Integra

Reordenamento do capitalismo


 Com olhos de quem enxerga a luta de classes apontada por Giannotti ( In: Marx 1999 ), como motor da história , estes manuscritos procuram resgatar o marxismo como algo central nas análises de relações humanas, principalmente nas mudanças que sociedade vem sofrendo atualmente.


 A atual fase do modo de produção capitalista é denominado de neoliberalismo. Este sistema assume a posição de que não haverá salvação para a humanidade, onde a exclusão é considerado algo necessário para o desenvolvimento. Segundo Anderson (In: SADER e GENTILI 1995), o crescimento desta teoria começou a partir de 1973, quando o capitalismo avançado caiu numa grande crise atribuindo aos trabalhadores e suas conquistas sociais a culpa pelo esgotamento das bases de acumulação do capitalismo.


 A solução neoliberal para essa crise, era manter um Estado forte, sob o ponto de vista do poder político, capaz de romper o poder dos sindicatos e economizar nos gastos sociais e intervenções econômicas. Para esse crescimento retornar, a estabilidade monetária era a principal meta, então a contenção de gastos e criação de um exército de reserva de trabalho eram fundamentais para essa causa. Outro fator importante era promover uma reforma fiscal, com o objetivo de incentivar grandes agentes econômicos ( ibid. )


 Portanto, segundo Frigotto (1996), o que entrou em crise nos anos 70 foi a solução da recessão dos anos 30. Então, ela não é resultado da interferência do Estado, da estabilidade dos trabalhadores e das despesas sociais, e sim um elemento constituinte e estrutural do movimento cíclico capitalista. Mas mesmo com todas condições criadas em favor do capital, a teoria neoliberal fracassou. A taxa de acumulação dos anos 80 diminui em relação ao anos 70, além de não conseguir diminuir os gastos sociais, mesmo tomando todas as medidas para contê-los.


 Todos os fatores mencionados sobre o atual sistema capitalista, faz com que haja profundas mudanças nos processos das relações humanas, principalmente no âmbito educacional. Apresentando esses fatos poderemos fazer uma análise mais profunda sobre os processos de reordenamento que estamos passando no interior da EF.


O papel da educação


 Antes de entrarmos na discussão dos anseios do capital no que diz respeito ao modelo de qualificação para o mundo do trabalho, é interessante apresentar alguns acontecimentos que vêm ocorrendo na sociedade brasileira. O atual momento é de mudanças e reestruturações de todos os setores sociais do país, fazendo que na luta por um reordenamento haja um confronto entre projetos antagônicos de sociedade.


 O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso vem dando ênfase as reformas liberalizantes propostas pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). Portanto, segundo Leher (1999, p.16) "... o leitmotiv dessas reformas é a ideologia da globalização, e a recusa destes fatores levaria a marginalidade política e econômica ". Devido a esses fatos ocorreram profundos cortes de gastos com a educação no país, onde esse setor passa a ser só um fator para formação de "capital humano", adequados ao novo padrão neoliberal. (SOARES; In: TOMASSI, WARDE e HADDAD 1998).


 Na trilha dessas mudanças, não restam dúvidas que no campo educacional tudo vem sendo muito alterado. Segundo Neves (In: LESBAUPIN 1999), ao mesmo tempo em que os educadores organizados em sua entidades de classes faziam críticas às mudanças implementadas, ocorria no cotidiano escolar um "apressar-se" por parte do governo em relação à antiga luta dos educadores: autonomia universitária, autonomia da escola, descentralização das ações, ensino de qualidade, valorização do magistério e universalização da escola básica. É nesse sentido, que Gentili (In: SILVA, GENTILI 1995), enfatiza a preocupação do Estado neoliberal na educação, mostrando que ele quer ser mínimo na geração de recursos e máximo na condução de políticas de formação do trabalhador.


 Essa necessidade de formação exigida pelo atual modo de produção exige mudanças nos papéis sociais da educação e na organização deste sistema educacional, direcionando a escola a se subordinar aos interesses do capital, ocorrendo assim metamorfoses sobre a quantidade e qualidade do trabalho, assim como nas demandas de qualificação humana.


 Surge assim uma nova forma de relação entre ciência e trabalho, passando do modelo fordista/taylorista, pautado na divisão do trabalho (Kuenzer 1995), para o modo toyotista, pautado no principio da flexibilidade, mais participativo, descentralizado, autônomo e com maior capacidade de abstração do que o modelo anterior (Kuenzer 1999). Com isso ocorre uma alteração qualitativa na forma de ser do trabalhador, o que acarretou numa maior qualificação do trabalho e uma maior desqualificação do trabalhador.


 Portanto, segundo Silva (1997b), nessa perspectiva o currículo escolar deverá ser mais por que fazer e não como fazer. Com isso, o fator instrução passou a ser fundamental para as novas propostas de formação de mão de obra. Cada vez mais os empregos são menos estáveis, exigindo mudanças de função, onde o trabalhador versátil será privilegiado. Tudo isso mostra que apesar de possuir fatores que favoreçam o aperfeiçoamento do trabalho, a nova organização não deixa de possuir desigualdade e traços antidemocráticos, como em toda sociedade capitalista.


