Resumo
Esta pesquisa analisa como a presença de crianças imigrantes tem repercutido nas produções acadêmico-científicas, nas práticas curriculares e pedagógicas de professores de Educação Física e nos processos de acolhimento e participação no cotidiano da Educação Infantil em Boa Vista/RR. A pesquisa adotou uma abordagem plurimetodológica, articulando a pesquisa bibliográfica e a pesquisa descritivo-interpretativa. No âmbito da produção acadêmica foi realizado um levantamento exploratório na área da Educação Física e uma revisão de literatura do tipo estado do conhecimento no campo da Educação, mobilizando diferentes bases de dados. Para a produção de dados empíricos, a pesquisa descritivo-interpretativa desenvolveu-se em duas etapas. A primeira consistiu na aplicação de um questionário on-line com 17 professores de Educação Física da rede municipal de Boa Vista/RR. A segunda etapa teve como eixo central a observação participante, envolvendo dois grupos formados a partir da etapa anterior: cinco professoras atuantes em diferentes instituições de Educação Infantil, cujas práticas pedagógicas foram observadas e que também participaram de entrevistas semiestruturadas; e crianças imigrantes e brasileiras, com idades entre quatro e cinco anos, integrantes das turmas em que essas professoras atuavam. O aporte teórico fundamenta-se na Sociologia da Infância (Sarmento, 2005; 2008; 2013; Corsaro, 2005; 2011), nos Estudos com o Cotidiano (Certeau, 1985; 1994; 2014; Ferraço, 2007; Alves, 2003) e nas discussões sobre currículo na perspectiva da interculturalidade (Candau, 2008; 2011; 2012; Walsh, 2011). Os resultados evidenciam desafios de natureza institucional, pedagógica e sociocultural, com destaque para a barreira linguística, os deslocamentos identitários vivenciados pelas crianças, os estranhamentos relacionados às práticas alimentares e culturais, as situações de vulnerabilidade social que atravessavam a vida das crianças e de suas famílias, bem como as dificuldades de aproximação e participação nas interações cotidianas. Evidenciam, ainda, lacunas no currículo prescrito, nas políticas públicas e na formação continuada docente. Ao mesmo tempo, o estudo destaca a atuação das crianças como mediadoras linguísticas nas relações inter e intrageracionais, assim como experiências interculturais promovidas pelas docentes, que favorecem a visibilização das culturas infantis imigrantes e ampliam as possibilidades de participação no cotidiano da Educação Infantil. Apesar das fragilidades identificadas, o cotidiano da Educação Física na Educação Infantil revela-se como um espaçotempo potente de produção e invenção, no qual crianças e docentes, reconhecidas como praticantes do cotidiano, mobilizam práticas inventivas e astuciosas que oferecem pistas para a formulação de políticas educacionais e de práticas curriculares mais comprometidas com as infâncias imigrantes.