Cenário de Bases Geográficas do Esporte e Atividades Físicas no Maranhão

Por: e .

Atlas do Esporte do Maranhão.

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Cenário de bases geográficas do esporte e atividades físicas no Maranhão

Gilmar Mascarenhas

LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

Dentro desses Cenários, propostos por Gilmar Mascarenhas á página 21.30 in DaCOSTA, Lamartinbe (ORG.). A T L A S D O E S P O R T E N O  B R A S I L . RIO DE JANEIRO: CONFEF, 2006, no Maranhão aparecem em:

Definições A definição das bases geográficas do esporte e atividades físicas consiste essencialmente no estudo de suas dimensões espaciais quer de competição, lazer ou saúde, que requerem localização apropriada de acordo com tradições, necessidades, princípios e aspirações de cada tipo de prática, como também o exame dos condicionantes físicos e humanos que regem a distribuição das práticas sociais e sua interação com o meio (ver capítulo “Geografia do Esporte” neste Atlas). Assim sendo, este Cenário está proposto para examinar os dados em exposição neste Atlas segundo um quadro básico de análise geográfica. Esta disposição preliminar consiste na análise resumida dos capítulos anteriores desta obra, seguindo os seguintes tópicos: (1) Quadro natural e ecologismo; (2) Ocupação do Território e dinâmica espacial; (3) Aspectos demográficos; e (4) Urbanização e Infra-estrutura. Esta apreciação, em síntese, está elaborada por tendências gerais na perspectiva de futuros planejamentos urbano e regional com zoneamento esportivo, definindo áreas com suas potencialidades e carências específicas.

1 – Quadro natural e ecologismo

1.1- o Brasil conta com o fator tropicalidade a favorecer amplamente as práticas ao ar livre, prevalecendo amenidades climáticas o ano inteiro. Considerando-se que poucas modalidades esportivas dependem de situações indoor no país, o Brasil se apresenta como país de vasto potencial esportivo, apenas explorado em larga escala como recreação. Campos de futebol se disseminam por todo o espaço habitado, mesmo nas mais remotas localidades, e é elevado o uso de bicicletas no país. A tropicalidade favorece mesmo a natação, modalidade e prática recreativa na qual o Brasil se destaca mundialmente em performance e amplitude de praticantes.

1.2 – O vasto litoral (8.500 quilômetros – no Maranhão, são 640 quilômetros, contando linearmente as “entrâncias”, que se ‘esticadas’, estendem-se por mais de 1.100 quilômetros), conjugado à tropicalidade, permite o pleno desenvolvimento dos esportes náuticos a motor, vela, de praia, mare ar em toda a sua extensão. Destaca-se como exemplo o vôlei de praia, o surf e o beach soccer; tem projeção em bodyboard e jet ski; e modalidades muito recentes como outrigger (canoagem oceânica) se encontram em plena expansão. Já no capítulo “Esporte de praia” descreve-se a existência de uma “cultura de praia” no Brasil, que se expressa basicamente por meio de esportes e atividades físicas recreativas em suas essências.

1.3 – A diversidade de meios morfo-climático-botânicos, associada à baixa densidade demográfica, oferece uma variedade de recursos naturais e paisagísticos, com várias opções/vocações de uso em modalidades radicais e de aventura, como o off-road (o Rally Internacional dos Sertões e nossos pilotos têm projeção internacional), o trekking e práticas afins (desfrutando do relevo suavemente ondulado e da vastidão de espaços verdes), o rapel etc., todos em plena expansão de participantes e com boas perspectivas mercadológicas.

1.4 – O grande volume de águas fluviais, associado ao relevo, propicia a larga existência de corredeiras, ideal para esportes de aventura conjugados ao turismo ecológico, como rafting, bóia cross e acquaride (criado no Brasil), todos com grande expansão recente. Notar que o mapa de opções de turismo esportivo situa-se entre os de maior cobertura territorial entre todos os mapas apresentados neste Atlas. Já os rios apreciados isoladamente favorecem a pesca artesanal – que se confunde com a esportiva no Brasil – propiciando a existência de 25 milhões de pescadores ocasionais no Brasil. Além deste uso esportivo-utilitário, em alguns rios de grande porte do Pará e do Maranhão, deu-se início à prática do “surfe da pororoca” como inovação local e produto da variedade fluvial brasileira.

