Resumo

O presente texto apresenta um trabalho pedagógico pautado na perspectiva cultural de Educação Física (Neira; Nunes, 2009), sendo diretamente agenciado pelo princípio ético-político denominado justiça curricular (Neira, 2019).  Neira (2011) traz à tona que o/a docente dá indícios de estar influenciado pela justiça curricular quando, em sua prática pedagógica, organiza atividades dispostas a identificar e sinalizar as operações envolvidas nos processos de constituição de narrativas e discursos tomados como verdades universais e inquestionáveis acerca das práticas corporais e seus representantes. Foi exatamente essa conduta que atravessou a tematização dos Jogos Olímpicos com turmas da terceira série do Novo Ensino Médio de uma escola periférica da rede estadual paulista.  O trabalho foi iniciado por uma conversa com os/as estudantes acerca do percurso educacional trilhado, com uma educanda enunciando a Educação Física foi traumatizante em função das exigências postas – “Sou uma mulher gorda, tenho uma lesão no tornozelo por conta das aulas”. Essa fala motivou a elencar como objetivo das aulas a problematização do corpo atleta, bem como a construção de momentos de vivência que permitissem a participação de todos(as) conforme as singularidades apresentadas. Ainda no mapeamento, ao abordar o modo como os/as discentes significavam os sujeitos atletas, percebeu-se que uma parcela expressiva tinha a estética masculina, magra, forte, alta como padrão. Com a intenção de subverter tal percepção, buscou-se organizar situações que colocassem em evidência diferentes subjetividades. Convidou-se o grupo a apreciar e analisar imagens e vídeos das atuações de: Tuany Priscila, um corpo com deficiência-gordo-negro-feminino; Edinancy Silva, um corpo feminino-intersexual submetido a diversos constrangimentos ao ter de provar sua feminilidade; e Caster-Semenya, um corpo negro-feminino-sul-africano banido do esporte por conta dos níveis de testosterona que seu corpo produz naturalmente. Construiu-se uma vivência acompanhada por um afetuoso diálogo com atletas de rugby: Claudia Teles, jogadora olímpica da seleção brasileira; e João Lucas, jovem atleta de 16 anos, autodeclarado homem trans e bolsista do programa federal Bolsa Atleta. Em outra ocasião, o grupo foi agraciado com a oportunidade de contar com um representante do breaking dance, uma prática corporal historicamente perseguida e marginalizada, fazendo parte diretamente da história da região onde os/as estudantes residem, mas que hoje se apresenta num contexto elitizado. Lucky possibilitou a tessitura de um diálogo intenso sobre o corpo-negro-dançarino que passa por metamorfoses na prática da dança, flutuando entre a arte periférica e o esporte. As atividades de vivências das práticas corporais foram atravessadas por uma postura de acolhimento e valorização das múltiplas formas de se fazer, na qual os/as estudantes puderam atuar e contribuir da maneira que considerasse mais conveniente. Logo, incentivou-se a confecção de gestualidades que levassem em conta as experiências estudantis. Assim, fugimos de um viés associado à performance. Por ora, ao se permitir agenciar pela justiça curricular, a escrita-currículo em tela, sensibilizou-se com as diferenças e favoreceu a qualificação da leitura da ocorrência dos Jogos Olímpicos, ao dar visibilidade a existências outras de ser atleta, bem como demonstrar apreço aos saberes discentes no que tange às gestualidades e narrativas acerca da ocorrência das práticas corporais.

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