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Podemos dizer que a Biologia e a Pedagogia estão intrinsecamente relacionadas com a Educação Física escolar. Verifica-se isso pela atenção dada a essas áreas na Revista Brasileira de Ciências do Esporte (RBCE), entre 1979 e 1987.

Os artigos sobre o assunto foram agrupados nos seguintes eixos temáticos: área, subárea, objetivos, referencial teórico, tipo de pesquisa, material e método, resultados e o motivo de o estudo ter sido realizado com escolares. No momento de delimitação do focus de análise restaram onze artigos completos com características da área da Biologia e seis relativos à Pedagogia na Educação Física escolar. Os textos selecionados datam de 1980 em diante, visto que esta pesquisa utiliza apenas trabalhos no formato de texto completo.

A Biologia e a educação física

Estudos analisados na RBCE, no período de 1979 a 1987, sobre Educação Física escolar mostram fortemente a presença da Biologia nas pesquisas realizadas com crianças em idade escolar. Há concentração de pesquisas marcadamente no campo da Biologia em 1984. Nas onze pesquisas analisadas, predomina o estudo do somatotipo, da antropometria, da aptidão física e de dobras cutâneas nas amostras (alunos). Em pelo menos seis estudos, existe a preocupação com a mensuração dos dados antropométricos, no início da década de 1980, por meio da aferição de dobras cutâneas em escolares. Isso sugere algumas indagações: por que essas crianças apresentavam diferentes valores dessa variável? Em que condições? Em quais idades? A somatotipologia foi outra subárea da Biologia citada nos textos, seguida da aptidão física. Outras variáveis estudadas foram a força de preensão manual em função da idade, sexo, peso e altura, índices de flexibilidade, capacidade física de trabalho a partir de treinamento com futebol, componentes do somatotipo e variáveis de performance física, força de membros superiores, incidência de cifose postural e ombros caídos em escolares. Os estudos analisados visaram, mediante uma revisão de literatura, a diferentes objetivos. Porém, em comum, eles têm a dimensão funcional do crescimento de crianças em idade escolar por meio de variáveis que podem sofrer mudanças de acordo com a maturação (SOARES; MIGUEL; MATSUDO, 1981). Para a realização dessas pesquisas, alguns instrumentos foram necessários para a aferição das medidas: estadiômetro, balança, compasso, dinamômetro, paquímero, fita métrica, teste de sentar e alcançar de WELLS e DILLON. Além desses o teste t, utilizado para determinar como um ou mais grupos diferem de uma população, a ANOVA, análise de variância, e a ANCOVA, que é a análise de covariância (THOMAS; NELSON, 2002).O tempo de duração dos testes variou de semanas até meses. As pesquisas consideradas caracterizavam-se por serem experimentais e descritivas (em sua maioria de cunho correlacional).
"A criança desenvolve tão rapidamente as suas capacidades e se determina tão profundamente durante os primeiros anos de sua vida que devemos assegurar a ela neste período uma grande atenção, colocando-a em situação de permitir o máximo desenvolvimento de todas as suas potencialidades" (DE ROSE; DE ROSE, 1980, p. 21).

Essa afirmação nos leva a crer que essa pode ser a razão fundamental de se praticar atividades físicas com crianças em fase de crescimento, pois esse é o momento no qual elas estão em processo de formação corporal e, por isso, necessitam de práticas orientadas para o seu pleno desenvolvimento. Oliveira (1985, p. 204) corrobora essa mesma idéia:

"É uma fase onde necessitam de um correto desenvolvimento das capacidades necessárias para a perfeita integração e participação do homem na sociedade, tendo na Educação Física o centro integrador dos desenvolvimentos propostos pelas outras disciplinas do processo educacional.")

Diante disso, as escolas passaram a estimular mais os escolares para o exercício de atividades físicas programadas para melhorar a aptidão física geral desses indivíduos (DUARTE, 1984).

A pedagogia e a educação física

Ao analisar a abordagem pedagógica nos trabalhos selecionados na RBCE sobre Educação Física escolar, nota-se um maior enfoque sobre como está sendo realizada a prática da Educação Física nas escolas de 1º grau, especialmente nas séries iniciais. Esses trabalhos, de cunho descritivo e experimental, se fazem mais presentes a partir de 1985. Há, notadamente, uma preocupação com as políticas públicas, métodos de ensino, o debate sobre currículo e metodologia de trabalho relacionados com a situação da Educação Física no contexto educacional. Essas pesquisas foram feitas por meio de questionários.

As produções realizadas tanto por Oliveira (1985), quanto por Moreira (1986) apontam o que acontecia no debate curricular da Educação física nas escolas no âmbito da RBCE. A Educação Física é vista ainda, por alguns educadores (e pela sociedade em geral), como fator educacional secundário na formação dos alunos. "É urgente desmistificar isto através de uma prática pedagógica diferenciada" (MOREIRA, 1986, p. 77). Para Soares (1986, p. 89), "A secundarização, e até mesmo a negação das atividades corporais como elemento constitutivo da Educação, tem seu fundamento no nosso entender na divisão do trabalho que rompe com a unidade da prática social". Ainda nessa perspectiva, Sobral, apud Soares (1986, p. 90), afirma:

"[...] o termo físico em vez de ser aplicado ao território corporal, pode ser referido à natureza dos meios utilizados e, então, a educação física passará a ser entendida como a disciplina educativa que utiliza meios de natureza física para promover as transformações implícitas no conceito de educação [...]."( )

Deve-se compreender a Educação Física como Educação, entendendo que o seu material pedagógico - o movimento - não se reduz a um ato puramente biomecânico, indo além disso (SOARES, 1986). É necessário assumir a Educação Física verdadeiramente como uma disciplina curricular, uma vez que legalmente ela o é. Porém, na prática pedagógica, ela vem se constituindo como atividade acessória, principalmente nas escolas de 1º a 4º série do 1º grau que atendem somente ao mínimo necessário estipulado pela legislação, passando por cima do número de aulas semanais destinadas à prática de Educação Física, por quem as aulas são ministradas e o tempo destinado à sua realização (OLIVEIRA, 1985). Isso se faz presente também, segundo Böhme et al. (1986), na prática da Educação Física na pré-escola.