1.5 – O ecologismo, em âmbito mundial, apresenta grande crescimento nas últimas décadas, e vem suscitando a adesão maciça aos esportes de aventura, em busca do contato direto com a natureza em estado preservado. Todavia, considerando-se no Brasil a vulnerabilidade do meio ambiente, o insatisfatório grau de consciência ecológica e, sobretudo a “incerteza territorial” destas novas práticas a dificultar sobejamente seu monitoramento, sua expansão coloca em risco a natureza, não obstante os esforços recentes das organizações em evitá-lo. Esta feição negativa de certos esportes ganha importância no Brasil pela adesão manifesta aos rallies automobilísticos (ver Capítulos “Automobilismo”.

e “Off road” neste Atlas) conhecidos como anti-ecológicos, mas com compensações relacionadas aos esportes “amigos da natureza” como a vela e os radicais que não usam impulsão a motor (ver Da Costa, Environment and Sport, University of Porto-IOC, 1997).

2 – Ocupação do Território e Dinâmica Espacial

2.1 – O processo de colonização, face à imensidão do território, a precariedade de recursos e a natureza agro-exportadora da empresa colonial, imprimiu ao Brasil um caráter de elevada maritimidade, sendo os portos as principais cidades do país. Por eles penetravam as ordens e modismos metropolitanos, dentre eles as inovações esportivas, no final do século XIX. Os clusters de Belém, São Luís, Rio Grande-Pelotas, Rio de Janeiro, Niterói e Santos, atestam a importância dos portos no processo de adoção da prática esportiva, como se pode verificar nos capítulos correspondentes a estes pólos de desenvolvimento esportivo (ver seção “Clusters esportivos”).

2.2 – A precariedade da rede de comunicações no interior do vasto território, conformando ao longo de séculos de colonização a tradicional “economia de arquipélago”, manteve grandes áreas sob isolamento e gerou assim um certo regionalismo no Brasil. Este quadro propiciou a formação de culturas regionais por vezes persistentes, com seu universo particular de práticas lúdicas: a vaquejada, que não se rendeu ao moderno rodeio em toda a metade norte do país (ver “Rodeio” neste Atlas); a herança da lida com cavalos na Campanha Gaúcha, que faz ainda hoje o RS o estado com maior número de hipódromos no Brasil, conforme descrito em “Turfe”, neste Atlas.

2.3 – As conexões internacionais do território brasileiro – sobretudo através do imperialismo inglês, que favoreceu o contato com diversas modalidades esportivas pioneiras e de grande apelo popular à época (turfe, remo, ciclismo e futebol) –, seja através de investimentos britânicos no Brasil (ferrovias, fábricas, minas, infra-estrutura urbana), ou pelos imigrantes alemães, italianos, japoneses etc. Também contribuiu o envio de jovens aristocráticos a estudar na Europa, portadores no retorno ao Brasil das últimas e bem-vindas “novidades da civilização” (ver “Cluster de São Luiz do Maranhão” no Atlas). Por fim, a presença de missionários religiosos, como maristas e jesuítas, cuja pedagogia incluía a prática esportiva, com atuação decisiva em pequenas localidades, não atingidas pela influência britânica. A 8ª seção, que trata de clubes esportivos neste Atlas levanta a memória da influência inglesa no esporte brasileiro, como também de diversos grupos de imigrantes. A presença religiosa tem registros de memória em “Religião e esporte”, capítulo deste Atlas.

2.4 – A política de integração do território nacional, apoiada pela burguesia industrial e efetivamente empreendida a partir do Estado Novo (1937-1945), permitiu a difusão por todo o território brasileiro de modalidades que se tornaram esportes nacionais, como o futebol, que antes havia encontrado resistências. A partir da década de 1930 com a difusão do rádio, e nas décadas seguintes (1960 e 1970) com a TV, os modernos meios de comunicação possibilitaram em âmbito nacional a adoção de diversas práticas esportivas (ver “Esporte e Mídia”), mesmo as de origem recente, como o bicicross, ou tradicionalmente reprimidas, como a capoeira.

