Integra

“Solidão, que poeira leve
Solidão, olha, a casa é sua
O telefone chamou, foi engano
Solidão, que poeira leve...”

Tom Zé

“A solidão é fera, a solidão devora
É amiga das horas, prima-irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração”

Alceu Valença

A solidão é uma das características marcantes da sociedade em que vivemos, e suas causas são as mais variadas, atingindo idosos, mas também jovens no início de suas vidas como adultos, e as causas podem ser as mais variadas, como o enfraquecimento das relações familiares, o adiamento dos casamentos ou a opção por não os fazer, o aumento da expectativa de vida, a busca de independência, o abandono, enfim, uma série de fatores.

Além do sofrimento que pode causar nas pessoas a solidão, se não for por escolha - a “solitude”, é mote para uma série de soluções para amenizá-la ou para enfrentar os problemas que dela decorrem, e como não poderia deixar de ser, produtos são lançados no mercado, com objetivos bem interessantes, sempre vistos como mercadorias, que buscam lucro, além de mitigar situações estressantes, perigosas, e que envolvem até risco de vida.

São muitos os dispositivos que monitoram a saúde dos solitários, facilitam suas tarefas ou amenizam o sofrimento da rotina diária.

A solidão, na nossa época, é vista como algo extremamente negativo, a ponto de sua representação na arte, músicas, filmes, seriados, teatro e literatura ser apontada como destino para pessoas más, sem o caráter social esperado, desviantes dos padrões, e coisas parecidas: “Tanto mal fez que ficou sozinho”; “Seu castigo é ficar só”; “Minha vingança é te ver sozinho”, etc.

Tudo isso é agravado pela perspectiva de morrer sozinho, sem ninguém para ajudar em situações graves de saúde e acidentes domésticos, ou sem que ninguém fique sabendo, fim trágico que a grande maioria das pessoas teme, e o que é pior, ficar morto em decomposição, na própria casa, pela ausência da descoberta do óbito por amigos ou familiares. Há pessoas que buscam ter famílias, e principalmente filhos, por esse temor.

E, entre outros objetivos, para amenizar esse medo, foi criado até um aplicativo, o “Sileme”, na China, ou “Você está morto?”, onde as pessoas precisam confirmar que estão vivas a cada quarenta e oito horas, e se não o fizerem por dois dias consecutivos um sinal automático é enviado a uma pessoa previamente cadastrada.

Imediatamente o aplicativo chamou muito atenção por seu nome mórbido, mas também pela aceitação entre idosos e jovens que moram sozinhos, disparando no ranking de downloads daqueles que sofrem da solidão urbana, nas grandes cidades naquele país.

Com a grande viralização e expansão internacional os fabricantes alteraram o nome para “Demumu”, ou aplicativo de segurança de prova de vida, e versões específicas para os cuidados requeridos por idosos, “Zaime Zaime”.

Ele se tornou o aplicativo de celular pago mais baixado da China, país onde são estimados mais de 200 milhões de pessoas, em 2030, morando sozinhas. E vem sendo aperfeiçoado, incluindo várias funções suplementares, o que atinge principalmente o aplicativo específico para idosos, ou de pessoas vulneráveis, em geral.  Assim, vem demonstrando sua utilidade para os usuários e pessoas que ainda se importam com eles.

Apesar da onipresença das novas tecnologias de informação e comunicação, pessoas vem se sentindo cada vez mais solitárias. A internet e suas possibilidades de compras, de lazer, de relacionamentos virtuais e as redes sociais, ao mesmo tempo que aumentam a conexão entre as pessoas, também tem limites de relações interpessoais, de contatos face a face, de calor humano, de convivência

É sintomático que o aplicativo chinês, que vem sendo exportado para outros países, um dispositivo virtual, seja utilizado para tratar problemas derivados da solidão.

Escolha ou imposição pelas circunstâncias, liberdade ou prisão psicológica, melancólica ou romântica, punição ou prêmio, conexão com o próprio interior ou desconexão com os outros e o mundo, a solidão pode ser vista e sentida de várias perspectivas. E está ligada a amores, amizades, relações familiares, e a medos entre eles o da morte solitária.

De qualquer modo será sempre aproveitada, buscando lucros indiretos, no consumo das artes em geral que inspira, ou nos dispositivos que buscam de alguma forma mitigá-la, ou oferecer soluções práticas para os problemas que acarreta.

Talvez amenize o “caminhar lento dos relógios”, ou a expectativa frustrada do “telefone chamar, por engano”.  Quer conferir?