Em vários estudos, admite-se que essa realidade traz prejuízos ao desenvolvimento físico, emocional, comportamental e intelectual de alunos que são privados de praticarem atividades físicas programadas e orientados por professores de Educação Física, visto que ela objetiva "o desenvolvimento da psicomotricidade do aluno", a integração social, o espírito esportivo e o companheirismo entre os escolares das séries iniciais do 1º grau.

A bibliografia analisada destaca que alguns professores incorrem em um grave erro ao basear o ensino da Educação Física das séries iniciais exclusivamente em atividades centradas na iniciação desportiva, deixando a desejar nos aspectos de formação dos escolares. Recomenda-se priorizar um atendimento baseado na educação do movimento e não no ensino do desporto aos alunos de 1º a 4º séries (PICOLLI, 1987). Contudo, a carência de preparação nas séries iniciais faz com que os alunos cheguem à 5º série, momento de darem início a atividades desportivas, sem as mínimas condições de equilíbrio, agilidade, elasticidade, lateralidade e outras valências físicas indispensáveis para tal prática, e que deveriam ter sido aprendidas (OLIVEIRA, 1985).
Considerações finais

Os achados da RBCE nos apontaram a influência dos grandes eixos da Biologia e da Pedagogia sobre a Educação Física escolar. A temática aqui tratada teve relevância no cenário educacional brasileiro a partir da segunda metade do século XIX e veio a se consolidar no interior do Movimento Escolanovista. Esse movimento reviu o trabalho escolar, suas condições e resultados mediante novos pressupostos e métodos de investigação. Já em meados do século XIX, admitiu-se que a infância deve ser objeto de investigação sistemática. Como pode ser observado, existe, aparentemente, uma linha de continuidade entre aquela orientação pertinente no âmbito do escolanovismo e a produção científica veiculada na RBCE, entre 1979 e 1987.

De acordo com o referido movimento, o estudo da criança é o ponto de partida para o conhecimento do educando em geral, sendo ampliado depois para as demais fases do desenvolvimento. Concebeu-se, então, uma ciência unitária da criança, a Pedologia, que considerava em conjunto os aspectos biológicos, psicológicos e educativos. As conclusões dos estudos biológicos passaram a exercer influência de ordem geral na concepção do processo educativo (LOURENÇO FILHO, 1929). Não é de se estranhar que os atuais estudos em Biodinâmica do Movimento Humano e Comportamento Motor Humano tenham a pretensão de ser traduzidos/pedagogizados para a intervenção na Educação Física escolarizada, mas devemos reconhecer que há muito o que se pesquisar sobre a interface Ciências Biológicas e Ciências Humanas e Sociais com contribuição para a constituição de uma teoria da Educação Física brasileira.

Os autores, Rachel Borges Corte é Bolsista de Iniciação Científica da UFES e o Dr. Amarílio Ferreira Neto é professor do Departamento de Desportos da UFES, ambos sendo membros do Instituto de Pesquisa em Educação e Educação Física (PROTEORIA), endereço eletrônico: www.proteoria.org

Referências

  • Bohme, Maria Tereza Silveira; KISS, Maria Augusta Peduti Dal’Molim; BUSSAB, Wilton de Oliveira. Análise da educação física em nível pré-escolar no município de São Paulo. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 7, n. 3, p. 98-103, maio 1986.
  • De Rose, R. C. F.; DE ROSE, E. H. Influências do fator sócio-econômico no desenvolvimento somático e neuro-motor do pré-escolar. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Caetano do Sul, v. 1, n. 3, p. 21-25, maio 1980.
  • Duarte, Carlos Roberto. Efeitos de dois programas de atividade física sobre a aptidão física geral de escolares. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 123-129, set. 1984.
  • Lourenço Filho, M. B., Introdução ao estudo da escola nova, São Paulo: ed. Melhoramentos, 1929.
  • MOREIRA, Wagner Wey. Educação física na escola de 1º grau: 1ª a 4ª séries. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 75-79, jan. 1986.
  • Oliveira, Amauri Aparecido Bássoli de. Diagnóstico do funcionamento da prática da educação física de 1ª a 4ª séries do 1º grau, em escolas da rede oficial de ensino, da zona urbana de Maringá - PR. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 6, n. 3, p. 203-214, maio 1985.
  • Piccoli, João Carlos J. A prática da educação física nas escolas estaduais de 1º grau no Rio Grande do Sul . Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 8, n. 2 e 3, p. 171-175, jan./maio 1987.
  • Soares, Jesus; Miguel, Maria Cristina; Matsudo, Victor K. R. Desenvolvimento da força de preensão manual em função da idade, sexo, peso e altura em escolares de 7 a 18 anos. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Caetano do Sul, v. 2, n. 2, p. 20-24, jan. 1981.
  • Soares, Carmen Lúcia. A educação física no ensino de 1º grau: do acessório ao essencial. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, São Paulo, v. 7, n. 3, p. 89-92, maio 1986.
  • Thomas, Jerry R.; NELSON, Jack K. Métodos de pesquisa em atividade física. Porto Alegre: Artmed, 2002.