Cafeína emagrece? Efeitos na perda de peso e composição corporal com base em evidências científicas
Resumo
A cafeína é frequentemente associada à perda de peso, mas será que as evidências científicas confirmam essa crença? Esta revisão crítica analisa uma meta-análise que investigou os efeitos da cafeína no peso, IMC e gordura corporal, com base em ensaios clínicos randomizados. Os resultados sugerem um efeito modesto da cafeína no emagrecimento, que podem ser transformados em práticas e diretrizes.
Integra
Entenda o essencial
- O objetivo principal do estudo foi quantificar o impacto da cafeína na redução do peso corporal, Índice de Massa Corporal (IMC) e massa gorda, a partir de uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados (RCTs).
- Os resultados indicaram uma associação estatisticamente significativa entre o consumo de cafeína e a redução modesta do peso, IMC e gordura corporal.
- Uma análise de dose-resposta sugeriu que duplicar a ingestão de cafeína poderia potencializar ligeiramente esses efeitos (aproximadamente 22% mais redução de peso, 17% de IMC e 28% de gordura corporal).
- Apesar dos resultados positivos, o estudo encontrou alta heterogeneidade entre os ensaios incluídos. A magnitude do efeito pode ter relevância clínica limitada, levantando questões sobre se a cafeína emagrece de forma substancial, na prática.
Introdução
No cotidiano de academias e consultorias de treinamento, a busca por estratégias que otimizem a perda de peso é uma constante. Entre os suplementos e alimentos funcionais, a cafeína ocupa um lugar de destaque, presente no café nosso de cada dia, em chás, refrigerantes e inúmeros suplementos termogênicos. A crença popular e o marketing frequentemente associam a cafeína no emagrecimento, com a promessa de acelerar o metabolismo e a queima de gordura.
Mas qual é a base científica para essa afirmação? Compreender as evidências reais por trás desses efeitos é fundamental para que profissionais de Educação Física possam orientar seus clientes de forma segura e eficaz, separando fatos de exageros.
Nesse sentido, o estudo de Tabrizi e colaboradores (2019) consistiu numa revisão sistemática com meta-análise de ensaios clínicos randomizados (RCTs), buscando sintetizar o efeito da ingestão de cafeína sobre a perda de peso. Analisando 13 RCTs com 606 participantes, os pesquisadores avaliaram as mudanças no peso corporal, IMC e massa gorda em grupos que consumiram cafeína (isolada ou em bebidas), comparados a grupos controle (placebo).
Os resultados agregados mostraram uma associação estatisticamente significativa entre a ingestão de cafeína e reduções modestas nesses três parâmetros. A análise de dose-resposta indicou que um aumento na dose de cafeína se correlacionou com uma maior redução.
Entretanto, os autores alertem para a alta heterogeneidade entre os estudos e a possível limitada relevância clínica da magnitude do efeito observado.
Como foi feito o estudo
Os pesquisadores conduziram uma busca sistemática em quatro bases de dados principais (MEDLINE, EMBASE, Web of Science, Cochrane Central Register of Controlled Trials) até novembro de 2017. Foram incluídos apenas ensaios clínicos randomizados (RCTs) em humanos que compararam um grupo consumindo cafeína (ou café cafeinado) com um grupo controle (placebo), e que reportaram mudanças médias (ou dados suficientes para cálculo) no peso corporal, IMC e/ou massa gorda, com seus respectivos desvios padrão ou erros padrão.
Dois revisores independentes selecionaram os estudos, extraíram os dados e avaliaram a qualidade metodológica usando a ferramenta de risco de viés da Colaboração Cochrane. A análise estatística utilizou um modelo de meta-análise de efeitos aleatórios para estimar o coeficiente de regressão (Beta) global do efeito da cafeína (em escala logarítmica). A heterogeneidade foi avaliada pelos testes Q de Cochran e I², e análises de subgrupo e meta-regressão foram realizadas para explorar fontes de heterogeneidade. O teste de Egger foi usado para avaliar viés de publicação. Uma análise de dose-resposta também foi conduzida.
E o que o estudo diz?
A meta-análise concluiu que a ingestão de cafeína está associada a uma redução estatisticamente significativa no peso corporal, IMC e massa gorda.
A análise de dose-resposta foi particularmente interessante: para cada duplicação da dose de cafeína ingerida, o estudo estimou um aumento na redução média de peso em 22%, de IMC em 17% e de massa gorda em 28%.
Contudo, é preciso interpretar esses resultados com cautela. Primeiro, a heterogeneidade entre os estudos foi muito alta, o que significa que os resultados variaram consideravelmente entre os diferentes ensaios incluídos. As análises de subgrupo (por dose, duração, geografia, etc.) não conseguiram explicar totalmente essa variação.
Segundo, foi detectado um possível viés de publicação para o desfecho de massa gorda, sugerindo que estudos com resultados negativos ou nulos podem não ter sido publicados, inflando o efeito observado.
