: é defeito ou virtude???

Como escreveu João Ubaldo: “essa ESPERTEZA BRASILEIRA, congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana...é real e honestamente ruim...”. Nada mais atual. Nada mais triste para um país com tanta gente boa, trabalhadora, e tanta gente safada (e geralmente impune).

Conchavos em vez de acordos, bancadas lobistas em vez de partidos políticos legítimos, penduricalhos em lugar de transparência, privilégios que desafiam a equidade prevista em lei, pequenos “jeitinhos” no cotidiano... tudo isso reflete a matéria prima que constitui nossa nação desonesta e desigual.

Sobram desvios de verbas de merenda escolar e medicamentos, roubos nas contas de aposentados, obras superfaturadas em municípios ricos e pobres, emendas parlamentares em prol dos amigos, subornos disfarçados a autoridades dos três poderes, lavagem descarada de dinheiro roubado – por traficantes, banqueiros ou políticos. Faltam educação de qualidade, eleitores conscientes, justiça atuante.

Termino voltando no tempo, ao recorte do texto do Rui (Barbosa, o próprio): “De tanto ver triunfar as nulidades... prosperar a desonra... crescer a injustiça... o homem chega... a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Vejam no Google o texto completo da crônica e da célebre frase.

Grande abraço.

Markus Nahas

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