3 – Aspectos demográficos

3.1 – A composição étnica da população brasileira revela uma experiência singular de miscigenação e aporte de contribuições culturais diversas. No plano lúdico e esportivo, esta característica se expressa na pluralidade de práticas, e explica, por exemplo, a área de incidência do bocha como jogo comunitário na vasta região que recebeu imigração italiana; o fato da região sul manter a maioria das associações esportivas (clubes) como herança da contribuição alemã, também responsável pelos clubes de tiro; a presença de jogos de origem indígena como a peteca, e tantos outros.

3.2 – A concentração demográfica persistente no Centro-Sul e litoral nordestino faz deste trecho o predominante em praticamente todos os mapas deste Atlas. Todavia, os movimentos populacionais se dirigem para o Norte e Centro-Oeste, sugerindo uma tendência, lenta e gradual, de expansão de práticas esportivas e de atividades físicas nesta direção (ver os Cenários da presente seção). O mesmo se aplica a cidades com grande crescimento demográfico atual, como Florianópolis (ver capítulo correspondente em “Clubes”), cuja participação no panorama esportivo nacional vem aumentando sensivelmente.

3.3 – A estrutura da população brasileira aponta uma transição veloz na pirâmide etária. O envelhecimento gradual sugere, para as próximas décadas, mudanças substanciais de atitude na sociedade. Atividades saudáveis como natação, corridas a pé e caminhadas provavelmente seguirão sua expansão. Modalidades importantes do esporte de alta competição, que dependem do vigor da mocidade, como o futebol e o atletismo, verão muito reduzida sua taxa de adesão e conseqüentemente sua base de recrutamento de novos talentos. Estas previsões têm tendências factuais como se pode examinar neste Atlas, no já citado “Cenário Geral de Esportes e Atividades Físicas de Saúde e de Lazer”.

4 – Urbanização e Infra-estrutura

4.1 – A plena urbanização é um fenômeno recente no Brasil, país de tradição agrária, em que até meados do século XIX os esportes tinham pouca penetração na sociedade. Sendo as cidades um ambiente de encontro social e difusão de inovações, o alto índice de urbanização favorece a adoção de novos esportes, contribuindo para a recente pluralidade de práticas, que tipifica hoje a população brasileira, como se identifica em “Cenário Geral de Esportes e Atividades Físicas de Saúde e de Lazer”. Com raras exceções, lazer e esportes modernos aportaram no Brasil pelas cidades, e se difundiram pela rede urbana (ver “Clusters”).

4.2 – A cidade, por seu amplo mercado consumidor, permite a concentração de infraestrutura e facilidades para a prática físicoesportiva (os equipamentos, instalações, escolas, academias, associações diversas, parques etc.) e a eventual formação de clusters, como em Rio Claro, Franca (capítulo “Basquetebol”), Juiz de Fora e muitos outros. Com a perspectiva de continuidade de crescimento urbano, e, sobretudo de ampliação de instalações esportivas, instituições de ensino etc., a tendência natural é a da continuidade na expansão da prática esportiva e físico-recreativa no Brasil.

4.3 – A natureza caótica da urbanização brasileira e os interesses imobiliários suscitam na classe média a auto-segregação, e com ela a expansão de práticas esportivas menos populares como o squash e o boliche, que se concentram justamente em São Paulo e interior paulista (áreas afluentes), enquanto o ciclismo tradicional apresenta retração, associável ao sentimento de agorafobia. Promove também o grande crescimento de modalidades de aventura realizadas fora da cidade indesejada, junto à natureza. A expansão do uso do automóvel vem reduzindo a disponibilidade de espaços francos, comprometendo práticas populares, como o tradicional futebol varzeano, enquanto o futsal se expandiu de modo incomum nas últimas décadas, no bojo do crescimento das atividades indoor (ver “Clubes do Brasil” e “Futsal”).

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