 Para Andrade (1996), o objetivo dessa nova forma de trabalho é a construção de um intelectual urbano de novo tipo para atuar tanto no trabalho como na sociedade. Então, a nova educação orienta-se na valorização e defesa do entendimento entre as classes, a partir da superação da visão marxista de trabalho X capital.


 Assim conforme enfatiza Nozaki (1999), o que verificamos no Brasil são políticas de ajustes estruturais, que tem como objetivo qualificar para o novo modo capitalista. Exemplos destas reformas na educação são a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), da elaboração de documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e as Diretrizes Curriculares. Dentro deste contexto de amoldamento da "nova" sociedade e que tentarei refletir sobre o reordenamento da Educação Física brasileira.


  3)Reordenamento do trabalho e educação física


 Nesse novo modelo de qualificação imposto pela globalização, segundo Silva (op.cit), a EF parece ser perfeitamente descartável do âmbito escolar.
Então conforme Ghiraldelli Júnior (1992) mostra, a EF esteve sempre servindo a hegemonia dominante, sendo imposta no interior da escola pelas suas diferentes concepções.


 Por não possuir uma função específica nesse novo modelo de sociedade, a EF iria ser excluída do sistema formal de ensino. Mas devido a pressões de movimentos do âmbito da EF, ocorreu uma mudança no texto da nova LDB,9394/96: "A Educação Física integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se as faixas etárias e as condições da população escolar, sendo facultativa no ensino noturno".(Souza, Vago; In: CBCE 1997, p. 125)


 Com isso, os movimentos organizados conseguiram defender-se temporariamente de sua exclusão do campo formal de ensino. Mas é importante salientar que a atual LDB não assegura a sua presença no seio escolar. Apesar destes fatores vários autores afirmam que sua prática será construída dentro do cotidiano escolar (Brito, In: CBCE 1997; Souza, Vago, op.cit ).


 Também vários autores chamam à atenção para os PCNs. ( PALAFOX e TERRA, 1997; SOUZA, et al In: CBCE 1997 e GRUPO DE TRABALHOS AMPLIADOS, In: CBCE 1997). Entretanto somente Taffarel (1997), chama a atenção não só para a LDB e PCNs, como também para autonomia universitária e diretrizes curriculares para o ensino fundamental, fazendo com isso que os trabalhadores da EF, por meio de um corte de classes, percebam tais manobras do Governo em torno da educação formal.


 Mas no atual momento ocorre uma expressiva expansão do trabalho no setor de bens e serviços e na economia informal, fato comprovado pelo crescimento do trabalho parcial, temporário, subcontratado, terceirizado, enfim precarizado. Então, essas atividades tem como características a precariedade do emprego e de salários, desregulamentação das condições de trabalho, regressão dos direitos sociais e ausência de proteção sindical, onde a tendência e a de reduzir o número de trabalhadores centrais e empregar aqueles que entram facilmente e são demitidos sem custos, havendo assim uma heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora (ANTUNES 1995).


 Devido a estes fatores, as forças reacionárias organizam-se para retomar e ampliar a defesa de seus interesses sob o rótulo de "modernização nacional", aproveitando-se do fato que não obriga a presença da EF no ensino formal, os setores conservadores se reordenaram de modo corporativista e de adaptação ao neoliberalismo, em favor das atividades físicas do meio não formal, por meio da regulamentação da profissão.


 Com isso, Silva (1997a) aponta para uma liberalização do trabalhador, passando da função de professor para de profissional liberal do setor de bens e serviços, função que acarretará melhores condições de trabalho e salários.


 Mas conforme apontam CASTELLANI FILHO, 1996; FARIA JÚNIOR, ET AL 1996; NOZAKI op.cit ; PALAFOX e TERRA 1996, esse processo é uma adaptação à sociedade excludente neoliberal, retirando a discussão dos direitos trabalhistas e enfatizando o mercado das atividades físicas, que surgem como alternativa para o enfraquecimento da EF no campo escolar. Em contraposição, Steinhilber (1996) afirma que essas atividades são "terra de ninguém", e devemos ocupar antes que outros o façam.


 Outro fator citado por Nozaki (op.cit) é a falta de questionamento contra os donos dos meios de produção, onde a relação de poder dos donos do capital continuará, ainda que pela exclusividade dada por força de lei, aos trabalhadores da EF nos mercados não formais. Pois em momento algum se fala sobre mecanismos de garantia desta forma de emprego.


 Então é necessário que todos os trabalhadores da EF se unam, para atacar os detentores dos meios de produção e não os trabalhadores de outras áreas do conhecimento, resgatando com isso o marxismo, tão combatido e esquecido nos tempos atuais, mas que continuam mais vivo do que nunca nas relações de exploração que o capitalismo nos submete.


 Portanto, todo esse reordenamento que está ocorrendo se encaixa na ótica de adaptação a essa sociedade. E como sujeitos participantes da sociedade, devemos nos manifestar em nossa prática cotidiana, como indivíduos transformadores da realidade ou somente como mais um que irá se calar diante de tantas injustiças que o capitalismo produz.


Obs.


1) O autor é acadêmico do curso de Licenciatura em Educação Física, da FAEFID da UFJF
2) Trabalho realizado na disciplina EF: Reordenamento do mundo do trabalho.
3) O autor foi orientado pelo Prof. Ms. Hajime Takeuchi Nozaki , da FAEFID da UFJJ.


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