Integra

Não recordo a data, tamanha foi a intensidade do abalo sísmico ocorrido no território da afeição. Mas aconteceu no final de setembro de 1985, na tarde de um radioso domingo. A curiosidade, deveras imensa e interrogativa, aumentou quando, devido à informação da tripulação, olhei para baixo e lobriguei a ilha de Fernando Noronha. Pareceu-me bela, vista lá de cima; e senti falar alto dentro de mim o apelo e a atração que me convidavam para os braços da terra de Santa Cruz. A voz tornou-se mais audível e impulsiva, como se fosse o tropel de uma amorosa cavalgada, após o avião da TAP ter poisado suavemente no aeroporto dos Guararapes. Muitos passageiros saíram. Dado o facto de prosseguir para o Rio de Janeiro, fui à porta da aeronave aspirar a aragem quente que me adentrou e insuflou a alma.
A emoção continua hoje perfeitamente viva. Lembro-me bem e pressinto renovadas a força e a magia inebriantes do primeiro contacto. A atmosfera, não obstante a perceção nítida das diferenças nos tons, cheiros e contornos, era-me afim e familiar. Já sabia sem saber, já ali tinha estado sem estar, já conhecia sem conhecer. Naquele fascínio nada era estranho, embora os olhos se esbugalhassem extasiados pela antevisão do que havia e não via, porém adivinhava e ansiava tão ardentemente ver e vivenciar.
Aquela primeira vez persiste imorredoira como marca indelével do magma telúrico que alimenta o coração e o ânimo. Quando o avião retomou o curso e sobrevoou a Piedade e Jaboatão, o mar era de incontida paixão e infinda saudade. Estas nunca mais deixaram de me acompanhar e transformam-se em alegria e felicidade, em riso e canto sempre que a condição de professor me proporciona a dádiva e graça do doce reencontro com as pessoas e locais que a generosidade da vida, desde o inaugural e fulgurante momento, pôs no meu caminho.
Chovia na chegada ao Rio, cumprindo-se assim o preceito de que boda molhada traz ventura e fortuna abençoada. O périplo continuou por Camboriú, São Paulo e Manaus; e no retorno à capital de Pernambuco visitei rapidamente João Pessoa. Horas antes do regresso ao Porto, fiz um juramento de fidelidade na capela da Senhora da Boa Viagem: jamais sairei deste país que tomou posse de mim. Porém só voltei dois anos depois; ao desembarcar em Salvador chorei copiosamente.  
Afinal, o Brasil tornou-se campo da bem-aventurança, onde ganho asas e consigo voar acima das insuficiências e fragilidades, na procura de sonhos por realizar, os assaz belos e exaltantes. Tornou-se concomitantemente Olimpo do meu enlevo e deslumbramento, da minha admiração e exaltação, inspiração e multiplicação, superação e realização; é por isso parte inteira da ditosa pátria amada.
O Recife e as outras cidades constituem ágoras e acrópoles da minha identidade. Nelas a intimidade, habitualmente contida e calada, transfigura-se, sobe aos campanários da fraternidade, mostra-se desinibida, pública, baldia e festiva, sente-se confiante, segura e amparada pelos abraços de amigos cúmplices e incondicionais.
A torrente das emoções é particularmente arrasadora e sublimadora toda a vez em que me é franqueada a entrada na Universidade. É como se pisasse um agro divino, trazendo de volta o contraponto da infância em que osculava o cibo de pão que escorregava dos dedos magros e distraídos e caía na sujidade do chão. Nessas ocasiões torno-me ator da encenação e compreensão do mistério da humanização, mediante a transcendência do profano pelo sagrado. O Ego incha de orgulho, pronto a rebentar como o balão vaidoso que não cabe mais no seu desmedido tamanho. As lágrimas afloram no rosto, a palavra fica embargada na alfândega da expressão e o corpo é abalado pelo frémito da comoção.
Ocorre-me então que a existência precede a essência; que esta, se realmente existe, é determinada pelos modos de ser e estar, de assumir e aproveitar os ventos do fado e destino, pela maneira de lavrar e merecer a ajuda e a sorte da bonança e temperança, de mirar as estrelas do céu, de cumprir os desafios e obrigações da nossa errância. Creio que é deste jeito a viagem de busca da boa nova de porto seguro: somos o que tentamos fazer de nós e adquirimos com o suor, a ousadia, a coragem e a elevação dos atos, a grandeza dos ideais, dos princípios e valores. Enfim, na peregrinação pelo Brasil aprendi a enxergar melhor ao perto e ao longe, a compreender no próprio o diferente, a perceber o entrelaçamento da superfície e profundidade, da ciência e sensibilidade, da beleza e utilidade, da aparência e substância, da proximidade e distância, do coração e da razão, da memória e da linguagem da gratidão. Continuarei a navegar com essas velas pintadas, içadas no mastro da embarcação.

07.09.2026
Jorge Bento