Integra

“A ginástica inaugura a metafísica” – assinala Michel Serres, o filósofo dos cinco sentidos. Ela projeta a fisicalidade do corpo para além de si, mediante a conjugação de dimensões motoras, anímicas, espirituais e estéticas expressas no rigor apolíneo dos exercícios e na plasticidade das coreografias. Assume, pois, o estatuto de uma arte performativa, de uma biomecânica do intelecto, do belo e do sensível, de uma disciplina sublimadora da gravidade em leveza, elevadoras do praticante ao plano da excelsitude e harmonia dos movimentos, tal como o balé e a dança, de resto inerentes às composições gímnicas.
Durante muitos anos, a ginástica floresceu no leste europeu. Foi desse espaço que partiu para o Brasil; lá chegada, deixou para trás algo enrijecido e incorporou, pouco a pouco, no lastro tradicional a gestualidade, a sensualidade, a novidade e policromia canarinhas. A obra realizada nos anos transatos é notável e traduz o labor, a dedicação, o entusiasmo, o esforço, a paixão, a inventividade e a imaginação de instituições e pessoas (desportivas e universitárias) credoras de alto apreço. Alguns dos ilustres visionários e protagonistas desempenham hoje funções em organismos internacionais e influenciam a evolução da modalidade. Enfim, a ginástica brasileira descobriu-se e fez-se cooptando a miscigenação e a ginga, o jeitinho, a sensibilidade e a versatilidade da linguagem, da música, da poesia, do samba, da capoeira e da maneira de encarar a vida. Surgiu assim uma frondosa Escola com identidade própria que, cada vez mais, se afirma e encanta o mundo.

Jorge Bento
14.07.2026

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