Boxe - Papagaios

Por: José Ribamar Martins.

Atlas do Esporte do Maranhão.

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BOXE - PAPAGAIOS

José Ribamar Martins

A propósito de lazer, na época de fortes ventos de agosto a setembro os grandes empinadores de papagaio da cidade se reuniam nas tardes de domingo para sensacionais lanceadas. Muito tempo antes, porém, a brincadeira limitava-se apenas aos moradores dos  bairros da periferia, como Madre Deus, Codozinho e outros mais.

Descoberta depois [década de 1940] por representantes da classe média adquiriu estatus de esporte nobre. Primeiramente nas imediações do Largo de Santiago, reduto de grandes fabricantes de papagaio (Zezé Caveira, Aristides Barbosa), bodes (Alfredinho Guanaré) e jamantas (Zeca Barbosa). Para maior comodidade no empinar, chegaram até a construir armações de madeira ou até de alvenaria nos quintais. Assim o fizeram Zeca Barbosa e Zezé Caveira. Além destes citados, muitos outros praticavam a brincadeira, como dr. Carneiro Belfort, Arlindo Silva, Cel. Belchior, Itanite, Cabeludo, Tonzinho (filho de Zezé), Zé Santos (cunhado de Joãozinho Trinta), Edson Bastos, Luís Santos, João Pé de Bola (filho de J. Araújo, conceituado comerciante do bairro), o quitandeiro Guilherme, Arlindo Menezes, Wilson Portelada e seu irmão Betinho, Jorge Meireles e seus irmãos Orlando e Clóvis Meireles, Fausto, Allan Maranhão, Joseli, Armandinho Correia Lima, Bibi Fala Inglês m(que por causa do defeito de dicção ganhou o apelido), Tripinha, Miro Fedor e outros.

Mais tarde, com a total ocupação do Largo de Santiago por um conjunto residencial, o palco de apresentações foi transferido para a Praça do Quartel (Praça Deodoro) e Campo d´Ourique. Usavam o cerol como arma para cortar a linha dos inimigos. A meninada vadia, de bode (neste caso o bode era um pedaço de linha resistente com uma pedra ou pedaço de pau amarrado em uma das extremidades) em punho, acompanhava atentos os papagaios esticados. A princípio aquele ingrediente cortante era preparado coma porcelana – principalmente de isoladores elétricos - ou vidro de lâmpadas fluorescentes queimadas, trituradas em almofarizes de cobre ou de ferro, peneirado o mais fino possível, e que mistura com o grude era espalhado na linha. Posteriormente ficou evidenciado que os bondes substituíam com enorme vantagem os almofarizes. Os motorneiros não aprovavam muito esse procedimento, mas colaboravam. O processo de colar o cerol na linha era simples: ela era esticada ao ar livre e o produto aplicado apenas nas primeiras braças. Rapidamente ficava m secas e o papagaio estava em condições de ser empinado. A partir daquele ponto já encerado, o empinador continuava o trabalho aos poucos, à medida que o brinquedo ia se distanciando, levado pelo vento, deixando a linha correr por entre sua mão bem fechada cheia da mistura.

Atualmente muito difundido, o cerol era praticamente desconhecido em quase todo o país até pouco tempo. Em alguns estados era comum utilizarem-se lâminas de barbear amarradas na linha e no rabo – este confeccionado com pequenas tiras de tecido – com a mesma finalidade. Talvez por desconhecimento da correta técnica de utilização, o cerol tem provocado acidentes graves em muitas cidades.

Para a preparação do cerol, era fundamental a utilização do grude. Este era uma mistura muito simples, preparada com a tapioca de goma e água levadas ao fogo. Deixava-se ferver, sempre mexendo, para não embolar, até ao ponto em que a viscosidade ideal era comprovada. O pó de vidro era misturado depois, já com o grude resfriado. Esse produto era muito utilizado por sapateiros, que costumavam acrescentar à sua composição umas gotas de suco de limão. Com isso e convenientemente depositado em cumbucas de  sapucaia, tinham vida útil prolongada.

Os nossos papagaios são geralmente muito bem feitos e, quando fabricados por especialistas do naipe de Zezé Caveira – o mestre maior, como considerado pela maioria dos entendedores – eram verdadeiras obras de arte. Têm o rabo confeccionado artisticamente com bolas de algodão  amarradas em rápidas laçadas a um pedaço de linha, que vão se tornando mais finas à medida que se aproxima da ponta. Um fato curioso sobre a importância que o assunto despertava nos aficionados do esporte: o Zezé fez com muito carinho um papagaio com a figura de caveira estampada no papel. Em uma lanceada, Zeca Barbosa “matou e cortou” a peça, para tristeza do perdedor, que ofereceu uma recompensa em dinheiro a quem conseguisse reavê-lo. Faísca, que era neto do vencedor, quando soube do prêmio não pensou duas vezes: surrupiou o troféu e o devolveu ao primitivo dono, que muito feliz o dependurou na parede da sala, de onde nunca mais saiu.

Interessante notar que, mesmo sem qualquer calendário estabelecido, as brincadeiras aconteciam em épocas certas do ano. O papagaio ainda tinha como justificativa a temporada dos grandes ventos, mas e as outras? Como explicar o tempo do “chucho”, da peteca? Certamrente muitos não sabem mais que nossa peteca nada  tinha a ver com a peteca almofadada e empenada, jogada com as palmas da mão e que freqüentam as quadra s esportivas dos clubes sociais; que a nossa peteca nada mais é que a nacionalmente conhecida bolinha de gude, ou de vidro.”

In SÃO LUIS ERA ASSIM (minha terra tem palmeiras, já nem tantos sabiás) RELEMBRANDO LANCHAS E O MEARIM. Brasília, Equipe, 2007 (Capitulo XVI, p. 71-73).

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