A cidade como espaço de beleza, convivência e lazer
Integra
Os estudos do lazer, no mundo ocidental moderno, nascem e ganham impulso
com o processo de urbanização. O lazer, tal como o conhecemos hoje, é uma
problemática tipicamente urbana, característica das grandes cidades, porém
ultrapassa suas “fronteiras”, uma vez que os grandes centros urbanos a levam,
com as mesmas características, através da mídia, para outras regiões do país,
nem tão grandes, nem tão urbanizadas. Os conceitos de espaço e
equipamento frequentemente se confundem. Mas, é importante considerar que
embora os equipamentos para essa finalidade sejam em número reduzido
proporcionalmente às populações, e mal distribuídos, o espaço para o lazer é
fundamental. Assim, democratizar o lazer implica em democratizar o espaço.
E se a questão for colocada em termos de vida diária da maioria da população,
não há como fugir do fato: o espaço para o lazer é o espaço urbano. As
cidades são os grandes espaços e equipamentos de lazer. Uma análise de
situação, da questão do espaço e dos equipamentos de lazer, põe em
destaque algumas características indesejáveis, quando se pensa em termos de
democratização. Se procedermos à relação lazer/espaço urbano, verificaremos
uma série de descompassos, derivados da natureza do crescimento das
nossas cidades, relativamente recente, em termos históricos, e caracterizado
pela aceleração e imediatismo.
O aumento da população urbana não foi acompanhado pelo desenvolvimento
de infraestrutura adequada, gerando desníveis na ocupação do solo e
diferenciando marcadamente, de um lado as áreas centrais, ou os chamados
polos nobres, concentradores de benefícios, e de outro a periferia, com seus
bolsões de pobreza, verdadeiros depósitos de habitações. As grandes
distâncias entre os locais de trabalho e moradia obrigam a massa de
trabalhadores a despender uma parcela razoável do seu tempo diário na
locomoção, muitas vezes saindo e voltando a suas casas sem ver a luz do sol.
Mesmo saqueada e esvaziada dos valores do encontro humano, a cidade, no
entanto, não é eliminada. Basta considerar que, em estudo recente, a cidade
de São Paulo, considerada “selva de pedra” e “túmulo do samba’, foi avaliada
pelos seus moradores, e aparece no ranking do levantamento “Happy City
Index 2026” entre as 250 cidades com melhor qualidade de vida urbana do
mundo.
As cidades resistem, à medida que o valor de uso do espaço não é eliminado
de vez. E ele reaparece, entre outras possibilidades, nas práticas de lazer, da
perspectiva de desenvolvimento pessoal e social, do encontro e da
convivencialidade, do corpo, em contraposição ao lazer mercadoria – valor de
troca –, ou na recuperação da festa.
Essa situação é agravada sobretudo se considerarmos que, cada vez mais, as
camadas mais pobres da população vêm sendo expulsas das regiões
consideradas nobres, para a periferia, e, portanto, afastadas dos serviços e dos
equipamentos específicos: justamente as pessoas que não podem contar com
as mínimas condições para a prática do lazer em suas residências e para quem
o transporte adicional, além de economicamente inviável, é muito desgastante.
Nesse processo, cada vez menos encontramos locais para os folguedos
infantis, para o esporte amador, ou que sirvam como pontos de encontro de
comunidades locais. Assim, aos espaços destinados ao lazer pouco restou. O
lazer também passou a ser visto pelos grandes investidores como uma
mercadoria.
É preciso que o poder municipal entenda a importância dos espaços urbanos
de lazer nas cidades, antes que empresas os transformem em produtos
acessíveis somente a classes sociais mais altas. Se o lazer é colocado pela
sociedade capitalista enquanto um momento de consumo, o espaço para o
lazer também é visto como um espaço para o consumo. Veja o debate recente
sobre a privatização de espaços públicos, incluindo parques e jardins.
Mas, o que se percebe hoje é uma clara alusão ao entretenimento como o
“lazer mercadoria”. Não atividades populares ligadas à alma da população, mas
“popularescas”, no sentido de nivelamento “por baixo”, com o único objetivo de
“desviar a atenção de”, e esse “de”, quase sempre, pode ser entendido como a
triste realidade pessoal e social dos seres humanos. É a distração, significando
alheamento e não, como “atração por um outro mundo”. Um mundo diferente,
de sonho e invenção, de uma sociedade mais justa, de um ser mais humano. E
um dos fatores mais importantes, ainda que não único, para o crescimento do
“lazer mercadoria”, em detrimento do lazer de criação e participação culturais é
a falta de espaços vazios urbanizados, e a valorização do espaço urbano como
possibilidade de lazer, de vivências lúdicas e de convivencialidade face-a-face.
