A Ciência contra-ataca
Em Agência Universitária de Notícias - USP v. 40, n 68, 2007.
Integra
Renato Sabbatini, professor da Unicamp, dá palestra no IGc sobre analfabetismo científico
Por Arthur Arantes
São Paulo (AUN - USP) - De um lado do córner, com cerca de 300 anos, a ciência moderna, fundamentada na razão e no empirismo. Do outro lado, ativa desde o início da humanidade, a fé. Os últimos rounds têm mostrado a força que a religião possui. Um bom exemplo é a introdução do ensino do criacionismo [tese que houve um criador que originou os seres vivos] nas escolas públicas do Rio de Janeiro para explicar a origem dos seres vivos. Algo preocupante para pessoas como o professor da Unicamp e membro da Sociedade Brasileira dos Céticos Racionalistas (SBCR) Renato Sabbatini. Ele deu uma palestra sobre analfabetismo científico no Instituto de Geociências da USP. A apresentação fez parte da “Jornada em Defesa do Pensamento Científico”, organizada pelo professor Arlei Benedito Macedo.
“Como propagar analfabetismo científico se o povo é analfabeto?”. O professor começou mostrando dados para comprovar a falta de instrução do brasileiro. “Apenas 10% dos adultos possuem ensino superior. Da população brasileira, 42% lêem apenas a Bíblia. Alguma dúvida sobre a fonte de irracionalismo?”.
E quem freqüenta boas escolas também não recebe ensino científico de qualidade. Sabbatini afirmou que o ensino correto do pensamento da ciência é raro. E que, com raras exceções, não se ensina o funcionamento do pensamento científico, apenas uma descrição dos avanços da ciência. “Os professores fazem o que Paulo Freire chama de ensino bancário. O professor chega, deposita conhecimento na cabeça dos alunos e vai embora. Não se estimula a reflexão crítica”.
Para o professor, essa falta de conhecimento é preenchida pelos chamados“discursos fáceis”, como a homeopatia, o criacionismo e as religiões fundamentalistas. Ele inclui nesta classificação a maioria das religiões evangélicas no Brasil. Quanto ao catolicismo, ele deixa claro que “existem dois tipos de católicos: os moderados e os fundamentalistas.” No caso, os moderados assimilam melhor o pensamento científico que os últimos.
Sabbatini sugeriu uma mudança no modo de ensinar: em vez de educação em ciência, educação para ciência. “Em vez de falar sobre aulas de termodinâmica, o professor pode pedir para o aluno perguntar para o pai quanto o carro dele consome de gasolina por quilômetro rodado.” O professor acredita que o foco deve ser o ensino fundamental: “Depois que os neurônios acostumam com a ignorância, é difícil de mudar”.
A solução é a Globo
Outro problema, na visão do professor, é que não se valoriza a figura do cientista no país: “Quando você pensa num cientista o que você pensa? Louco”. Além disso, ele acredita que há um “modelo conspiratório e paranóide em relação aos cientistas e técnicos” graças à mídia, que valoriza os erros e a corrupção da classe científica.
Renato propõe que as fundações de fomento à pesquisa financiem a melhora da imagem do cientista: “O CNPq poderia pagar a Globo, para um roteirista fazer um cientista legal. Dá resultado”.