Editora Editora Nós. Brasil 2026. None páginas.

Sobre

Falar sobre futebol é falar sobre o mundo. É essa a premissa deste afetuoso bate-bola que Jamil Chade e Milly Lacombe fazem neste A Terra é redonda. Trocando passes pelo campo minado, vão do êxtase do gol à melancolia de um mundo que parece implodir às vésperas de uma Copa do Mundo (sediada pelo país perpetrador da violência global), e viajam ao passado para recordar o início de suas relações com o jogo. Milly, no Maracanã vendo o Flu, e depois no Pacaembu se apaixonando pelo Corinthians — numa interessantíssima demonstração da não-monogamia futebolística; Jamil, encantado com o São Paulo de Telê Santana no início da década de 90, em pleno Morumbi que pulsa com as conquistas do mundo e do continente.

O fato é que há uma ambiguidade inescapável na relação que temos, leitores ou autores, com o futebol. O esporte é marcado, desde sempre, por uma cultura profundamente “masculinista”, tóxica, que Milly aponta, e Jamil reconhece. E, por outro lado, é encantador, avassalador para as emoções. É a celebração, a festa, a comunhão, o abraço emocionado no estranho ao lado, que veste a mesma camisa; mas é também a violência, a ganância, a corrupção. É a força da grana e do patrocínio, canalizada por instituições controversas como fifa e cbf, que fecham os olhos para a tragédia bélica  e humanitária que assola o mundo nos últimos anos, e se regozijam com os bilhões de dólares que faturam anualmente.

Num dos momentos mais emocionantes do livro, Milly narra seu sobrinho vestindo a camisa do São Paulo como pijama, momentos depois de Washington cabecear para o fundo da rede, nos acréscimos do segundo tempo, pelas quartas de final da Libertadores de 2008, classificando o tricolor carioca. É a imagem que condensa perfeitamente a mensagem deste livro terno e verdadeiro, escrito com a maestria de dois dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, e prefaciado pelos craques Tostão e Djamila Ribeiro. O futebol é vestir a camisa do time do coração após a derrota, é dormir com ela. É crer na possibilidade da sobrevivência, mesmo nos acréscimos, com a torcida já calada e apreensiva. É ver de perto a guerra e, por isso mesmo, querer com extrema convicção a chegada da paz.

Acessar