E se o assunto for colocado em termos da vida diária, do cotidiano das
pessoas, não há como fugir do fato: o espaço de lazer é o espaço urbano.
Nesse sentido, a cidade acaba se tornando o grande espaço de lazer para a
maioria da população. A manutenção e animação de equipamentos podem
ser instrumentos importantes na ressignificação do espaço urbano. O
poder público deve criar equipamentos e espaços e requalificar ou
renovar os antigos. Está problemática do acesso aos
equipamentos precisa ser analisada também em âmbito metropolitano, já que
muitas vezes ocorre a concentração de equipamentos nas cidades sede de
regiões.
Mas, não basta a ação do poder público. Há que haver também a participação
popular exercendo sua “cidadenia”. Diariamente somos surpreendidos com
várias formas de Intervenção Urbana, com proteção de espaços verdes,
recuperação de rios e lagos, manutenção coletiva de jardins, de matas que
ainda existem nas cidades, de praças administradas pelas comunidades, de
associações criadas para defesa dos bens culturais partes do Patrimônio
Ambiental Urbano.
Mas, duas notícias sobre Intervenção me chamaram a atenção pela
simplicidade e possibilidades de engajamento, ambas vindas da Suíça.
Demonstram que a Mobilidade Urbana pode estar ligada ao prazer de se
vivenciar a Cidade, o grande espaço de lazer, quando ele é considerado da
perspectiva do prazer e do desenvolvimento humano.
Vamos à primeira, O BUS stop:
Imagine um ponto de ônibus que é uma escultura interativa lá formada com a
palavra BUS, escrita com letras gigantes, altas, largas e convidativas para
adultos e crianças brincarem enquanto esperam os coletivos. Aqui poderiam
ser feitos com a palavra ÔNIBUS, ou mais popularmente BUSÃO.
Os autores dessas obras as definem como “um espaço para desfrutar a
espera”, que é transformada numa oportunidade de encontro. Assim a
Mobilidade Urbana pode estar ligada ao prazer de se vivenciar a Cidade, o
grande espaço de lazer, quando ele é considerado da perspectiva do prazer e
do desenvolvimento humano.
Agora vamos à segunda, A Linha Zero, um ônibus que não leva a lugar
nenhum
Trata-se de um projeto de arte conceitual criado para melhorar as conexões
sociais. São oferecidas viagens de ônibus gratuitas, mas sem rota e destino
especificados. O objetivo e dar incentivo a convivencialidade para que os
passageiros conversem entre si, e contribuir para que as pessoas não se
sintam isoladas. Com a falta de horário fixo o ônibus acaba virando um espaço
público em movimento, e há incentivo ao relaxamento, ao aguçamento da
percepção e da interação com estranhos.
O projeto já está funcionando, em caráter experimental, e chamando atenção
mundo afora, pelas possibilidades de explorar a arte e o design público de
combater a solidão, e reformular a forma como pensamos o transporte para o
futuro.
E não me venha dizer:_ “Ei, lá vem ele com exemplos da Suíça, uma realidade
tão diferente da do nosso Brasil, em termos socioeconômicos.” Mas, não se
trata de Economia e sim de Cultura, que guardam relações de
interdependência, mas de relativa autonomia também.
Além disso, como disse anteriormente, no nosso país há iniciativas coletivas de
transformação do espaço urbano visando a busca pela bela cidade,
preservando e revitalizando espaços e equipamentos, que fazem parte do
Patrimônio Ambiental Urbano. Mas, porque não incorporarmos também
experiencias internacionais adaptando-as a nossa realidade?
O objetivo é viver a cidade, valorizando-a e despertando, através do lúdico, o
prazer e o orgulho, contribuindo para sua preservação. São oportunidade de
vivência do lazer e do ócio contemplativo com muito mais beleza e convivência
entre as pessoas.
A cidade, e os cidadãos ganham em beleza, em lazer, e o Meio ambiente
também agradece.