Integra

Bom jogo! Esse é o cumprimento que mais se ouve quando duas pessoas se despedem em dias de jogos da seleção brasileira de futebol. Já passou a ser tradição, como os votos de feliz natal, ou ano novo. E a partir daí começa a correria para chegar em casa, reunir os amigos, torcer muito e extravasar na alegria, o sentimento de participação popular reprimido, quando as vitórias acontecem. Aperitivos, fogos, decoração especial da rua, dos bares, das casas, e muito barulho.    

E aí tome “buzinaço”, bandeiras ao vento, e novos cumprimentos de identidade, quando se vê alguém com bandeiras, roupas ou qualquer geringonça em verde amarelo. O país pára, e depois explode, como se alguém soltasse as comportas de um dique gigantesco que barrava a participação. Com as comportas da alegria abertas, a falsa idéia de participação transforma-se em excessos.

O “país” consegue se transformar em “nação”, apenas quando alguns interesses de contratos de atuação e publicidade, transformados em equipe de futebol, estão prestes a entrar em campo, e principalmente se dele saem com uma vitória, absorvida como triunfo pessoal e social, para muitos milhões, que vivem a confusão entre consumo e cidadania.

“ParáBOLA do homem comum, roçando o céu”, segundo os versos do Chico Buarque. Esse é o futebol na terra dele e do carnaval. Estampa em seu interior as desigualdades da sociedade como um todo. Altos salários e contratos milionários para os “craques”, com contratos milionários, em contraste são os pagamentos irrisórios, quando existem, para a base.  Interesses corporativos imperam nos acordos de marcas e nas negociações para transmissão de rádio e principalmente da Televisão e mais recentemente de outras mídias.

Apesar de já termos sediado vários eventos internacionais de outros esportes, a quase monocultura do futebol ainda impera, e é soberana em épocas da Copa do mundo.

“Para delírio das gerais, no coliseu, mas que rei sou eu? Continua o Chico. Sabemos que existem fatores condicionantes intra e interclasses sociais. E em termos de lazer, o que mais importa não é a prática, ou o assistir, ou até mesmo a informação, que sobrepuja os dois gêneros anteriores, através da chamada “falação esportiva”. O que se questiona é o como esses gêneros são vivenciados: o nível, como o praticar, o assistir e o conhecer é desenvolvido, quase sempre de forma elementar, conformista, e, em muito menor escala, de forma crítica e criativa. E assim, o lazer se transforma no “anti-lazer”, ou o “lazer mercadoria”, simples atividades a serem consumidas, dando a sensação de participação.

Cabe às políticas setoriais na área, em conjunto com as de outras áreas, desenvolvidas tanto pelo setor público, quanto pela iniciativa privada contribuírem para minorar os dados de situação verificados, possibilitando uma menor defasagem entre o gosto e a prática, e a elevação de níveis de conformistas para críticos e criativos, na consideração do esporte como espetáculo, e na valorização da “cultura esportiva”, que possa ser apreciada pelos seus fundamentos, pela sua beleza, e por uma participação efetiva, reflexo de um processo de participação mais amplo, no exercício da cidadania.

Mas, não dá para não desejar. Bom jogo!
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Publicado originalmente em:

EXPRESSINHO-Pró-reitoria de extensão e assuntos comunitários-UNICAMP

N.16.Ano IV.20/07 a 05/08/1998-p.8.