Terceiro, e talvez o mais importante para a prática, a magnitude do efeito, embora estatisticamente significativa, pode ser clinicamente modesta. Os próprios autores mencionam que a perda de peso média observada pode não atingir os critérios clínicos para considerar um agente anti-obesidade eficaz (ex: perda de 2kg em 4 semanas).
Portanto, embora os dados sugiram que a cafeína emagrece em algum grau estatístico, seu impacto prático como ferramenta principal de emagrecimento é questionável.
Relação com outros estudos
Os achados desta meta-análise alinham-se parcialmente com a literatura existente. A cafeína é conhecida por seus efeitos termogênicos e por aumentar o gasto energético, mecanismos propostos para sua ação na perda de peso, como discutido pelos autores.
O estudo também referencia uma meta-análise anterior (Phung et al., 2010) que encontrou efeitos positivos na redução de peso e circunferência da cintura com a combinação de catequinas do chá verde e cafeína. No entanto, o artigo original de Tabrizi et al. também reconhece a controvérsia existente, mencionando estudos que não encontraram benefícios significativos da cafeína na manutenção do peso após a perda.
A alta heterogeneidade encontrada reforça essa complexidade, indicando que o efeito da cafeína pode depender de múltiplos fatores não totalmente elucidados (como genética, dieta associada, tipo de exercício, etc.).
Diretrizes profissionais
Para profissionais de Educação Física e da Nutrição Esportiva, a interpretação crítica deste estudo leva às seguintes diretrizes:
- Moderação de expectativas: a cafeína não deve ser apresentada como uma solução mágica ou primária para o emagrecimento. Seus efeitos, embora estatisticamente presentes, parecem ser modestos e variáveis.
- Foco nos pilares: o profissional deve reforçar que a base para o controle de peso e a melhoria da composição corporal continua sendo a combinação de um plano alimentar adequado e a prática regular e bem orientada de exercícios físicos. A cafeína, se utilizada, é um coadjuvante secundário.
- Individualidade: dada a alta heterogeneidade, a resposta à cafeína pode variar significativamente entre indivíduos. O profissional deve estar atento a relatos de efeitos colaterais (ansiedade, insônia, taquicardia), ajustando as recomendações caso a caso.
- Evitar a compensação: o profissional deve alertar os clientes para não utilizarem a cafeína como justificativa para relaxar na dieta ou no programa de exercícios.
- Fontes de cafeína: o estudo incluiu cafeína pura e café. Os efeitos podem diferir ligeiramente dependendo da fonte e de outros compostos bioativos presentes, como por exemplo as catequinas do chá verde.
Considerações
Abordar o tema da cafeína no emagrecimento reflete a busca constante por otimizadores de desempenho e resultados estéticos por parte dos praticantes. A meta-análise aqui analisada indicou um potencial efeito positivo, porém modesto e inconsistente, da cafeína.
Para o profissional, a mensagem principal é a necessidade de manter uma postura crítica e baseada em evidências, priorizando as intervenções comprovadamente eficazes (dieta e exercício) e utilizando informações sobre suplementos como a cafeína de forma complementar, sempre considerando a individualidade e a segurança do cliente.
No universo da pesquisa
Apesar da relevância desta meta-análise, algumas lacunas e limitações abrem caminhos para futuras pesquisas:
- Investigar a heterogeneidade: estudos futuros poderiam focar em subgrupos mais específicos (ex: diferentes etnias, níveis de atividade física iniciais, polimorfismos genéticos relacionados ao metabolismo da cafeína) para entender melhor a variabilidade nas respostas.
- Interação com exercício e dieta: são necessários mais RCTs que avaliem diretamente a interação entre cafeína, diferentes tipos de programas de exercício (aeróbio vs. força, por exemplo) e composições dietéticas específicas no contexto da perda de peso e composição corporal.
- Estudos de longo prazo: a maioria dos estudos incluídos teve duração relativamente curta (mediana de 12 semanas). Estudos mais longos são necessários para avaliar a sustentabilidade dos efeitos e a segurança do uso crônico de cafeína para controle de peso.
- Fontes de cafeína: comparar diretamente os efeitos de diferentes fontes de cafeína (café, chá, suplementos puros, guaraná).
- Mecanismos detalhados: pesquisas adicionais sobre os mecanismos fisiológicos subjacentes, incluindo efeitos na saciedade, no gasto energético em repouso e durante o exercício, e na oxidação de gorduras em diferentes populações.
Referência bibliográfica
TABRIZI, R.; SANEEI, P.; LANKARANI, K. B.; AKBARI, M.; KOLAHDOOZ, F.; ESMAILLZADEH, A.; NADI-RAVANDI, S.; MAZOOCHI, M.; ASEMI, Z. The effects of caffeine intake on weight loss: a systematic review and dos-response meta-analysis of randomized controlled trials. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 59, n. 16, p. 2688-2696, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1080/10408398.2018.1507996