Corpo atleta e suas multiplicidades: agenciamentos da justiça curricular no novo ensino médio
Por Flávio Nunes dos Santos Junior (Autor), Bárbara Silva Ferreira (Autor), Marinete da Frota Figueredo (Autor).
Em XX Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa
Resumo
O presente texto apresenta um trabalho pedagógico pautado na perspectiva cultural de Educação Física (Neira; Nunes, 2009), sendo diretamente agenciado pelo princípio ético-político denominado justiça curricular (Neira, 2019). Neira (2011) traz à tona que o/a docente dá indícios de estar influenciado pela justiça curricular quando, em sua prática pedagógica, organiza atividades dispostas a identificar e sinalizar as operações envolvidas nos processos de constituição de narrativas e discursos tomados como verdades universais e inquestionáveis acerca das práticas corporais e seus representantes. Foi exatamente essa conduta que atravessou a tematização dos Jogos Olímpicos com turmas da terceira série do Novo Ensino Médio de uma escola periférica da rede estadual paulista. O trabalho foi iniciado por uma conversa com os/as estudantes acerca do percurso educacional trilhado, com uma educanda enunciando a Educação Física foi traumatizante em função das exigências postas – “Sou uma mulher gorda, tenho uma lesão no tornozelo por conta das aulas”. Essa fala motivou a elencar como objetivo das aulas a problematização do corpo atleta, bem como a construção de momentos de vivência que permitissem a participação de todos(as) conforme as singularidades apresentadas. Ainda no mapeamento, ao abordar o modo como os/as discentes significavam os sujeitos atletas, percebeu-se que uma parcela expressiva tinha a estética masculina, magra, forte, alta como padrão. Com a intenção de subverter tal percepção, buscou-se organizar situações que colocassem em evidência diferentes subjetividades. Convidou-se o grupo a apreciar e analisar imagens e vídeos das atuações de: Tuany Priscila, um corpo com deficiência-gordo-negro-feminino; Edinancy Silva, um corpo feminino-intersexual submetido a diversos constrangimentos ao ter de provar sua feminilidade; e Caster-Semenya, um corpo negro-feminino-sul-africano banido do esporte por conta dos níveis de testosterona que seu corpo produz naturalmente. Construiu-se uma vivência acompanhada por um afetuoso diálogo com atletas de rugby: Claudia Teles, jogadora olímpica da seleção brasileira; e João Lucas, jovem atleta de 16 anos, autodeclarado homem trans e bolsista do programa federal Bolsa Atleta. Em outra ocasião, o grupo foi agraciado com a oportunidade de contar com um representante do breaking dance, uma prática corporal historicamente perseguida e marginalizada, fazendo parte diretamente da história da região onde os/as estudantes residem, mas que hoje se apresenta num contexto elitizado. Lucky possibilitou a tessitura de um diálogo intenso sobre o corpo-negro-dançarino que passa por metamorfoses na prática da dança, flutuando entre a arte periférica e o esporte. As atividades de vivências das práticas corporais foram atravessadas por uma postura de acolhimento e valorização das múltiplas formas de se fazer, na qual os/as estudantes puderam atuar e contribuir da maneira que considerasse mais conveniente. Logo, incentivou-se a confecção de gestualidades que levassem em conta as experiências estudantis. Assim, fugimos de um viés associado à performance. Por ora, ao se permitir agenciar pela justiça curricular, a escrita-currículo em tela, sensibilizou-se com as diferenças e favoreceu a qualificação da leitura da ocorrência dos Jogos Olímpicos, ao dar visibilidade a existências outras de ser atleta, bem como demonstrar apreço aos saberes discentes no que tange às gestualidades e narrativas acerca da ocorrência das práticas corporais.