Resumo
A presente tese teve como objetivo principal compreender o processo de coconstrução da cultura lúdica das/pelas crianças em contextos informais de aprendizagem. Para isso, desenvolvemos três estudos, sendo um estudo teórico e dois estudos empíricos, correspondentes a cada objetivo específico da tese. O estudo teórico caracterizou-se como uma revisão narrativa, assente nos conceitos de aprendizagem informal, ambiente de aprendizagem, possibilidades e potencialidades de jogo, mediação semiótica e vivência. A partir dessa revisão, evidenciou-se que os contextos informais de aprendizagem, ao propiciarem liberdade, desafio e imprevisibilidade, favorecem a coconstrução da cultura lúdica pelas crianças. Os estudos empíricos foram desenvolvidos com crianças entre seis e onze anos em uma escola pública de ensino fundamental I, de tempo integral, do município de Americana-SP. O primeiro estudo empírico consistiu em uma pesquisa qualitativa com base em "encontros com crianças", o que possibilitou observar os "episódios lúdicos de aprendizagem informal" no contexto do recreio. A pesquisa revelou que as crianças desenvolvem jogos e brincadeiras, por meio de processos educativos autônomos, específicos para cada tipo de atividade lúdica. O segundo estudo empírico compreendeu uma pesquisa qualitativa a partir de "encontros-conversa", que permitiu identificar as relações com saberes nas "trajetórias lúdicas" das crianças. Os resultados permitem identificar que a cultura lúdica das crianças é coconstruída com base em relações singulares, sociais, afetivas e ambientais com os saberes dos jogos e brincadeiras. Dentre as principais contribuições desta tese está a compreensão de que o processo de coconstrução da cultura lúdica das/pelas crianças é uma relação situada da criança com o mundo, na qual ela se constitui como sujeito do saber lúdico e protagonista de suas próprias produções, inclusive em espaços institucionalizados, como a escola. No processo de apropriação e ressignificação de jogos e brincadeiras — seja sozinha, entre pares ou com adultos — a criança estabelece distintos tipos de relação: (i) relações sociais no/do jogo; (ii) relações com o ambiente de jogo; e (iii) relações epistêmicas no/do jogo. Além disso, os métodos desenvolvidos nos estudos empíricos legitimam a importância das pesquisas "com" crianças e permitem estabelecer implicações práticas no contexto pedagógico da Educação Física