Integra

O policial se dirige ao motorista inconformado: “Meu amigo, você acaba de sobreviver a um acidente e acha ruim perder seu carro? Logo você que perdeu até o braço!". Ao perceber a amputação, o acidentado entra em pânico e grita: "Meu Rolex! Alguém viu meu Rolex?

A piada de humor negro, em epígrafe, se espalhou pelo mundo todo.  E serve de inspiração também para este escrito. Afinal os objetos masculinos denotadores de status são mistos de tradição, funcionalidade e exclusividade: canetas finas, pastas e carteiras de couro, alta alfaiataria, modelos de óculos exclusivos de grau e sol e relógios, são alguns deles.

Esses últimos vêm perdendo a sua função primordial:  mostrar as horas de forma pronta e acessível, para um suposto controle individual do tempo.  Embora usados para compor um estilo, os relógios de pulso não são mais necessários, na atualidade, em termos de funcionalidade, uma vez que isso pode ser feito pelos celulares e computadores pessoais.

Então, qual a razão de continuarem existindo, alguns com preços exorbitantes? Uma das possíveis razões é que eles sempre foram, e continuam sendo, sinônimos de status e agora, mais que nunca, signos de poder, principalmente masculino. Tudo reforçado pela tradição e exclusividade. As marcas prometiam precisão e quando maior era ela, mais caros ficavam eles. Assim, os relógios transformaram-se em desculpa para ostentação das grifes, e demonstração de status, baseados na capacidade do investidor.

Há também as coleções que ficam guardadas em gavetas de closets, para escolha dos rodízios feitos de acordo com o traje e a ocasião, ao gosto do proprietário.  Alguns deles fazem investimentos transformando as peças em moedas de troca. Outros, menos afortunados, colecionam exemplares “fakes”, uma forma de se aproximarem do status dos verdadeiros detentores, ou porque são apaixonados mesmo pelos designs e pelas marcas.

Entre os mais famosos estão os relógios da suíça ‘ Audemars Piguet’, geralmente vendidos por 20.000 euros. Outros modelos da marca, e de grifes como Richard Mille, Patek Philippe, Jacob & Co etc., alcançam preços muito acima desse valor.

Mas, a também suíça Swatch provocou tumultos e verdadeiras febres de consumo, ao lançar a coleção Royal Pop, uma série de oito modelos criada em conjunto com a Piguet, pelo preço de 385 euros.

Os preços mais que convidativos provocaram filas intermináveis antes do lançamento em Londres, Paris, Nova York, Milão e Genebra, com acampamentos em frente as lojas da Swatch, formados até uma semana antes. Isso provocou confusões com intervenção da polícia, fechamento temporário de lojas, brigas feias e desmaios. 

A empresa informou que a coleção não é limitada, e que continuará disponível, não havendo necessidade de corrida às lojas. Mesmo assim, a busca pelo consumo continuou podendo ser comparada às filas que se formam em frente a lojas da Apple, quando um novo modelo de Iphone é lançado. E aqui também isso não se dá pelos usuários pensarem que a promoção pode acabar, mesmo porque o novo modelo de ‘phone’ não está em promoção, e pelo contrário tem preços muitos mais elevados do que os anteriores, nem pelos avanços tecnológicos, muito pequenos, de uma edição para outra.

Status e ostentação podem ser observados através da História, mas a busca desenfreada por eles, é um comportamento central da sociedade atual, desencadeando campanhas de marketing pessoal agressivo.  Pode significar preenchimento de vazios emocionais, valorização da aparência e não da personalidade, e a compensação de sentimentos de inferioridade, mostrando, quando adultos bem-sucedidos, a ausência que causou dor e privação na infância.

Algumas pessoas também confundem a ostentação como marca de autoridade e de respeito, símbolos de uma vida que não precisa de retoques porque é instagramável, “perfeita, brilhante e sorridente”.

Do movimento “Old money”, passando pelos “Novos ricos” e o “Funch ostentação”, e com diversas gradações, isso se espalha entre nós.

Quem pode esbanjar dinheiro compra em lojas exclusivas, bebendo champagne, em ambientes acolhedores, protegidos, calmos e tranquilos.  Mas a possibilidade de imitação da posse de objetos denotadores de status “empurra” consumidores ávidos, de classe média, para filas, com possibilidade de agressões, em noites de vigília e confusão. 

Até na busca pelo luxo e ostentação as desigualdades entre as classes podem ser verificadas, entre o tratamento VIP, nas salas exclusivas e as filas das ruas. Antes iam os anéis, mas ficavam os dedos. Agora vão-se os braços, mas ficam os relógios Rolex!

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