BEBÊS ‘QUASE’ REAIS, ou a falta que o lúdico faz...
Integra
Mais uma vez tivermos que lidar com um assunto viralizado e polêmico - a questão dos “bebês reborn” dividiu opiniões e foi muito além do gostar ou não gostar, e envolveu, como algumas publicações sugeriram ligações com questões de saúde mental, limites entre realidade e ludicidade, entre outros aspectos.
Surgiram outras explicações que passaram por questões de gênero, e até as que viam os bebês como ferramenta terapêutica em casos de idosos com perda da memória, por exemplo, ou em situações de estresse emocional, como luto e separação.
Tudo motivado pela existência de maternidades reborn, com simulações de parto, pulseirinhas, incubadoras, teste de pezinho, cursos para pais, cadernetas de vacinação, e funcionários que reivindicavam licenças-maternidade reborn de suas empresas. Igrejas proibiram batizados, parlamentarem apresentaram projetos de lei os mais variados, de proibição do atendimento pelo SUS, ou de preferências em filas, etc, até oferecimento de tratamento psicológico para os “pais”.
Brincar com bonecas pode ser uma atividade lúdica fascinante, que envolve o faz de conta saudável, sem exacerbação. Mas adotar bonecas como bebês, com certidão de nascimento, etc, já denota alguma confusão de realidade.
Como brinquedo, olhar o bebê reborn como suporte de brincadeira, pode ser muito saudável, como exercício de ludicidade que auxilia no bem-estar, reduz o estresse, relaxa, descansa e contribui com a criatividade de crianças e por que não dizer dos adultos.
“No princípio era o verbo” dizem até Escrituras sagradas, e o verbo, a linguagem, nasceu de um jogo de palavras. O “Homo ludens” deu início a cultura. E jogo (ludus) teve início com a brincadeira (paedia) de regras mais suaves, ou sem elas, com espaço grande para a criatividade e envolvimento, que englobam o “faz de conta”, o “faz de novo”, a imitação, a sorte/azar, a vertigem e a competição.
Quando qualquer um desses elementos é exacerbado, torna-se patológico, como a competição nos esportes, gerando brigas e até mortes, ou a sorte/azar nos jogos de apostas, como sempre ocorre e acontece mais uma vez com o exagero das “bets”.
Isso não ocorre somente com as bonecas reborn, e nessa esteira, pode ser citado o exagero com os pets, e com a nova moda, que deve ser passageira como todas são, dos bichinhos peludos e fofinhos da internet com identidade própria.
Talvez se tivéssemos uma sociedade que valorizasse o lúdico na vida de crianças e adultos, não enfrentássemos tantos problemas de participação e criação culturais, como vimos acontecendo na atualidade.
Uma criança que não brinca não se transforma em adulto criativo e sabendo lidar com os componentes do jogo/brinquedo que colocamos anteriormente.
Os bebês de plástico-borracha maleável não são novidades e existem há muito tempo. Quando surgiram causaram sensação, mas nada comparado às enxurradas de “lovers” e de “haters”, que se manifestam nas redes sociais a cada notícia divulgada sobre a paixão que despertam hoje. Foram criados inicialmente após a segunda guerra mundial, época de escassez e desesperança, tendo como finalidade reinventar brinquedos que trariam esperança especialmente para crianças. Depois passaram a ser usados como compensação de luto, com a perda de bebês. Nos anos 1990 começaram a ser tratados como hobbies, iniciando-se a confusão com bebês reais, como vem se tornando cada vez mais grave hoje.
Essa “patologia” pode também advir da necessidade de esperança que estamos vivendo no nosso cotidiano, ou de compensação da falta do componente lúdico da cultura, especialmente para adultos, mas também para crianças, como destacamos.
Talvez, se brincássemos mais os “bebês reborn” seriam o que eles são: simplesmente brinquedos, em toda a sua riqueza e seu mar de possibilidades.