Integra

“Assim é a alegria ... Não cai do céu, nem salta do mar, nem nos bate à porta de repente, como a visita de um anjo...
............
A alegria autêntica – e severa– vai consistir em nos dispormos, embarcados, ao serviço do ser. Este ofício é paixão e disciplina, perseverança e esperança, modéstia – e embriagada lucidez.”

A Construção da Alegria
Hélio Pellegrino

Cresci envolto em dizeres da sabedoria popular, ou em outras palavras, dos ditados. Um deles dizia “Quem canta seus males espanta”, e eu sempre gostei de cantar, tendo males para espantar ou não. Mas quando os tinha eles iam embora mesmo. Assim experimentava, no meu cotidiano, o dito popular.

Cantar sempre foi um prazer e minha memória era fantástica para letras de músicas, talvez por não conseguir assobiar as melodias. Até hoje essa é uma das minhas maiores frustações, mas em compensação, sei de cor incontáveis letras de músicas, poemas, trechos de peças etc.

Mais tarde, ainda criança, comecei a aprender instrumentos, primeiro sanfona e piano, e depois violão.

Aí as coisas ficaram mais difíceis com os exercícios constantes, e até certo ponto enfadonhos. Mas, conseguia tocando os instrumentos, os mesmos benefícios que o cantar me traziam.

Parece que agora a Ciência está mais propensa a acreditar no velho dito popular, mais especificamente na relação com o aprender e tocar instrumentos, quaisquer que sejam.

Diferentes estudos apontam que tocar instrumentos musicais ou cantar estimula o cérebro e o protegem quanto a futuros danos.  A explicação é complexa, e envolve os córtex motor e auditivo primário e secundário. E o mais importante, pelo menos para mim, é que o encéfalo, como centro do sistema nervoso, reconhece o prazer propiciado e libera sensações positivas no cérebro.

Confesso que não entendo muito bem essas coisas, ou melhor, não entendo quase nada mesmo. Mas o fato é que a ciência comprova os benefícios.

Parece que as consequências benéficas não escolhem a idade dos praticantes, e se a prática começar na infância, as pessoas podem ter uma proteção extra, mas atingem idosos preferencialmente, o meu caso. Um estudo da Universidade de Tohuhu, no Japão descobriu que as intervenções musicais podem melhorar as funções cognitivas em pacientes com comprometimento cognitivo leve e com demência.

Felizmente, ainda não cheguei lá, mas diariamente faço meus estudos musicais, por prevenção, mas sobretudo por prazer.

Sim, tocar instrumentos é muito bom, mas também constitui um desafio cognitivo, e por isso exige empenho, disciplina e dedicação.

A alegria não dispensa a severidade como diz Pelegrino na nossa epígrafe. Principalmente se ela for longa e autêntica.

Isso desmistifica a ideia de que a música supõe talento, uma inclinação natural para realizar atividades específicas, desde a teoria evolutiva de Darwin.

Mas o talento pode ser construído para quem não quer ser gênio em nada, incluindo a música, mas desfrutar apenas dos seus benefícios e do prazer envolvido

Nas minhas atividades docentes em disciplinas dos Estudos do Lazer, sempre me deparava com perguntas dos alunos que colocavam em campos antagônicos o comprometimento (obrigação) e o prazer, associando-o a atividade “desinteressada”.  Era difícil explicar que o “desinteresse” referia-se a recompensa financeira, ou de posição e “status”. Mas isso não significava que não envolvia dedicação, esforço e disciplina.

Para você praticar um esporte, tudo isso é preciso, ou para apreciar um bom livro, admirar uma bela obra das artes plásticas etc., demanda educação e disciplina, e é assim também e com a música.  Envolve persistência e ajuste de expectativas, principalmente na idade adulta.

Tanto esforço de prática, com escalas, arpejos, exercícios exaustivos, evolução de acordes simples para harmonias elaboradas, é culminado com a alegria de poder tocar um instrumento. Quem vê o dedilhar das notas no instrumento, e ouve os sons tão bonitos e harmoniosos, não consegue imaginar o esforço e o trabalho severo que isso requereu.

Mas depois de tudo pode respirar aliviado nos braços da música, e dizer como Caetano, nos versos de Tigresa:

“... E eu corri pro violão num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento”.